terça-feira, 12 de março de 2013

Adaptações - o pesadelo dos adeptos. Jesus, a voz da prática.

Pesadelo que não tem razão de ser, se durante a(s) semana(s) o treinador preparar correctamente o atleta para jogar num espaço diferente ao qual está habituado.

"Não inventei nada. Nem com o Coentrão, nem agora com o Melgarejo. Só se pode fazer este tipo de trabalho quando o jogador tem qualidade. É preciso reunir uma série de características e, a partir daí, trabalha-se nesse sentido" Jorge Jesus

Muitos são os que olham para o futebolista como se tivesse uma espécie de rótulo. É defesa esquerdo. É médio. É avançado. Quando no fundo, a realidade é tão simples como a que se encontra logo desde bem cedo na escola nas aulas de Educação Física. O melhor aluno é melhor em todas as modalidades. O melhor em Andebol, é melhor em Futebol, Basquetebol e Voleibol. O desajeitado é o menos apto em todas.

No alto nível não há descoordenados. Mas há quem seja substancialmente melhor que outrem. Se há um jogador bastante inteligente na tomada de decisão, capaz o suficiente de perceber como deve ocupar o espaço e actuar perante os princípios defensivos/ofensivos, mais rápido, mais forte e com melhor qualidade técnica, então esse jogador não será melhor que um colega menos apto em qualquer posição, só porque no rótulo aparece uma posição diferente? É seguro que as experiências anteriores são absolutamente decisivas, e que há posições que poderão requerer mais tempo de adaptação do que outras. Ou porque servem de referência ao jogar da equipa, ou porque enfrentam mais situações fora da norma comum.

Enquanto a equipa for verdadeiramente equipa no sentido colectivo do termo. Enquanto os princípios de actuação e movimentação defensiva ou ofensiva (em função da situação de jogo. Quantos contra quantos?) estiverem bem definidos, será sempre possível aprendê-los. Desde que no treino o treinador seja capaz de fornecer os estímulos adequados.

O rápido sucesso de Melgarejo não foi surpresa. A questão principal seria perceber se era o suficientemente inteligente para aprender a posição. E desde os primeiros jogos se percebeu que interagia com assertividade com os colegas. A partir daí e cada vez com mais experiência / vivência de situações que enfrenta naturalmente que o nível haveria de subir.


"Não inventei Coentrão ou Melgarejo. Houve criatividade? Alguma, mas só porque tinham capacidades físicas e técnicas." Jesus. 

Um exemplo. Trabalhado nesse sentido, Carrillo seria sempre o melhor lateral do Sporting. A questão é que tamanho talento talvez pudesse ser um desperdício na posição. Mas isso são outros quinhentos. Garantidamente que o peruano até na baliza seria melhor que Miguel Lopes ou Joãozinho.

Algumas frases interessantes do treinador do SL Benfica:

"Ola John não conhecia os princípios do jogo. Mas atenção, não sabia, mas a maioria dos jogadores também não sabe." 

"Quando equipa falha no processo defensivo a culpa maior é do treinador. Mas não tanto no ofensivo. O treinador não pode ensinar um jogador a driblar”

"Os jogadores exigem hoje saber o porque do trabalho que estão a fazer. Antes, não, até porque os treinadores também não sabiam assim tanto”

"A maior parte da bateria de treinos foi criada por mim. Porque é para o meu modelo de jogo”


O conteúdo de tudo o que transmite é super interessante. Sobretudo porque decorre da prática. Não há livros que possam fazer bons treinadores. Quem nos segue desde sempre e leu ou ouviu atentamente Jesus, sabe que tudo ou praticamente tudo daquilo que Jesus transmitiu já foi algures no tempo abordado no "Lateral Esquerdo". A segunda frase transcrita, pode por exemplo, servir de argumentação a tudo o que tem sido apontado ao Sporting na presente época. Primeiro o caos defensivo com responsabilidade total de Sá Pinto. Posteriormente com a equipa organizada, a falta de talento/inteligência individual para na frente se chegar às oportunidades com regularidade.

Quando por mail nos pedem livros ou textos que recomendemos para que saibam um pouco mais do jogo ou do treino, a resposta habitual "não temos e não conhecemos" não revela da nossa parte indisponibilidade para partilhar conhecimentos. Todas as ideias que aqui tentamos apresentar nasceram, tal como as de Jesus da prática. Mesmo que a um nível inferior, tudo nasceu da experimentação, correcção e do sentir dos atletas. A base teórica é apenas uma: os princípios do jogo. Gerais e específicos. A partir daí constrói-se tudo. No treino, repetir exaustivamente os comportamentos que se pretendem implementados no modelo de jogo, construindo jogos que potenciem o máximo de repetições do que se pretende treinar (que momento do jogo treinar? qual o comportamento colectivo no momento que se está a treinar?).

