sexta-feira, 15 de março de 2013

Os 3 jogos por semana. A fadiga e o foco. Sobretudo o foco.

Há não muito numa caixa de comentários num texto algures no "Lateral Esquerdo" abordou-se um pouco a sobrecarga de jogos em determinados jogadores, e como tal facto os prejudicava na competição.

Todos, independentemente do clube, estão convictos que as equipas de Jorge Jesus "rebentam" fisicamente com o avançar da época. E tal deriva da má gestão dos onzes que faz subir ao relvado a cada fim de semana.

Na verdade não se trata de nada disso. O acumular de jogos não tem os efeitos que todos pensam ter, relacionados com a fadiga. É tudo uma questão de recuperação. O problema não é fazer 60 jogos num ano. O problema é ter jogos com pouco espaço temporal entre eles. É a ausência de um período mínimo de recuperação que poderá prejudicar fisicamente a equipa ou determinados jogadores. Sendo portanto absolutamente indiferente se o jogador há dois meses atrás somou sete jogos em trinta dias, ou não somou um único minuto.

A questão do "estoiro físico" só se coloca tendo em conta o trabalho semanal, e não o número de períodos de competição (futebol), desde que o período de recuperação esteja assegurado.

Porém, não se sabe bem onde se encaixa a segunda volta da equipa de Jorge Jesus no ano em que se sagrou campeão (apenas 5 pontos perdidos, sendo que 3 foram no Dragão e os outros 2 foram com um penalty desperdiçado no último minuto em Setúbal), venceu a Taça da Liga e chegou aos quartos de final da Liga Europa, com jogos de desgaste enorme contra adversários como Marseille e Liverpool, na teoria do "rebentar" físico dos atletas de Jesus.

Mas parece certo que todas as teorias de internet poderiam ser rebatidas se a equipa técnica do SL Benfica explicasse o que é a creatina quinase, a forma como a usa e sobretudo os dados dos resultados dos testes que realiza para perceber os níveis de fadiga do plantel. Ficaria a saber que os níveis de fadiga do Sálvio depois de um período de recuperação de alguns dias pós competição são inferiores aos de outros com um terço das partidas acumuladas.

Não deixa de ser curioso que estejamos no terceiro mês de 2013 e na única semana em que o SL Benfica não competiu a meio da semana tenha sido a que caiu (empate na Madeira).

Significa portanto que é indiferente competir a meio da semana ou não competir?

Não. Não é indiferente, todavia cumprindo o período de recuperação, a questão não é física. Não é a fadiga. É o foco. É sobretudo o foco. "Na Liga dos campeões não é preciso motivar os jogadores. Quando ouvem o hino até as pernas tremem. Os níveis de adrenalina estão elevados" Jorge Jesus.

A questão não se prende com profissionalismo, ou falta deste. Nem importa repetir dez mil vezes que o foco tem de estar na Liga. Não há nada no futebol que se possa comparar com a Liga dos Campeões. Enquanto em prova, candidato ou não à vitória final, é extremamente complicado orientar o foco para outra competição. E como referiu o treinador do SL Benfica, difícil é regressar ao campeonato depois de um jogo de Liga dos Campeões. 

Curioso que na época transacta depois daquela que foi provavelmente a melhor exibição da época do SL Benfica (jogo em Chelsea) se tenha seguido a provável pior (Sporting). Não foi fadiga. Foi incapacidade mental para centrar toda a concentração na prova nacional.

As próximas semanas poderão ser decisivas a nível nacional. A eliminação do FC Porto frente ao Málaga poderá ser fracturante, basta ler com atenção algumas declarações dos jogadores azuis e brancos. Todavia em duas semanas o foco dos jogadores do Porto estará unicamente na Liga. É sobretudo por isto que o FC Porto segundo Jesus poderá beneficiar de ter saído mais cedo da Europa. Mas não se sabe como será a resposta imediata. 

E beneficiaria internamente o Benfica se tem caído em Bordéus? Não. Nada. A pressão da possibilidade de terminar uma época prometedora sem troféus "grandes" cresceria substancialmente e a Liga Europa jamais retirará o foco a quem já jogou na Liga dos Campeões. Poderá chegar o SL Benfica à semi final, e deverá chegar assim amanhã o sorteio lhe evite duas ou três equipas, que o foco encarnado continuará na Liga nacional.

