sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Maus ou bons profissionais?

Pensando ainda nos recentes posts "treinar só jogando" e respectiva discussão nas caixas de comentários, uma pergunta para si. Foi um comportamento de maus ou de bons profissionais, o do núcleo duro de jogadores do Chelsea, que depois de passarem pelo processo de treino de José Mourinho (jogo, jogo e mais jogo), ao serem condenados ao inútil e aborrecido processo de treino de Scolari (Filas em catadupa, contornar pintos, dois a dois a passar a bola, remates à vez cada um, tudo sem qualquer transfer para o jogo), dirigiram-se à administração pedindo para o quanto antes a troca de treinador?

Honestamente, se a remuneração mensal fosse semelhante, preferia ser carpinteiro a jogador de futebol, se tivesse de passar uma hora e meia por dia a contornar pinos, a fazer remates sem adversário e a passar e receber a bola para e de um tipo à minha frente. E nem é pelo perceber que tal não iria nunca melhorar nem a minha, nem a performance da equipa. É mesmo porque não teria paciência para perder tempo da minha vida a fazer actividade tão aborrecida.

14 comentários:

MM disse...

PB, lê se puderes a edição de papel do 'Daily Mail' de hoje, sexta-feira, traz um artigo de 2 páginas sobre o 'renascimento' de Villas-Boas no Tottenham.

Por que razão era o Chelsea de Villas-Boas tão mau? Uma equipa derrotada, perdida, sem qualquer chama. Os jogadores são os mesmos que meses depois sagraram-se campeões Europeus. Villas-Boas é o mesmo excelente treinador do FCP e hoje do Tottenham.

Entre as culpas (má performance) dos jogadores e as culpas (más opções, mau treino) do treinador residirá muitas vezes a explicação para o insucesso de muitas equipas que não se concentram (razões do insucesso) necessariamente numa ou outra ponta.

O artigo faz referência por exemplo ao jogo com o Nápoles. Villas-Boas tinha já o lugar mais do que em risco por essa altura mas terá dito no balneário aos seus jogadores que eles podiam ser campeões Europeus. Aparentemente um deles riu-se: não por maldade ou ser um mau profissional, mas simplesmente porque a equipa arrastava-se em campo, arrastava-se na tabela Inglesa e no fundo não era uma real ameaça para ganhar o que quer que fosse, e muito menos a LC.

Os jogadores alhearem-se. Perdeu-se a química entre Villas-Boas e o grupo.

De quem é a culpa?

masterzen disse...

MM,

Excelente comment o teu. O problema na minha opinião de qualquer desporto vai muito mais além do plano táctico e técnico, por isso é que o inenarrável Scolari ainda sobrevive por aí.
AVB cometeu um erro de principiante, que Mourinho jamais o cometeria, quis fazer uma limpeza de balneário com o comboio em andamento. Das duas uma, ou assegurava-se que os jogadores iam embora antes dos treinos começarem ou então tinha que morrer com aqueles que tinha.
Decidiu enfrentar o monstro sem ter capacidade para trazer outros jogadores, erro colossal!
Di Mateo é batido, não é parvo tacticamente embora tenha aquele futebol que os tugas não gostam, percebe de balneário, sabe ler o contexto e nestes capítulos dá mil a zero ainda a AVB.
Ninguém coloca em causa que AVB percebe mais de futebol, mas isto não são robots nem máquinas por isso não é tudo. Afrontar alguns dos melhores do mundo, no seu habitat natural sem ter o mínimo de apoio no balneário é de louco. Hoje estou convencido que não repetiria a gracinha, é que isto de ser impulsivo e de peito aberto é giro quando tens um presidente e uma estrutura que anda no balneário e que por trás ainda tem uma guarda pretoriana.
Penso que ainda vai ter sucesso mas terá perdido a cartada da sua carreira logo na segunda mão...

Abraço

Pedro disse...

Deve ser assustador passar de Mourinho para Scolari...☺☺

Edson Arantes do Nascimento disse...

Pois, e foram os mesmos que de lá tiraram o AVB... Provavelmente pelas mesmas razões que tiraram o Scolari!

Que é feito disse...

Como em qualquer actividade, se os jogadores sentirem que o seu líder não lhes está a permitir evoluir são bons profissionais ao referirem esse facto. Esse método de treino dos passes e dos pinos é bom para os iniciados (para aprenderem competências técnicas), mas, como é óbvio não se adequa a profissionais de alto nivel

Anónimo disse...

Lol, vê-se que percebes do que estás a falar, deve ser isso.

João Mira disse...

Ainda em relação a este tema dos treinos, aqui está a prova de que com Oceano o Sporting vai ser mais do mesmo: "Melhorámos os índices físicos da equipa e trabalhámos a organização tática, embora já não haja muitos segredos no futebol. Temos de conseguir motivar os jogadores para mostrarem o seu talento, pelo qual foram contratados. Sei que vai acontecer já contra o Moreirense"

MM disse...

