quarta-feira, 27 de maio de 2015

Obsessão pelo controlo

Ontem no Facebook relançada a discussão sobre a padronização inspirada num post antigo do Posse de Bola, aqui. O que penso sobre a padronização está bem descrito no post, mas gostaria de acrescentar algumas linhas.

Na minha opinião, a padronização surge pela necessidade dos treinadores (classe à qual pertenço) em ter o máximo controlo possível sobre os acontecimentos do jogo. Os treinadores são tão obcecados por controlar tudo que tentam inclusivamente retirar ao jogo à sua essência - o caos. O futebol é um jogo caótico. Caótico no sentido de ser impossível controlar os seus acontecimentos, por nunca se saber que reacção ocorre de cada acção que decorre. E por isso, todas as situações de jogo são diferentes. Entender isto, perceber isto, causa no treinador um sentimento de impotência enorme. O treinador julga-se sempre maior e mais importante do que aquilo que verdadeiramente é. E quando lhe surge alguma teoria que tem como conclusão que ele depende muito mais dos jogadores do que os jogadores dele, que os jogadores são os únicos a ter controlo do que ele não controla, sentem-se insignificantes, ofendidos, e recusam essa possibilidade por se acharem capazes de tudo. Mas não o são. Na verdade, treinadores, somos capazes de muito pouco por não sermos nós a jogar. A obsessão pelo controlo leva a que se tente fazer tudo para retirar a imprevisibilidade ao jogo. E leva a que se esqueça que, por mais previsíveis que se possam pintar, os quadros serão sempre diferentes. Esse esquecimento tem como consequência a entrada sem dificuldade no facilitismo do padrão, bem como a exoneração da dificuldade que é ensinar quem controla a perceber como pode ter sucesso em condições caóticas.

Utilizando uma frase do Bergkamp, simplificar é radicalmente diferente de descontextualizar. E padronizar é descontextualização absoluta, por se retirar o factor que mais influencia as relações que se criam no jogo - a aleatoriedade.

PS: Na foto José Mourinho, talvez por ser hoje no alto rendimento o treinador mais obcecado pelo controlo do jogo.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O melhor do mundo

sábado, 23 de maio de 2015

JJ - Jonas e Jesus

Aquele que para nós foi o maior protagonista do campeonato, sobre aquele que para nós foi o melhor treinador a treinar em Portugal nesta época.

"Aprendi muito com Jorge Jesus e hoje, admito, tenho uma visão muito diferente do futebol. Acho que todos os jogadores deviam de ter a oportunidade de trabalhar com um treinador assim" 

Não há, para mim, maior forma de reconhecimento da qualidade de um treinador do que esta. O jogador perceber que o treinador o influenciou a perceber um pouco mais o jogo, que o influenciou a enquadrar melhor o que já sabia dentro do contexto onde se inseria. O jogador perceber que é fundamental para os jogadores passarem por essa experiência rica, é o maior aval que se pode dar à competência de um treinador. Jorge Jesus continua a impressionar jogadores pelo conhecimento que lhes transmite.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Futebol na actualidade

"Actualmente o futebol é um jogo que não se baseia quase exclusivamente nos aspectos
físicos e técnicos, trata-se de um jogo muito rápido que requer maior inteligência, perspicácia,
reflexão, análise e rapidez de acção o que exige rápidas e acertadas decisões. Numa definição
desequilíbrios momentâneos, onde estes desequilíbrios são fruto da excelência emocional,
simples, podemos dizer que este jogo é uma sucessão no tempo e no espaço de equilíbrios e
alicerçada numa excelente tomada de decisão e numa forte capacidade de drible e velocidade."
Disse isto, o Mestre Yoda da formação de treinadores em Portugal. Toda uma metodologia baseada numa diversidade de estímulos que todos os dias faz mais e mais sentido. Um dia há de ter o reconhecimento que merece.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Bola rasteira a cruzar em diagonal a grande área para uma finalização fácil. SL Benfica campeão nas asas de Jesus.

