sexta-feira, 24 de abril de 2015

O melhor de sempre contra o melhor de sempre

Aguardei ansiosamente pelo dia em que a ironia do futebol ditasse o confronto entre os melhores que este jogo já viu. O melhor a pensar o jogo contra o melhor a jogar o jogo. Aqui pode ler-se, "A história do jogo ditou que os dois melhores que o mundo já viu tivessem de se cruzar e construir juntos o maravilhoso futuro do jogo.
E assim foi, durante largos anos, a simbiose perfeita. Messi criava para Guardiola aplaudir." E ainda a pouco tempo Guardiola esteve lá, uma vez mais, para o aplaudir pela sua genialidade. Será tão divertido ver Messi como das últimas vezes? Uma coisa é certa, para quem gosta de futebol, de futebol a sério, vão ser dois jogos para ficar na história.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Curtas sobre o verdadeiro futebol europeu

Incontestavelmente o melhor futebol da Europa esteve em acção ontem. Aproveitem por isso, e não deprimam hoje, tal vai ser a diferença entre a qualidade dos jogos de um dia para o outro. O futebol é diversidade, é de várias ideias e concepções de jogo, dizem. Jogar contra o Bayern com linhas subidas e levar 6 é suicídio, jogar com Bayern e levar 6 com linhas baixas é estratégia. A diferença entre a estratégia e o suicídio está na cabeça de quem acha que no futebol só existe estratégia na defesa. Muito por culpa dos novos filósofos do futebol, que acham que até podem ter 1% de posse de bola, desde que ganhem, está tudo bem. É só ir para a conferência de imprensa, dizer que controlaram o jogo, que souberam gerir as próprias expectativas, que não permitiram oportunidades de golo, que criaram o suficiente para ganhar, que estrategicamente foi assim que prepararam o jogo e todos dizem que sim. Fala-se bem, com eloquência, e vai-se destruindo o futebol e jogadores verdadeiramente talentosos porque o treinador não acompanha nas ideias a qualidade dos jogadores. Não se diz que a jogar em casa o adversário criou mais do dobro das ocasiões e só não teve a sorte de as finalizar. Assim serão jogados os jogos de hoje, nada divertidos, interessa é ganhar. Enfim.

Hoje o mundo acorda normal. Mais uma grande demonstração de Guardiola, mais um dia em que os profetas do final do melhor futebol - treinador - do mundo ficam enfiados num buraco. Não há nada melhor do que fazer calar os seguidores do treinador especial 95% do tempo, dando-lhes três semanas de falsa alegria e 10 meses de sofrimento real. 

O terceiro golo do Bayern é o golo do Lateral Esquerdo - Treinador com ideias de qualidade, jogadores inteligentes na execução. Assim caminha a melhor equipa do mundo ainda que não tenha os melhores jogadores. Se tiver que escolher, continuo a preferir Lewandowski. Se Jackson é top 5 este é top 3.

Por falar em méritos, tenho a certeza que Guardiola treinou Muller para chutar contra Indi, sabendo que Fabiano tinha dificuldades e ia comprometer; e ainda treinou a pressão sobre Marcano, sabendo que ele ia chutar contra Lahm, preparando o posicionamento para posteriormente aproveitar o lance como no quinto golo. E espantem-se, a estratégia deu frutos!

Lopetegui diz, e bem, que o Porto não conseguiu ter bola na primeira parte e pagou isso caro. Mas não devia ter pensado nisso, o treinador, quando decidiu lançar a equipa no jogo como a lançou? Ainda está, para mim, difícil de digerir o postura tão menos agressora (com e sem bola) do Porto em Munique. Mas nem tudo é mau. Jackson continua a valorizar-se, apesar de Guardiola ter, desta vez, trabalhado o posicionamento de Alonso para que não fosse tão pressionado pelo colombiano, com bola Jackson continuou a mostrar o nível elevadíssimo a que se pode exibir. Mesmo quando a equipa não aparece para o acompanhar, ele aparece sempre para puxar pela equipa.

