sábado, 9 de julho de 2016

O melhor estará sempre mais próximo de vencer. Mas porque não vence sempre?

Não apenas pela aleatoriedade do jogo.

A falta de controlo e o lado caótico do jogo, que assim permanecerá sempre por mais que se tente reduzir ao máximo a imprevisibilidade, pela definição de um modelo que contemple posicionamentos e decisões para cada momento e fase do jogo, estará sempre presente em cada jogo.

A bola na barra que não entrou. Ou o remate que encontra alguém e engana o guarda redes. A grande penalidade que naquele dia o guarda redes defendeu a determinar demasiadas vezes vencedores.

Todavia, não é apenas a aleatoriedade do jogo de futebol que torna possível aos menos fortes vencer os poderosos.

O jogo é por norma mais fácil para os menos fortes. As situações de jogo que encontram ao longo da partida são demasiadas vezes mais benéficas do que as que a equipa mais forte tantas vezes se depara. O menor aproveitamento porque são mais fracos individualmente e colectivamente, mas não porque o jogo tenha situações mais complexas para resolver. Tudo porque há um lado estratégico que permite gerir de forma diferente o jogo.

Em tempos José Mourinho afirmava que quem não contra atacava era "estúpido".

Amanhã na final de Paris, a França porque tem melhores individualidades e porque joga em casa, assumirá a partida, preparando-se para jogar em ataque posicional uma grande percentagem da mesma. Ora, é precisamente em ataque posicional, quando enfrenta maior número de opositores nas situações de jogo, que se sente mais desconfortável. Terá bastante menos espaço e mais oposição à sua frente na final do que o que teve na semi final.

A selecção portuguesa por sua vez terá um jogo que acabará por se encaixar melhor naquilo que são as suas características. Muita gente atrás da linha da bola e esperar pelo momento em que uma recuperação acabe nos pés de Renato para então sairmos em velocidade na transição. Ganhando espaço, reduzindo o número de opositores para então ligar com Nani ou Ronaldo.

As características de cada jogo, a ditarem demasiadas vezes a possibilidade do menos forte vencer o mais forte.

Não foi surpresa a queda da melhor equipa do torneio. A Alemanha. A equipa alemã, a melhor do Europeu, tão superior individualmente e colectivamente a todas as outras, a cair pelos imprevistos naturais do jogo, mas também pelas características próprias de um jogo que proporcionava a jogadores como Griezmann, Payet e Giroud terem espaço. Enquanto que cada ataque Alemão enfrentava um sem número de opositores cuja valia é também elevada.

Como não será surpresa que a Europa se renda a Portugal. Mesmo que o mais forte esteja sempre mais próximo de vencer, há variáveis importantes que tornam este jogo tantas vezes de vencedor imprevisível. E será essa provavelmente a grande paixão do futebol.

Hora de ir a eles, rapaziada!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Perfeição Alemã, e Qualidade individual.

Talvez não exista, no mundo, uma equipa nacional tão perfeita nos posicionamentos ofensivos e nos princípios de jogo que utiliza para tentar quebrar o adversário. É incrível como em cada situação de jogo, e tendo em conta a forma como o adversário se coloca em campo, aqueles jogadores conseguem sempre encontrar uma forma dominante de se colocar em largura e em profundidade ligados por uma rede infinita de apoios entre os sectores do adversário. São a melhor equipa do mundo na forma como se colocam sem bola, e na forma de utilizar o seu jogo de posições para encontrar ou criar espaço, tempo, e vantagem numérica.



A excelência no posicionamento contrasta, contudo, com a incapacidade para ameaçar o adversário pelos corredores laterais. Claro que por principio o melhor caminho será o de aproveitar o corredor central para chegar em melhores condições à baliza. Mas repare no número de pernas que a selecção francesa (ou a esmagadora maioria das equipas que defendem com o bloco muito junto e baixo) tem a defender esse corredor. O jogo alemão seria ainda melhor se nos corredores tivesse jogadores com qualidade individual para aproveitar o espaço, o tempo, e por vezes a vantagem numérica que se criava por lá. Kimmich é um jogador fantástico, não se deixe enganar. Porém, não é do tipo de jogador que vá para cima, que ameace no um contra um, que acelere com espaço, que procure a baliza assim que recebe naquela zona. Hector movimenta-se muito bem, mas também não consegue desequilibrar com bola no pé. Muller, Khedira, Bastian, e Can, que foram os jogadores que mais se movimentaram para receber no corredor também não têm esse tipo de qualidade. Por isso, por aquilo que os jogadores conseguiam ou não fazer individualmente os corredores laterais eram utilizados basicamente como apoio, para retirar de pressão ou para mover o adversário. Com Draxler e Ozil, que têm individualmente essas competências, responsáveis pela ligação entre linhas ficou muito mais previsível o jogo alemão, e com muito menos capacidade para aproveitar as situações que melhor que ninguém eles criam.