10 comentários:

Manuel Humberto disse...

E beneficiaria internamente o Benfica se tem caído em Bordéus? Não. Nada. A pressão da possibilidade de terminar uma época prometedora sem troféus "grandes" cresceria substancialmente e a Liga Europa jamais retirará o foco a quem já jogou na Liga dos Campeões. Poderá chegar o SL Benfica à semi final, e deverá chegar assim amanhã o sorteio lhe evite duas ou três equipas, que o foco encarnado continuará na Liga nacional.

É mesmo isto Miguel Nunes, tive esta discussão com o Ricardo no seu «blog» há coisa de 1 mês. À pressão acrescentaria mesmo a motivação: os jogadores do SLB estarão sempre melhores enquanto competirem na Liga Europa, porque estarão mais motivados. É o ideal para qualquer dos jogadores regulares e entre os mais utilizados e como é evidente desde que o período de recuperação seja respeitado a questão da fadiga não se põe. Quanto ao perigo de lesões falamos de mais 7 ou 8 jogos por época a partir dos play-off, desse modo, irrelevante dado que um jogador tanto se pode lesionar em Bordéus como amanhã em Vila do Conde ou depois de amanhã num treino.

Com tantos exemplos de equipas que competem 2 vezes por semana e continuamente recorrem a um núcleo de 7 ou 8 jogadores no seu 11, estranho é que ainda se tenha "medo dos 2 jogos por semana". Premier League, Liga Espanhola (via competições da UEFA), FCP em 2002/03 e 2003/04 (via UEFA), SCP em 2004/05 (também via UEFA), os exemplos existem. Aquilo que um treinador pode fazer é perceber quando existe saturação nos jogadores. Mas isso não é físico, relaciona-se unicamente às suas emoções e estados psicológicos. Motivo pelo qual José Peseiro salvo erro em Abril de 2005 entrou em Braga com 8 jogadores novos no 11. Nada a ver com o físico.

Parabéns ao Benfica pelo resultado. Mais uma para Jorge Jesus, excelente. O Benfica sem o seu treinador seria um redondo zero.

Cláudio disse...

É fadiga. Mas não se trata de a tão falada fadiga física. O grande problema que os treinadores têm de ultrapassar é a fadiga mental ou fadiga central. É verdade que cada competição tem o seu grau de interesse por parte dos jogadores. A sucessão de jogos, leva a que os jogadores não tenham o mesmo estado de predisposição emocional para o jogo. O grande problema não é físico mas sim psicológico. Os jogadores entram em fadiga táctica com o acumular de jogos e a concentração baixa o que leva a resultados menos bons.

Vitor Oliveira disse...

Excelente artigo, exatamente o meu pensamento.

Pedro disse...

Já falámos sobre isso e estou totalmente de acordo contigo. A questão do desgaste físico é um mito sem qualquer sentido.

Jesus desde a primeira época refere que o ritmo de jogos é irrelevante sendo o importante o tal tempo de recuperação. Diz mesmo que as 72H chega perfeitamente para recuperar os jogadores.

Não pode é depois suportar exibições menos conseguidas com essa justificação de desgaste...

ricnog disse...

Nao acredito no cansaço fisico, mas sim psicologico.nba fazem jogos e mais jogos e mais jogos, nao vejo cansaco fisico.

Claro que a continuidade na liga europa por parte do benfica, vai beneficiar todos os aspectos psicologicos dos atletas....eles proprios querem chegar a uma final e vencer....se me disserem que o jorge jesus cansa os jogadores psicologicamente?acredito, pelas suas atitudes/declaracoes.

Lembro me ano passado que nesta altura, o benfica estava em primeiro campeonato, com liga campeoes, taca e taca da liga e o jesus disse 'estamos em todas as frentes, mas podemos nao ganhar nenhuma'. Isto para mim e umdesgaste psicologico enorme em jogadores.

O foco, tambem eh bem interessante, mas nao deixa de ser a parte da motivicao psicologica instrinseca que a vitoria da.

