quarta-feira, 12 de março de 2014

César Peixoto, o último dos românticos

Fantásticas algumas declarações de Peixoto, o jogador que decidiu trocar o SL Benfica por um clube de menor dimensão, porque queria ser mais feliz em campo, ontem na RTPI.

"Queria jogar no meio campo. Queria ter mais bola. Queria pensar mais o jogo."

"Aprendi mais com Jesus do que com Mourinho, mas se calhar porque com Mourinho tinha vinte e poucos anos e não estava tão disponível para aprender"

Curioso como a quase totalidade dos jogadores mais velhos (ontem Manuel José referiu também que só depois de terminar a carreira de jogador percebeu que afinal nada percebia do jogo) mesmo os que ainda estão em actividade recordam erros do passado. Geralmente associados a uma incompreensão sobre o jogo e a uma sobranceria própria da juventude, que sempre os levou a uma incapacidade para perceber que há quem lhes possa acrescentar algo em tempo útil.

E o recordar de um texto com quase 5 anos (3 de Setembro de 2009) aqui:

"Hugo Viana e César Peixoto. O meu fabuloso e underrated pé esquerdo."


"Newcastle sign £8.5m Viana – 'the new Figo'" ("The independent".2002).

De over a underrated. De forma bastante simples, se sintetiza a carreira de Hugo Viana. Os permanentes rótulos, colocados pela imprensa, ainda que possam ter ajudado na sua vertente financeira, poderão ter-lhe limitado a carreira.

Bastante bom tecnicamente, e com excelente percepção sobre o que é o jogo, a Hugo Viana faltou, sempre, velocidade (não só na sua vertente mais pura. A passada. Como também na execução), para poder justificar a avolumada soma paga pelo Newcastle.

Contudo, mais bizarro que os 8.5 milhões de libras, pagos pela sua transferência, é o facto de, aos 26 anos, voltar para a Liga Sagres para representar o Sp. Braga. Pelas suas limitações, dificilmente seria titular num dos 3 maiores da Liga Sagres. Porém, seria, indiscutivelmente útil.

Aos 29 anos, César Peixoto volta a um dos grandes do futebol português.

Jogador pouco consensual, Peixoto, tal como Viana, tem na ausência de velocidade o seu principal handicap. Tal característica, e as permanentes lesões (e quão graves) diminuiram uma carreira que poderia ter sido bem mais notável (não esquecendo, ainda assim, o seu rico palmarés).

Bastante inteligente, e com um excelente pé esquerdo (impressiona a forma como entrega, sempre, a bola jogável), César é um jogador de classe. A objectividade do seu jogo, aliada aos excelentes recortes técnicos (a quantidade quase infindável de "cuecas" e "cabritos" aplicados na partida ante o Celtic, foram, desde logo, bons motivos para seguir o jogo) são imagem de marca."




Criatividade, inteligência e qualidade técnica. Tanta cirurgia marcaram uma carreira que poderia e deveria ter sido bem diferente. Ainda que César tenha estado em todo o lado. E sendo como homem o jogador que é, provavavelmente não o trocaria por maior notoriedade individual.

23 comentários:

Dennis Bergkamp disse...

Comparar estas entrevistas com as do Thiago fazem pensar.

Será que na formação dos jogadores podemos/conseguimos contribuir para que a vontade/disponibilidade de aprender continuamente exista e se mantenha?

Pedro disse...

Tantas vezes o defendi das bocas que recebia da bancada. Sempre que jogava no meio campo o futebol do SLB melhorava a olhos vistos.

Pedro disse...

Caros,

Hoje vi um comentário de Beckenbauer sobre o futebol do Bayern... aqui:

http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=465400

Desconheço o contexto e a veracidade da afirmação, mas têm algum comentário sobre isso?

Abraço
Pedro

Pedro disse...

Já vi o comentário do Ronaldinho no Posse de Bola...obrigado!

Abraço e continuem!

Pedro

Baresi disse...

Pedro, não inventes. Tu críticas tudo e todos, o Peixoto não foi a excepção á regra com certeza
;)

Paolo Maldini disse...

