sexta-feira, 29 de junho de 2012

Abandono precoce do desporto. O papel dos treinadores.

Porque há imensos treinadores de jovens a ler o blog, aqui fica um texto muito pertinente que deve servir de reflexão para todos quanto os que lidam com crianças na sua actividade. 

"Pedro Teques
Departamento de Psicologia e Comunicação da APEF"


"No desporto, como em muitas outras actividades, os adultos podem ajudar as crianças e jovens a desenvolverem os seus interesses e a optimizar as suas capacidades pessoais. O treinador de jovens apresenta-se como um excelente exemplo em como poderemos maximizar essas oportunidades.
As crianças, de uma forma geral, querem ser bem sucedidas na actividade desportiva que escolheram para praticar. Se regredirmos à nossa infância, e colocarmo-nos nessa posição de ser criança no desporto, facilmente nos lembramos dos sonhos de glória – fazer o tal golo no último minuto. Cada movimento, cada remate, cada execução que é realizada num treino ou jogo, é um marco que pontificará na memória.
Quando se desenvolve uma actividade desportiva com crianças, os adultos significativos (e.g. treinadores, pais) têm a oportunidade de auxiliá-las perante aquilo em que elas são mais vulneráveis – a competitividade precoce. Isto é, os treinadores, os pais, os dirigentes ou os juízes, podem desenvolver a competição sob a perspectiva de fomentar auto-percepções positivas e a auto-aceitação nas crianças. Estes adultos significativos são responsáveis pelo desenvolvimento do divertimento e do carácter, e rejeitar os abandonos precoces da prática desportiva. Idealizando a figura do treinador neste sentido, ser treinador de crianças e jovens não se circunda, unicamente, sob a perspectiva metodológica do treino. Ser treinador de jovens é muito mais do que isso! Implica ter conhecimentos acerca do desenvolvimento da criança, compreender o seu pensamento e a sua cognição. Saber que as crianças e jovens que dirige e auxilia no desporto percepcionam-no como um modelo social a seguir e a respeitar.
Geralmente, os treinadores de crianças querem fazer bons trabalhos, isto é, desenvolver talentos, optimizar capacidades técnicas, fazer a equipa jogar bem, etc. Em muitos casos, alguns desses treinadores são voluntários, que tiveram um passado na prática do futebol, que gostam do treino e do clube. Mas, um mau delineamento dos desígnios pedagógicos e didácticos no treino pode causar graves danos no futuro das crianças e jovens. O que, hoje em dia, de uma forma sucessiva tem vindo a acontecer, é o abandono precoce da prática desportiva. Os treinadores são a figura principal no processo de formação desportiva da criança. A sua má conduta leva ao decréscimo da confiança e da motivação, criando uma barreira entre a criança e a prática desportiva que tanto gostava de praticar. Se foi fácil para um treinador esquecer o jovem atleta que abandonou a equipa a meio da época porque não jogava o suficiente, ou porque, não se divertia, talvez esse mesmo treinador veja, somente, o desporto a partir da vitória e da derrota, e das medidas para alcançar o sucesso rápido na formação.


A formação dos treinadores de crianças e jovens em futebol é uma necessidade premente.
Apesar de se verificar na bibliografia e na prática corrente, tentativas de suporte nesse sentido, a intervenção ainda é parca, face o evidente crescimento de instituições desportivas e, concomitantemente, de praticantes nelas envolvidos. O aumento da taxa de abandono desportivo precoce, por parte de crianças e jovens no futebol de formação, tem sido um sinal de sobreaviso para os responsáveis da formação desportiva, em especial, na modalidade do futebol.
As seguintes linhas pretendem promover a reflexão no delineamento pedagógico dos processos de ensino/aprendizagem em futebol juvenil. Talvez se deva salientar aqui, que a competição desportiva, por si só, poderá ter vantagens (apesar de estar longe de ser o principal motivo, a competição tem alguma representatividade no padrão motivacional dos jovens), mas igualmente desvantagens. À competitividade, normalmente, estão associados o desapontamento, a “pressão” por parte de pais e treinadores, e a frustração. Possivelmente se ela for encarada do ponto de vista da formação perante aqueles que nela estão envolvidos, ela será vantajosa se promover a maximização da aquisição de conhecimentos e de capacidades, passando a ser desvantajosa se impedir ou perturbar o normal processo de aprendizagem.

