quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

Os treinadores portugueses não apreciam talento

Ponto prévio. O texto não pretende ilibar as responsabilidades que os mais talentosos também têm. Que são muitas. Como chegam ao sucesso com uma percentagem de suor infinitamente inferior aos menos aptos, muitos são os que nunca chegam a desenvolver características importantes como a superação ou agressividade. Características essas que são apanágio dos menos talentosos, como forma de se integrarem num mundo que não os seleccionaria se assim não fosse.

E não há que desvalorizar quem lá chega unicamente pelo trabalho, "raça" e uma vontade imensa. São esforçados e podem ser muito úteis. Mas será justo que se percam talentos porque se valorize única e exclusivamente os atributos que deveriam ser tidos como menos importantes?

Estaremos a valorizar da forma que deve ser valorizado o talento? 

Há não muitos anos, perante a cada vez menor produção de jogadores "distintos" a Federação francesa procurou regulamentar uma "espécie" de quotas que protegesse os mais pequenos. Os mais talentosos, em detrimento dos mais agressivos, dos que vão chegando em idades mais novas ao sucesso pela força e maturidade precoce. Tapando dessa forma o caminho aos talentosos, cujo potencial lhes era imensamente superior. Todavia, fruto de nunca serem apostas de forma regular, também esses não lá chegavam. As apostas não tinham potencial. Os de potencial não eram apostas.

É um exercício bastante masoquista olhar para a selecção portuguesa da actualidade e compará-la com a de anos não tão distantes.

Tavez hoje os treinadores pretendam mais do que nunca uma mecanização / padronização de movimentos, de decisões. O espaço para a individualidade é retirado. A criatividade é coarctada.

Importa a intensidade. Fazer tudo igual. Preferencialmente com corridas desenfreadas e uma garra desmesurada. Que, saliente-se são características interessantes. Para completar o que é essencial. E não o essencial que precisa de complemento. 

Não admira que Pereirinha esteja de saída sem deixar saudades. E não admira que a nossa selecção seja cada vez menos interessante. E não admira que os nossos centrocampistas tenham cada vez menos criatividade, e que a magnífica fábrica portuguesa de extremos esteja a encerrar.

terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

Diogo Rosado. Não é tarde. Nada mesmo. E Daniel Carriço.

"Apoiados por uma forte equipa de certeza que terão sucesso" Daniel Carriço sobre Insua e Izmailov.

Por equipa, Carriço não pretende dizer clube. Não há razão para se melindrar. É uma verdade universal. Jogadores pouco mais que banais parecerão competentíssimos num colectivo que os proteja. Outros, mais talentosos e com melhores qualidades parecerão menos bons em contextos complicados. Em contextos em que cada um se vê forçado a jogar por si, porque colectivamente a equipa (não o clube) é inexistente.

"Tecnicamente é muito forte. O último passe por norma sai sempre, tem inteligência acima da média e uma visão de jogo enorme" Quim Machado sobre Diogo Rosado.

E é precisamente a opinião de Quim Machado a que mais importa. Foi o único treinador de Rosado na primeira liga. Mais do que o que todos puderam observar nos jogos, Machado seguiu o talento de Diogo dia a dia, treino a treino. À data ninguém melhor que Quim Machado saberá o que poderá dar o enorme talento. 

Os relatos que em surdina se ouvem são unanimes. Há demasiado de culpa própria no rumo que a carreira de Rosado tem seguido, e pouco de culpa de treinadores ou clubes. 

Talvez hoje, aos vinte e dois anos, perceba que há muito para mudar na sua vida para além do campo, se pretende voltar a entrar na galeria dos que pretendem e têm potencial para serem notáveis. Foi assim com Fábio Coentrão. Pode, garantidamente, ser assim com Rosado. 

Classe e mais classe. É um dos melhores jogadores formados em Portugal na última década. Aproveitar o seu talento e potencial depende em primeira instância, sobretudo de si, e depois do contexto onde se vir inserido.

Não é tarde. E mesmo que nunca alcance o potencial que tem, é uma aposta que urge fazer. O possível retorno é demasiado grande para deixar esquecer tanta qualidade.

P.S. - O último jogo que fez no Estádio da Luz, onde passeou toda a sua classe como poucos, não terá passado despercebido a Jesus. Tão pouco aos seus possíveis futuros colegas de equipa.


segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

O regresso do 442 Losango. Lúcio Antunes. Cabo Verde também deverá estar muito feliz por teres nascido cabo-verdiano.