Baresi, tou certo q qd o peixoto fazia merda o Pedro criticava o JJ por o meter, qd o Peixoto partia tudo era pq jogava bué :)

hehee

abraço Pedro!

masterzen disse...


Os espanhóis falam na metodologia de alguns conceitos que penso que são muito importantes na forma como lideramos os jogadores e como evoluímos como treinadores.

São as interligações entre aprender e ensinar, o processo entre treinador e jogador, bem como o processo de treinar outros treinadores o chamado mentoring.

- Aprender a Aprender
- Aprender a ensinar
- Ensinar a aprender
- Ensinar a ensinar

Quem domine estes quatros será além de um treinador, um professor do jogo um verdadeiro mestre.

Gonçalo Matos disse...

Bergkamp,

Não achas que os estimulos que um jogador experiencia no treino podem condicionar a capacidade de aprender e a vontade de saber mais? Crescendo na La Masia os jogadores devem contactar desde muito novos com maior complexidade de estímulos que por cá, não?
Uma coisa que sinto que ajuda a que haja esse interesse em compreender mais sobre o jogo é o treinador explicar o que pretende com o exercicio, com o treino, com o seu modelo de jogo..

Dennis Bergkamp disse...

Gonçalo Matos,

É algo por ai que eu penso.

Ainda há muita gente que no treino diz o que quer que aconteça e os jogadores limitam-se a fazer o que o treinador pede, como se fosse um jogo de Playstation.

Há no entanto, muitas entrevistas de treinadores que mostram coisas completamente diferentes.

O próprio JJ já disse que dá imenso na cabeça dos jogadores para darem linhas de passe aqui e ali, mas quem tem a bola é quem decide.

São caminhos diferentes.

E um tremendamente mais rico é o que disseste. Explicar o porquÊ, envolver os jogadores na criação das situações. Fazer perguntas, reflectir com eles.

Ainda ontem ao telefone com o pai de um miudo, ele me disse que perguntou ao filho porque é que tinha feito tal coisa no jogo e o puto responde-lhe "porque se eu der a linha de passe aqui, o meu colega tem muito mais soluções e assim pode decidir melhor" ou qualquer coisa do estilo.

É a diferença entre num 3x2, haver sempre bola no corredor a ser conduzida para dentro, com overlap do gajo do meio porque foi treinado milhões de vezes assim, sem hipotese de grande variação porque o treinador não percebe que fazer diferente do que ele pensou pode ser ainda melhor.

E digo-te já que há muita gente ai que sabe menos do jogo do que os jogadores que tem a frente. Aimar, Riquelme, Zidane e outros "gigantes" sabiam muito mais do jogo do que a grande maioria dos treinadores que encontraram pela frente.

Tudo isto vai influênciar a vontade de aprender e de ser melhor. Depende daquilo que valorizas.

Como em tudo. O segredo do treino está na intervenção do treinador.

(mil desculpas pela divagação)

Roberto Baggio disse...

Enorme comentario Dennis!

Masterzen sempre com qualidade.

Abraço

el bandido disse...

ainda ah pouco tempo tinha lido este texto ai pelo blog..
o cesar peixoto podia ter tido outra projecção sem duvida, um momento marcante foi quando finalmente se estava a impor no porto, ter-se lesionado com muita gravidade por um periodo de 6 meses penso eu, frente ao marselha, na epoca em que o porto foi campeao europeu (se a memoria nao me estiver a trair)
apesar disso, foi sempre possivel ver pormenores deliciosos deste jogador, como por exemplo um ou dois cantos directos que me recordo de o ter visto a apontar... e um pe esquerdo

Gonçalo Matos disse...

Bergkamp,

Obrigado pela resposta!
Como jogador sei perfeitamente avaliar a capacidade do meu treinador, infelizmente parece que nem toda a gente consegue fazê-lo.

O "problema" que também me parece haver é que muitos jogadores não conseguem compreender os principios mais básicos da equipa fora do contexto da sua posição. Um lateral direito que só saiba fazer contenção-cobertura no seu flanco não percebe o que é contenção e cobertura. E o que pode um treinador fazer nestas situações?

