terça-feira, 11 de março de 2014

Dentro da área as referências mudam

A maior justificação para a mudança de referências (zonais para individuais) dentro da área é que, na grande área, um toque na bola, um golo. Por aqui continua-se a pensar que a proximidade da baliza nada muda em relação às referências zonais. Isto porque, mesmo dentro da área, se um colega for ultrapassado continua a ser necessário a sua cobertura. Quando as referências são a bola, os colegas, e o espaço, a resolução dos problemas do jogo é mais fácil.
Veja-se o exemplo do AC Milan de Seedorf

13 comentários:

C-zero disse...

No jogo de Munique, sobretudo na primeira parte, pareceu-me que o Bayern jogava, no meio campo adversário, com duas linhas paralelas e evidentes. A dado momento, pensei em fazer um exercício interessante, e fui tirando print screens do jogo e fui desenhando rectângulos no espaço que havia entre a linha dos médios e dos avançados. Infelizmente, o meu portátil tem crises de nervos e apagou-se. Perdi as tais imagens que queria expôr-vos. Enfim.
Esses espaços fizeram-me confusão. Sou assíduo visitante do LE, e mais recentemente, do PdB. Sou um confesso seguidor dos vossos trabalhos que tanto nos ensinam. Os tais espaços fizeram-me confusão porque estava à espera que, no modelo de Guardiola, houvesse mais jogadores do Bayern a jogar nas entrelinhas, para dar mais opções de passe aos portadores de bola, porém, quase invariavelmente, a bola era colocada nas alas, tanto para Ribery como para Robben. Não sei se foi impressão minha, ou se ainda não percebi o que nos explicam com os posts, mas queria saber uma opinião vossa.

Abraços e continuação ad aeternum do vosso trabalho.

masterzen disse...


Baggio,

Afirmas que "Quando as referências são a bola, os colegas, e o espaço, a resolução dos problemas do jogo é mais fácil." Não será também o posicionamento dos atacantes um factor a ter em conta?

Dou-te um exemplo, nas situações normais de 1c1 entre extremo e lateral, antes do centro se os atacantes que estão no coração da área se moverem-se para fora ( para aumentar a distância entre os seus defensores) a linha defensiva não deverá subir e fechar um pouco mais o espaço? Não digo que se movam individualmente mas organizadamente para encurtar?

MasterZen

Roberto Baggio disse...

C-zero,

Primeiro vê isto: possedebolla.blogspot.pt/2013/10/palestra-de-guardiola.html

Depois vê isto: http://lateral-esquerdo.blogspot.pt/2014/02/bayern-de-guardiola.html

Agora compara :)

Cumps.

Masterzen,

"Não será também o posicionamento dos atacantes um factor a ter em conta?"

Sim, se ele estiver na posição que deveria estar a ser ocupada por "mim".

E ter em conta, não significa agarrar, fixar, encostar. Significa, apenas, colocar-se entre ele e a bola, e ter em atenção à posição dos apoios (não estarem completamente voltados para a bola) para ter tempo de reagir a uma bola mais comprida, nas costas...

"Dou-te um exemplo, nas situações normais de 1c1 entre extremo e lateral, antes do centro se os atacantes que estão no coração da área se moverem-se para fora ( para aumentar a distância entre os seus defensores) a linha defensiva não deverá subir e fechar um pouco mais o espaço? Não digo que se movam individualmente mas organizadamente para encurtar?"

Bom, o lateral foi ultrapassado? Não há médio defensivo?

Se não foi ultrapassado, eles devem estar alinhados com a bola, ou um pouco atrás. Se o lateral foi ultrapassado, devem colocar-se +/- em triângulo, não sei se percebes. Ou seja, o central tapa a progressão e o cruzamento na sua direcção, o outro central sobe ligeiramente fechando o passe atrasado (no fundo está está a agir pela bola, fechando as opções de passe, o lateral do lado contrário fica +/- alinhado com o central da bola, formando assim um triângulo.

masterzen disse...


Baggio,

Acabaste por responder a mais do que perguntei o que é óptimo.

A situação que não expliquei bem é a seguinte:

Há um duelo de 1c1 entre um extremo ofensivo com bola contra um defesa lateral ao pé da linha final.
Há um cruzamento para a àrea...

Antes do cruzamento os atacantes afastam-se da linha defensiva que está alinha com a bola e movem-se em direcção a linha da grande área, aumentando o espaço entre eles e a linha defensiva.

Existe espaço entre a linha defensiva alinha pela linha da bola e os atacantes que estão quase na linha limite da área, a bola se entra lá há espaço para receber e rematar.

A linha defensiva não deverá subir para encurtar o espaço e dificultar a recepção/remate ou até cortar o centro?

Roberto Baggio disse...

Não. Porque o passe atrasado é só uma de várias possibilidades. E estando eles alinhados pela bola, e colega, ignoram o adversário aí. Caso o "passe"/cruzamento saia atrasado, teria de sair pelo chão, a haveria tempo para sair na bola durante a trajectória do passe. A não ser que ele rematasse de primeira, mas esse é um risco que prefiro correr, do que o lateral ser batido, eles estarem à frente da linha da bola, e não conseguirem tapar a progressão ao portador da bola.

Baresi disse...