O PSG, fraquíssimo colectivamente como já se tinha afirmado por aqui, deu mais uma prova da sua enorme categoria futebolística ao permitir à Iniesta criar um golo digno de Maradona. Dizia eu que 1x1 já não existia no futebol, que era coisa do século passado, que o futebol tinha evoluído e que as melhores equipas já não deixavam esses espaços. E quando pensas que já nada pode surpreender surge Blanc a demonstrar exactamente o contrário. Diz ele que tem grandes jogadores, mas que para fazer frente ao Barcelona é preciso estar a 120%. Eu digo que para fazer frente ao melhor jogador espanhol de sempre é preciso ser forte colectivamente. Alguém acha, de verdade, que aquele lance é de um grau de dificuldade elevado? Exceptuando o último passe, não há nada ali que qualquer outro jogador que saiba conduzir a bola não consiga fazer. 

David Luiz diz que na próxima época o PSG vai lutar pela Champions. Contigo da defesa, David, isso é que vai ser uma luta hein!

Pirlo, não abandones já. Mas quando fores está garantido que o lugar fica bem entregue. Até lá, ficarei a torcer pela oportunidade de ver-vos juntos em campo mais tempo. Por isso, por vocês, estou disposto a fazer um esforço por ver o horrível futebol que se pratica em Itália. Do filme Anões que Apaixonam, Verrati surge a jogar com a cabeça e a dançar com os pés.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A ideia era não ser completamente devastado pelo futebol ofensivo de Guardiola?

O que se passa na cabeça de um treinador quando tem sucesso com uma determinada forma de jogar, contra uma determinada equipa, para adulterar completamente o seu jogo num tão curto espaço de tempo? No Dragão o Porto jogou com um bloco médio, retirou a profundidade na última linha quando alguém enquadrava. Em Munique, fechou-se nos últimos 30 metros, e contra o Bayern de Guardiola naturalmente não conseguiu ter momentos ofensivos. A melhor defesa é e sempre será a bola estar na nossa posse, a segunda melhor será sempre estar o mais longe possível da baliza. Entre os imponderáveis do quarto e quinto golos, fica um resultado pesado que penaliza quem foi para jogo apenas para jogar um momento, e bem onde o adversário o queria. As ausências de Danilo e Alex explicam algumas coisas, mas nunca explicarão o comportamento colectivo do Porto.

O essencial no treino de jovens

"Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister?"
Maldini & Lateral Esquerdo, aquiaqui, aqui, e aqui.

Não é de hoje a nossa preocupação com o treino na formação, por sabermos olhar para o que se passa à nossa volta e perceber que algo de muito errado vai na cabeça de quem operacionaliza o treino. O futebol de rua foi-se, e ficámos agarrados a isso como desculpa para o fraco desenvolvimento dos nossos miúdos, dizendo que lhes faltam horas de prática, que já não há a magia da rua. Sem nos apercebermos que, tendo as condições mudado, dificilmente se conseguirá voltar a atingir a excelência sem alterar o método, sem uma adaptação a um novo contexto. Hoje, trago o exemplo de um exercício de treino que tinha tudo para resultar, menos o essencial.
O exercício, repare, tem tudo para funcionar. A sua simplicidade (2x1+GR) não demonstra o quão rico é, e ainda mais o seria acrescentado uma ou duas regras. Mas assim como está, já tem o fundamental para que qualquer jogador jovem possa evoluir dentro de vários parâmetros. Tem oposição, tem cooperação, tem finalização, o jogo está orientado. Porém, por trás no número 11 encontra-se uma fila de 8 jogadores. E com isso, mata-se completamente o exercício, dentro daquilo que é importante para o treino dos miúdos, e aquilo que o futebol de rua levou - Empenhamento motor em situação de jogo. Cada um destes miúdos, que estiveram 15 minutos nesta tarefa teve cinco segundos de empenhamento motor, dentro da situação que interessava evoluir, para um minuto e quarenta e dois segundos parado. Leu bem?! 5s - 102s. Ao final dos 15 minutos, cada jogador fez dez remates, e esteve dez minutos parado. Perdeu dois terços do exercício a assobiar para o ar. Do outro lado, o restante grupo fazia 1x0+GR depois de ultrapassar uma pista de obstáculos, novamente com uma fila enorme associada. Sendo que desta vez, a situação ditava cinco segundos de empenhamento motor para trinta e cinco segundos de espera. Não se pretende criticar os exercícios, ou as intenções que o levaram a ser operacionalizado, desta forma, durante 30 minutos de um treino de jovens. Pretende-se sim fazer perceber que é grave, gravíssimo, um miúdo passar mais de metade do tempo em que devia estar a treinar parado. Sobretudo quando não existe uma situação social adequada para que os miúdos tenham horas de pratica sem fim, como tiveram no passado.