No sentido de promover os benefícios da prática e do treino em futebol para as crianças e jovens, é importante ter em consideração as seguintes directrizes:

- Distinga as diferenças do desenvolvimento da criança. As crianças diferem dos adultos nas capacidades fisiológicas, motoras, cognitivas e emocionais. Neste sentido, o treinador antevendo o crescimento e desenvolvimento da criança, deverá considerar como efectua a sua comunicação e como delineia as formas didácticas do treino. Por exemplo, quando observamos crianças de 6 ou 7 anos de idade a jogar futebol, facilmente é identificável a forma descoordenada como as crianças se posicionam em relação aos seus colegas e em relação á bola. A bola é o centro das acções. O pensamento da criança nesta idade não apresenta um desenvolvimento suficiente, no que concerne ao domínio espacial e dedutivo. É comum, observar-se em várias actividades os treinadores de crianças com estas idades: “Organizem-se!”, “Passa a bola!”, “Marca o jogador”, “Posiciona-te na defesa”.

- Utilize a comunicação positiva.
A utilização do reforço positivo apresenta-se como fundamental no ensino e prática de qualquer actividade com crianças. A comunicação é uma das áreas que o treinador, em qualquer nível competitivo, deverá saber dominar. As investigações demonstram que, no ensino e aprendizagem desportiva, a utilização do feedback positivo por parte dos treinadores resultam no incremento da motivação, auto-estima e do divertimento nas experiências desportivas de crianças e jovens.

- Crie situações que desenvolvam a tomada de decisão.
Devem ser providenciadas situações para que os jovens atletas tomem as suas próprias decisões em contexto de treino e de jogo. A investigação afirma que a intervenção do treinador em jogo não deve ser contínua.
Nesta circunstância, o treinador deve alternar entre a instrução técnica correctiva (não de forma sucessiva) e o reforço positivo (contingente a uma boa execução). Não raras vezes, observa-se que os treinadores de crianças enviam, constantemente, instruções para o campo, na tentativa de corrigir erros técnicos ou tácticos de jogo – “Joga na direita!”, “Joga na esquerda!”, “Marcação ao homem!”, “Toda a gente atrás da linha da bola” – de uma forma quase contínua. Acontece que, a mensagem enviada pelo treinador, gradualmente, deixa de ter relevância. E, se tivermos em consideração, que as crianças têm, de uma forma natural, uma reduzida focalização da atenção, este tipo de comunicação por parte do treinador apresenta-se como ineficaz. Os treinadores deverão criar um ambiente que encoraje as crianças a tomarem decisões por si próprias. Terão que ver as decisões erradas como uma oportunidade para aprender.

- Identifique e persiga os verdadeiros valores da formação desportiva de crianças.
Tipicamente, os treinadores mais jovens iniciam a sua actividade com boas intenções. Querem que as crianças, sobretudo, se divirtam, desenvolvam novas capacidades e competências, e saibam avaliar a vitória e a derrota através do esforço dispendido para o jogo. Estes são, alguns dos valores, que se identificam como ideais para a formação e desenvolvimento biológico, psicológico e social no desporto. No entanto, o fascínio da vitória, por vezes, eclipsa estes objectivos primordiais da formação desportiva. Os sinais são imediatos: menor rotatividade das crianças nos jogos; de uma forma sucessiva, vê-se as crianças a chorarem por terem perdido o jogo; comportamentos mais agressivos nos treinos; pais descontentes; entre outros. Crie objectivos no início da época, e reveja-os durante a temporada. Para qualquer criança, o divertimento é jogar. Se questionar uma criança se pretende jogar na equipa que perde ou ficar no banco de suplentes da equipa que ganha, a maioria responderá que prefere jogar. Seja crítico para com o seu próprio comportamento. Reserve algum momento de reflexão após os jogos e após os treinos. Reveja o planeamento do treino. Verifique se os próprios objectivos formativos estão a ser cumpridos. As informações que retirará daqui mantê-lo-ão no caminho do alvo que formulou previamente.

- Procure receber feedback do seu comportamento em treino.
Para evoluirmos em alguma actividade, é importante termos recursos que nos informem acerca do nosso rendimento. Após os treinos ou jogos, questione os seus adjuntos acerca da sua prestação e da equipa, do clima, da coesão de grupo, etc. Encoraje-os a serem específicos, a darem exemplos práticos e concretos. Questione os pais acerca do que os filhos dizem dos treinos e dos jogos.
Os pais são um aliado para a formação desportiva! Verifique o sentimento das crianças durante a época. Se eles estiverem hesitantes em falar, faça-os responder a alguns questionários anónimos. Podem incluir questões como, “Se pudesses mudar uma coisa nos treinos para torná-los mais divertidos, o que seria?”, “Qual é o melhor e o pior comportamento que o treinador tem durante os treinos?”, “Onde achas que a equipa poderá melhorar?”. Não se esqueça, a motivação é o motor da prática desportiva.

