quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mano Menezes treina finalização

Será por ser o pior ataque do campeonato, e estar em último lugar, que Mano Menezes coloca os seus avançados a treinar para o circo?! É que deve ser muito giro para um futebolista profissional treinar finalização descontextualizada do jogo!
De forma bastante simples. Pensemos que o treino é preparado consoante as dificuldades que os jogadores sentem. Dificuldades do ponto de vista da organização colectiva, e do ponto de vista individual. Essas dificuldades, nesta fase da época, aparecem no jogo, principalmente. E o treino deve servir para preparar o próximo jogo, consoante as dificuldades sentidas anteriormente. Então, no próximo treino eu devo colocar os jogadores num contexto de dificuldade semelhante ao do jogo. Isto para que surjam essas mesmas dificuldades, e para que possam ser corrigidas.
Este colocar de dificuldades, para potenciar qualidades colectivas e individuais, é um princípio que deve estar assente no treino. Isto se o objectivo for verdadeiramente o melhorar da capacidade da equipa, e do jogador. Assim, percebe-se que só pelo facto da exigência, ao nível dos estímulos da tarefa, não se aproximar minimamente daquilo que é o jogo, o foco do jogador não é o mesmo. Não usa nem de perto a concentração que mete no jogo, logo, não melhora significativamente nada para o futebol. O jogador nem sequer sente dificuldades semelhantes às que encontrou no jogo. Pode, portanto, melhorar para outras actividades, mas para o jogo não. 

Pode-se e deve-se reduzir os estímulos no treino, para que possam emergir de forma mais frequente os comportamentos que queremos seleccionar. Mas essa redução deve ser criteriosa, por forma a não descaracterizar o jogo que se está a treinar. A chave é "reduzir sem empobrecer".


O treino decorreu no dia 4/02/2014.

15 comentários:

Miguel disse...

Boas,
já vos sigo há algum tempo mas sou apenas um curioso na matéria (profissional da informática e não da bola :) )

De qualquer forma, pelo que tenho vindo a aprender convosco o ideal seria idealizar o exercício do treino para que este se parecesse o mais possível com a realidade.

Neste caso adicionaríamos 1 defesa ao exercício para o tornar mais real. Mas se tivermos em conta que a equipa é uma "grande" acredito que o adversário defenderá sempre com mais homens. Assim colocamos 2 defesas para tornar a "coisa" mais parecida com a realidade.
Passamos "horas" nisto mas depois chegamos à conclusão que o atacante não consegue finalizar com qualidade porque está sempre em inferioridade numérica.
Perdemos um treino e a moral do atacante ficou de rastos (pelo menos a defesa ficou com a auto-estima nos píncaros) :) :) :)

Já agora saúdo o vosso regresso.
Cumprimentos,
Miguel

Roberto Baggio disse...

Miguel,

Mas a frustração é algo que existe no jogo, e é bom que apareça no treino. E se no treino existir, e for superada, no jogo também o será.

Exercício Gr+3x3+GR e 2 jokers que jogam pelas duas equipas no corredor lateral. Joga-se em 40 metros. Objectivo fazer golo. Irão de certeza surgir muitas formas de fazer golo, tal é a superioridade. Cruzamentos, jogadores em 1x0, em 1x1, em 1x2, em 2x1 no corredor central e nos laterais, em 2x0, etc.

Cumprimentos

Honoris disse...

Um treino só pode melhorar as qualidades técnico/tácticas de um jogador ou de uma equipa caso seja realizado no limite. O limite com que é encarado num jogo oficial, deve ser o mesmo limite no treino, só assim é possível que os jogadores/equipa se adaptem positivamente às respostas dadas ao longo de cada treino.

Quanto ao contexto no qual o exercício ocorre, é impensável achar que um exercício de finalização realizado dessa maneira possa ser representativo do que irá acontecer no jogo

pedro costa disse...

e pensar que este 'mano' vinha para o porto este ano. a diferença pontual ainda seria mais ridícula.

Dennis Bergkamp disse...