Sobre estes dois exercícios, e com 3 GRs e 2 treinadores disponíveis, dois terços do campo para ocupar, eu teria dividido a equipa em dois grupos, e dentro desses grupos dividir por três equipas. Jogava-se numa situação de 3x3+3 em espaço reduzido, por exemplo, sendo que quem sofria golo passava a ser Joker. Contabilizava os golos de cada equipa e quem marcasse mais ganharia o jogo. Nesta situação, em superioridade gritante, é impossível que não  apareçam os 2x1, com possibilidade de transformar em 1x0+Gr e finalizar. O que acontecerá, também, dentro deste tipo de exercícios, é que as condições para finalizar serão quase sempre diferentes, obrigando quem finaliza a adaptar-se a cada situação, com o maior ou menor grau de exigência de cada uma. Também a quem faz o passe. Poder-se-à dizer que o exercício não garante um número de remates adequado, em termos de volume, para que os jogadores registem evolução. Mas qual é o número de remates adequado para o jogador evoluir? Pois. O que cria evolução, seja qual for o parâmetro, é a dificuldade para superar cada situação. É o encontrar de problemas diferentes, em contextos semelhantes. Aparecer a finalizar de diferentes ângulos, mais perto ou mais longe da baliza, com maior ou menor pressão, com o GR mais perto ou mais longe (da bola, da baliza) - com mais ou menos tempo -, com colegas melhor ou pior colocados, com bolas a virem de sítios diferentes e de formas diferentes, com o obrigar a ocupar diferentes espaços para finalização, etc... Isto é o futebol de rua: Adaptação à vários contextos em situação de jogo, sempre em jogo.

Alguma coisa deve estar a ser muito bem feita, em Portugal, para que num futebol treinado sem bola se consigam fazer alguns jogadores de grande qualidade!
Frase adaptada de José Boto

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O monstro chá-chá-chá

Da série "Os bons jogadores jogam bem. Os grandes jogadores jogam e fazem jogar bem"

"Embora o FC Porto jogue sempre da mesma maneira, quando têm Jackson consegue fazê-lo de forma superior" Guardiola.

Em 2013 era assim: Aqui.

Ou aqui

"A Europa ainda não percebeu a sua enorme qualidade"

O colômbiano é provavelmente o melhor ponta de lança que o futebol português viu em 30 anos, e seguramente que figura no top5 do futebol mundial da actualidade.

A criar, a segurar, a finalizar. Tudo em Jackson é monstruoso.

PS - Danilo, Alex, Óliver e Jackson. Quatro ases que jogariam em todo o lado. E depois há Brahimi.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Só um Porto de grande nível poderia condicionar a equipa de Guardiola como na segunda parte

Na ante-visão do jogo, aqui, Vítor Pereira dizia que seria um jogo da agressividade contra a posse. Venceu a agressividade, sobretudo porque na segunda parte conseguiu condicionar com a pressão o jogo de passe do Bayern, levando os alemães a perderem o discernimento, cometerem muitos erros, e em muitos momentos a permitirem recuperações de bola em zonas recuadas. A primeira parte foi diferente (atípica), e mais de acordo com aquilo que seria de esperar. Mas a entrada do Porto na segunda parte, desequilibrou completamente o jogo, deixando Guardiola sem reacção. Pressão, pressão, pressão. Depois, com bola, o Porto teve critério, como é habitual, tentando sair com qualidade para o ataque. Assim, com critério e qualidade, é que se enfrentam e se derrotam equipas deste tipo. Lopetegui não desistiu de pressionar como faz normalmente, não desistiu de reagir forte no momento da perda, não desistiu de tentar jogar como o faz normalmente com bola, e teve frutos.