Por acaso há um lance este fim de semana que não foi falado, mas poderia ser objecto de discussão, o segundo golo do Benfica.
O movimento da defesa toda do Estoril numa primeira fase é muito boa, mas o passe de Gaitan para Siqueira consegue fazer com que se evite o fora-de-jogo...
Mas depois Tiago Gomes toma como referência a bola, e acaba por perder a noção de onde estava o jogador adversário (Rodrigo) e acaba por dar golo.
Jesus na sua palestra falou perfeitamente disso, e deu exemplos concretos fantásticos.
Já para a taça de Portugal (FCP-Estoril) o mesmo jogador já tinha tido uma falha do mesmo tipo que acabou por dar golo de Quaresma (1-1 salvo erro).

Baggio, tu costumas seguir atentamente o Estoril, achas o Tiago Gomes o "elo mais fraco" daquela defesa? É que pelos jogos que vi deles (uns 10) pareceu-me...

ps. C.Peixoto foi treinado por Mourinho e Jesus. Curiosamente elegeu o 2º como o melhor que teve, devido ao detalhe individual que tinha com cada jogador.

Roberto Baggio disse...

"Achas o Tiago Gomes o "elo mais fraco" daquela defesa?"

Sim acho. Mas não só defensivamente. Na tomada de decisão também.

JON disse...

Quando vi o golo do Atlético, o primeiro, lembrei-me do que já haviam falado do HxH do Seedorf e comecei-me logo a rir... Parecem xonés à procura do homem.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Este AC Milan é simplesmente ridículo. É um horror.

Rocky Balboa disse...

No aqui citado golo do Rodrigo ao Estoril, parece-me que, na generalidade, os ajustamentos da linha defensiva do Estoril são bons. Com o passe atrasado para o Gaitán encurtam para controlar a área. No momento em que Gaitan faz a bola entrar no Siqueira, os centrais imediatamente ajustam os apoios para profundidade. Quando os centrais já estão em corrida para ajustar o seu posicionamento o Tiago Gomes ainda está a ajustar os apoios para se voltar. Quando o Siqueira cruza o Tiago Gomes está justamente a ajustar o posicionamento em função da nova posição da bola. Isto faz com que não seja capaz de ter já os apoios colocados para reagir ao cruzamento. Tem os apoios virados para o 1º poste. O facto de ter demorado mais tempo a reagir que aquele que o lance exigia fez com que o ajustamento fosse deficiente e não lhe permitisse atacar a bola. O facto do Rodrigo estar perto dele é irrelevante para o tipo de ajustamento que ele teria que fazer até o Siqueira cruzar.

Baresi disse...

Rocky

Em relação aos apoios tens razão, mas um jogador não pode jogar só em função da bola, adversário ou companheiro de equipa, isoladamente.
Tu não podes fazer fora-de-jogo se o teu companheiro não estiver a pressionar o portador da bola, não podes pressionar o portador da bola sem ter noção o que a tua equipa está a fazer, e o que se passa á tua volta.

Quando uma bola é centrada para a área, tens que conseguir colocar te entre ela e o adversário, porque é ele que vai tentar fazer o golo.
O Tiago jogou como se o futebol não fosse algo dinâmico. Foi castigado por a meu ver, ter tomado uma má decisão, na altura do ajuste. Quando o passe entra em Siqueira, ele só tem que se preocupar com o adversário. Mais nada. E cada companheiro seu a mesma coisa.
Dou-te um exemplo de um jogador que vi jogar umas 15 vezes ao vivo o ano passado, Andrê Almeida.
É extremamente forte nesse tipo de movimentos, e a ler o jogo. A encostar no avançado, fazendo dobras, contenções, etc.
Se atacasse tão bem como defende seria um caso serio.

Henrique disse...

A mudança das referências não será pelo tempo que não existe dentro da área para fazer a compensação?

Rocky Balboa disse...

Baresi,

"jogar só em função da bola, adversário ou companheiro de equipa" não é jogar isoladamente. É jogar em função do contexto, daquilo que o jogo pede em cada momento.

Não me parece que quando uma bola é centrada para a área, o fundamental seja o defesa estar colocado entre a bola e o adversário, mas sim entre bola e baliza, com os apoios preparados para controlar o espaço na sua frente. A primazia é sempre para a defesa do espaço de baliza.
Ao acaso, encontrei um golo que contraria a tua teoria.

http://rutube.ru/video/f121922062801cb3de6e0a5080665506/?ref=logo

No momento em que a bola entra no corredor lateral para cruzar, o lateral esquerdo do PSG não ajusta, e só inicia o ajustamento quando entra um adversário no seu espaço.
No momento do cruzamento, o central do lado esquerdo do PSG encontra-se justamente entre a bola e o adversário. No entanto, devido à má leitura do lance, o lateral esquerdo não se encontra a fechar o espaço de baliza nas costas do central, justamente o espaço onde a bola vai entrar, e onde o golo acontece, marcado pelo avançado que estava nas costas do central.

Portanto, o facto do defesa se encontrar entre o adversário e a bola não garante em momento algum o controlo sobre nada. Aliás, estando o defesa na frente do adversário, nem dos seus movimentos pode ter percepção.
O espaço fundamental a proteger é sempre, em qualquer circunstância, a baliza.
Também não me parece que o Tiago Gomes tenha jogado como se o futebol não fosse algo dinâmico. Se ele ajustou o seu posicionamento em função dos colegas e da bola, ele foi dinâmico. Outra coisa é o tempo que ele demorou a reagir e a percepção que ele teve do contexto para começar o ajustamento. Pode ser uma leitura melhor ou pior, mais rápida ou mais lenta, mas leu e ajustou em função da percepção que teve.