Curiosamente até é no volume ofensivo que os números do SL Benfica deixam o FC Porto para trás. Teremos esta época em Portugal um campeão que não foi / será a defesa menos batida. Todavia não o foi por motivos importantes. 1) Envolve no seu processo ofensivo mais gente à frente da linha da bola. E portanto é possível crer-se que fazer muito mais golos acabou por custar ao SL Benfica sofrer mais dois que o seu adversário directo. 2) Qualidade individual extraordinária (sim, são ambos jogadores de Real Madrid. E tal já é afirmado neste espaço há pelo menos dois anos) dos dois laterais do FC Porto. Num campeonato onde a quase totalidade das equipas joga por fora, Lopetegui esteve sempre defensivamente protegido por um tampão individual muito grande. Sobre Jackson escasseiam elogios.

O golo que encerra as contas do campeonato fala por si próprio. Refuta elogios e criticas surgidas ao longo da época a uns e a outros.


Um ex campeão pelo FC Porto confessou em privado ter alguma curiosidade para perceber quantos campeonatos vencerá o FC Porto sem a sua presença contra o SL Benfica enquanto Jorge Jesus estiver no comando do Benfica. Para já, a contagem segue em 3 em 3. Para ser três vezes campeão nos seis de Jesus em Lisboa, o FC Porto teve de somar apenas uma derrota em três anos! E ainda assim, foi no limite!

É bom que o espanhol continue a ter capacidade de atracção de grandes mais valias, porque se individualmente a sua equipa não for três ou quatro vezes superior à do rival, Jorge Jesus continuará a ganhar.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Chocolate em versão muito bom

Mas ..

Qualquer semelhança entre isto e as rabias que se vê por ai.. É porque estão a ver mal.

Aqui ninguem está a entalar o colega, ninguem queima o do lado. Todos sabem que o chocolate é o mais divertido, que a maior "humilhação" é andar ali a "cheirar a menina" sem lhe conseguir tocar.


domingo, 17 de maio de 2015

5 milhões de visitas

O Lateral Esquerdo agradece à todos os  leitores que diariamente visitam a página, e que partilham os artigos do blogue sem qualquer incentivo nesse sentido. Tal não seria possível sem a grande contribuição de Jorge Jesus. Cinco milhões de visitantes é um número que foi permitido pela maior exposição mediática do ainda técnico do Benfica. Não confunda isto com a admiração pelo homem. É sim a admiração pelas ideias que se foram ajustando e melhorando ao longo do tempo, até chegar a este nível. Por isso, pela conquista do Bi-Campeonato, e por permitir a demonstração prática da forma como o futebol moderno pode ser jogado com qualidade todos os fins de semana em que há futebol, felicitamos Jesus. A demonstração prática entre o que se pode fazer para resolver os problemas do jogo e o que se faz normalmente só é possível por ele ter sido escolhido para treinar um grande em Portugal. 

Para o Lateral Esquerdo o destino de uma equipa que quer ter sucesso começa na escolha do treinador. E por isso para nós - treinadores - um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio que se verifica entre os campeonatos ganhos pelo Benfica e pelo Porto desde que assinou pelos encarnados é o seu treinador. Parabéns ao Benfica, parabéns aos seus jogadores, parabéns mister Jesus.

sábado, 16 de maio de 2015

Na rua os pais não dão instruções. Por que é que o fazem no treino e no jogo?