P.S - O "problema" da adaptação de Dier não se relaciona com o que poderá ou não o inglês dar como centrocampista. Sem dúvida que será sempre um bom jogador onde quer que jogue. A questão é que é a central que se torna distinto, pela personalidade e qualidade técnica na saída de bola que evidencia. Invulgar em quem habitualmente faz a posição.

33 comentários:

Vitor Oliveira disse...

Excelente artigo!

Pedro disse...

Messi dava um bom central?
:)

Miguel Nunes disse...

de certeza melhor q o Miguel Victor :)

Diário de um Dragão disse...

De falta de disponibilidade para partilhar conhecimentos não podem ser acusados! Mais um bom artigo...

É possível encontrar a palestra online na sua totalidade? Só consegui encontrar alguns excertos...

Miguel Nunes disse...

n sei. eu retirei excertos do jornal a bola. abraço

No.Worries disse...

Quando o "jogador adaptado" é melhor (em termos de qualidade individual, em termos de leitura de jogo, em termos de interpretar aquilo que a equipa precisa a cada momento) do que um "jogador a jogar na sua posição de raíz", nem se deve perder mais tempo a pensar no assunto, e o "adaptado" tem que jogar!

PedroF disse...

Isto é que é serviço público! Parabéns!

Anónimo disse...

Quais os problemas mais graves que vês no Miguel Vítor? Obrigado.

Filipe

zorg disse...

Acho que o que há muita gente que dificuldade em perceber que o processo defensivo é essencialmente colectivo e, por isso, muito dependente da acção e da qualidade da equipa técnica. É recorrente o comentário "este gajo é uma merda a defender, porque foi batido pelo avançado numa situação de 1 para 1 e isso deu golo".

Manuel Humberto disse...

Meu Deus Miguel, que golo. Que golo.

Pedro disse...

hahahahahahaha

Uma pergunta ao treinador dentro de ti:

Tens um formidável jogador, um Aimar em inteligência, daqueles que faz tudo bem. Joga numa zona do terreno onde, no plantel, tens as melhores opções e maior qualidade. Mas na defesa não só estás limitado como a matéria prima é fraca. Pegavas nesse teu melhor jogador e o punhas a central?

Miguel Nunes disse...

Sim, Pedro. Porque não? Imaginas o Messi a central? Desequilibrava logo o jogo todo desde trás. Metia-o a transportar logo no início da construção com um trinco a recuar para o lugar dele, desposicionava logo o adversário todo a cada posse de bola.

Filipe, qualidade técnica. Fora isso acho-o extremamente válido. Mas isso é absolutamente determinante para uma grande equipa. Tenho a certeza q é por isso q tb n conta p o JJ.

Manuel, obrigadissimo :)

Isso, Zorg, defender n tem nada a ver com o 1x1, por estranho q isso possa parecer

PedroF, obrigadissimo.

Abraços

Manuel Humberto disse...

Não Pedro, punhas um dos outros. Não tem necessariamente de ser o melhor.

Manuel Humberto disse...

Miguel por acaso falava do golo do Messi, o 1º. Mas olha este golo é tão bonito quanto o do Messi:

"Muitos são os que olham para o futebolista como se tivesse uma espécie de rótulo. É defesa esquerdo. É médio. É avançado. Quando no fundo, a realidade é tão simples como a que se encontra logo desde bem cedo na escola nas aulas de Educação Física. O melhor aluno é melhor em todas as modalidades. O melhor em Andebol, é melhor em Futebol, Basquetebol e Voleibol. O desajeitado é o menos apto em todas".

Esta imagem diz tudo.
400% verdadeira.

Miguel Nunes disse...

loool n vi, ainda. Vou ver a 2nda parte agora. Estou pelo Barça. O Milan foi deprimente e mostrou 0 em Itália. Qq pessoa capaz de ver para além do resultado reconhece-o. Espero q o Barça siga em frente, pq o Milan é 0 e esta competição merece os melhores

Manuel Humberto disse...

Foi qualquer coisa de soberbo. Execução pura e dura, categoria, lisura, lá está, aquilo que Ronaldo nunca faria, além de ter sido determinante na "fabricação" do lance. É o que disseste há uns tempos:

Ronaldo é uma máquina e faz centenas de golos.
Messi é uma máquina e faz centenas de golos.
Neste particular (em nºs), igualam-se.

