sábado, 4 de julho de 2015

Jesus em oposição à escola espanhola

Jesus é um treinador fantástico, com um modelo de jogo especial, e com uma capacidade ímpar de transmitir o que idealiza aos seus jogadores. É um treinador talhado para o rendimento, e dando-lhe as condições que precisa triunfará. Como bom treinador que é, é fiel ao seu ideal de jogo e de jogador. E o seu ideal de jogo e de jogador está amplamente representado por Angel Di Maria.

Numa entrevista que deu num final de época disse duas coisas: 
- O melhor jogador que treinou é Aimar, já depois da saída do genial médio ofensivo do Benfica;
- Se pudesse escolher um jogador que já tinha treinado para voltar a ter na equipa escolheria Di Maria.

Isso indicia que no dia a dia, nas contratações, na escolhas para o seu onze inicial, o seu perfil de jogador mais facilmente entrará que outros. Isso, e isso só, explica o porquê de algumas opões que foi tendo ao longo do tempo no seu Benfica, com Capdevila, Nolito, Saviola, Aimar, Ola John, Djuricic, e Bernardo. Jesus, mais do que a inteligência, é um profundo admirador de jogadores dotados do ponto de vista físico e técnico. Talvez por acreditar que é capaz de melhorar todos os jogadores ao nível do conhecimento do jogo. E essa confiança cega que tem nas suas capacidades funciona como a sua maior força, e como a sua única fraqueza. Não é no discurso para a comunicação social, na liderança dentro do balneário, na leitura de jogo, ou na vertente estratégica que Jesus perde. É sobretudo no pensar que pode mudar um jogador por completo do ponto de vista ofensivo e defensivo, e na pouca valorização dos pormenores que os mais inteligentes, e menos vistosos nas capacidades condicionais, acrescentam ao jogo.

Jesus quer para qualquer posição em campo capacidades físicas ímpares. E tecnicamente, para quem joga nos corredores (laterais ou médios ala), para o médio centro, e para um dos avançados, jogadores de condução, que tenham a capacidade para transportar a bola em velocidade, para ultrapassar o adversário em acções individuais. Para que dessa forma permitam que a equipa chegue mais à frente no jogo, fruto dos constantes duelos que vão superando nas suas zonas de acção. A excepção são o médio defensivo - que desde que seja alto, agressivo na primeira bola, e razoável do ponto de vista técnico serve -,bem como o avançado que pode só procurar zonas de finalização, e ser jogador de um toque em apoio frontal. Até para os guarda-redes a altura é o primeiro factor determinante na escolha de Jesus. Tudo isto surge em oposição à escola da pausa - temporização -, da excelência no passe  e na recepção. Da qualidade na tomada de decisão, dos desequilíbrios com o cérebro. Jesus prefere gente que em determinados momentos tem um lance genial, que se precipita constantemente para cima do adversário, e que corra muito e rápido - ainda que passe a maior parte do jogo a errar na tomada de decisão -, a gente que jogue constantemente o que o jogo dá e que não seja vistosa do ponto de vista físico. A preferência cairá, na esmagadora maioria do tempo, em jogadores que criem em condução no lugar de jogadores que criem com o passe. 

Como escrevi num artigo anterior, para a posição 8 do seu modelo, Jesus colocaria Enzo à frente de Xavi. Assim como prefere Di Maria ao melhor jogador que treinou. Porque Di Maria do ponto de vista técnico e físico representa tudo o que ele quer num jogador, ainda que peque constantemente na utilização do cérebro.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O treinador do torneio.

Bem antes de seguir os jogos das suas equipas, um ex atleta do Sporting e do Belenenses me havia referenciado Rui Jorge como o melhor treinador da sua carreira. Pelas experiências que este atleta vivenciou, e inteligência e percepção que tem do jogo, registei desde logo aquele apreço.

Rui Jorge liderou a equipa mais excitante, mais atractiva do torneio. A equipa com melhor organização defensiva e ofensiva. 

Muito talento individual, naturalmente, mas também muita coragem para apostar e valorizá-lo. 

A selecção sub 21 teve inúmeros momentos no relvado a fazer recordar a magnífica geração que juntou João Vieira Pinto, Luís Figo, Rui Costa, Pedro Barbosa, Capucho, Sá Pinto e Domingos.

