- Não há meio campo. O Sporting joga num 4x1x4x1. Há cinco jogadores estacionados nas imediações da grande área adversária, bastante longe dos colegas de equipa. Se a eles juntarmos inúmeras vezes a subida dos laterais, ficam sete jogadores (bem) à frente da linha da bola. Demasiado longe dos colegas e sem trabalho para receber, percebe-se o porquê de aos vinte minutos de jogo, já os centrais leoninos terem por uma mão cheia de vezes solicitado os distantes colegas em passe longo;
- Se ofensivamente, jogar com quatro médios ofensivos, coarcta a possibilidade de a bola chegar com assertividade às zonas mais adiantadas do campo, defensivamente o Sporting não melhora em um milímetro. Se exceptuarmos o espaço imediatamente à frente dos centrais, que é ocupado pelo trinco, há um buraco enorme entre os defesas e os médios. E não admira que os defensores leoninos tenham sido mais vezes chamados a intervir que os madeirenses. Enquanto num lado, os médios servem de "tampão", sendo eles os primeiros responsáveis por sair à bola, no Sporting, defensivamente, os quatro do meio campo estão sempre a jogar contra a maré. Sempre a procurar recuperar metros, face ao adiantado posicionamento inicial;
- Ainda defensivamente, e comparativamente por exemplo, com o que Jorge Jesus faz quando joga com um único médio, o Sporting torna-se ainda menos seguro. Porque a sua linha da frente não faz pressão e deixa desde logo o adversário chegar com mais qualidade ao espaço entre sectores, ou porque quando faz e obriga o adversário a sair de forma directa, os cinco que ficam atrás são incapazes de matar o ataque logo na primeira bola. Mesmo quando a ganham, demasiadas vezes a bola fica a "pingar" no espaço defensivo. Com os médios tão longe, é difícil impedir o adversário de ficar com a sua posse, após o primeiro duelo no ar;
- Se lhe parece que Schaars joga próximo do trinco, está enganado. Por vezes, quando a bola é colocada no espaço descoberto entre sectores, é o holandês que recupera mais rápido. Somente por isso lhe pode dar a sensação que o Sporting joga com alguém próximo do trinco. Schaars joga nas costas do ponta de lança, ladeado de outro médio centro ofensivo, e de dois extremos;
Não parece que este modelo tenha possibilidades de levar Domingos ao sucesso. Ainda assim, se for para manter, talvez algumas alterações nas suas opções pudessem melhorar o jogo do Sporting. Assim:
- Rinaudo tem de jogar. Duas razões emergem para que tal seja uma obrigatoriedade. O trinco joga demasiado longe dos restantes médios, e é por vezes obrigado a controlar toda a largura do campo naquela linha. O argentino tem uma reactividade que André Santos jamais terá. Chega muito mais rápido ao adversário que o português, e será, individualmente, mais capaz de suprir as deficiências do modelo de Domingos. Também ofensivamente, mostra-se mais capaz de ligar os corredores. As suas coberturas ofensivas foram sempre mais próximas da bola, e revelou-se sempre mais apto para dar seguimento às jogadas ofensivas, quando a bola tem de recuar. Contra o Maritimo, e porque havia demasiada gente à frente da linha da bola, de cada vez que era preciso jogar num apoio, a bola tinha de recuar inúmeros metros até aos defesas centrais, permitindo dessa forma respirar e restabelecer a organização madeirense. Ao contrário de André Santos que pareceu mais preso ao corredor central, Rinaudo mesmo que demore um pouco mais a decidir, está sempre mais próximo da bola;
- Schaars não tem características que o possam fazer jogar no actual modelo. O problema estará sobretudo no modelo, mas insistindo nesta forma de jogar, o holandês terá de ficar de fora. É o tipo de jogador que pode encaixar com grande categoria num 4x3x3, com médios interiores. Para jogar tão próximo da grande área adversárias, falta-lhe criatividade. Naquela zona, nem sempre importa jogar a um, dois toques. Demasiadas vezes, especialmente quando se criam situações de superioridade númerica em determinada zona, impõe-se o transporte de bola, atacando o adversário directo, para posteriormente soltar a bola para as costas deste, na direcção de um colega. Schaars, não tem outra solução que o passa e recebe. É demasiado curto para quem joga tão adiantado.