Tarde passada num torneio de Petizes do lado da bancada a ouvir os pais. E  aos já tradicionais chuta seja lá de que forma for, e marca o teu, os pais brindaram-me com uma novidade - Então eles ainda não sabem quem tem de lançar a bola?! Com miúdos de 6 anos os pais querem que a equipa esteja tão organizada que inclusivamente os marcadores de lançamentos de linha lateral estejam definidos. E são tão veementes a gritar para dentro de campo, dando instruções constantes aos miúdos do que fazer, do como fazer, do quando fazer, que é impossível a qualquer treinador pedir que não se oiça os pais ou que não faça nada do que eles pedem. Com este tipo de dificuldades, com este tipo de pensamento, não é de admirar que dos 25 jogadores que inicialmente compunham a equipa de Infantis7 que treinei apenas 3 soubessem executar correctamente um lançamento de linha lateral. Está tudo tão formatado, os jogadores das linhas é que lançam, os mais altos é que vão para a área nos cantos, os mais rápidos é que jogam na frente... Assim se percebe perfeitamente o porquê da esmagadora maioria dos formandos apresentar grandes lacunas em alguns dos aspectos mais relevantes para o jogo. Pobreza de estímulos no treino e em jogo. Reforço daquilo em que são mais fortes mas total esquecimento daquilo em que são mais débeis.

Deixem os miúdos aprender, passar pelo maior número de situações possível na baliza e fora dela. Deixem que melhorem no que têm dificuldade e percebam que isso vai levar a que errem muitas vezes. Deixe a organização e especialização para mais tarde porque depois, no último minuto de uma meia final da Liga dos Campeões, o seu filho poderá ser o Guarda Redes que executa mal um lançamento, entregando a bola ao adversário e esgotando os segundos preciosos que se precisam para se conseguir o resultado.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Equipa do Lateral Esquerdo para 2014/2015

Treinador - Jorge Jesus. Pega numa equipa em hecatombe e mesmo sem a qualidade individual do principal adversário a transforma mais uma vez num colectivo fortíssimo, candidato a todas as provas internas.

Treinador Adjunto - Paulo Fonseca. Deixa o Paços na Champions e quando sai e a luta é pela manutenção. Regressa e coloca-os novamente na luta por um lugar europeu. Não só pelos resultados, mas por mostrar mais uma vez que é possível jogar de acordo com as ideias em que ele acredita, mesmo num clube sem grandes recursos. Futebol muito positivo com e sem bola.

Treinador de Guarda Redes - Julen Lopetegui. Com a qualidade individual que tinha ao dispor deveria estar a comandar o campeonato, mas a missão era difícil. Muitos jogadores novos, país cuja realidade desconhecia, clube cuja cultura e exigência nunca tinha ouvido. Desconhecimento do contexto competitivo. Estar nessas condições e ainda assim a disputar o campeonato com Jesus deve ser reconhecido.

Sistema de jogo - 1x4x4x2 de Jorge Jesus

1 - Júlio César. Por permitir a segurança que o modelo de Jesus exige fora da baliza, e por dar a tranquilidade que os colegas da frente precisam entre os postes.

2 - Danilo. Talvez a sua melhor época em Portugal, em termos estatísticos. Participação fantástica em todos os momentos do jogo, quase sempre com grande qualidade. Do ponto de vista ofensivo, fundamental nos movimentos colectivos e no aproveitamento dos corredores laterais. Fantástico nas incursões por dentro. Pelas suas características físicas e técnicas percebe-se que está a mais no futebol português.

3 - Luisão. É o treinador dentro de campo. Entende como ninguém as ideias de jogo da equipa, e estimula os colegas ao cumprimento das mesmas com rigor. Não é normal um jogador com as dificuldades que ele tinha inicialmente evoluir de tal forma que hoje se torne uma referência absoluta e incontestável, em Portugal. Para além dos aspectos defensivos, melhorou também nos ofensivos.

4 - Marcano. Uma boa surpresa pelo que ofertou à equipa com bola. Num modelo de jogo que necessita de qualidade de passe desde os guarda redes, é o único com capacidade para executar o que lhe é pedido. Com bola, melhor que a esmagadora maioria da Liga. Defensivamente não tão bem quanto outros, mas para uma equipa que passa a esmagadora maioria dos jogos com bola é aceitável.

5 - Alex Sandro. Não só é o melhor da Liga como caminha para ser um dos melhores do mundo. Em qualidade, e em rendimento. Mais uma época tremenda, onde se nota qualidade em quase tudo o que faz. Individualmente forte em todos os aspectos. Colectivamente cumpridor do que o treinado pede. Muitos dos desequilíbrios que os extremos esquerdos do Porto foram conseguindo têm mérito das movimentações com e sem bola de Alex.