- Aceite a espontaneidade e o caos que caracterizam as actividades com crianças.
A espontaneidade e os comportamentos inesperados das crianças podem provocar frustração e um grande desânimo se o treinador se render à ilusão do controlo de todas as situações de treino. A realidade é que cada criança é única e, todos os dias, nos presenteará com um comportamento e uma expressão nova. E, cada criança tem um desenvolvimento e uma maturação distinta. È importante ter em consideração que o plano de treino traçado no início da época, não raras vezes, tenha que ser alterado no momento, e necessite de constante revisão. Considere um determinado nível de desordem como inevitável em actividades com crianças.

Treinar crianças e jovens providencia uma excelente oportunidade para os influenciar, positivamente, nas suas vidas. Este facto, é extremamente importante, quando o treinador compreende o desenvolvimento das crianças em relação ás suas capacidades desportivas, vê as crianças como únicas e individuais, e interessa-se, constantemente, pela evolução dos processos de ensino e aprendizagem. Finalmente, ser um treinador de sucesso com crianças é continuar a aprender em cada treino e com cada criança, tornando-se cada dia, num treinador melhor."

22 comentários:

moleculasdeamor disse...

Não li tudo, mas o que li mostra conhecimento e sabedoria - parabéns!!!!

PB disse...

Não foi escrito por mim! Mas, obrigado! afinal, fui eu que decidi partilhar LOL abraço

Ricardo Galeiras disse...

subscrevo e vou 'roubar'.
nao te esqueças de mim!!!

abraço

RG disse...

"Finalmente, ser um treinador de sucesso com crianças é continuar a aprender em cada treino e com cada criança, tornando-se cada dia, num treinador melhor."

Este paragrafo diz tudo.

Obrigado pela partilha e um grande abraço para o autor

Valter Correia disse...

PB, vê este site sff: www.teoriadofutebol.com

posso partilhar esse artigo? Deixo um link para o lateral esquerdo!!!

PB disse...

sim claro.ha q fazer isto chegar a toda a gente!

insan disse...

Os principais problemas da formação estão aí bem explícitos. A "competitividade" é uma falácia. O querer ganhar a todo o custo na formação é uma estupidez que poucos benefícios trás. Alimenta egos dos miúdos mais talentosos, destrói o dos menos. Não os prepara para a profissionalização, nem de perto nem de longe.

Bela partilha, vou enviar a conhecidos.

Sakana disse...

AFINAL QUEM É O LAMPIÃO Nº. 9.054?
www.sakanagem69.blogspot.com

Cáva disse...

Tudo bem, mas antes tens que escrever um artigo dedicado ao diretores dos clubes, e outro aos papás que olham para os seus meninos com o coração e com o olhos para os outros, porque, se perdes 2 jogos de seguida os diretores correm contigo, e os papás promovente a incompetente.

insan disse...

Cáva,

O problema está aí. A formação nunca deveria visar somente a vitória. Deveria servir para desenvolver outros valores, em idade crítica na formação do carácter. Mais que vencer há que preparar os jovens atletas para a vida, seja ela profissional ou pessoal, desportiva ou outra.

Cumprimentos

Pedro disse...

Nota de rodapé:

Reforço positivo é um pleonasmo! O reforço em si é um estímulo positivo em resposta a uma acção que se quer recompensada... Ai, ai, ai... Metem o pé na psicologia e depois dá asneira!

Cáva disse...

insan

Tens razão.Esse conceito está correto e penso que é corroborado por todos os envolvidos na formação.

Mas só na teoria para botarem boa figura, porque na pratica, são os dirigentes que têm afixados nos seus gabinetes os titulos dos benjamins, dos escolas e dos infantis, para depois com o peito inchado dizerem: "comigo fomos campeões em todos os escalões"

E os pais agarrados à rede da vedação a chamarem nomes ao arbito e dizerem aos filhos :"fecha" ou "sobe" depois do treinador ter dito "abre" ou "baixa"

Isto é bom, é para os clubes grandes, que vão buscar os melhores logo aos 10 anos e podem dizer que a "formação faz-se com vitórias".

É um assunto muito complexo.

Cumprimentos

PB disse...

Pedro, quem colocou o pé na psicologia dando asneira foi o psicólogo Pedro Teques do
Departamento de Psicologia e Comunicação da APEF. Não foi ninguém aqui do blog...O texto é dele.

Pedro disse...

Caro PB: Certo, eu percebi, li o cabeçalho onde dizia "Pedro Teques, Departamento de Psicologia e Comunicação...". Não deixa de ser um erro, mais grave ainda quando é dado por um psicólogo. Não sei o que será a APEF, tão pouco o que é um departamento de Psicologia e Comunicação, mas o texto, para leigos como eu, parece-me bem elaborado, embora de prática difícil.

Abr,

Anónimo disse...

Para o Sr Pedro:

APEF - Associação Portuguesa de Escolas de Futebol.

Então desconhece o reforço negativo??? Reforço positivo não é pleonasmo! Agora que ficou com a dúvida...procure respostas! Mas não fale de cor...