Masterzen, são (julgo) qualidades diferentes que oferecem garantias diferentes. Entre umas e outras as primeiras (Villas-Boas) são (julgo) muito mais importantes que as segundas (Scolari), mas negar as qualidades de treinadores do tipo de Scolari nunca faria porque tem-nas, ou não teria vencido a quantidade de coisas que venceu ao longo da carreira. É preciso então ver aquilo que um clube a dado momento mais precisa e os treinadores têm de ter a flexibilidade e abertura para entender que não basta saber muito, ter razão e fazer as coisas sempre à sua maneira ainda que seja a certa, porque ao fim do dia serão sempre os jogadores quem terá de concretizar o jogo. Como se explica por exemplo o nível exibicional de Portugal no Euro-2000, ou o jogo frente à Inglaterra? Não foi certamente obra de Humberto Coelho mas dos jogadores. Dimitar Penev disse sobre a Bulgária em 1994 que o treino a partir dos 'play-off' era não fazer nada, visitar as cidades Americanas onde a selecção estava e deixar os muito talentosos jogadores Búlgaros ir para dentro de campo com 'fome de jogar futebol' - naquele momento era mais valioso que qualquer sessão de treino onde não iriam seguramente acrescentar nada ao que já sabiam. Encontro sentido nisto, relacionado ao tipo motivação especial que eles (jogadores) por vezes mostram e a mesma coisa serve outras áreas onde muitas vezes parece que se faz tudo bem sem esforço mas a seguir as coisas já não saem tão bem, por mais que se tente, e isso acontece porque o jogo ultrapassa por muito (subscrevo o que dizes) outros domínios que são já da responsabilidade dos treinadores (organização colectiva da equipa, táctica, ou o que se pretenda chamar-lhe). As tácticas são processos, regras, normas, e isso é fundamental mas o futebol será sempre uma força de expressão criativa e para isso os jogadores têm de estar sintonizados com o que têm de fazer, jogar futebol.

MM disse...

Sobre Villas-Boas há pormenores fascinantes que vão-se sabendo sobre a sua passagem pelo Chelsea. O vício do trabalho, a (boa) vontade de ter controlo sobre muitos aspectos do clube onde por exemplo um comentador da Chelsea TV diz que no dia seguinte a ter dito qualquer coisa negativa sobre o treinador foi afastado do programa que já fazia há 10 anos. Disse 'para mim o surpreendente foi saber que ele via o programa'. Um jogador diz como exemplo que com Mourinho era já Villas-Boas que fornecia aos jogadores DVD's repletos de informação sobre os adversários mas que na 2ª passagem pelo Chelsea a coisa elevou-se para um patamar completamente diferente com informação ainda mais abundante e pormenorizada e alguns não sabiam dar resposta aquilo porque não estavam habituados. O ter chorado na manhã em que foi despedido, ter dormido no centro de estágio na última noite passada no clube antes de ser despedido, a reunião que convocou com Lampard, Terry, Cole e Drogba no dia seguinte à derrota por 5-3 em casa com o Liverpool onde disse-lhes que as coisas continuariam a ser feitas à sua (Villas-Boas) maneira. Outro jogador afirmou que o grupo esteve sempre receptivo e gostava de André Villas-Boas mas que tratando-se de um grupo vencedor onde muitos tinham ganho em 6 anos 3 campeonatos, 3 taças de Inglaterra e outros troféus domésticos estavam enraizados hábitos na sua forma de jogar (e alguns ainda com origem em Mourinho, imagino) que é difícil abandonar do dia para a noite e enfim, Villas-Boas quis fazer demasiada coisa em pouco tempo de forma demasiado abrupta, com ou sem a percepção de que os jogadores não estavam a acompanhar e a dada altura 'desligaram'.

O treinador do Newcastle Alan Pardew disse que os jogadores deviam um pedido de desculpas a Villas-Boas. Em parte deverá ser assim mas não explica tudo porque não acredito que se tratem de fenómenos de 'alheamento' propositados. Por outro lado, as qualidades do treinador sempre existiram e não foi certamente por ser táctica e tecnicamente um mau treinador que aquilo correu mal.

Bielsa por exemplo, mesmo treinador, mesmo clube, o que mudou de uma época para a outra? O 'fracasso' de Bielsa explica-se hoje por más opções tácticas, ou por treinar mal? Dúvido.

Jorge disse...

PB:

Eu acho que tem que haver um equilibrio de varias componentes no treino.
Em todas as actividades ha lugar para o desenvolvimento de certas caracteristicas com trabalho especifico fora do ambiente em que serao aplicadas.
Eu usaria ate o exemplo do Jazz que e uma actividade nao desportiva feita em "equipa" e com alta componente creativa. Grande parte do trabalho do musico de jazz e feito individualmente, tendo como objectivo o controlo tecnico do instrumento (escalas, excertos musicais de maior dificuldade tecnica que nunca serao usados em concerto), e depois estudando individualmente as musicas que ira tocar em equipa.
A repeticao e essencial para o desenvolvimento e manutencao da tecnica, e isso e notorio em todas as actividades. A melhor maneira de assegurar essa repeticao e isolar a actividade e faze-la varias vezes.
O mesmo se aplica ao desenvolvimento fisico de um jogador, o trabalho de ginasio ou fora do contexto do jogo e importante, isolando movimentos por forma a desenvolver aspectos fisicos especificos.
Claro que a medida que os atletas evoluem, a percentagem do treino que segue os padroes que tu propoes ira aumentar mas em minha opiniao havera sempre lugar para os aspectos mais especificos e isolados se bem que inseridos na "periferia" do treino.

PB disse...

MM, viste a entrevista do Torres?

Páginas tantas diz: "ganhar ou perder era igual quando não fazia parte da equipa. Percebi que estava à margem do grupo"

E depois dá o exemplo de Paulo Ferreira, como um profissional fabuloso.

MM disse...

PB li, tambem gostei da referencia ao Paulo Ferreira, e sobretudo o descomplexo em afirmar a forma especial como sente o Liverpool (o seu filho ser adepto do clube foi um pormenor delicioso). A nota sobre o Paulo Ferreira lembrou-me coisas ha muito tempo ditas sobre o Tiago, Abel, e que hoje podem aplicar-se a um jogador como Marcelo Boeck. Sao presencas fundamentais num balneario e parte da formula que ganha jogos e campeonatos.

Anónimo disse...

Grande comentário

josé carlos disse...

MM pode deixar o link dessas histórias sobre o AVB no Chelsea? Muito obrigado.