Grande organização da selecção de Cabo Verde. Muito difícil encontrar na CAN equipa com processos tão bem definidos. Ocupação do espaço defensivo bem pensado e movimentação ofensiva sempre a procurar "apoios" com "rupturas". Opções nos corredores laterais com opções no corredor central. 

Lúcio Antunes é o treinador da melhor equipa, colectivamente, da CAN. Dificilmente com as individualidades que dispõe poderá almejar o titulo. Fica no ar a pergunta. O que seria desta selecção se à organização aliasse mais talento (apenas presente em Ryan Mendes) ou apenas mais qualidade técnica que permitisse cometer muito menos erros técnicos? 








domingo, 27 de Janeiro de 2013

Alan fora do jogo e trocado de corredor aos 62 minutos

Não terá corrido tão bem para a sua equipa, a última vez que Jorge Jesus havia dado tanta importância a uma individualidade. Geralmente Hulk. E geralmente mal sucedido. Em Braga, porque Alan não está a ficar mais novo e porque Melgarejo naquilo que lhe foi pedido fez um jogo verdadeiramente assombroso, pela reactividade e inteligência, que lhe foi seguida pela reorganização da equipa em função do espaço para o qual o paraguaio era atraído, e pela muito boa exibição de Jardel (não fantástica porque alguns erros técnicos poderiam ter mudado o jogo) sempre autoritário a cair no espaço que Melgarejo abandonava, sempre sem deixar Éder receber, muito menos enquadrar, a estratégia resultou. 

Alan neutralizado e fora do jogo, nunca foi capaz de, enquanto extremo direito participar no jogo. Éder caía no espaço aclarado, mas Jardel esteve no processo defensivo a um nível extraordinário. 

Aos 62 minutos Peseiro, bem, procurou confundir o SL Benfica dando Alan a Maxi. Já foi tarde.






sábado, 26 de Janeiro de 2013

Rosa e Ferreira. Doravante o vosso baú estará mais bonito

Emocionante.

Pode um simples trocar de camisola e um longo abraço já bem depois do último apito dizer tanto?

Que me perdoem, mas eu vi mais que um amigo abraço. Naqueles longos segundos, os que sabem viram o que poderia ser a carreira de um e outro. Infortúnios, más apostas, por vezes apenas sorte ou azar ditou um encontro de individualidades de primeira na segunda.

Apesar de tudo, há que estar certo que as coisas ainda vão acontecer para um e para o outro. Merecem um nível diferente. Aquele abraço revelou que o sabem. Por um e pelo outro. 

Enquanto esperam, saibam que hoje um dos melhores jogadores da história do nosso campeonato, vos aplaudiu de pé. Também o Valdo gostou de estar hoje no Restelo. 

A primeira liga não pode esperar mais. 

quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Estrelas do Futebol Feminino. Mês de Janeiro.

Sílvia Brunheira.

Qualidade, perseverança, liderança e competência.

Quem a observa por fora jamais lhe adivinhará a idade. A (boa) genética justificará muito da sua capacidade, mas é muito pela sua personalidade que é ainda hoje a jogadora que é. Talvez sejam alguns preconceitos com o seu BI que determinem a sua ausência na selecção de todos nós, quando continua a ter condições para ser tão importante e determinante quanto terá sido outrora. 

Sílvia é uma campeã. Uma disputa de bola, um gesticular, e imediatamente o percebes. As suas qualidades futebolisticas são imensas. Não serão muitas as jogadoras as que a uma excelente capacidade técnica e física aliam os traços próprios da mentalidade de que são feitas as campeãs. 

Controla e domina todo um meio campo. É determinante em todas as fases do jogo. Trabalha, recupera, e sabe jogar. Entrega, desmarca. Em apoio, ou em ruptura. Tudo em alta rotação, tudo de cabeça levantada. 

A selecção não está a aproveitá-la quando ainda é longe de ser demasiado tarde. Espera-se que daqui por alguns anos, quando decidir terminar a carreira, a Federação saiba com exactidão o lugar que uma atleta deste nível deve merecer.

O futebol feminino precisará da Sílvia muito para além do que ainda faz no relvado. Mas, essa é uma conversa para adiar por mais três ou quatro anos. Assim a atleta o deseje.