Mas Messi além dos golos, joga como ninguém. Já Ronaldo, não o faz. Como pode existir discussão sobre quem é o melhor?


3-0, outro excelente golo.
Mais 1 e está feito, nem o azar lhes tirará a passagem.

Miguel Nunes disse...

Soberbo mm. N vi a 1a parte, mas reparei q o Barça voltou ao seu melhor tempo. Busquets, Xavi e Iniesta. Messi, Villa e Pedro. 433 extremos bem abertos.

Miguel Nunes disse...

tb n vi o Shalke x Gala, mas 5 golos n me espantam. Já n 1a mão tinha referido q as equipas n controlam a transição defensiva e q o jogo fica completamente partido. Espaço e mais espaço p jogar. O Galatasaray seria um adversário bem acessível ao FCP. Dificilmente deixaria de ser encostado às cordas.

http://lateral-esquerdo.blogspot.pt/2013/02/galatasaray-x-schalke-04.html

Manuel Humberto disse...

Miguel, o resumo mostra isso mesmo: parada e resposta, tal como havias dito e mostrado no «post» ao jogo anterior (1ª mão).

Já agora só uma coisa e sobre este «post», o que dizes serve outros desportos, ou outras práticas: é especial e ABSOLUTAMENTE verdadeiro em desportos com bola. Jeito, predisposição para a prática, motivo pelo qual a história de que o "dom" não existe e que em tese qualquer jogador pode ser um grande jogador de futebol é um completo disparate. "Jeito".

E por exemplo quem tem mais jeito para o ténis também tem para o golfe, ou snooker, onde se joga a bola através de um "utensílio", chame-se. É a mesma coisa.

Anónimo disse...

Miguel, e o comentario do Jesus sobre que o 433 ser o modelo mais facil de se anular, tambem achas isso?

Ps-Grande jogo do Barçelona..

DC disse...

Miguel mas olha que o Barça hoje variou muito entre o Messi e o Villa ao meio. Aliás na 1ª parte o Villa foi inexistente e esteve a maior parte do tempo a ponta-de-lança.

Foi grande exibição do Barça mas o Mascherano continua a ser deprimente e o Piqué agora em velocidade parece uma auto-estrada. Para o ano urge contratar um central e eu diria que o Otamendi ficava a matar neste Barcelona.

Hugo Pereira disse...

Tenho por norma ler este blog, mas é a primeira vez que comento algo.

Gostava era de perguntar se o factor anímico não entra na equação. Não será complicado para um jogador conceber o cenário de ter sido avançado toda a sua carreira e depois ser adaptado a defesa esquerdo?

Quanto a questão do Messi a central, deve ser posta também, e principalmente, a dimensão física da posição a ocupar, tal como é referido no texto. Acho que os benefícios ofensivos não compensariam os riscos defensivos.

Jorge disse...

Gostei do Barca mas pareceu-me que o Milan ajudou muito a exibicao do Barca. A quantidade de bolas perdidas de uma forma disparatada na transicao ofensiva pareceu-me ridicula. Jogadores do Milan a sair com bola e tentar o 1x1 com todo o meio campo a frente da linha da bola aconteceu mais de que uma vez. O Barca a pressionar o portador de bola a saida da defesa do Milan e ninguem a procurar oferecer linhas de passe tambem foi uma constante.
Olho para algumas destas equipas e admiro-me que o Jorge Jesus ainda esteja por estas bandas...

Miguel Nunes disse...

pois é, Jorge. O Milan é péssimo. Mas no post da 1a mão fui bem criticado qd o afirmei. Não são capazes de ver para além do resultado, depois apanham banhos de realidade como este...

Miguel Nunes disse...

Hugo, o factor anímico entra sim. O jogador tem de estar disponível. Não é por acaso que regra geral é adaptado quem não estava a ter sucesso ou a ser assim tão utilizado na sua posição. Daí o próprio jogador na tentativa de crescer e se impor aceitar bem a nova posição.

Por exemplo, no caso do Dier não sei se ele aceita bem ser médio... Já o Melgarejo, ou era lateral ou não era nada. Parece-me que foi uma escolha fácil para ele.

Miguel Nunes disse...

DC, otamendi caía mt bem ali, sim. Ainda não vi o jogo. O Villa n dá uma para a caixa há mt tempo, mas gostei de ver o 11 no papel. O mesmo dos melhores tempos de Barcelona.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Para mim, a expressão "adaptado" serve para as modalidades Paralímpicas. O Pistorius é que é um atleta adaptado!