Pedro disse...

Anónimo (claro).

Sim, desconheço o reforço negativo. E não, não falo de cor, tão pouco anónimo.

Em bom rigor, acho também estranho que em nenhum momento no texto seja REFORÇADO o papel do psicólogo nas escolas de futebol. Talvez o objectivo seja o de educar os treinadores... ok.

Abr,

Jorge disse...

Do Merriam-Webster:
Negative reinforcement:
psychological reinforcement by removal of an unpleasant stimulus when a desired response occurs.

http://en.wikipedia.org/wiki/Negative_reinforcement#Positive_and_negative_reinforcement

Alem das referencias na wikipedia. Tambem poderas encontrar uma vasta lista de referencias se fizeres uma busca na net.

FP disse...

Já alguém se lembrou de que o que realmente importa na formação não é formar os miúdos para a vitória, e quando perdem ouvimos: "faz-lhes bem perder, também faz falta. Não lhes faz falta perder faz falta é ensiná-los a lidar com a derrota. Muitos treinadores treinam com o objectivo de vencer, tornar os miúdos vencedores, tornar a equipa a melhor...são tantas as vezes que ouvimos estas expressões. E preparar os atletas para lidar com a derrota, preparar os atletas para saber lidar com a vitória. Isto sim marca a qualidade de um treinador/formador!
Estaria a mentir ao dizer que a vitória não é necessária, que andamos a treinar para perder. Queremos dar uma formação adequada para que possamos desenvolver as competências e capacidades dos nosso atletas ao máximo, no entanto, são muitas as vezes que se esquecem que existem factores sociais, psicológicos, etc., que precisam de ser trabalhados e cuidados.
A tomada de decisão num jogo não reflecte apenas aquilo que é trabalhado no treino, tem também em conta todas as influências externas ao mesmo. A forma como cada atleta age/reage ao contexto de jogo em muito reflecte as suas vivências e influências do treinador, pais e colegas.
Se não formos "nós" treinadores a ter em conta e atribuir importância a estes aspectos não serão os pais, colegas e clubes que o irão fazer.
É necessário que o treinador desligue o "comando da ps" nos jogos e deixem os atletas perceberem que decisões é que devem tomar e ganhar consciência de quais são as decisões que levam ao erro e quais resultam em acções positivas no jogo. Isto só através da experiência é possível alcançar. Dai o treino ser planeado com exercícios contextualizados, próximos da situação de jogo, permitindo ao atleta passar diversas vezes pelas situações, possibilitando perceber quais as melhores decisões.
Ao longo dos anos tenho vindo a perceber que os miúdos não se importam com a derrota desde que joguem, são mais os treinadores que saem carrancudos após uma derrota do que ver uma criança a chorar após um jogo onde obteve um mau resultado. Para os jovens atletas não existem maus resultados, existe sim um momento mágico onde fizeram aquilo que mais gostavam...jogar futebol, ou então um momento de desilusão...ficaram num banco ou quase não jogaram.
Os atletas são aquilo que fazemos deles, amantes da modalidade ou amantes dos resultados!
Cumprimentos
FP

PB disse...

este último comentário está mt bom

Jorge disse...

Tanto o post como o ultimo comentario sao relevantes para qualquer area de formacao tanto desportiva como academica.
Eu tenho aprendido mais coisas uteis para treinar miudos com os professores da escola dos meus filhos de que com outros treinadores.
Desde a montagem de um processo de formacao que evolua com o desenvolvimento do jogador, como a forma como trato os jogadores.

Pedro Teques disse...

Caro PB,

Desde já, obrigado pelo interesse no artigo e pelo post. Quando o escrevi pensei para os treinadores das Escolas de Futebol, porque na altura era o psicólogo responsável pelo Depto de Psicologia da Associação Portuguesa de Escolas de Futebol (APEF). Hoje organizada muito bem pelo Prof. Rui Pacheco.

Como não gosto de muita exposição, nunca pensei que esses artigos pudessem ter tanta proliferação na web, nem pensei muito no rigor editorial, considerando o momento em que eles foram colocados na página oficial da APEF em... 2006.

Finalmente, até porque encontrei por acaso o teu blog, aproveito somente para esclarecer que o conceito (neste caso, palavra) REFORÇO POSITIVO não é um pleonasmo. Isto porque o reforço pode ser negativo. Tendo como exemplo o treino, quando pões os rapazes a "encher" devido a uma punição de mau comportamento, e terminas pela sua boa prestação, estás a dar um reforço negativo. Ou seja, retiras o estimulo aversivo à tarefa e aumentará o comportamento desejado (e.g., o bom comportamento no treino).

Felicidades para o blog.

Um abraço
Pedro Teques

PB disse...

Pedro Teques, obrigadissimo. É um prazer tê-lo por cá.