5 pré convocados do Depor. E este Senhor que nunca foi um indiscutível. Menos no coração dos que amam verdadeiramente este jogo.

Daria tudo para te ver jogar uma vez mais


quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Portugal cá estará. Neste cantinho à beira mar plantado. Volta sempre e obrigado por tudo.

Clássico de nível mundial


Tremendo do ponto de vista táctico o clássico.

Dentro daquilo que os seus treinadores idealizam, duas equipas de nível mundial, na ocupação dos espaços. Nas permutas, nas referências para as acções, na velocidade a que se respondem (posicionalmente em conjunto com os colegas) às situações que mudam a cada segundo.



E se podemos classificar de nível mundial os comportamentos colectivos de FC Porto e SL Benfica, porque razão o sucesso a nível europeu não tem maior continuidade? Menor qualidade técnica, e de decisão e criatividade nas individualidades comparativamente com os grandes da Europa? Claramente que sim. Mas não só. E talvez não sobretudo por tal diferença. Muito passará pelo estímulo. Remetendo para o post das equipas B. Mais forte será quem mais e maiores estímulos enfrentar. Quantos jogos desta exigência competitiva (sem espaço para jogar, um segundo mais tarde, um metro mais ao lado, e o jogo está perdido) enfrentam FC Porto e SL Benfica a cada ano? Na presente temporada apenas Celtic (na forma como retirou espaço de jogo ao adversário) e Barcelona tinham colocado semelhantes dificuldades aos lisboetas, e Paris SG e Braga aos nortenhos. 

Quando chega a hora de competir contra jogadores/equipas que estão habituados a níveis de concentração altíssimos todo o ano, fim de semana após fim de semana, é natural que quebre por quem enfrenta menor competitividade ano após ano. O que para uns será um esforço maior (mental/concentração/velocidade a reagir às diversas situações) por um jogo diferente, para outros será uma espécie de "just another day at the office".

Talvez mais pela natureza atípica da partida do que propriamente pelas qualidades técnicas dos seus intervenientes, muitos erros técnicos (foi um jogo intenso, apaixonante. Diferente de bem jogado) e risco quase zero dentro do bloco.

E a excelência táctica do jogo e das equipas passa sobretudo por ai. Inacreditável como se consegue jogar em tão pouco espaço. Ter a última linha tão subida e ainda assim não se ser surpreendido com bolas em profundidade nas costas. Em noventa minutos apenas três bolas ousaram ultrapassar as últimas linhas, sendo que duas direccionadas para os corredores laterais (Uma para Defour, outra para Varela e a da perdida de Cardozo).




Natural pela quase total ausência de espaço que emergissem os defesas (todos, os oito, com prestações muito muito boas defensivamente). Muito mais fácil pressionar, não deixar enquadrar e desarmar do que construir em poucos metros povoados por imensas pernas. 

Faltou dentro do "bloco" James Rodriguez. Mostrou-se Jackson. Que qualidade formidável. Foi o único jogador do FC Porto capaz de jogar sem espaço. Segurou todas as bolas, entregou-as quando e para onde devia entregar. Temporizou, escolheu a melhor opção. Enquadrou quando possível. Quando não, também não perdia a posse. No actual modelo do FC Porto mostra-se bastante mais nos movimentos a procurar a finalização. Contra Estoril (Taça da Liga) e SL Benfica, sem James, teve de adaptar-se e participar mais nas fases de construção. Mostrou ser um ponta de lança completo. Extraordinário em todas as fases. Técnica, muita inteligência, qualidades físicas interessantes. A tudo isto alia a excelência como também finaliza os ataques da sua equipa, e é fácil perceber que estamos perante mais um avançado fabuloso no FC Porto.