Draxler a aproveitar a vantagem numérica criada.

Draxler a aproveitar a situação de 1x1 sem cobertura.

Os dois golos têm um denominador comum: Draxler. No primeiro lance na acção que precede a assistência, a utilizar o movimento do lateral para desequilibrar. Poderia até ter sido outra a decisão, mas jogou com o movimento do lateral para colocar o adversário em dúvida. Fixou, soltou, e golo. No segundo golo a aproveitar individualmente a situação criada. Ficaram a faltar mais jogadores com este tipo de qualidade para aproveitar a excelência no posicionamento, porque não basta por princípio criar ou encontrar condições para desequilibrar. É preciso igualmente ter jogadores com capacidade para aproveitar essas situações. E foi essa capacidade de ameaçar pelos três corredores que, na minha opinião, lhes faltou durante todo o Europeu de 2016.

Imagine que na seguinte imagem os nomes à branco eram substituídos pelos nomes à vermelho, no jogo de posições.
Parece-lhe familiar? Laterais por dentro e extremos por fora, onde é que já viu isso?

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Pré época. Conteúdos. Um exemplo.


Cada equipa é uma equipa. Cada qual tem um contexto diferente. Pelo que o presente post é apenas um exemplo sem qualquer validade para além daquela a que os objectivos poderiam serão aplicados. 

Enquanto preparava algumas coisas para o iniciar da época, relembrava as palavras de alguns brasileiros do Shakthar, surpreendidos com o trabalho táctico desde o primeiro dia. O trabalho tendo em vista chegar o quanto antes a um modelo de jogo. Sentindo como tal interessante o partilhar daquilo que é ainda apenas um esboço de algumas linhas que poderiam orientar os primeiros tempos numa nova época.

1a prioridade. Organização defensiva da linha média com saídas rápidas após recuperação.

Contexto. Alas habituados a defender mais à frente, como avançados / extremos, e pouco articulados com linha média. Num sistema de 442 tal deixará a equipa sempre em grande inferioridade no sector médio. Se não se apreender logo no primeiro momento o comportamento adequado, por forma a dar sucesso, mais difícil os atletas seguirem as ideias do treinador!

2a prioridade. Ataque posicional na zona de criação. Jogos de 6x5.

Contexto. Dar referências posicionais e preparar mobilidade para em posse no último terço desorganizar as estruturas defensivas adversárias.

3a prioridade. Organização defensiva na primeira fase. Pressing médio com avançados e linha média.

Contexto. Perceber como defender posicionalmente e pressionar construção adversária. Juntando os avançados à linha média que previamente adquiriu os comportamentos posicionais adequados. Após recuperação também já ligam com as saídas rápidas ou com o ataque posicional no último terço, anteriormente treinado.

4a prioridade. Ataque posicional. Construção. 

Contexto. Depois de se trabalhar ofensivamente no meio campo ofensivo, a importância de ligar as fases, para que se chegue lá, mesmo partindo de trás e não apenas após as recuperações altas.

Capacidades condicionais e técnicas integradas naquilo que são os objectivos primordiais de cada exercício. O objectivo táctico por forma a chegar rapidamente ao modelo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

"Este treinador merece" Cristiano.

Desde sempre que o propósito do blog é passar uma visão, hoje, não tão diferente do que é aceite, do jogo. Quando o iniciámos, falar em decisões, organização ofensiva e defensiva e princípios comuns, em um estilo de posse ou na supremacia da táctica sobre os demais factores era quase chinês.

É portanto óbvio que aquilo que a nossa selecção produz nos relvados franceses não está sequer próximo daquilo que entendo como o melhor e o que mais aproxima do sucesso.

Há todavia algo no trabalho de um treinador que é bastante mais decisivo que toda a bagagem teórica que se tenta aplicar na prática. O mais importante, e quem sabe o mais difícil é no fim do dia teres os teus contigo e com as tuas decisões.

Estamos lá! E estaremos nós, alguns dos autores do Blog Lateral Esquerdo, a comentar a final na Fnac do Chiado.