(E digo isto com o máximo respeito possível por estes senhoras e senhoras, atenção! Eles fazem o que eu não conseguiria, nunca, fazer. São espectaculares.)

Olha, por falar nisto, e em apenas 180 minutos (Braga e Bordéus) eu prefiro 100 vezes o Roderick no meio-campo do que a central...

No meio da defesa o rapaz é um perigo para o Artur. Não leva jeito, é lento, desposiciona-se facilmente e não entende os movimentos dos colegas. É descoordenado.

Com o JJ a ajudá-lo, se tiver essa predisposição, pode ter mais futuro na posição seis.

Veremos.

Pedro disse...

Artigo interessante excepto o PS... embora eu concorde que o Dier tem caracteristicas que se adaptam melor a um central, como é que defendes a utilização dos melores onde mais se precisa e depois, ah mas no Dier...

Miguel Nunes disse...

Pedro, mas eu acho q o Sporting precisa mais do Dier na defesa... não? Basta recuar uns posts ao "matar 2 c uma opção"

Pedro disse...

Concordo Miguel mas, pensando assim, o Dier é preciso em muitos setores. Calhando o Jesualdo fez uma análise das necessidades que resultou em 4 volumes da enciclopédia luso brasileira, concluindo que o Dier faz falta ali, meio campo a 8. Reforço que tenho opinião que está ali um melhor central que médio. O Jesualdo referiu o caso do Beckenbauer... Será mais fácil arranjar um central ou um médio? Será que o Jesualdo acha que terá uma solução na B para central e prevê que para médio não há nada? Será que o Jesualdo quer meter o SCP nos 5 primeiros para o ano e prevê que precisa de mais qualidade no meio campo, para ter um jogo mais dominante? Não sei.

Abr,
-P-

Miguel Nunes disse...

sim. mas então n estás a discordar cmg. Estamos os 2 a discordar c o Jesualdo.

Gonçalo Matos disse...

Acho que existem dois tipos de jogadores adaptados. Os por necessidade da equipa e os por competência dos seus treinadores. Há também os que resultam da mistura dos dois.
Melgarejo para mim é uma boa adaptação, com resultados bastante interessantes mas que resulta de uma necessidade da equipa. Melgarejo é um lateral competente que sabe apoiar o extremo, sabe aparecer na linha e sabe posicionar-se, mas não é um defesa esquerdo eficaz, até porque não tem as características para o ser. (na minha opinião falta-lhe desarme e saber posicionar melhor os apoios para ganhar mais facilmente a vantagem). Apesar de ser uma bastante boa adaptação, não acredito que o Melga venha a ser um dos melhores jogadores na sua actual posição, simplesmente porque não tem todas as características para o ser!

Para mim, o melhor exemplo de uma adaptação do segundo tipo que referi e aquela que para mim é a melhor que já pude conhecer é a do Pirlo. Nesta adaptação, houve uma percepção do treinador de quais seriam os pontos fortes do seu jogador e tendo noção dos mesmos, enquadrar o potencial deste na melhor função/posição possível para que o jogador potenciasse as mesmas. Independentemente da necessidade da equipa. Tanto é, que esta adaptação levou ao aparecimento de uma nova função em campo a que do "trequartista" requado. Acredito esta adaptação só foi possível porque não existia a necessidade de que a mesma ocorresse. No fundo, em vez de pensar no que a equipa necessitava, pensou-se antes no que necessitava o jogador para explodir e com isso todos sairam beneficiados.

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

Absolutamente de acordo.

O Jesus toca num ponto fundamental e ele anda nisto há muitos anos: "(...) os treinadores também não sabiam assim tanto". É raro vermos um treinador com estes anos todos na função a admitir isto. Muitas vezes surge o discurso que "está tudo inventado", "a linguagem agora é que é outra", etc, etc. Daí vermos ainda a disparidade histórica e consequentemente de qualidade táctica entre equipas no "Futebol de Rendimento". Haverá sempre evolução!

A partir do momento que se percebe que táctica é mais do que a estrutura posicional e treinar Futebol é mais do que umas corridas, uns exercícios técnicos, uns remates e jogo "avulso", percebe-se que, havendo predisposição do jogador para isso é possível ensinar qualquer coisa em qualquer idade. Já o Silveira Ramos citava Einstein que defendia que "pode-se ensinar física quântica a uma criança, desde que a linguagem utilizada esteja ao nível da sua aprendizagem". Portanto é preciso saber o que ensinar e como ensinar.

Grandes exemplos eram as adaptações de médios a líberos no Futebol Alemão dos anos 80 e 90. Matthaus, Sammer, Olaf Thon... e muitos já em final de carreira.