No SL Benfica, enquanto outros "chumbavam" emergia Matic. Se o nível for constante (e tem sido), é claramente o melhor médio da Liga portuguesa. Sem espaço, tudo o que fez ofensivamente foi brilhante. Não existiu Benfica sem o sérvio. De todas as vezes que o Benfica chegou ao último terço com bola dominada, Matic foi decisivo no início da jogada. Foi sempre o sérvio que desequilibrou o adversário na fase de construção. Foi o único capaz de, não só conservar a posse como construir dentro daquele espaço tão reduzido que as equipas ofereceram para jogar. Não é só a sua óbvia e inegável qualidade técnica. É a inteligência e criatividade que mostra quando tem a bola. Tem uma pequena singulariedade que por norma apenas se observa em jogadores com baixo centro de gravidade. O atrair para soltar. Não é só a qualidade do gesto técnico que faz a diferença quando solta a bola. O timing com que o faz é notável. Não se atemoriza e segura, segura, segura, chama a si um, dois, três adversários e faz a bola seguir pelo espaço de onde retirou os adversários. Fê-lo por diversas vezes. E faz bem Jorge Jesus a não conferir ao sérvio o típico papel de "6" nas suas equipas. Seria um desperdício não aproveitar a criatividade de um jogador desta natureza. É dez vezes mais jogador que Javi Garcia, e começa a incomodar que continuem a perguntar ao sérvio se será capaz de fazer esquecer um jogador que lhe é bastante inferior. 


segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

As diagonais que Vitor Pereira treinou

SL Benfica x FC Porto. Antes de irmos ao jogo, as conferências.

"Vi o grande Benfica a bater bolas na frente para o Cardozo. O Benfica é isto, pontapé para a frente para o Cardozo" Vitor Pereira.

Vitor Pereira é um treinador com imensa qualidade. Sabe muito do jogo e sobretudo sabe que é bom. Sabe que sabe. É por certo muito difícil para o treinador do FC Porto não ter o reconhecimento dos media que sabe merecer. Tal não seria especialmente grave se Pereira soubesse lidar com o facto. Não sabe. Torna-se deselegante. Fecha portas e maltrata o desporto que o acolhe. Para além de que minimiza o tão interessante feito que havia conseguido. Foi a sua competência, a forma como tacticamente preparou o jogo e condicionou as saídas do Benfica que o obrigou ao pontapé para a frente. Para os adeptos do clube talvez seja óptimo ter alguém assim. Para os adeptos do futebol é apenas lamentável. 

 É um fenómeno em todo semelhante ao que Jorge Jesus enfrentou em tempos. Há muito que Jesus sabe ser melhor que quase todos os demais. E era (lhe) particularmente difícil que ninguém o reconhecesse. Durante os tempos de Belém as suas conferências de imprensa tinham sempre como tema principal os "banhos tácticos" que dava aos  treinadores adversários. Em Belém chegou a perder um jogo por 4 a 0 e garantiu na conferência que tinha dado mais um banho no treinador adversário. Que apenas as bolas paradas e a mais valia individual de outrém tinha levado o jogo para tal desfecho. E tinha razão! Porém, todas estas tentativas de procurar no mundo mais reconhecimento para a sua própria competência, tornam-se por vezes numa falta muito grande de desportivismo, que deveria apenas ser apanágio dos adeptos.

É demasiado injusto quem é competente, não ser reconhecido como tal. Mas é assim o futebol. Todos falamos, todos pensamos perceber, quando na verdade pouquíssimos são os que realmente percebem. Porém, repete-se. É assim o futebol. Quem entra tem de aceitar as regras do jogo. 

Brilhante, porém, na conferência antes do jogo. Muitos foram os que acreditaram que estava a dar armas motivacionais ao adversário. Não estava. Não estava seguramente a dar aos outros, o impacto que guardava para os seus. O jogo poderia ter dado para outro lado, mas a serenidade de todos os jogadores do FC Porto que contrastava com a do seu rival era bem perceptível a cada lance que se disputava no relvado. Os erros técnicos pouco habituais nos encarnados sucediam-se enquanto que os azuis e brancos estiveram sempre confortáveis na partida.

A ausência de James retirou quase toda a criatividade ofensiva do FC Porto. O melhor jogador do campeonato é quem faz toda a diferença no processo de construção de jogo ofensivo. E foi a sua ausência que mudou um pouco os dados. O SL Benfica parecia um pouco mais favorito e sobretudo muito mais favorito do que o que seria com James em campo. Todavia, uma vez mais, a "genética" faria a diferença. Vitor Pereira fez questão de a relembrar antes da partida. E fez bem. Naquela casa não se treme.

P.S. - Votos novamente abertos para melhor blog do ano. Os links estão na barra lateral. Agradecemos  a todos os que possam perder 30 segundos a votar.

domingo, 13 de Janeiro de 2013

Clássico



Confirmações de nível Mundial.

sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

Blog do ano

A votação está a decorrer aqui
Diz que estamos a votos. Categoria Desporto e categoria Futebol.  Se for essa a vossa opinião, os votos serão, com certeza, bem-vindos.

quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

Equipas B, João Mário, Fernando Ferreira e Miguel Rosa.