Queimar etapas na formação, de Júnior para Sénior. Fernando Valente e Slaven Bilic

Conversava durante um jantar com o Ronaldinho e o mister Fernando Valente sobre o momento mais difícil de transição para um jogador de futebol: a passagem do futebol de formação para o futebol sénior. E ele questionava - Se os nossos jogadores aos 20 e aos 21 ainda não estão prontos para o futebol dos adultos, quando é que estarão?

A pergunta ficou no ar e reflectimos. Pensamos sobre mil e uma formas de contornar a questão, mas sempre, quase sempre, sem uma resposta suficientemente abrangente. A questão é difícil e de uma complexidade tal que só o contexto poderá dizer de cada caso como adequar determinada solução. Mas uma coisa é certa, o atraso que os nossos levam em comparação com os da mesma idade de outros países é evidente.

Que diferenças?

Slaven Bilic afirma sobre o constante aparecimento de jogadores croatas de qualidade, independentemente de ser um país com apenas quatro milhões e meio de habitantes: Um bom jogador da formação na Croácia quando tem 18 anos entra directo na primeira equipa, na primeira divisão croata. Não é a primeira liga inglesa mas é competitiva. Então, quando ele chega aos 21 já tem cerca de cem jogos na primeira divisão.

O que Bilic afirma, e que vai de encontro à maior dificuldade na transição para o futebol sénior, é que quanto mais cedo um jogador for exposto à dificuldade que é defrontar jogadores com mais dez anos de futebol do que eles mais cedo conseguirá ultrapassar essa barreira, e mais cedo conseguirá ter rendimento no futebol dos graúdos.  Assim como Fernando Valente. Olha-se para o futebol no Brasil, na Argentina, na Bélgica, em Espanha, e na Alemanha, e é normal haver miúdos expostos ao erro em muitas equipas da primeira divisão. E isso por si só é um factor determinante para que os jogadores consigam chegar mais cedo.

Zivkovic chega à Portugal, aos 19 anos, com quase cem jogos contra jogadores bem acima da sua faixa etária. E por isso está mais preparado para jogar no Benfica, para cumprir com as exigências de um grande, para entrar na selecção nacional, do que a esmagadora maioria dos jovens jogadores portugueses aos 23. E como é que jogadores que chegam de ligas bem menos competitivas do que a nossa conseguem superar com facilidade os nossos que têm mais 4 anos em cima?! E jovens destes chegarem de fora para os grandes em Portugal e afirmarem-se com grande qualidade é uma constante no nosso futebol.

O que mudar?

As equipas B, nos grandes, foram um passo fundamental para o garantir dessa competitividade aos jovens que surgem na formação. E cumprindo o objectivo (garantir a competitividade na próxima época para eles, ou para os próximos - garantir a manutenção) é fundamental que cada vez mais cedo comecem a chegar mais miúdos ao futebol sénior. Não só às equipas B's, mas ao mais alto escalão do futebol profissional do nosso país. E todos sairiam a beneficiar com isso porque cada vez mais (com a inflação que existe no futebol) os grandes clubes contratam pela idade e pelo potencial, e não pelo rendimento do momento. Tanto os grandes como os pequenos poderiam beneficiar do ponto de vista financeiro deste tipo de políticas. É olhar para o Renato aos 18.

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terça-feira, 5 de julho de 2016

Competência. O salto que o Benfica deu. Fala Nuno Gomes.

Excelente a entrevista de Nuno Gomes à Proscout. Quanto do crescimento dos últimos seis, sete anos do SL Benfica se deveu ao acertar no perfil correcto dos colaboradores para servir o clube? Sobretudo Rui Costa e Nuno Gomes, experientes no relvado e fora dele, "jovens" ex futebolistas capazes de entender e decidir o melhor.

Depois acima de tudo a relação com a bola porque cada vez mais cedo se estão a recrutar jovens jogadores e nestas idades há muitos que fazem a diferença porque se calhar já têm uma evolução física ou uma maturidade diferente porque cresceram mais rápido e nessas idades fazem a diferença mas muitas das vezes acho que o mais importante, acima de tudo, é a relação que eles têm com a bola e com o próprio jogo, os colegas, a maneira de jogar, a maneira de receber a bola, como é que são tecnicamente. Depois a questão física temos tempo para a trabalhar, porque se tu vires um miúdo que sabe jogar à bola, mas que se calhar não faz a diferença naquelas idades porque tem um físico mais débil em relação aos outros, não vamos deixar de continuar a observá-lo, porque damos primazia aos melhores jogadores.

