segunda-feira, 17 de março de 2014

Dificuldades na construção. Mangala.

As dificuldades na construção de Mangala não são de hoje. No entanto, os erros cometidos nos últimos tempos (pelo aproveitamento que o adversário faz deles) têm sido muito realçados pelo público, por aparecer no seu campo de visão (lances de decisão). Perceba-se que Mangala não tem menos qualidade que no passado. A diferença é que no passado, tinha um treinador que conhecia as suas características. E que com esse conhecimento conseguia esconder-lhe as debilidades, com uma solução colectiva.

Pode ler-se, aqui"Quem quiser ser treinador e não tiver ideias sistematizadas não pode sê-lo, vai andar a trabalhar de forma avulsa. É importante ter ideias, sistematiza-las, e é importante saber operacionalizá-las num contexto. O que é que eu quero dizer com isto, é muito importante, de facto nós termos um modelo, eu costumo dizer que já fui fundamentalista do ponto de vista táctico, eu tinha ideias e queria de facto operacionalizá-las, sem tentar colocar essas ideias ao serviço dos jogadores, e isso é um erro terrível, que eu cometia mas que agora não cometo. É muito importante perceber as características dos jogadores para as potenciar, e então os princípios são fundamentais como norte para o nosso trabalho, os princípios que nós defendemos, no entanto eles têm que ter flexibilidade suficiente para a realidade em que trabalhamos. Eu vou explicar isto. Eu fui habituado a trabalhar no Porto durante 5 anos com os melhores jogadores e colocando o acento em dois momentos fundamentais do jogo, que era a posse e a transição ataque-defesa, eu assim ganhava os jogos todos, aqui não é assim. Aqui não trabalhamos com jogadores com a diferença de qualidade que tínhamos no Porto."

Como se vê, Vítor Pereira trabalha com as suas ideias em congruência com as características dos jogadores. Dessa forma, consegue arranjar estratégias para mostrar o melhor deles e esconder o pior, valorizando-os. Na verdade sobrevalorizando-os!

A solução que encontrou para Mangala, dentro do seu modelo, foi simples: Mangala, em construção, na maior parte do tempo só teria que tocar a bola no colega mais perto. Fazer o passe mais simples, em detrimento do "melhor passe". Isto porque ele sabia das dificuldades e perdas de bola que ele evidenciaria, com maior responsabilidade ofensiva. Assim, preparou o posicionamento dos seus jogadores para proteger Mangala, quando este estivesse em posse. Dessa forma Mangala fica com situações menos complexas para resolver, sendo que lhe retira responsabilidade sobre um processo no qual ele não está tão confiante.


Do lado de Mangala, um dos médios baixa para pegar perto dele. O lateral, caso o médio não baixe, não dá tanta profundidade. E só quando não houvesse alternativa é que Mangala poderia optar por outro tipo de iniciativa. Do lado de Otamendi passava-se o oposto. As soluções de passe que ele procurava eram sempre complexas, sem grande aproximação dos médios, e com o lateral sempre profundo. Isto porque Otamendi é fabuloso na construção. 
Assim se colocam as ideias ao serviço dos jogadores.


15 comentários:

Gonçalo Matos disse...

Tendo em conta a dupla actual, nao seria melhor que Fernando baixasse sempre para a linha dos centrais na fase de construção? Dando os laterais mais profundidade e os extremos a procurarem espaços interiores

C-zero disse...

Veio mesmo a calhar este post.

Há bocado estive a rever a palestra de Jorge Jesus na Faculdade de Motricidade Humana, e a dado momento, alguém perguntava ao treinador se se devia criar um modelo de jogo que tivesse em atenção as características dos jogadores à sua disposição, ou se se devia encaixar os jogadores numa ideia já pré-concebida de modelo de jogo. Acho que foi esta a questão feita.
Infelizmente, Jorge Jesus não é muito dado ao discurso articulado e coerente, mas do que percebi, o gajo acredita que primeiro há que ter o modelo de jogo, e depois, a partir dos treinos, e escolhendo os jogadores com as características necessárias, montar a equipa base.

Do que acabei de ler do texto do VP, o contexto é diferente, e como sublinhaste:
«Aqui não trabalhamos com jogadores com a diferença de qualidade que tínhamos no Porto»
Olhando para os casos do Benfica e do Porto, fará sentido, à luz do que interpretei do Jorge Jesus, formular à priori um modelo de jogo e depois, com base em critérios formulados pelo treinador, escalonar uma equipa?

Um grande abraço

(Uma pequena curiosidade, "o líder espiritual da minha religião" é da autoria? lol)

LGS disse...

Excelente post, para não variar. ;)


Abraço

Ace-XXI disse...

Percebo é concordo com o teu texto mas 1 dos "novos" problemas é o Porto ter abdolay ao lado de mangala, é que em vez de ter uma dupla que se complementa passas a ter 2 jogadores com os mesmos tipo de dificuldade o que se torna mais fácil para os adversários anular as soluções que referes.