"Não aguentámos o ritmo." João Mário, jogador do Sporting B, sobre o jogo que opôs a sua promissora equipa ao líder incontestado Belenenses. 

É seguro que de entre muitas outras dependências, a evolução de um jogador de futebol passa muito pela variabilidade de estímulos que encontra. No treino e na competição. 

De uma forma bastante simplista. Se eu apenas precisar de me apresentar a um nível 5 para ter sucesso, não irei nunca atingir o nível 6. Este colocar de dificuldades extra para potenciar qualidades individuais é, por exemplo, a razão principal pela qual é comum nos clubes grandes, vermos miúdos ou equipas inteiras, a competir com escalões etários mais velhos.

João Mário e os seus colegas leoninos (vários em idade júnior) que subiram ontem ao relvado do Estádio do Restelo são todos eles, hoje, um pouco mais jogadores do que ontem. Para quem trata do processo dos jovens atletas do Sporting, deverá ter sido reconfortante ouvir as palavras do centrocampista. O propósito está a ser cumprido na íntegra. O próximo passo para aqueles cujas capacidades sobressaiam será a integração num plantel da Primeira Liga. Novas dificuldades, mais evolução, maiores possibilidades de regresso ao clube origem para se ser bem sucedido.

Miguel Rosa está a três dias de somar vinte e quatro anos e joga na segunda liga. A equipa B do SL Benfica soma erros de casting atrás de erros de casting. Quem planeou ou pensou o processo não pode, seguramente, perceber um pouco que seja daquilo que está a tratar. Jogadores sem potencial para jogar sequer na primeira divisão são mais que muitos. Porém, o maior erro de todos foi sempre a gestão da carreira de Rosa. Logo no seu primeiro ano de sénior foi a grande revelação da segunda divisão. No segundo ano, o estímulo deveria ter aumentado. No terceiro, idem, e talvez hoje pudesse ser um jogador importante no Benfica. As suas qualidades são imensas e ninguém poderá jamais afirmar que Miguel nunca chegará a internacional português. Já afirmar que nunca atingirá o potencial que tem porque quem decidiu os passos da sua carreira nunca o fez com base no conhecimento do que seria o melhor para Rosa e para o Benfica, é uma mais que certeza. 

Se alguém conseguir por razões plausíveis explicar porque está um jogador de tal qualidade aos vinte e quatro anos na segunda divisão, a caixa de comentários está logo abaixo do texto. 

Fernando Ferreira cresceu na formação do Sporting. Infelizmente para ele quando chegou a sénior não só não era suficientemente bom para ficar no plantel leonino, como não estávamos na era das equipas B. O percurso seguiu-se por Casa Pia, Real, Académico de Viseu, Tondela, e finalmente Belenenses. O melhor médio da segunda liga (eleito e muito justamente pelos treinadores adversários) chegará aos vinte e seis anos, finalmente, à principal liga portuguesa. 

Vê-lo jogar é um regalo. Mesmo extraordinário na ocupação do espaço, bom na tomada de decisão, fisicamente muito forte e com qualidade técnica bastante acima da média, é na forma como lidera toda a equipa que se percebe que é um jogador distinto. Sabe tudo sobre a posição e não precisas de mais de vinte minutos a olhar para ele para o perceberes. Ferreira tem hoje mais que qualidade para ser titular no meio campo do clube que o formou. Pelas suas capacidades a sua entrada no onze leonino seria desde logo um "boost" que incrementaria o nível da equipa. Tivesse o seu primeiro ano de sénior sido passado na inexistente, à data, equipa B do Sporting, e talvez hoje estivéssemos a falar de um jogador mais importante e mais reconhecido.

Aos vinte e seis anos estrear-se-à na primeira divisão portuguesa. Pela sua qualidade não será tarde para outro voos, assim haja astúcia. Porém, como Rosa jamais atingirá o potencial que sempre teve. São centenas os jogadores desaproveitados por Portugal fora. A equipa B do Sporting está a tratar de corrigir tantos casos quanto os possíveis (indiano à parte). A do Benfica não. Limita-se a albergar sarrafeiros, descoordenados e os "old school" carregadores de piano. Ainda que no meio da molhada se possa desejar sucesso a dois ou três.