Miguel Pinto disse...

Acho que já existem miúdos que conseguem dar algumas lições de futebol aos pais, fruto desses ensinamentos que alguns (poucos) treinadores conseguem transmitir. E não me custa nada admitir que cheguei a enveredar pelo caminho errado (condicionando os jogadores na sua tomada de decisão) no início da minha carreira de treinador. Cedo também me dei conta do erro, principalmente através da discussão (sadia) dos treinos com os meus colegas.
Continuo a pensar que aquilo que se faz em La Masia poderia acontecer em qualquer clube português desde que existisse por parte dos dirigentes vontade em acreditar no processo, relegando o resultado para 2º plano.
'O segredo do treino está na intervenção do treinador.' Bergkamp, eu diria mais qualquer coisa como isto: e na sua constante reflexão sobre o mesmo.

Dennis Bergkamp disse...

Miguel Pinto,

Não é só as direcções dos clubes dizerem que o resultado é menos importante que o processo.

É os treinadores terem contratos profissionais, onde o treinador dos Benjamins ganha o mesmo que o dos Juvenis por exemplo.

Tens centenas de "novos mourinhos" por ai, que sabem perfeitamente que são treinadores de crianças a prazo, porque querem é o mais rapidamente possivel dar o salto para juniores ou seniores porque ai é que se ganha a sério.

No dia em que os clubes acordarem e os treinadores tiverem (como em La Masia) contratos de 3 anos, e forem realmente profissionais dedicados a 100%, a mensagem de "o processo é mais importante que o resultado" vai passar, e vai ser real. Até lá.. são Pieners.

Gonçalo Matos,

Como sabes, isso tem a ver com a especialização. Tem a ver com as escolhas do treinador e dos jogadores (sendo que a responsabilidade é sempre do treinador) em ficarem sempre nas mesmas posições desde as situações mais simples de 3x3 a ultrapassar a linha final, até ao mais complexo (jogo formal)

Se eu faço sempre a mesma coisa.. não sou capaz de ser diferente.

E sim, tens toda a razão quando dizes que quem só percebe o jogo sendo Lateral Esquerdo... não o percebe na sua totalidade.

LGS disse...

Bom post e melhor ainda caixa de comentários.


Realmente penso que o feedback é fundamental na aprendizagem, e no estimular do gosto pela aprendizagem, seja em que actividade for, não apenas no desporto.


Concordo 100% quando o Bergkamp diz: "Uma coisa que sinto que ajuda a que haja esse interesse em compreender mais sobre o jogo é o treinador explicar o que pretende com o exercicio, com o treino, com o seu modelo de jogo.."

Acho que isto é fundamental para estimular o interesse, aplicação e aumentar o conhecimento e a rapidez com que se aprende.

Aza Delta disse...

Peixoto no meio campo? ofensivamente acrescentava zero. nunca me esqueço da primeira jornada contra a académica em 2011... que jogo horrível, na altura o bode expiatório foi o roberto.

Baresi disse...

Quando se é criança, e se começam a dar uns pontapés na bola, pressupõe se que o adulto que está a ensinar sabe o que está a fazer.
É o amigo do presidente que foi ex-velha glória do clube, o jogador em fim de carreira, etc
99% dos clubes portugueses não tem uma estrutura ao nível do futebol infantil pensada a longo prazo, o que acaba por ser normal porque acarreta custos elevados (nas equipas de topo) e muito tempo a nível amador, apenas por "carolice".
Mesmo ontem a ver o Psg-Real para a Champions disseram que o PSG gasta 6M€ anuais na formação.