Anónimo disse...

Baggio,

Se valer o teu tempo. Perguntas de leigo.
É o que JJ faz para "melhorar" Luisão, certo?
Já apreciaste Quintero? O que pensas dele?

Abraço

RC


Manuel disse...

Muito bom. A inteligência ao serviço do colectivo, através do indivíduo.


Henrique disse...

Pelo que percebi da entrevista ao Vitor Pereira, ele defende que um treinador tem de ter, forçosamente, um modelo bem definido. Depois, como é óbvio, há que fazer ajustamentos tendo em conta os jogadores que tem à disposição. O que ele afirma é que em tempos assumia que a adaptação teria de vir só da parte dos jogadores, quando agora entende que as adaptações deverão ser feitas pelos jogadores ao modelo e pelo treinador aos jogadores. Aliás, nada me parece mais lógico.

Sobre o Jesus, apesar de não ter visto a palestra, parece-me que tem um modelo que sofre alterações tendo em conta os jogadores que tem à sua disposição. Nesse aspecto parece-me que partilham, fundamentalmente, a mesma posição.

Roberto Baggio disse...

Gonçalo,

Sim.

C-zero,

Não é da minha autoria, mas estive na palestra. Não lhe coloquei nenhuma questão.

Quanto ao modelo, acho que todos os treinadores devem ter um bem definido, mas o modelo deve ser plástico, por forma a que se possam alterar um ou outro princípio que potencialize jogador X, ou Y.
Jesus adapta-se aos jogadores. Por mais que ele diga o contrário. É verdade que ele tenta contratar jogadores para o modelo dele, mas não é menos verdade que algumas vezes falha, ou então o clube impõe-lhe determinados jogadores. Assim, ele tem sempre que se adaptar. Veja-se o caso dos laterais, ou de Enzo, ou de Matic.

Ace-XXI,

Era meter os centrais a abrir e um médio a baixar para corredor central e pegar o jogo daí. Um pouco como faz o Estoril, os centrais abrem para o Gonçalo pegar.

RC,

"É o que JJ faz para "melhorar" Luisão, certo?"

Certo. Luisão tem decisões mais simples que Garay. E quando não tem, joga directo na frente.

"Já apreciaste Quintero? O que pensas dele?"

Tem tudo para dar certo. É fenomenal do ponto de vista técnico e físico. Falta ganhar conhecimento do jogo que lhe permita render sempre à um nível elevado.

FC disse...

Boa entrevista, mt bom post. Tb gostei mt desta outra entrevista, que o VP deu mais tarde, especialmente quando fala na criatividade (lembrou-me Quaresma vs. Ronaldo ou Nani):
http://www.tacticzone.com/entrevista-com-vitor-pereira/

Rafael Antunes disse...

C-Zero,

já faz tempo que vi essa palestra... e o que me ficou na memória (posso estar errado devido ao temo que já passou) foi que o JJ dá importância extrema ao modelo de jogo, à ideia de jogo sim!!!!
Mas penso que ele deixa bem vincado que na perspectiva dele são os jogadores que se têm de adaptar às suas ideias...

Rafael Antunes disse...

C-Zero,

já faz tempo que vi essa palestra... e o que me ficou na memória (posso estar errado devido ao temo que já passou) foi que o JJ dá importância extrema ao modelo de jogo, à ideia de jogo sim!!!!
Mas penso que ele deixa bem vincado que na perspectiva dele são os jogadores que se têm de adaptar às suas ideias...

DC disse...

Infelizmente no Porto houve algum iluminado que achou que se devia despachar o melhor central para ir buscar um ainda pior que o Mangala na construção.

Até o Tiago Ferreira da equipa B tem mais qualidade em posse.

Já agora Baggio, por falar em equipa B, recomendo-te mesmo uma olhadela ao Gonçalo. 1 ou 2 anos a jogar regularmente e o lugar na selecção tem que ser dele.

Roberto Baggio disse...

Se for como o pai nem precisa de tanto tempo :)
Mas com tanto jogo para ver, fica dificil ver tudo. Vamos esperar pela proxima epoca (prevendo um emprestimo a uma equipa da 1*divisao)

DC disse...

O pai era só o meu ídolo de infância. Tem pormenores à Domingos, não sei se a mesma capacidade técnica (também não é fácil ter os pés do Domingos), mas compensa com muito bom jogo de costas para a baliza e muito boa leitura de jogo.

É uma amostra bem pequena mas já podes ver 2 ou 3 pormenores dele neste resumo.

http://www.youtube.com/watch?v=z0dZwu2xOAg

Roberto Baggio disse...

Ja tinha reparado nesses pormenores noutros resumos. Há potencial. Há por onde melhorar. Esta geração de 94 promete.