No outro dia vi uma entrevista do Argel, a dizer que lá é muito comum os treinadores andarem de clube em clube e a minima coisa serem despedidos e que isso é encarado com naturalidade.

Quando se utiliza tempo de treino nestas coisas, a "minima coisa" está muito mais perto de aparecer.

Impressionante como, apesar disto, continuam a fabricar jogadores fabulosos. (reforço o APESAR DISTO)

KAKÁ disse...

Salve baggio

Não sou de todo contra esse tipo de exercício, q é muito usado em todas as equipes do Brasil, acho q tem q haver uma mescla com esses tipos de exercícios q vc falou...

Não acredito q alguém q não saiba chutar sem marcação, vá aprender a chutar estando marcado!!

Falo por experiência própria, chuto muito bem com ambas as pernas, fruto de muito tempo chutando sozinho e sem marcação...


Bergkamp

"Impressionante como, apesar disto, continuam a fabricar jogadores fabulosos."

O Seedorf disse q taticamente temos muito a aprender (e ele também kkkk) mas tecnicamente muitos tem q aprender com agente, ele disse q:

"Virava o jogo (ou tocava uma bola) e tinha certeza q os caras iam dominá-la, independente se o jogador em questão fosse zagueiro, na Europa não vejo isso"

Pois é, nem tudo está errado!!


Abraço
;)

Anónimo disse...

Gr+3x3+Gr com 2 apoios nos corredores laterais? Isto reflecte a realidade do jogo? Poder jogar por fora à vontade? Cruzar à vontade sem oposicao? Estar pressionado e sem solucao jogar automaticamente para fora pq temos la 1 colega parado à espera? Faz tanto sentido como o exercicio do Mano. Que se a equipa com bola sabe minimamente jogar futebol uma siruacao de 6x3+gr torna-se facilmente num 2x0+gr e em remates sem opisicao 90% das vezes

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

"Gr+3x3+Gr com 2 apoios nos corredores laterais? Isto reflecte a realidade do jogo?"

Explique-me lá, como não?

Em algum momento foi dito que os jogadores não poderiam invadir o corredor lateral?
Aliás, é explicito no comentário que o exercício causaria situações de 2x1 no corredor lateral. Significa isso o quÊ?

Depois essa matemática está muito, muito má. O máximo de superioridade que a equipa consegue no exercício é 5x3. E sim, o exercício potencia cruzamentos, muitos. Mas não sei se reparaste, mas foi uma das coisas em que o Mano mais se focou no exercício dele. Sim há dois jogadores que jogam pelas duas equipas apenas com bola, em largura. Aliás como acontece no meu modelo de jogo, quando a equipa recupera a bola, há sempre dois jogadores que apenas se preocupam com a largura.

Se em 90% das vezes eles conseguirem remates sem oposição, fantástico. é sinal que conseguiram ultrapassar de forma eficaz a oposição, antes de finalizar.
Se não percebeste, o objectivo do exercício era exactamente treinar situações de finalização.

Mas eu explico:

Os jogadores que podem jogar em qualquer parte do campo, estão a jogar todos os momentos do jogo, organização (ofensiva/defensiva), transição (ofensiva/defensiva). Os jokers estão a jogar 2 (transição ofensiva/organização ofensiva).
Os jokers podem jogar por dentro, e movimentar-se para dentro, desde que outro jogador ocupe a largura.

Se esse exercício é igual ao do Mano, não sei de onde é que tirou essa informação. Todos os jogadores jogam sempre, pelo menos, 2 momentos do jogo. Enquanto que no do Mano, nem um momento do jogo está presente.

Sinta-se à vontade para rebater.

Kaka,

"Não sou de todo contra esse tipo de exercício, q é muito usado em todas as equipes do Brasil, acho q tem q haver uma mescla com esses tipos de exercícios q vc falou...

Não acredito q alguém q não saiba chutar sem marcação, vá aprender a chutar estando marcado!!"

Peço desculpa pela ironia, mas o Alexandre Pato não sabe chutar? Os avançados de uma equipa profissional não sabem chutar? O que estão lá a fazer então?