Para um Porto destes aparecer, só com jogadores de nível mundial como Jackson e Oliver. Já não há palavras que sobrem para descrever estes dois monstros que actuam, hoje, na mesma equipa do pequeno campeonato português.

PS: Um jogo não são jogos, e por isso a segunda volta será duríssima!

Liga dos Campeões

Os finalistas da Final de Lisboa ofereceram-nos mais um espectáculo deplorável, na prova que se diz ser o melhor futebol da Europa. Mas hoje, como não estão na Final, já me é permitido criticar o futebol medíocre com que sempre nos brindaram. Se isso é o melhor que a Europa tem, algo de muito errado vai no futebol europeu. Como não acredito em nada disso, nem no futebol praticado por nenhuma das equipas que jogaram ontem, a minha Champions particular começa hoje.

Oblak está nas bocas do mundo por uma exibição fantástica, ontem no Calderón. O que muitos se esquecem é que Oblak ontem, era ainda mais fantástico do que hoje. Onde joga, actualmente, tem um modelo de jogo de equipa pequena cujas ideias o empurram para a baliza. Onde jogou, a jogar com ideias de jogo de um grande,  teve um modelo de jogo que o puxava para fora da baliza. E assim, era maior do que o é hoje. Tinha de estar mais concentrado nos pormenores, dominar o espaço entre ele e a última linha, saber jogar com o fora de jogo, ser imperial no espaço que a organização não ocupa na bolas paradas. E dessa forma, nunca foi obrigado a fazer mais do que uma/duas defesas fantásticas dentro dos postes, e era fora dele que era mais fundamental. Quem ainda não percebeu que Jesus está muito à frente de todos os outros no momento defensivo, e quem diz não pode ser um génio na área em que opera por falar mal português, por não ser eloquente, por ter uma imagem que não cativa, vai continuar a falar de jogos de futebol como fala o LiveScore.

António Tadeia, disse à RTP que o futebol do Barcelona o aborrecia. A desinformação que existe no futebol parte muito por aí. Por quem tem a suposta obrigação de informar. Se quem informa, como jornalista desportivo, não está preparado para exercer, qual é o critério que leva à que estes senhores, pagos e bem pagos, sejam escolhidos para que a sua opinião seja divulgada na imprensa? Gostava que alguém perguntasse ao senhor Tadeia o porquê do futebol do Barcelona ser aborrecido. Não é por isso de estranhar a minha desilusão com a conferência de imprensa de Guardiola. Perguntaram ao homem sobre Lopetegui no passado, sobre a final de 87, sobre a qualidade dos jogadores do Porto, sobre poder encontrar outro antigo companheiro de equipa na próxima fase, sobre o estado da produção de chinelos na Índia, e a sobre a plantação de Laranjas na Malásia. Futebol que é bom, zero. Ninguém foi capaz de perguntar em que sistema táctico ia jogar, de que forma é que esse sistema se iria articular por forma a anular o FC.Porto, ou de que forma se rouba a bola a uma equipa que gosta de a ter. Enfim. Interessa mesmo é saber se a temperatura do frigorífico em casa do homem é a adequada para não deixar congelar os alimentos.