Enquanto não se perceber que o propósito da equipa B não é, não pode ser, e jamais será o resultado, planteis feitos em cima do joelho sem qualquer sentido, continuarão a ser desenhados.

quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Se tu fores, eu também vou


"Casaria a minha irmã contigo, Román.


As cinquenta e uma internacionalizações por uma das mais encantadoras selecções do futebol mundial, quase o dementem. A falta de troféus na Europa, como que o confirma.

Riquelme, um dos mais brilhantes futebolistas da última década passou pelo jogo sem que lhe reconhecessem um terço do mérito. Sozinho deu expressão a um pequeno município em Espanha. E ainda que em 2000 tenha ganho o Mundial de clubes, ou que em 2008 tenha almejado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, nunca teve a notoriedade que fez por merecer. A notoriedade que se adivinhava quando em 1997, no maior Estádio da Argentina, o Monumental de Núñes, casa do River Plate, substitui Maradona no seu último jogo.

Quando se retirar, Riquelme saberá que o seu nome não fará parte do almanaque do futebol europeu. Todavia, pela inteligência que demonstra em cada acção, pelas suas mil e uma soluções para ultrapassar os adversários, pela sua técnica assombrosa, pela classe que sempre passeou em cada relvado a que subia, pela sua criatividade ímpar que tanto nos fez sonhar, Riquelme precisa de saber que perdurará eternamente no coração daqueles que sempre perceberam com exactidão o que ofertava, e oferta a cada minuto que passava e passa num campo de futebol.

Para ti Riquelme, um obrigado."

O texto aqui, data de 2011 e o sentimento continua presente.

Se o tricolor juntar Riquelme a Deco, mudo-me para o Rio de Janeiro.


"Jesualdo é o melhor em 4x3x3. Isto pode parecer, mas não são números. Sabe dar dinâmica às suas equipas em 4x3x3" Jorge Jesus.

O inexistente defensivamente meio campo leonino aqui

E a tradicional dinâmica defensiva do meio campo de Jesualdo aqui

O Sporting tem hoje um treinador que percebe de futebol, e que sabe no treino potenciar as suas ideias. Só isso já é um upgrade muito grande em relação ao passado mais recente. 

terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Messi. Para além do golo.

O melhor do mundo. Mesmo que a FIFA decrete como lei a sua impossibilidade de marcar golos.

A forma como em condução quebra contenção e coberturas, sempre com capacidade para ver tudo o que o rodeia, e a forma como depois decide e a qualidade técnica que coloca na decisão que toca. O argentino não tem paralelo com nada.


Aqui.

segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Messi, melhor jogador do mundo de 2012

O prémio é para o melhor jogador de 2012, certo? 

Não poderia ser mais justa a sua atribuição. E se nos próximos quatro, cinco ou seis anos o prémio seguir noutra direcção, dificilmente terá sido feita justiça. A menos que algum problema físico venha a afectar o baixinho.

Reafirmando. O prémio é para o melhor jogador. Argumentos que usem titulos não colhem. Por cá bem sabemos como foi injusto Paulo Futre ter andado sempre tão longe só porque não estava nas melhores equipas. É que o prémio, é para o melhor jogador! A melhor individualidade! 

Em 2011 já se escrevia assim.

Por onde lhe pegaste, Vercauteren?

"Qual foi a primeira preocupação de Vercauteren (em termos de preparação táctica da equipa no processo de treino) aquando da sua chegada ao SCP ???" Amoroso na caixa de comentários do último post.


Não se sabe. Mas, aquela que teria sido a primeira preocupação do Lateral Esquerdo se tivesse nos "sapatos" de Vercauteren, ficou registada no final de Outubro.

E curiosamente talvez o desfecho no fim de semana tivesse sido diferente. 

"Back to basics

"Nesta fase, até o aquecimento deve ser pensado para fazer evoluir tacticamente a equipa.

Integrar no aquecimento jogos que trabalhem tacticamente (as respostas a dar em função da situação de jogo) todos os atletas, sobretudo os que compõem a linha defensiva do Sporting é fundamental. Todo o tempo é demasiado curto para o que urge mudar. 

Exemplos para aquecimento.

Jogos de 2x2. Pontua quem ultrapassa a linha final adversária com a bola dominada. Obrigatoriedade de defender em duas linhas (contenção / cobertura defensiva). Mais do que cair em cima do adversário directo para recuperar rápido, há que garantir segurança defensiva.