Voltou a diversão com uma selecção nacional e muito do mérito é do seu treinador. Pelas opções técnicas e também tácticas. Uma lufada de ar fresco, Rui Jorge. Veremos o que o futuro reserva a tão boa surpresa.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A partir de hoje há três candidatos em Portugal

O poder de Jesus. Afirmando o que haviamos referido logo que se confirmou a sua contratação. O Sporting terá já na nova época hipoteses reais de se sagrar campeão e deixar de ser encarado como candidato apenas porque tem nome e história de grande. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Tomar decisões. O outrora menino de treze anos que hoje pode ser campeão Europeu.

Tinha treze anos o menino Bernardo quando o blog foi criado. 

O propósito desde o primeiro momento foi dar a conhecer um jogo novo, desconhecido do grande público. A velocidade a que o jogo decorre aumenta de dia para dia, Não a velocidade da passada dos atletas mas a velocidade com que se vão sucedendo as diferentes situações de jogo. Os contextos mudam rapidamente e os jogadores têm de ser cada vez mais rápidos e assertivos na sua tomada de decisão. Mais do que nunca o jogo é táctico. É cognitivo. Ter uma grande habilidade motora ou técnica não serve. O físico por si só já não aproxima a equipa do sucesso. A tomada de decisão é a chave de todo o sucesso. O que separa os médios dos bons, ou os bons dos enormes.

Tinha treze anos o menino Bernardo quando o blog foi criado.

Hoje, aos vinte refere que tenta sempre tomar a melhor decisão "a mais inteligente" em função do contexto "...aumentar ou diminuir o ritmo de jogo para permitir à equipa reorganizar-se".

Bernardo tem drible, tem remate fácil, passe longo e curto. Tem uma série de atributos técnicos maravilhosos que ficam na retina de quem o segue. O que o distingue e o que define? nenhum desses atributos, pois claro. É a decisão. É a leitura que faz a cada bola que carrega e o que a mente lhe permite vislumbrar que o distingue. Atrair para jogar. Não soltar uma bola sem uma ideia. Não jogar apenas porque sim. 

Tinha treze anos o menino Bernardo quando o blog foi criado. E hoje a certeza de que a forma como se foi influenciando mentes e abrindo novas perspectivas sobre o jogo que amamos é o retorno prazeroso que se procurava quando o projecto se iniciou. 

Um dia também todo o Brasil acordará. 


domingo, 28 de junho de 2015

Portugal chega ao Euro em 2015 com mais qualidade. Não. Portugal chega ao Euro em 2015 mais experiente.

Escrevia-se por aqui, no dia 9 de Outubro de 2014, experiência. Portugal esmagou a selecção Alemã com mérito, conseguindo de forma contundente a presença expectável na final do torneio. Tendo em conta o contexto, Portugal mostra-se um nível acima de todos os outros, fazendo lembrar a selecção espanhola de Thiago e Isco que também trucidou. Significa isso que o talento pode ser comparado? Não. Temos talento. Mais do que em gerações anteriores. Rui Jorge gosta de jogadores talentosos e aposta neles. Porém, não é de um nível tão alto que nos possa fazer sonhar com uma selecção A bem mais forte nos próximos anos. Onde Portugal ganhou foi nos minutos somados (ferramenta fundamental para o desenvolvimento dos jovens valores) em contextos de grande exigência por parte dos constituintes desta geração. Portugal tem William, Bernardo, e João Mário, todos no mesmo onze. Tendo em conta o contexto, pode dizer-se que beneficiamos de uma batota.

Alguém pode imaginar o nível a que Max Meier se apresentará ao atingir a idade actual de William Carvalho? Alguém percebe o porquê de Draxler ou Goetze terem ficado em casa? Portugal está forte nesta competição, de facto. Mas só o está porque não se pensa mais nas individualidades do que em outra coisa qualquer. E nestes escalões de formação o prioritário deverá sempre ser o individual.

terça-feira, 23 de junho de 2015

o menino Bernardo

Cara de menino, corpo franzino e futebol de homem.

"Bernardo é tremendo com a bola nos pés" Deco.