"Enquanto temos a bola, temos possibilidade de atacar e o adversário não o pode fazer. Quando a temos, o problema é o que fazer com ela, onde a temos e porque a temos. É para estas questões que um treinador procura sempre respostas e tenta melhorar.
(...)
Evidentemente que, quando mais posse de bola, mais hipóteses temos de ganhar o jogo, mas o futebol não é uma ciência exacta. Temos que ser agressivos em posse e alternar o estilo de jogo ofensivo, com diferentes opções frente a diferentes adversários.
(...)
Uma evolução no futebol é que actualmente temos menos tempo e espaço com a bola. A evolução táctica e física do jogo leva a que os jogadores tenham menos tempo para decidir sobre o próximo passo, para receber, rodar e jogar. Os jogadores são obrigados a agir de forma mais rápida e precisa
(...)
Isto torna os jogadores melhores. Este não é um desporto que se possa medir em segundos ou em metros, como muitas outras modalidades. A evolução do futebol leva a que seja cada vez mais difícil jogar bem, criar espaços e reagir rapidamente. Esta é a principal luta das equipas
(...)
Pode ser negativo se tivermos a posse de bola e não soubermos o que fazer com ela. Em teoria, se uma equipa tiver 100 por cento de posse de bola não pode sofrer golos. Queremos ter a bola o mais possível, não por motivos estatísticos, mas para ganhar jogos
(...)
Em teoria, não podemos sofrer golos se mantivermos a bola durante todo o jogo, mas podemos perder com uma equipa que tenha apenas 20 por cento de posse de bola"
Lopetegui ensina-nos sobre o jogo, sobre futebol, sobre o seu futebol. Em Portugal, ninguém nunca pensou em perguntar-lhe sobre isto numa conferência de imprensa. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Percebo, Nolito, que não sejas apreciado. Um extremo que recebe no corredor lateral e não cruza, não pode ser bom.

"Isto é, regra geral, sim, é errado arrancar com a bola para a linha de fundo, porque torna o teu jogo mais previsível e menos passível de ser bem sucedido. De lá só podes seguir para um lado, porque todos os outros a bola sai do campo. Mas, tal não significa que seja sempre errado. Depende da tal situação de jogo. É isso que condiciona a boa decisão.
(...)
Para não dar a ideia de que tudo se resume a ir por fora é mau e por dentro é bom, esquecendo a especificidade do que influência a tomada de decisão (a situação de jogo) trazemos o exemplo de um jogador que opta na maioria das vezes pela melhor opção para a sua equipa, mesmo que isso o "apague" aos olhos dos adeptos.
(...)
Há sempre muita subjectividade, para além do caos, associada ao jogo de futebol. É todavia muito difícil conceber como consegue alguém não perceber aquela que é a maior qualidade do espanhol. Qualidade que se faz notar em pequenos pormenores próprios de quem joga sempre com a cabeça ligada. Quem joga com o adversário (posicionamento, não nome, óbvio) e com os colegas. Portanto faz-se um finca pé com o nome dum adversário, mas desdenha-se alguém que usa até, para além do espaço que o mesmo ocupa, a posição dos pés deste para decidir. É caso para dizer que por mais livros e artigos que se leiam ou definições que se decorem, tal não garante nunca a compreensão do que realmente importa. É que decorar é absolutamente diferente de perceber. Um está ao alcance de todos, o outro não."