Lembro-me que há uns 20 anos atrás o Lisboa e Marinha (Marinha Grande) tinha uma maneira de ver futebol distinta das outras equipas do distrito. Era a melhor equipa a nível de formação (tinha todas as equipas de Iniciados, Juvenis e Juniores a competir nos Nacionais) dava uma luta tremenda a Benfica, Sporting e afins.
Tinha um "Manager" para toda a estrutura de futebol, e todas as equipas jogavam no mesmo sistema táctico. Iam buscar todos os melhores jogadores num raio de 30km, Tinham uma pessoa que acompanhava os jogos e tirava estatísticas acerca dos jogadores, dentro do possível, com passes certos, errados, faltas, etc etc. Algo rudimentar para agora, mas evoluído para a altura.
Foram cerca de 10 anos de uma estratégia pensada e cuidada, que deram frutos e equipas super-competitivas todos os anos, e que até deram alguns jogadores "famosos"...
Hugo Pinheiro e Ricardo Jorge para os amantes de CM e outros...

Hoje em dia não há dinheiro para ir buscar todos os miúdos todos os dias a todo o lado, e as escolas de formação separam os melhores. Aos 10/11 anos quem é bom já está referenciado minimamente, e é complicado qualquer equipa sem ser os 3 grandes ganhar um campeonato Nacional.

Andrea Pirlo disse...

Vi esse jogo Baresi, o PSG-Real Madrid, foi um bom jogo até, e aquele nr 7 do PSG, tem muita qualidade. Técnica, criatividade, imprevisibilidade, rapidez, e até decide bem, o q não estava à espera para um miúdo de 17 anos, e ajuda bastante no processo defensivo. Gostei muito, vai dar q falar daqui a uns anos. Chama-se Kingsley Coman.

Pedro disse...

Baresi,

Similar ao Marinha, tinhas no distrito de Santarém o CADE do Entroncamento, um clube que só tinha camadas jovens. Já não tem a capacidade de outrora, mas continua a ter ainda algum peso.

Abraço
Pedro

Ace-XXI disse...

Curiosamente Peixoto quando saiu de Braga teve a possibilidade de ir para o SCP de PB onde tinha lugar reservado a ME no famoso losangulo.

Baresi disse...

Lembro me bem do Entroncento.
Tal com o Lisboa e Marinha, eram sempre jogos equilibrados.
O Lisboa e Marinha tinha a equipa sênior na 2ª distrital.
Lembro me de ver grandes jogadores aqui... Simão, Meireles (jogava a libero no Boavista, pequenino pequenino...) Lourenço (que sempre deu cartas no Sporting), Pisco, Jorge Cordeiro (os 2 do Benfica), Manuel Fernandes...
Lembro me de uma história de um moço que jogava nos juvenis do Benfica, uma máquina, partiu isto tudo quando cá veio jogar... No ano a seguir veio jogar pelos Iniciados do Alverca... Ele era pequeno, mas com uma força e velocidade que não eram normal... Meteu polícia e tudo...
Mantorras, um fenômeno, vi o jogo contra o Leiria no pelado. O melhor de todos.

Bons tempos, de futebol juvenil ;)
Abraço

Fábio disse...

O César é daqueles que podia mesmo ter sido histórico. Por acaso ontem vi a entrevista e comentei com a minha namorada. Eu entendo que seja natural ao ser humano, estar mais receptivo a aprender quando se tem uma certa idade. Mas não acho que seja normal! Não acho normal que um jogador que quer ser alguem e se anda a sacrificar tantos anos, não queira aprender. Não se esforce para melhorar sempre mais...
Querem ser jogadores da bola para ganhar dinheiro, para serem estrelas, para marcarem muitos golos...
Também é culpa dos adeptos, afinal de contas o Quaresma é um ídolo e "não fosse ele ter vindo o porto ainda estava pior". E a imprensa é a mesma historia.
Já vem de cedo o problema. Desde os maus formadores, aos pais que pensam que percebem muito de futebol. E depois dá nos casos que dá. Jogadores com um potencial incrivel que não dão em nada (não estou a falar do Peixoto neste caso...)
Baresi, és de Leiria?

Baresi disse...

Marinha Grande.
Mas já estou fora daqui á mais de 10 anos.
Mas acompanhei de perto o futebol juvenil do distrito, por conhecer pessoalmente vários treinadores das camadas jovens das equipas de Leiria, Vieira (de onde é o Luis Castro) e Marinha.

Abraço