As palavras são de um dos maiores magos que pisou os relvados em Portugal. O grau de conhecimento que tinha do jogo tornam as suas palavras ainda mais elogiosas. É que Deco sabe que ser tremendo com bola vai muito para além de um ou outro drible, uma ou outra recepção tecnicamente mais artística. 

Bernardo cumpriu tudo o que prometia. E ainda promete mais. Qualidade técnica quase inigualável. Cérebro sempre em movimento, a analisar cada situação de jogo ofertando sempre a decisão mais correcta, e tantas vezes a mais criativa! E o miúdo desequilibra o jogo todo pela forma fácil como quebra a contenção e atrai coberturas para jogar com a equipa. Tem os timings. A pausa dos melhores, a aceleração dos mais astutos. O passe para dentro ou o drible conduzindo na direcção da meta. A decisão depois do drible. Bernardo tem tudo.

Mas não é só com a bola que é tremendo. Rápido a (re)agir na transição. Agressivo quando a bola está no seu espaço, ou agressivo na ocupação do espaço, Bernardo é um génio responsável (e eficaz!) defensivamente. Tudo isto aos vinte anos. 

Impossível imaginar Bernardo fora do "top ten" mundial em  três épocas. 

O menino virou um homem e agora Fernando Santos não pode mais ignorar tamanho talento. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Rui Vitória vai manter o trabalho de Jorge Jesus - Debate.

Curioso para perceber de que forma é que os leitores do blogue acham que será possível Vitória manter o trabalho de Jesus. A minha ideia é que durante algum tempo será possível ir mantendo alguns princípios gerais e algum pormenor, mas que ao longo do tempo a tendência será para se deteriorar e desaparecer. Esta ideia baseia-se no facto de um não conhecer as ideias do outro no pormenor, e por isso em treino haverá diferenças. Havendo diferenças no treino, haverá também ao nível do jogo. E por isso, em pouco tempo as ideias de um vão embora e as ideias do outro irão prevalecer.

A caixa de comentários do blogue - não do facebook - aguarda pelas vossas ideias.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Rui Vitória não gosta de passes laterais

Confirma-se assim a preferência do presidente pelo seu nome entre os que estiveram em cima da mesa. Um dos pontos basilares do seu modelo assenta no facto de pedir aos seus jogadores para não fazerem passes laterais. Diz que podem passar para frente, para trás, em diagonal, mas para o lado não. Acrescenta ainda que quer que todos os jogadores devem ser fortes na reacção à perda de bola, e combativos nos duelos individuais.

Sistema de jogo no momento ofensivo 1x4x3x3
Sistema de jogo no momento defensivo 1x4x4x2

Linha defensiva - Tenta organizar-se por referências zonais. Defende bem a largura. Defende relativamente bem a profundidade. Quando a bola entra na área a referência passa a ser individual.
No pormenor percebe-se que a linha defensiva não é muito agressiva no cumprimento dos posicionamentos, nos ajustes, e que não é muito agressiva a sair na bola (centrais principalmente). Quando existe possibilidade de cruzamentos central afasta da cobertura e tenta fechar a baliza. Aí percebe-se a pouca agressividade dos extremos ou médios em surgir na cobertura ao lateral, e a indefinição dos espaços a ocupar no caso de o central ser obrigado a sair na contenção, criando por vezes um espaço enorme entre os dois centrais.

Linha Média e Linha Avançada no momento defensivo - Um dos médios é responsável por pressionar o central do lado contrário, ficando com dois homens na linha da frente. Os restantes colocam-se em cobertura aos espaços. Os médios fecham bem do lado da bola, excepto o ala do lado contrário que por vezes fica muito afastado dos restantes colegas. Não foram nunca extremamente agressivos na pressão.
No pormenor percebe-se que quando os médios são ultrapassados mostram alguma inércia para recuperar as posições, e voltar a entrar em tarefa defensiva.

Transição defensiva - Demonstra a intenção pressionar rapidamente assim que perde. Mas sem a rede apoios bem trabalhada do ponto de vista ofensivo, torna-se difícil que os jogadores tenham sucesso nesse comportamento, por isso alguns optam por não o fazer. Se a bola entra para defender com poucos organiza-se para defender a baliza em contenção e cobertura, mas no momento certo os centrais não mostram a agressividade para sair na bola evitando assim a possibilidade de um remate à entrada da área. Nota-se também aí a inércia para alguns elementos recuperarem posições.