O factor físico é importante até determinada altura porque faz a diferença, nós vemos jovens que se calhar estão mais evoluídos que outros fisicamente e conseguem até determinada fase da carreira fazer a diferença dentro do campo e acho que esses também ajudam os outros a crescer mas não é o mais importante, o mais importante é darmos tempo para que possam crescer da maneira mais natural possível. Sabemos que há jovens jogadores que crescem mais rápido que outros, hoje em dia há técnicas e maneiras de saber o quanto vão os jogadores crescer no futuro. Nós damos importância a esse facto, também é um dos métodos de avaliação, poder saber a altura daqui a uns anos, qual será a evolução física de um jogador, mas lá está, no futebol temos o exemplo do Messi e do Cristiano, que um é mais forte que o outro e são os dois os melhores do mundo, é muito relativo a altura, o peso, a força física, se souberem jogar à bola com os pés [risos]. Acho que uma das armas principais é eles saberem jogar futebol e serem inteligentes a jogar, como é óbvio. É muito relativo, existe a tendência, hoje em dia, de o futebol profissional se tornar cada vez mais físico, é claro que o jogador mais forte fisicamente tem vantagem em relação a outros que não são tão fortes, mas esses menos fortes fisicamente, a maior parte do tempo têm outras armas que esses fortes fisicamente não têm. Nós não nos preocupamos em demasia com essa questão porque sabemos que o jogador de futebol bom, é bom por natureza independentemente do quanto vai crescer ou o quanto forte fisicamente será.

Temos este caso, por exemplo, que na equipa B este ano o plantel tinha muitos jogadores com a idade júnior e que pouco jogaram na fase final do campeonato de juniores mas quanto a mim eles conseguiram ter um ano de segunda liga que se calhar em termos individuais foi melhor para a evolução deles como jogadores do que no campeonato nacional de juniores.

Eu sei que há clubes hoje em dia que estão a pegar nessa ideia e proporcionar aos atletas, momentos diferentes em espaços diferentes que não sejam o sintético, que não seja a relva e acho que até é uma boa ideia porque isso também proporciona uma evolução ao atleta. Em relação aos nossos jogadores, temos pensado também nessas soluções, temos criado ambientes aqui dentro do Caixa Futebol Campus fora do horário normal dos treinos, principalmente aos jogadores que residem aqui poderem também ter actividades diferentes e um pouco aquilo que é o futebol de rua e estão pensadas algumas coisas que poderemos dentro em breve a começar a pôr em pratica, que vai de encontro a essa necessidade dos jogadores não ficarem só formatados para o treino que têm diariamente nas equipas, mas que possam também ser apresentadas outras situações em que lhes permita também estar num contexto diferente e evoluírem não só tecnicamente mas também em jogo com os colegas.

Sim, há quem defenda essa teoria, que há um excesso de treino por posição e formatação dos jogadores em que depois o jogador é habituado a jogar sempre naquela maneira, naquela posição e depois com o passar do tempo só sabe jogar naquela posição e só sabe ter aquelas acções. Nós nos escalões mais baixos ali pelos traquinas, benjamins e infantis temos feito algumas acções internas para contornar essa situação e muitas vezes criamos uma espécie de liga interna onde os jogadores não podem jogar na posição habitual, mas em posições completamente diferentes daquelas em que normalmente jogam no fim de semana. Criamos também treinos em que isto acontece, do lateral direito ir jogar para médio centro e o ponta de lança para central, muitas vezes fazemos esses treinos com jogadores destros a jogar do lado esquerdo ou só com o pé esquerdo por exemplo, para gerar também outras opções, para melhorar também o conhecimento do jogo, para que nessas idades, o defesa possa perceber o que é que o avançado da sua equipa sofre ou o que é que tem de fazer, o lateral sabe assim os movimentos do médio, e não estão apenas formatados ou fechados naquele mundo que é a sua própria posição, para poderem experimentar outras posições. Muitas vezes também dá-se o caso de nós termos agradáveis surpresas de alguns jogadores de que nós à partida olhamos e que definimos que este jogador é desta posição e depois com o passar do tempo percebemos que se calhar pode ter outro rendimento noutra posição. Serve para ver também como eles reagem e para lhes dar o conhecimento do jogo de outras posições.

P.S. - Na barra lateral do lado direito do blog está uma publicidade a uma formação Bwizer com o criador do blog. Creditada para a cédula de treinador. Ainda há algumas vagas disponíveis. Será em Lisboa e dará para se trocar ideias!