P.S.- No lance do segundo golo do Marítimo, há uma histeria colectiva crucificando o passe de João Pereira. É óbvio que tudo nasce do erro técnico de João Pereira. Há que perceber, contudo, que erros técnicos acontecem, e irão continuar a acontecer. E é óbvio que quanto maior for a qualidade do interveniente, menos erros dessa natureza cometerá. Todavia, é muito mais preocupante o comportamento do lateral no momento seguinte ao mau passe, que propriamente o erro técnico, que reafirma-se, ninguém está a salvo de cometer. Pereira não soube reagir. Desatou a correr na direcção do portador da bola de forma desenfreada, quando deveria ter recuperado rapidamente para a linha defensiva, e somente uns segundos mais tarde adoptou o comportamento que se impunha desde o início. Demasiado tarde, porém. Sami já tinha recebido a bola com total à vontade no espaço desocupado, e já se dirigia para o corredor central preparando o remate.

14 comentários:
Que achaste da defesa do Sporting nos cantos?
Defesa mista muito estranha, em que o único jogador que ficava no homem era o improvável André Santos (com Robson), e em que nenhum jogador ficava no 1º e 2º postes.
N vi os cantos :S
Tive a rever o jogo a fazer umas pausas, mas qd era canto punha para a frente. Preocupei-me somente com o jogo jogado.
Quanto ao André Santos com o Robson, pode ter uma justificação. Nunca vi os cantos do Maritimo em jogos anteriores, mas por exemplo, o FCP do Jesualdo usava mtas x B.Alves nos cantos, nao como alguem q finalizava, mas como alguem q ganhava a 1a bola (cruzamento mais em balão q tenso) e a devolvia para uma zona pre-definida onde aparecia alguém. Lembro-me que na final da taça da Liga, o Jesus meteu o C.Martins como unico jogador a marcar ao homem e o B.Alves.
A estranheza dessa opção, e q pode estar relacionada c a opção do André com o Robson, é o saber que aquele tipo não vai finalizar. Então importa colocar alguém a incomodá-lo, pq vai receber a 1a bola, mas como n vai finalizar n vamos queimar alguém alto e forte a atacar a bola em quem não vai finalizar, mas guardamos esses jogadores para a zona onde a bola irá cair depois da assistencia do B.Alves ou nesse caso o Robson.
É claro que seria interessante ganhar logo a 1a bola, mas no caso do B.Alves, se a bola fosse p o seu espaço e em balão, seria impossivel impedi-lo de a ganhar, pelo q nem valeria a pena queimar lá o Luisao, por exemplo.
Como disse, n revi os cantos, nem tenho conhecimento do que faz o Maritimo, nem das capacidades do Robson. Mas, só assim me parece que se justifica essa opção.
PB,
Finalmente leio alguém que lê (a meu ver) correctamente a acção do JPereira logo após a perda de bola.
Ontem atrevi-me a ver aquela espécie de programa que fala de futebol na TVI (para ver resumo do Sporting) e tanto o JVP como o Pedro Barbosa afirmaram várias vezes que a recuperação defensiva do Sporting após a perda de bola foi exemplar e que o golo é mérito exclusivo do atacante. Inclusive um deles elogiou a recuperação do JP! Fiquei parvo a pensar que só eu é que tinha visto o João Pereira a correr feito parvo atrás da bola mas pelos vistos não...
SDS
RB
Mais um clique...
Ricardo, muito obrigado. Mas, já não é necessário. A google achou que eu estava a ganhar demasiado e tirou a pub ganha ao click...
Precisará o Izmailov, realmente, de alguém tão perto de si, tendo em conta que a equipa joga com alas...?
Porque não recuar ligeiramente o Schaars (até o André aí podia jogar, perto do Rinaudo, pois não estaria tão sozinho como no último jogo) para mais perto do médio defensivo?