Poderemos fazer uma pesquisa de dean karnazes na internet e verificar do que podemos fazer ;)

Cole disse...

Para quem não sabe o que é a creatina quinase, aqui fica o link:
http://logon.prozis.com/pt/o-que-e-a-creatina-quinase-e-qual-o-seu-papel-na-musculacao/

Cumps

Anónimo disse...

Exactamente. Excelente artigo. Contigo todas as semanas caiem "mitos". Qualquer dia ninguém vai ver futebol, basta-nos ver aqui ler as tuas opiniões (estou a brincar). Eu pelo menos já não passo sem vir aqui todos os dias ver o que há de novo. Parabéns e continua.

Brinca na Areia disse...

Outro exemplo e a derrota do Sporting no campeonato depois de eliminar o ano passado o Manchester City. A ressaca mental q aquele jogou provocou retirou foco e capacidade aos jogadores do SCP. Alem de ja nao estarem especialmente motivados para jogos da liga naquele momento do campeonato

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

O dualismo "cientifico" mente / corpo que reinou durante séculos a mentalidade humana, consequentemente manifestou-se e manifesta-se no Futebol. Assim, o "fisicismo" (a expressão mais objectivável e analítica desse dualismo) conduziu o treino e influenciou também as concepções de fadiga e recuperação.

O desgaste / fadiga, à imagem do funcionamento humano, é global. É difícil perceber onde começa e termina a fadiga central (nervosa) e a periférica (muscular). Porém, no caso específico do Futebol, havendo motivação, a dimensão físico-energética passa quase sempre a secundária. Uma vez mais, as crianças, propriamente através do Futebol de Rua, têm muito para ensinar aos adultos. Quantas "peladinhas" jogávamos horas seguidas, dias seguidos nas nossas férias e fins-de-semana? E quando é que esses jogos terminavam? Quando estávamos "cansados fisicamente"? Não. Quanto tínhamos que ir para casa. Ou quando o jogo já não trazia motivação: porque estávamos fartos de jogar e queríamos ir fazer outra coisa (raro), ou mais habitualmente quando os jogos se prolongavam, uma equipa goleava, cada um começava a jogar para si e o jogo perdia interesse. Surgia então a expressão: "isto já não tem piada, vou-me embora!"

Pese a diferença de realidades, relativamente ao Futebol de Rendimento, estamos no fundo a falar do mesmo jogo, que é muito jogado ao nível do subconsciente, e portanto argumentos como o profissionalismo e altos vencimentos contam pouco para o "calor do jogo". Assim, com a devida recuperação enquadrada, enquanto houver motivação, seja pela competição, pela qualidade dos treinos, do prazer decorrente da forma da equipa jogar, da liderança do treinador, etc., menos desgaste emocional, maior número de jogos de qualidade possíveis.

Um exemplo ainda bem vivo disto é mesmo o Porto do Mourinho em 2002/2003 e 2003/2004: uma equipa "que manteve maioritariamente os mesmos jogadores, verificamos que se atingiram volumes na ordem dos 65 jogos por época, e ainda que os jogadores internacionais ao somarem mais os jogos da Selecção Portuguesa, contabilizaram à volta de 70 jogos na primeira época e 80 jogos na segunda. Contudo, relembramos que a equipa venceu quase todas as competições em que esteve envolvida (excepção para a Supertaça Europeia, competição de um jogo perdida para o A. C. Milan no inicio da época 2003/2004 e a Taça de Portugal, perdida já na final para o S. L. Benfica no final da época 2003/2004). Observou-se que os jogadores apresentaram uma evolução favorável na Forma Desportiva nas duas épocas desportivas, não só constatável pelo elevado rendimento da equipa como também pelo elevado rendimento individual dos jogadores, expressado flagrantemente na segunda época, particularmente no caso dos jogadores internacionais portugueses, que após realizarem cerca de 70 jogos pelo F. C. do Porto ainda contribuíram de forma expressiva para alcançarem a primeira final da história da selecção Portuguesa, obtida no Europeu de 2004".

Henrique disse...

Só um pequeno aparte a um óptimo artigo: creatina quinase em Pt-Pt é creatina cinase :D