Jogos de 3x3. Pontua quem ultrapassa a linha final adversária com a bola dominada. Obrigatoriedade de defender em duas linhas (linha da contenção com um jogador, linha de cobertura com dois). Trabalhar os equilíbrios, a cada mudança do portador da bola, um jogador diferente sai para a contenção, voltando quem estava na contenção para a linha de cobertura.

Exercícios potencialmente interessantes para a coordenação da linha defensiva, nos momentos em que fica com 4 ou 5 atrás da linha da bola.

Jogos de 4x4. Pontua quem ultrapassa a linha final adversária com a bola dominada. Obrigatoriedade de defender em duas linhas (linha da contenção com um jogador, linha de cobertura com três). Trabalhar os equilíbrios, a cada mudança do portador da bola, um jogador diferente sai para a contenção, voltando quem estava na contenção para a linha de cobertura.

Jogos de 5x5.  Pontua quem ultrapassa a linha final adversária com a bola dominada. Obrigatoriedade de defender em duas linhas (linha da contenção com um ou dois jogadores, linha de cobertura com três ou quatro jogadores, dependendo das ideias do treinador e do corredor de jogo. Isto é: 4+1 ou 3+2). Trabalhar os equilíbrios, a cada mudança do portador da bola, um jogador diferente sai para a contenção, voltando quem estava na contenção para a linha de cobertura.

Primeiramente há que reorganizar defensivamente a equipa. Começando pelos que jogam mais atrás. Como defender com 2, 3, 4, 5 atrás da linha da bola?

Progressivamente ir inserindo mais jogadores, para mais situações que promovam também a coordenação entre sectores e dentro dos próprios sectores." aqui.

domingo, 6 de Janeiro de 2013

O processo de treino e o golo do Paços de Ferreira em Alvalade

"As pessoas não têm noção da velocidade a que tudo sucede e da falta de espaço que há no relvado". Pedro Henriques. Comentador e ex jogador do FC Porto e SL Benfica, em entrevista ontem ao jornal Record.

Desde sempre que o propósito do Lateral Esquerdo foi enfatizar a importância da competência da equipa técnica para se almejar o sucesso. Enfatizar a importância desmedida que a vertente táctica tem no jogo moderno.

Desde que por aqui se "descobriu" um novo método (por imagens sobretudo) de justificar o que antes já se defendia, mas apenas por palavras, que a mensagem que se tenta passar sai mais perceptível, o que por vezes pode causar a sensação errada de que o futebol é um jogo fácil. Não é. É um jogo extremamente complexo.

E é complexo sobretudo pela enorme variabilidade de situações, mas também e muito, pela velocidade a que tudo decorre.

Há dois dias atrás numa troca de impressões sugeria que Rolando, não sendo um central de valor indiscutível seria indubitavelmente um enorme upgrade no centro da defesa leonina. Garantiam-me que o problema do Sporting era colectivo. E é. Desde o início da época que por aqui se apontam erros colectivos, mesmo que com génese em algumas individualidades. O Sporting não é uma equipa de futebol. Não há ideias conjuntas, quer ofensiva, quer defensivamente. 

É nesse sentido que mais do que tudo, o Sporting precisa de uma equipa técnica que perceba a evolução que o jogo teve. Uma equipa técnica que trabalhe a equipa para ser uma equipa e não somente onze pessoas que sobem ao relvado para jogar um jogo. 

Há, porém, quem cometa o erro de crer que bastará uma grande equipa técnica para que o Sporting reentre na luta pelo titulo (mesmo que em épocas vindoiras), mesmo mantendo as actuais peças. Avancei o prognóstico de que mesmo após a entrada em funções de Jesualdo Ferreira como treinador principal, se a aposta continuar a ser no mesmo onze, o Sporting continuará a cometer erros grosseiros no centro da sua defesa. A justificação foi curiosamente algo que Pedro Henriques mencionou numa entrevista um dia depois.  "Uma coisa são pequenos pormenores para corrigires. Outra é não teres noção do que fazes em campo. Cá fora até podes começar a perceber, mas lá dentro é tudo tão rápido que demorará demasiado tempo".