Teria efeitos assim tão negativos na organização ofensiva da equipa, e em Izmailov, ou até fazia com que a equipa não tremesse tanto quando o adversário tivesse a bola na zona do meio-campo?
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Obrigado,
Tiago Rodrigues
Caro PB,
Como disse há dias, este é um blogue de leitura obrigatória. Agora que estou de férias, até me permito uns comentários.
As análises que desenvolve permitem a alguém como eu uma outra leitura dos jogos. Permitem mesmo uma nova leitura do jogo. Só que existe uma preocupação, a meu ver, excessiva, em explicar os jogos através de análise mas sistémicas e holísticas. Como sou engenheiro de formação, percebo isso lindamente. Todos os resultados decorrem de causas e essas causas podem ser controladas “ex ante”.
Em muitas actividades e em muitas modalidades mesmo, as coisas são um pouco assim. No futebol os resultados, muitas vezes, são explicadas por incidências que são imprevisíveis e de uma imprevisibilidade irredutível.
Isto tudo para dizer que o Sporting perdeu por várias razões, mas as principais não foram de ordem táctica. O Sporting perdeu porque a sua defesa foi absolutamente incompetente em lances de bola parada. Nada mais. Para tudo o que aconteceu, releva pouco, a meu ver, se o Schars joga mais assim ou assado.
Em condições normais, o Sporting depois de marcar um golo teria ganho o jogo. A moral da história seria outra. Como, ainda por cima, os comentários são sempre desenvolvidos em função dos resultados, procurando validar e legitimar “a posteriori” o que aconteceu, tantas vezes, por acaso, até se concluiria que o sistema táctico teria sido correcto porque tinha produzido os resultados desejados.
Com isto tudo, repito o que disse, as suas análises têm-me permitido ver os jogos de outra forma.
Cumprimentos
Boas Rui. Concordo em absoluto.
Mas, também terá de concordar que se o Sporting fosse capaz de criar ocasiões de golo com fartura. E reais ocasiões de golo. Não remates de fora da área... não teria de depender tanto da sua competência a defender cantos, ou da inabilidade (ou habilidade) do árbitro.
Posto isto, enquanto for mantendo aquela linha de 4 à frente do trinco, o Sporting provavelmente vai estar sp dependente de muitas coisas que não pode controlar. Umas vezes vencerá. Outras não.
Abraço e obrigado pelos elogios.
E já agora. Se n fosse o Evaldo a ter de sair à bola, mas sim um médio quando faz aquela falta parva que origina o 1o golo. Se o J.Pereira n tivesse a equipa tao longe (os 4 médios na linha lá bem à frente) qd erra o passe, se calhar n o tinha errado.. o 3o golo é já em inferioridade, já nem conta.... talvez as coisas tivessem sido diferentes também defensivamente.
Quem anda à chuva molha-se...é mais ou menos por ai.
Caro PB,
Aí está uma coisa com a qual concordo. O Sporting tem criado muitos lances com algum perigo. Não tem criado com frequência lances de golo feito. Esta é uma análise muito factual, que me espanta que não seja referida mais vezes.
Esta mistificação leva a alguma miopia na análise dos jogos do Sporting. No ano passado começou assim. O problema das bolas nos postes foi sempre uma mistificação. Resultavam, quase sempre, de ressaltos, remates de fora da área, atrapalhações e afins. Isto permitia dizer ao Paulo Sérgio que tinha azar, quando de facto o Sporting não criava verdadeiros lances de golo.
Só não concordo completamente com a sua análise num ponto. A maior parte das equipas portuguesas defende mais ou menos competentemente e depende quase em exclusivo de lances de bola parada para causar perigo. De vez em quando lá vem um outro que marca um golo de bola corrida numa biqueirada, porque não tinha opções e não sabia o que fazer à bola. Esta é uma questão estrutural do futebol português, para a qual muito contribuem os árbitros portugueses com a marcação de faltas e faltinhas. Ser competente a defender as bolas paradas é fundamental; como também e fundamental saber marcar em lances de bola parada; coisas que o Sporting não sabe fazer há anos.