Abraço

LB disse...

Há que haver uma combinação de tudo, não? O treino não tem sempre de ser uma simulação do jogo. Pode-se aperfeiçoar 1 elemento de cada coisa, de cada vez, especialmente no caso de deficiências, por focar a atenção do atleta num aspecto particular até ele se tornar inconsciente e instintivo e poder ser incluído num contexto mais complexo. Claro que este treino só faz sentido se o atacante em questão tiver deficiências neste ponto. Eu conseguia perfeitamente imaginar algo semelhante para o Cardozo, tê-lo uns bons minutos de treino só a chutar ou passar com o pé direito :)

Roberto Baggio disse...

LB,

Essa perspectiva de aperfeiçoar uma coisa de cada vez está certa. Mas, em contexto. Está estudado. Vou-te citar:

"Comportamento humano é um processo indissociável da relação com o contexto, baseado no acoplamento entre indivíduo e envolvimento.

Affordance"

"Erros de plano de acção (Reason, 1987)
•Formas erradas de simplificar a tarefa;"

Percebes, então, o porquê de as pessoas mais habilidosas com uma bola, por passarem horas em contacto com ela, a treinarem sozinhos, não conseguem ser jogadores de futebol, apesar da técnica fantástica que têm? É pelo contexto. Aquela técnica que eles treinam, é para o circo. Não serve para o futebol. É como este tipo de treino. Nos primeiros anos de aprendizagem, onde o foco é o desenvolvimento da relação com a bola, admite-se. Depois disso não! É preciso contextualizar para que exista tranfer para aquilo que se pretende. Se o contexto é futebol, é preciso aprender técnica para o futebol, se for andebol idem.

Aqui, um apoio ao que estou a tentar passar: http://www.fmh.utl.pt/agon/cpfmh/docs/documentos/aulas/267/Treino_tecnico_doc_apoio.pdf

KAKÁ disse...

CURIOSIDADE
O professor (MARCADOR) em questão é o SILVINHO (ex-lateral esquerdo do Barcelona, M. City...)

Esses exercícios são feitos principalmente no início de temporada, com a desculpa de q nas férias se perde a "percepção do chute"...

O Romário quando veio do Barcelona (como melhor do mundo) para o Flamengo só treinava isso, havia antes 30 min. de aquecimento seguido de alongamentos e depois só finalização sem marcação...isso até encerrar a carreira!!

E se vc me disser o nome de 3 jogadores q finalize melhor do q o Romário finalizava, eu vou achar muito!!

Pelo menos 90% (na minha concepção) dos jogadores profissionais não sabem chutar!! e quando digo chutar não é acertar a bola com o pé, pq isso minha vizinha também faz, outro dia vi meu cachorro fazer também, só q com a pata...rsrsrs

Portanto eu defendo o treino solitário, e o treino contextuado penso q tem q haver uma mescla, quem só treina solitário pode até parar no circo!! Mas quem treina solitário e contextualizado pode até ser o melhor do mundo...

Não me lembro de ter visto o Ronaldinho, Romário e tantos outros q fizeram isso, no Circo...

Desculpe as Ironias
Abraço.




Roberto Baggio disse...

KAKA,

1-Não vamos comparar a evolução que o jogo teve desde o tempo do Romário para cá. Nomeadamente ao nível dos espaços e das situações de finalização sem oposição. Romário marcou "infinitos" golos sem oposição, porque era "só" fugir do marcador directo e já estava. Hoje, os métodos defensivos estão muito mais evoluídos, logo a finalização sem oposição quase que não existe.
As minhas assumpções partem desse pressuposto.

2-Queres mesmo comparar a evolução que o Ronaldinho teve depois de ter chegado a Europa? É que antes era só drible, circo, potencial. E depois passou a ser jogador de futebol. Alguém tem dúvidas disso? O mesmo será válido para o Neymar, por exemplo, que de certeza que vai ser muito mais jogador no final desta temporada do que alguma vez o foi.