6 - William Carvalho. Não tão exuberante como na época anterior pela maior dificuldade que lhe foi criada pelo modelo de jogo, e um mau trabalho do seu companheiro de sector. Ainda assim mostrou-se à bom nível. Qualidade com bola, quer para segurar, quer para entregar. Maior consistência nos comportamentos defensivos.

8 - Oliver Torres. Passará por ele e por outros dois o futuro da criação no meio campo da selecção espanhola. Foi uma alegria constante assistir a cada toque que deu na bola, e constatar que os que diziam que lhe faltava intensidade mais uma vez o faziam por manifesta falta de conhecimento. Está, actualmente, com nível para entrar em quase todas as grandes equipas do mundo. Qualidade técnica, criatividade - inteligência -, e agressividade, fazem dele o melhor médio a jogar em Portugal.

7 - Gaitan. Precisa de estar fora para conseguir desequilibrar dentro. Não é fabuloso ao nível da tomada de decisão, mas a capacidade técnica ímpar permite criar lances geniais em quase todos os jogos que participa. Em condução, em passe, em drible, ou em combinações. Conseguiu também mostrar qualidade defensiva, e entendimento de que os momentos em que a equipa não tem a bola são tão importantes como os restantes.

11 - Nani. Pelo nível competitivo a que estava habituado, veio passear a Portugal. Golos, assistências, manutenção da bola, desequilíbrios onde não existia espaço, estímulo para os colegas descobrirem outros caminhos. Qualidade em todos os aspectos que se exigem para um jogador de alto nível. É ele o principal responsável pelo melhor momento da época do Sporting.

9 - Jackson. Desde que chegou ao nosso campeonato sempre nos habituou ao mesmo. Rendimento em todos os contextos. Em todos os jogos. Em qualquer estádio, dentro ou fora de Portugal. Qualidades físicas assombrosas, sentido colectivo único com e sem bola. Inteligência nas acções. Finalização.

MVP - 10 - Jonas. A subida de qualidade do jogo do Benfica tem muitos nomes, mas um absolutamente incontornável. Poder-se-à pensar que se fala dos golos que marcou, mas longe disso. Muito longe disso. O que falta ao jogo do Benfica é criatividade nos espaços reduzidos do corredor central, sobretudo para quem joga constantemente de costas para o golo. E Jonas veio trazer tudo isso. Capacidade para segurar, permitindo à equipa subir e ter bola nesses espaços. Agilidade para enquadrar e qualidade técnica para executar em pouco tempo, que permite à equipa ter seguimento da forma como procura construir. Qualidade na tomada de decisão, que permite à equipa criar mais situações de finalização. Inteligência na forma como procura os colegas para combinar, ou como procura os espaços para finalizar. Jonas mudou o jogo do Benfica e com isso desequilibrou o campeonato.

Suplentes - Rui Patrício, Jardel, Maxi Pereira, Michael Seri, Bernard Mensah, Brahimi, Tello

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Isto é um jogo de jogadores contra jogadores

Se há coisa que esta grande eliminatória da Liga dos Campeões reforçou foi a minha convicção de que sem qualidade não se consegue chegar a bom porto. Quando se vê duas equipas com a diferença de qualidade que Bayern e Barcelona têm, quando se vê os efeitos nocivos que uma decisão errada, uma má recepção, um mau passe, pode ter em toda movimentação colectiva percebe-se o que é o futebol. Num determinado momento, num determinado jogo, eventualmente, uma equipa colectivamente melhor conseguirá superar as melhores individualidades. Mas na maioria dos jogos as individualidades prevalecerão. Porquê? Porque colectivamente podes movimentar-te de forma fantástica, podes abrir os melhores caminhos para o golo, podes criar uma rede que permita aos teus jogadores terem as melhores soluções possíveis, mas no final, quem decide, quem executa, é o portador da bola. É o jogador, que nada terá para o salvar quando tiver que entrar em contacto com a bola.