"Se há coisa que o futebol moderno mostrou, nos últimos 5 anos, é que os extremos à moda antiga, extremos que privilegiam o jogo exterior e que têm por missão ganhar a linha de fundo, seja para cruzar para o avançado finalizar, seja para contemporizar e esperar a entrada de um médio, têm os dias contados. O futebol moderno não se compadece de quem passa tanto tempo alheado dos companheiros e tão longe do centro do jogo. Isto porque o futebol moderno se joga principalmente pelo meio, usando as linhas apenas para forçar a que o adversário abra espaços no meio. Nenhum extremo que esteja entre os melhores do mundo actualmente é um extremo à moda antiga. Ou são jogadores capazes de aparecer na área para finalizar, como Ronaldo, ou são jogadores que deambulam pela frente de ataque, para criar desequilíbrios noutras zonas, e são extremos apenas no papel, ou são jogadores que, partindo da posição de extremo, procuram sistematicamente vir para dentro, para combinar com os companheiros, para entrar em zonas centrais e para criar superioridade numérica onde ela é fundamental. Neste sentido, a um extremo pede-se essencialmente que saiba decidir, que saiba identificar correctamente os espaços centrais a invadir, que saiba fornecer aos colegas linhas de passe, quer exteriores, quer interiores. O que mais me impressionou em Nolito foi sempre o não ser um extremo à moda antiga em nenhum aspecto. Com bola,  a sua primeira preocupação é procurar um colega no espaço entre linhas; a segunda é vir para dentro e lateralizar; sé em último recurso joga ao longo da linha. Mas é sem bola, a solicitar linhas de passe constantes, que Nolito é fora de série. Neste capítulo, é dos extremos que conheço um dos que mais se preocupa com as soluções de passe dos colegas. Identifica rapidamente aquilo de que o portador da bola vai precisar e encarrega-se rapidamente de se deslocar para o sítio certo. E é esta capacidade de decisão invulgar que faz dele um extremo diferente, um extremo como todos os extremos deveriam ser, no futebol actual." Entre Dez;

"O Nolito tem uma experiência de treino e de jogo que lhe permite decidir com mais velocidade. Parece que é mais rápido que o Ola porque está formatado para um tipo de jogo onde as opções de passe são mais que muitas, logo, consegue identificar as pistas que o envolvimento lhe dá para decidir. Dizem que ele é previsível porque vem sempre para dentro, mas orienta para dentro para ter mais opções. Se for para a linha só pode cruzar, para dentro pode tudo. Nolito tem uma capacidade de decisão fenomenal" Centro de Jogo;

"Nolito é uma bênção para qualquer treinador que não tenha intenção de viver das acções individuais dos seus jogadores. Percebe o jogo e por isso tem uma capacidade de decisão excelente, característica incomum nos extremos. Podemos vê-lo de cabeça levantada, pensando, decidindo, acelerando, temporizando, com uma capacidade de ler o jogo muito acima da média, consegue perceber as desmarcações dos colegas e isso associado a uma boa qualidade de passe, facilmente os coloca em situações de 1x0. O timing de passe ou de desmarcação são pormenores que escapam a muitos, mas é daquelas coisas que realmente fazem diferença. A isso tudo, ainda consegue juntar uma precisão impressionante na hora de finalizar. Não é difícil de o imaginar a jogar no meio, o que é um indicador da qualidade das decisões que toma. Embora seja competente, a sua capacidade de execução não é de top, de resto, Nolita pensa o jogo como os melhores. Reconhece as suas limitações e por saber exactamente o que pode ou não fazer, exponecia os seus recursos de forma fabulosa" Posse de Bola.

Excertos de 6 de Agosto de 2013, Aqui.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A qualidade dos jogadores formados é o reflexo da qualidade dos formadores

De um artigo antigo, mas bastante recenete de Breitner sobre as mudanças do futebol alemão, e uma caixa de comentário onde "o treinador português" não aceita a crítica que lhe é dirigida. Carregue no link, veja a exposição de Breitner, leia a caixa de comentários, e este último depoimento do Pedro Cardoso. Não é nada que não soubéssemos já, porque aqui não se acredita que tão profundas mudanças no perfil dos jogadores formados, na qualidade dos mesmos, não estejam directamente ligadas à qualidade de quem tem a responsabilidade de formar. 