3-O treino serve para quê? Melhorar capacidades para o jogo. Pelo menos do ponto de vista do treinador. Se o jogadore, fora do contexto de treino, passa horas a jogar sozinho em casa, isso é outra questão. E mais, o Ronaldinho tem milhares de horas (antes de vir para a Europa) no futebol de rua. Em contexto de oposição. Tinha mais horas de prática de rua, do que no treino. Isso diz-te alguma coisa?! O volume da rua era bem superior, não admira a capacidade dele no jogo. Jogava sempre em regime de oposição, com condições que dificultavam os gestos técnicos, teve que se adaptar, refinar a técnica, melhorar, aprender sozinho, para ter sucesso no contexto que era o futebol de rua. Contexto esse, que é bem mais semelhante ao jogo do que qualquer exercício, deste tipo aqui no artigo, ou de outro completamente descontextualizado do jogo, como por exemplo contornar pinos. Não admira o jeito que o rapaz tinha para driblar. A técnica assombrosa. Garantidamente não foi pela técnica que ganhou sozinho, que não tinha "qualquer" representatividade no jogo.

4-Messi é o melhor finalizador que já vi. Dentro da área, com os pés, é tirana a eficácia dele. E não acredito que tenha passado as horas que Romário passou a treinar finalização descontextualizada do jogo.
Isso quer dizer alguma coisa.

5-Técnicamente os jogadores no Brasil são fabulosos. Mas é uma qualidade que não tem expressão quando o contexto de dificuldade aumenta. Repara por exemplo em Neymar. Neste jogo contra o City, entrou feroz, a pegar muito na bola, a dançar à frente dos defesas, a tentar o drible. Consequências disso zero. Porque aquilo que se adquire como técnica, num determinado contexto, quando o contexto de dificuldade é superior e o mais elevado não tem representatividade. O que Neymar está a aprender aqui na Europa, é a seleccionar os recursos que tem, e utilizar os que têm representatividade para o jogo, num contexto de dificuldade superior. O mesmo se passou com Ronaldinho.

Basicamente, e sendo curto e grosso, se treinas para estar no nível 5 não vais chegar ao nível 6. Estámos a falar de profissionais do alto rendimento. Não de jovens que estão a começar a desenvolver a relação com a bola e a técnica pessoal. O que o jogador tem de melhorar, é a habilidade motora. Que é a capacidade de seleccionar as acções mais eficientes consoante o contexto. E o contexto do jogador, no alto rendimento, é o jogo.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Kaka olha para o próprio Pato! Aos 17 anos valia 25 milhões de dólares ou algo do género. E agora?

O que jogava no AC Milan - e até nem era assim um AC Milan tão evoluído - e o que joga Pato agora? A diferença é enorme, não é? Porque será? Repare bem no rosto do rapaz neste vídeo: parece-me mesmo desenquadrado.

Assisto futebol brasileiro há 15 anos. Com prazer. Mas o contexto é tão fraco que os estímulos para evoluir em contextos diferentes simplesmente não existem.

Até na liga portuguesa, que é menos mediática, competitiva e com executantes de muito pior qualidade (a executar e não a "jogar"), o potencial para evoluir é diferente.

Pedro Lucas disse...

O video é esclarecedor, até demais: nem por uma vez se vê uma finalização com "intenção" de golo. Parece um exercício de final de aquecimento antes do inicio de um jogo, apenas para desentorpecer os músculos. Aliás, o membro do staff técnico ajuda bastante na desmotivação do exercício ao não conseguir tabelar uma bola de jeito.

PM disse...

o blog tem muita qualidade mas haja paciência... a implicância com situações descontextualizadas tb já chateia... sim n é o ideal... mas numa semana de treino há espaço para muita coisa e há jogadores que embora já nos 20s apresentam lacunas técnicas que só se melhoram com trabalho menos contextualizado. Parece-me que se fossem treinadores de basquetebol (sim é um JDC!!!) os jogadores estavam proibidos de treinar a técnica de lançamento... só podiam lançar em situações de 2x2 e 2x1... admiro a vossa convicção mas um bocadinho mais de humildade e respeito pelos outros tb ficava bem...