"Em Portugal tem-se andado a estragar talentos" ou a forMATAR.

As citações são de frases de Francisco Silveira Ramos, uma das personalidades que mais nos ensina sobre futebol e formação em Portugal, e reportam-nos para textos recentes como o da importância do atrevimento dos miúdos e outras dificuldades na formação em Portugal, tão abordadas por aqui antes.

"Há muitos jogadores que nestas idades evidenciam já algumas características que nos parece que vão ser potenciadas para jogadores de alto rendimento. Mas às vezes enganamo-nos. Ou porque as condições morfológicas dele não foram favoráveis, ou porque faltou motivação, ou porque o enquadramento não foi tão potenciador...»

"Não podemos querer ter jogadores de futebol aos 10, 11, 12, 13 anos de idade. Temos jogadores de futebol aos 20 anos. Nesta idade são só jogadores da bola. Se quisermos queimar etapas e introduzir táticas muito sofisticadas, reduzir a participação individual dos miúdos, podemos estragar este talento».

"O que caracteriza os jogadores de topo nesta idade é ter uma grande expressão individual. O que se tem passado em Portugal é termos os jogadores muito formatados. Alguém é responsável por isso. Temos jogadores muito amarrados a processos muito rígidos. Se nesta idade não são todos iguais e daqui a 5 anos forem, há algo errado neste processo»

«Andam todos à procura de jogadores inventivos, criativos, com capacidade de improvisação. Nós temos esse jogadores em Portugal, não os podemos estragar. Não podemos castrar essas competências individuais, sobretudo do domínio ofensivo, e transformá-los todos em peças de uma máquina. O futebol é um jogo coletivo, mas é feito de individualidades e temos até que fomentar essas individualidades"

"Muitas vezes deixam-se embalar e têm a tendência de ver no filho um futuro praticante de elite. Mas os miúdos nesta idade têm é que ser felizes a jogar, têm que viver as fantasias do jogo. Os pais que não estejam a criar-lhes pressão adicional porque não ajudam nada"

E por fim... a citação de um ex profissional do Sporting

"O problema mesmo...são os livros e os cursos... Há muitos "treinadores" de livros... e dos cursos... que aplicam os seus métodos a pensarem que estão no City ou na Juve... E depois não deixam evoluir os miúdos e nem o básico lhes transmitem..."

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Prática e teoria. Vivem uma sem a outra?

O Blessing e o Van Basten que têm ideias firmes, com as quais concordo inteiramente, não deixaram de questionar-me sobre o que pensava sobre a dicotomia prática - teoria. Se vivem uma sem a outra.

Porque o que penso é suficientemente extenso, fica melhor num texto acessível para todos quantos os que nos seguem.

Este é um campo que me interessa bastante, sobretudo porque com os tempos tem havido uma certa modelagem ao que teorizo. Modelagem feita em função do que tenho retirado da prática. A prática é no fundo o que permite validar ou não o que teorizamos. E portanto pode haver teoria sem prática. Mas, será sempre não muito relevante e por vezes demasiado especulativa. Naturalmente que cada contexto é um contexto e nunca temos a possibilidade de experimentar todos para perceber na prática a validade das nossas ideias. Que podem ser melhores ou piores também em função de cada momento / espaço. Mas se há algo que a prática traz é a capacidade de avaliar o que teorizamos e consequentemente proporciona uma evolução. O ponto de chegada será sempre o da teoria mais o que sobrou da prática. É aliás esta necessidade de se experimentar a teoria para que se possa falar com maiores certezas que me levam a, e quem sabe injustamente, duvidar e prestar pouca atenção ao que afirma(m) quem não pisa ou pisou um relvado. Seja a que nível for. Do distrital ao profissional. Porque há demasiado que só se aprende ali.

Mas, haverá prática sem teoria? Questionam.

Impossível. Há que perceber que tudo o que se faz na prática surge da teoria! Seja boa ou má, mas tem sempre suporte na teorização que se faz. 

Exemplo, Jorge Jesus não partilha (regra geral) nada daquilo que é o seu trabalho e é comummente associado a um treinador prático. Sem lado teórico. Nada mais falso! Tudo no seu trabalho advém da teoria! Porque defende com quatro na última linha? Porque joga em 442? Porque pede à última linha para baixar quando não há contenção, e para subir quando portador adversário tem pressão? Tudo o que coloca em prática vem daquilo que teoriza como sendo o melhor. 