"Aqui existe um trabalho de formação a nível nacional, ou seja, começa-se por formar os treinadores em sintonia com as diretrizes fornecidas pela Federeção Alemã de Futebol às Asscociações de Futebol dos vários estados. Começa-se por ter essa formação no âmbito estadual e a partir de certo nível passa-se para a formação a nível nacional. Aqui reside logo uma diferença estrutural em relação a Portugal, uma vez que existem muito mais níveis e o acesso a esses níveis só é concedido com mérito! O número de treinadores habilitados para Treinar nas Ligas profissionais é cerca de 2% de todos os treinadores do país. E não há cá a possibilidade de saltar níveis por experiência etc. à excepção de jogadores que jogaram pelo menos 5 anos na Bundesliga ou tiveram alguma internacionalização pela seleção Alemã. Mas ainda assim, estes, podem ir diretamente para os cursos Federativos, mas com 3 níveis de formação para ultrapassar caso, queiram treinar as ligas profssionais e de referir que esses cursos são avaliados a sério (segundo dizem) e acredito. Depois, os treinadores que trabalham nos escalões de formação são observados por treinadores/formadores das Associações ao longo da sua atividade e uma vez que têm de renovar a sua licença de 3 em 3 anos, essas avaliações feitas têm influência também na renovação de licenças.
As diretrizes da Federação que de certa forma apontam o caminho que eles consideram ser o ideal, são claras, ao nível dos escalões de formação, o treinador não tem de as seguir, mas também dificilmente terá a licença para exercer e dificilmente encontrará trabalho em clubes mais prestigiados. O facto de haver tanta formação de treinadores, provoca também um aumento da qualidade de todos os agentes desportivos. Inclusivamente de pais. O curso é tão barato e com condições tão boas (estadia, alimentação etc...) que até pais vão tirar o curso de nível mais baixo só para poderem acompanhar melhor os filhos. Agora pensem, como todos estes factores conjugados podem influenciar a qualidade do treino e consequentemente do jogador. Depois em termos de incentivos financeiros, claro que a Alemanha é economicamente muito mais forte que Portugal e daí ser possível realizar este investimento. O que permite também, e para mim, esta é a principal condição que inibibe o desenvolvimento do jogador portugues, que o treinaor viva do futebol, nos escalões de formação, sem ser num grande clube da Bundesliga e por não ter de se afirmar taticamente nos escalões de formação para poder subir na carreira e ser treinador profissional."


Sobre a brilhante mudança de pensamento dos actuais Campeões do Mundo, fica mais uma história. À porta de um Euro de sub19, Meyer e Werner (Schalke e Estugarda) que foram utilizados durante a fase de qualificação foram deixados de fora de Euro. Para quem conhece a qualidade dos jogadores referidos pode parecer estranho, porque eram claramente as estrelas da companhia. Acontece que os dois, nos respectivos clubes, tinham conquistado espaço na equipa sénior e por isso, a decisão de os levar ao Europeu tinha como consequência directa o perder da pré-temporada nos seus clubes. Para que não perdessem espaço nas escolha dos seus treinadores, e conseguissem competir de igual com o restante plantel, a decisão foi óbvia. Nunca nenhuma Federação do Mundo sonhou sequer tomar tal decisão, nem mesmo a espanhola. Mas formação é mesmo isto. Tomar todas e mais algumas medidas que vão ajudar o jogador no futuro. Formar não é ganhar agora, é ganhar no futuro. E na Alemanha pensa-se como em nenhum lado do planeta nisto. Olha-se para Portugal, e quem viu a final do Torneio da Pontinha, percebe que aqui nos encontrámos numa espécie de planeta dos macacos, tal é o atraso ao nível da mentalidade.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Conta Xabi, que percepção tens do que te pedem em campo? O futebol como um jogo de probabilidades. Onde se volta a falar de André Martins.

"I have to make a huge number of small yet corrections decisions. Sometimes my play includes a dream pass, and that's one of the higlights in my job, allong with the goals I don't score all that often. But more important than those moments are the many small and at first, seemingly insignificant passes or shifts in play that might give one of my team mates a chance to play or driblle or plays them effectively. I believe in being able to read a match well and control it, and that's the basis of what I do." Xabi Alonso

Num momento em que o jogo é do ponto de vista técnico e físico, cada vez mais equilibrado (longe vão os tempos em que só os grandes clubes treinavam), as tomadas de decisão surgem como um dos traços mais decisivos no jogo moderno.