Transição ofensiva - Se tiver possibilidade de sair rápido para o ataque, ainda que recupere em zonas recuadas, sai. Se não, tenta segurar para depois sair em organização. Nas duas possibilidades mostra critério, bola no pé até encontrar o momento ideal para colocar no espaço.

Construção - Tanto sai pelo corredor lateral como pelo corredor central. Tenta ter critério com bola. Procura tanto extremos e laterais como médios, e algumas vezes avançado na profundidade. Quando os centrais têm a bola, apenas lateral do lado da bola fica projectado contrastando com o movimento do extremo que baixa para pegar. Quando a bola entra no lateral, extremo em profundidade, avançado baixa para tocar médio do lado da bola em apoio interior, trinco em cobertura. Se a bola entra nos médios centro, procura a profundidade nos 3 corredores. Se a bola entra nos extremos, uma cobertura e restantes na profundidade.

Criação - Procura trabalhar todos os lances para terminarem no corredor lateral. Aí procura combinar, acções individuais, e cruzamentos. Mas a esmagadora maioria dos lances segue para os corredores laterais, normalmente para cruzamento.

Bolas paradas defensivas - Zona no primeiro poste (3 homens - dois no primeiro poste e um mais na zona central), restantes HxH.

Aguardaremos para perceber como se comportará colectivamente num grande, e que formas irá adoptar na organização das suas peças para cumprir com os princípios que propõe. Esperamos também com ansiedade para perceber se será brindado com a qualidade individual que os seus antecessores tiveram no primeiro ano de trabalho.

Adel Taarabt

Primeira avaliação em off da "grande bomba", feita por quem trabalhou com ele.

"Péssimo profissional. Não corre, não se dá ao grupo, não defende. Maus hábitos. É habitual seguir de directa do casino ou da noite para o treino. É zero. Vai partir o grupo. Muita qualidade técnica, verdade, mas também muito inconsequente. Incompreensível como o Benfica avança para alguém com este perfíl e qualidade."

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sucessão - Hábito ou Adaptação? Dificuldade de um grande.

Para substituir Jesus, quem? Melhor pergunta é: para treinar o Benfica, quem?

O Benfica, como grande que é tem a dificuldade acrescida de a esmagadora maioria dos adversários o esperar no meio campo defensivo. De baixarem as linhas e jogarem muito próximos da área, fazendo uma enorme redução dos espaços nos últimos quarenta metros, e abrindo uma enorme distância entre a última linha e a baliza de quem os ataca. A concentração de jogadores no corredor central é maior, e indica o corredor lateral como solução para criar lances de ataque. Isso pressupõe um número maior de jogadores à frente da linha da bola, e um número muito pequeno de jogadores atrás. Há quem pense que Jesus foi uma escolha acertada para o Benfica pela qualidade de jogo que demonstrou, mas foi-o sobretudo por ser treinador predominantemente de organização ofensiva e transição defensiva, fosse em que clube fosse. E dentro disso, fazia o jogo que imaginava na sua cabeça. O próximo treinador do Benfica deverá ter o mesmo perfil - organização, transição.

Como é que um treinador que não joga de forma predominante em organização vai resolver o problema da redução dos espaços nos últimos quarenta metros? Vai atacar pelo corredor lateral, que é no fundo por onde o adversário quer ser atacado e é o caminho mais fácil de defender? Como é que atacando pelo corredor central se vai defender dos contra ataques perigosos que resultam de perdas de bola aí? Como é que um treinador que não tem saída de bola habitualmente vai ter? Como é que um treinador habituado a defender dentro do seu meio campo vai defender no meio campo do adversário? Como é que um treinador habituado a defender com muitos atrás vai resolver o problema de defender com muitos à frente? E admitindo que o tente fazer, como é que vai operacionalizar ideias que nunca tentou na prática?

Vai treinar a operacionalização num grande e adaptar-se a isso, ou deverá estar já habituado ao contexto que vai encontrar? Num grande como o Benfica onde a exigência é máxima não há tempo para o treinador treinar o treino e a maior parte das ideias. Por isso, com a pressão, ou se tem ou se falha!