Cumprimentos
Isso é verdade... Cabe ao Domingos com os jogadores que tem corrigir isso.Mas, essa e por mais voltas que se dê nos processos colectivos, é também uma lacuna individual dos jogadores do Sporting. Mesmo os que possam ser mais altos, são fracos no ataque à bola, que é diferente de cabecear bem ou mal.
Bela conversa... Keep it up!
Abraço
Márcio Guerra, aliás, Bimbosfera
Bimbosfera.blogspot.com e agora também Blog do Manuel
Boa noite.
Na minha opinião, o problema do sporting não é ter 4 jogadores à frente do trinco, o problema é eles não estarem bem posicionados para equilibar a defesa com o ataque. Como bem disse, estão "bem lá a frente". Também é verdade que parece não treinar as bolas paradas à anos. É a maior fraqueza defensiva e não se tiram muitos proveitos dela no ataque.
Em relação aos jogos, gostei mais do sporting neste jogo quando tinha a posse da bola e (finalmente!) circulava com a bola no pé constantemente, com bola no chão e passes curtos e médios, e procurava os melhores passes de modo a manter a posse da bola e desequilibrar o adversário. Infelizmente, a equipa ainda está muito habituada à estratégia anterior de passar para as costas da defesa adversária à espera que os avançados apanhem a bola (algo que, na minha opinião, não faz qualquer sentido quando temos jogadores como o Yannick e o Postiga que podem ser rápidos mas atrapalham-se e têm má recepção), ou como gosto de chamar, a estratégia "Sóbe Algés!", o que é ainda pior quando o adversário já está organizado defensivamente.
Gostei muito mais da atitude defensiva nestes últimos jogos também. O antigo sporting era muito passivo e não pressionava o adversário excepto quando este já estava em cima da área. Agora mostrou-se muito pressionante defensivamente, fizemos muitas intercepções e impedimos o Marítimo de atacar vezes sem conta (o 4 à frente do trinco contribuíu muito para isso, impedindo os primeiros passe de um ataque ou contra-ataque). Acho que o facto do Polga estar a jogar melhor agora é exactamente por este aspecto pressionante defensivo estar muito ligado à forma como ele joga.
Outro problema do sporting é a atitude de ambos treinador e jogadores (mas não todos). O treinador é o exemplo a dar, toda a gente sabe disso. O treinador também tem de assumir as responsabilidades para deixar os jogadores concentrarem-se apenas no seu trabalho para melhorar o seu rendimento (algo que o Mourinho adora fazer). O Domingos foi o primeiro a sentar-se quietinho no banco e fazer "não" com a cabeça constantemente em vez de incentivar os jogadores, é claro que os jogadores seguiram o exemplo. Ele também vem falar do comportamento dos jogadores aos média, colocando pressão desnecessária nos jogadores , se tem problemas com isso resolve dentro do balneário e nos treinos, os média não são para aqui chamados. Mas os jogadores também têm de melhorar o seu comportamento sem dúvida. No 1º golo, Postiga fingiu que ía cortar a bola que passou mesmo à sua frente. No 2º golo, Carríço estava a saltar na direcção errada enquanto o seu jogador estava sozinho para marcar o golo. JP anda muito com "o nariz empinado" e faz asneiras (deve ser do lugar de Vice-capitão). Djaló, como de costume, só corre.
Acho que Domingos tem de começar mesmo a prestar atenção ao rendimento dos jogadores em competição e não em treino (lembram-se do Quaresma no Inter? Mal jogava, mas o Mourinho bem dizia "Faz tudo o que eu quero nos treinos e é muito bom jogador, mas não faz o mesmo nos jogos") e também tem de pensar melhor nas substituições, titularidades (Yannick+Postiga como titulares? ficar sem subs aos 60 mins?) e quem pode vir a ser um bom capitão (Carriço e JP como capitães é uma anedota muito má).
Bem, grande testamento, já disse demais. Mas esta é a minha opinião.
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