Com exemplos concretos. São mais que muitos, e já são apontados desde há muito, os erros posicionais de Cédric. No jogo deste fim de semana custaram uma derrota. Mesmo que convenha e muito, perceber como se chega a uma situação de 3x4+GR com espaço para o enorme Josué decidir. Ainda assim, em última instância os últimos a ficarem atrás da linha da bola deveriam ter tido capacidade para dificultar a tarefa dos pacences. Porém, pela posição a que se candidata, o tipo de erros que comete (sobretudo mau controlo da largura) podem ser considerados corrigiveis. Depende sobretudo do saber se o jogador tem capacidade para perceber o que o rodeia à velocidade a que o jogo decorre. No outro lado da segunda circular há um paraguaio que é lateral há seis meses, passa por tantas ou mais situações com apenas quatro atrás da linha da bola quanto Cédric e nunca o vimos mal posicionado como o português. 

Trabalho do treinador. Todavia, importa também perceber se o jogador tem capacidade para interpretar o que cada situação pede à velocidade a que tudo se sucede. Parar a imagem na TV e corrigir posicionamentos é fácil. Lá dentro não será assim, seguramente. 

Aparentemente Marcos Rojo nunca foi defesa central. Como defesa lateral, denotou também imensos erros posicionais. No golo do Paços está tão mal posicionado quanto Cédric. Simplesmente a bola seguiu pela direita, quando poderia igualmente seguir pela esquerda e terminar na baliza de Patrício. Rojo, tal como Cédric poderá ter potencial para jogar com qualidade numa lateral da defesa. E tal como Cédric é no momento um jogador demasiado limitado, mesmo para corredor lateral. Importa perceber o mesmo que importa com Cédric. Para além do ganho de conhecimentos que tanto urge, há que saber como lida com a velocidade a que tem de dar as suas respostas. Já como defesa central, as duvidas sobre a possibilidade de se tornar um jogador interessante são mais do que muitas. Usar referências será sempre mais fácil que ser referência. O seu desconhecimento e a sua falta de experiência é tanta que dificilmente o argentino se tornará num central importante. 

Há treinadores capazes de retirar o potencial máximo de cada jogador. Todavia, se a experiência e capacidade para interpretar a grande velocidade o que os rodeia não tivesse a importância que tem, qualquer jogador de futsal, com o treinador correcto poderia facilmente tornar-se um jogador importante. Tem a técnica, tem a velocidade, tem a força. A táctica dá o treinador, não é? Não. Aprender, ter o conhecimento é determinante, mas saber usá-lo no campo não é para todos.

Boulahrouz foi treinado por José Mourinho. É certo que os conhecimentos deverá ter. Dar respostas é que é pior. E por alguma razão foi defesa lateral nas últimas épocas no Estugarda.

Conforme sugerido no post anterior, aqui fica a sugestão de um posicionamento diferente para defender a situação de jogo que culminou com o golo do Paços de Ferreira. Quatro atrás da bola.


Sugestão próxima (diferença está no posicionamento da bola) da que havia sido dada para a mesma situação (quatro atrás da linha da bola) num post bem antigo, sobre a Premier League



P.S. - Os problemas são colectivos, e importa reforçar que mais do que tudo o Sporting precisa de encontrar urgentemente uma grande equipa técnica. Mas não se pode negligenciar que jogadores diferentes darão resultados diferentes. Não foi por acaso que após o jogo com o SL Benfica aqui referimos que a simples troca de jogador (Dier por Cédric) corrigiu as lacunas posicionais no lado direito da equipa de Alvalade. 

P.S. II - Josué joga muito!

sábado, 5 de Janeiro de 2013

Arrigo Sachi. Quase vinte e cinco anos depois.

Em 1990 vence o SL Benfica e sagra-se bicampeão europeu. Quase vinte e cinco anos depois continuaria a dar lições de modernidade com as suas ideias de 90 a uma percentagem elevada de treinadores.

As linhas, as coberturas, a preocupação com proximidade de sectores, o comportamento da última linha (sobretudo as distâncias para a bola, tendo como referência as acções / condições do portador para solicitar a profundidade (a partir do 1:40. Repare como quando o portador da bola deixa de estar enquadrado, ou é pressionado a linha defensiva usa tal referência (as condições do portador e não o posicionamento dos avançados adversários) para subir rápido e encurtar o espaço). Tudo sempre em função dos colegas e da posição da bola.




P.S. - Video sugerido pelo mui estimado leitor Karlos.

sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013