Por tomadas de decisão, deve entender-se, as opções que cada jogador toma a cada momento (com ou sem bola). Para onde deslocar? A que velocidade o fazer? Que espaço ocupar? Para onde desmarcar? Quando soltar a bola? e para onde? Quando progredir com a bola?

Cada situação de jogo tem uma forma mais eficiente de ser resolvida. Tal não significa que optando pelo pior caminho, se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que, optando bem, se será sempre bem sucedido. Significa somente que, optando bem, está-se sempre mais próximo de ser bem sucedido.

Exemplo simples. Numa situação de 2x1, o portador da bola deve progredir com a bola no pé, no sentido da baliza, soltando a bola, no timing correcto (bem próximo do defesa), para que a bola saia para as costas do defesa. O passe deve ser efectuado para o espaço (e não para o pé do colega, por forma a que este não trave a corrida). Ou seja, de uma situação de 2x1, pretende-se passar para uma de 1x0.

Se em dez situações de 2x1, o portador da bola (no momento inicial, antes do passe), for capaz de as resolver dessa forma, provavelmente a sua equipa fará 8,9 golos, ainda que nenhum marcado por si (uma vez que acabará por fazer o passe para o colega de equipa).

Se na mesma situação, o portador da bola optar por driblar o defesa, e mesmo partindo do princípio que os seus traços individuais são bastante bons, provavelmente, em dez lances, marca 4,5 golos.

Os jogos em que, optando mal, se chega ao golo, são óptimos. Porém, em termos globais, a equipa sai prejudicada. Os 5 golos marcados dão notoriedade aos olhos do comum adepto. Mas, não são o que de melhor poderia ter dado à equipa.

Quem toma as melhores decisões a cada momento, tem a sua equipa, sempre mais próxima do objectivo (marcar, não sofrer, ganhar). Mesmo que não obtenha tanta notoriedade.

A situação descrita é uma situação de finalização, por ser de mais fácil compreensão. Porém, é importante perceber-se que as decisões se aplicam em todas as situações do jogo. Por mais banais que lhe pareçam. É que, para se chegar a uma situação de finalização, há todo um trabalho prévio, tão importante quanto o último momento (que nunca surge, quando a fase que antecede a finalização não é eficiente).

Numa equipa desorganizada, talvez seja interessante ter jogadores que, jogando só para si, sejam capazes de, tempos a tempos, criar algo. Num colectivo que se pretende forte, tal não faz sentido.

Texto originalmente publicado no blog em 2009. Desta feita com as recentes declarações de Xabi Alonso.

Demasiadas vezes a boa tomada de decisão, sobretudo em fases como a da construção e criação, chega até a afastar o jogador da notoriedade, porque este está apenas preocupado com o proporcionar à sua equipa uma boa situação de jogo (com menos oposição e bola mais enquadrada com a baliza). É, por exemplo o caso do post anterior. Um extremo que a um toque coloca um colega de frente apenas para a defensiva adversárias e bem enquadrado no corredor central. O passe de Ola John para Djuricic poderia ter saído mal, mas a decisão teria sido óptima. Já se tomasse a liberdade de arrancar pela linha e tirar um cruzamento, mesmo que tivesse dado golo, teria sido uma má decisão, porque as probabilidades de chegar ao golo dessa forma são incrivelmente mais reduzidas do que fazendo a bola chegar a um colega enquadrado no corredor central só com a linha defensiva adversária à sua frente.

Em 2013. também no Lateral Esquerdo, em tomada de decisão, esse mistério que determina quem vence mais.

O grande público tende a dominar pouco quando se trata de avaliar a competência individual dos atletas, sobretudo quando estes andam afastados da notoriedade. No post passado foi mostrado um video de uma acção de André Martins pouco mais que banal, mas que provavelmente em 2/3 dos atletas da Liga teria dado transição adversária. É no simples que começa a construção. É a construír que André deveria ser mais chamado. Afinal, é o melhor médio leonino nesse capítulo.