Tudo numa unidade de treino vem da teoria. Seja quem for a pessoa em causa! Porquê 5x5 e não correr à volta do campo? Ou o contrário? Porque quem o manda fazer, na teoria crê que tal é o melhor para na prática obter os resultados que pretende.

Teorizar não significa escrever ou publicar. Significa reflectir! Até uma senhora da limpeza teoriza sobre o seu trabalho. Como será mais eficiente ter o quarto limpo num instante? O publicar ou partilhar, seja em blogues, congressos, formações, ou em simples fóruns na internet implica sempre uma vertente teórica. Mas o fazer, mesmo que sem publicação também assim o exige!

P.S. - Estamos a chegar aos 10 mil likes no Facebook. Deem lá uma ajudinha que em breve teremos novidades.

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sábado, 2 de julho de 2016

Miúdos atrevidos que roubam a cena. Take II.

Em Setembro do ano transacto escrevia-se por aqui.

Fomos perdendo, em Portugal, ao longo dos anos a capacidade que tinhamos de fazer chegar ao alto rendimento os miúdos mais atrevidos. Normalmente são também os mais talentosos. Os que valem os milhões todos e mais o preço do bilhete. Na referência no texto sobre Gelson falava-se de Nani, Quaresma e Ronaldo como os últimos.

Ser atrevido não implica não saber decidir ou ser anárquico. Talvez implique dar maior trabalho ao treinador. E implica seguramente ter aquela personalidade própria de quem adora os holofotes mais do que o medo que tem de falhar. Implica jogar demasiadas vezes fora da caixa. No fim do dia, tantas são as vezes que são esses que fazem toda a diferença.

Sobre a escassez de jogadores portugueses com traço de personalidade tão aprazível, é dentro da selecção nacional perceber quem foram os únicos quatro de toda a selecção que se predispuseram a assumir o risco de bater os penaltys contra a Polónia. 

Os três de quem se falava como exemplo no texto de Gelson!... e... Renato. De uns para o outro são quase dez anos de distância. 

Do atrevimento e da criatividade de outrora (que melhor equipa teremos que quando juntámos Figo, Barbosa, Rui Costa, Deco, Capucho, Paulo Sousa...) a um período de apenas relógios. Tudo porque se forMATOU. Felizmente há novas gerações a chegar que prometem diferente.

Os dois melhores modelos do Euro em confronto

É imensa a riqueza do jogo que estamos a assistir. Duas equipas com dois modelos bem definidos em todos os momentos do jogo. Em ataque posicional, em ataque rápido, em contra-ataque, em organização ou transição defensiva.

Alemanha. Mais contida nas acções por dentro. Quase sem passes verticais e sem jogo interior. Tentativa de criação de superioridade no corredor lateral para depois atacar a finalização com 3 homens em cima dos centrais da Itália. 3 centrais para fechar os dois avançados italianos. Ozil e Muller no corredor lateral mas em apoio, deixando largura para Kimmich e Hector. Reacção fortíssima à perda, abafa logo a transição ofensiva. A selecção alemã a conseguir o golo da forma como se propôs a atacar.  Superioridade nos corredores e finalização.

Itália. Os habituais movimentos a contrastar difíceis de anular. Avançados em apoio, Giacherini na profundidade. Pelle em apoio Eder no espaço. Enquadrados no corredor central espera pelos laterais para depois colocar na finalização. Saída de bola com laterais na profundidade e interiores a receber na largura. Tentativa de aproveitar maior competência técnica e maior proximidade dos interiores a receber com espaço para jogar no apoio frontal, e rodar para o outro corredor. Jogo interior e passes verticais sempre presentes. Reacção fortíssima à perda, para recuperar para trás da linha da bola em posições mais conservadoras. Bonucci a colocar na profundidade.

Kroos fora do jogo pela forma como pressionam ou simplesmente fecham o espaço Pelle e Eder. Law respondeu a isso na segunda parte deixando Kroos para trás e adiantando um dos centrais. Mantém a superioridade numérica 3x2 para os avançados italianos, e um dos centrais joga em zonas muito mais adiantadas na segunda fase de construção. Kroos apenas como engodo. Maior risco pela menor competência defensiva de Kroos. Percebeu-se na segunda parte, como contra a Espanha, um menor fulgor da Itália pela exigência física em que o modelo assenta, para médios e laterais sobretudo. Linhas mais baixas, e menor rigor.

As duas melhores equipas que tivemos a jogar o campeonato da Europa, infelizmente apenas uma tem a possibilidade de jogar a final.