terça-feira, 11 de março de 2014

O futebol é do cérebro.


"Podes tomar sempre as melhores decisões que se não conseguires meter a bola lá dentro de nada vale... É isto que vocês desvalorizam tornando o futebol um jogo sem balizas." Comentário numa das caixas do blog, num post recente.

A tomada de decisão / inteligência, acções que aproximam a equipa do golo, mas que porventura podem afastar quem a tomou da notoriedade continua a ser um enorme bicho de sete cabeças quando se fala do jogo. Um jogo que para ser realmente bem jogado é tão complexo, envolve tanto a parte cognitiva que jamais poderá ser comparado com qualquer outro desporto. Sobretudo os individuais. E tal não é de forma alguma uma desvalorização a qualquer outro desporto.

Decidir bem, não tem absolutamente nada a ver com um jogo sem balizas. Bem pelo contrário, a génese de tudo é precisamente chegar ao golo pelo caminho que nos oferece maiores probabilidades de o conseguir. 

Escolher o melhor caminho, decidir bem significa que aumentarão as probabilidades de se marcar, mas tal pode não suceder, assim como decidir mal faz decrescer as probabilidades de se chegar ao golo, não significando todavia que não se possa ser feliz optando mal. 

Significa sobretudo que a cada 10 vezes que se optar bem, garantidamente que se obterá mais golos, do que nas 10 vezes que se optar mal.

O exemplo recorrente que apresentamos é o da situação de 2x1+GR. Se o portador da bola não soltar nunca a bola, mesmo com o adversário colocado entre si e a baliza, optando sempre por driblar e finalizar, é certo que algumas vezes será feliz. Todavia, decidindo bem, fixando adversário e percebendo se se impõe o passe ao colega que o acompanha tornando o 2x1 em 1x0, garantidamente que em dez lances assim a sua equipa almejará mais golos que nos 10 em que decidir driblar. A questão no futebol, é que demasiadas vezes decidindo bem, a equipa fará mais golos, mas o golo será do seu colega e não seu. À inteligência, é preciso aliar-se um enorme espirito de altruísmo para se poder atingir níveis óptimos de qualidade quando se fala de um jogador de futebol.

Decidir bem não tem absolutamente nada a ver com um futebol rendilhado e sem balizas. Trata-se de escolher o melhor passe, o melhor timing de passe ou perceber exactamente o momento em que se deve finalizar.

Só os enormes conseguem jogar com todos os estímulos que o jogo traz. Sem fintas feitas, sem decisões tomadas cinco segundos antes, mas antes analisando em função de colegas, linguagem corporal de adversários e baliza, a cada fracção de segundo que caminho tomar. 

Decidindo bem a bola entrará mais vezes, garantidamente. 

Não será por acaso que a equipa que mais golos fez na Liga Sagres em muitos anos juntava dois baixinhos sem força nas imediações das grandes áreas adversárias. Muito menos casual será o número de golos absolutamente épico que somava o Barcelona de Guardiola sem os habituais chavões (correr muito para a linha para cruzar para um alvo específico, rematar de todo e qualquer lado a cada instante). 


36 comentários:

Roberto Baggio disse...

Agora e perceber o porquê da progressão pelo interior do Saviola é melhor opçao q seguir para a linha e cruzar. Perceber que colocar o Aimar de frente para a defesa é melhor que rematar, perceber que o passe do Aimar ja dentro da area, em zona frontal é melhor que o remate, e perceber que o passe, sim aquilo é um passe nao um cruzamento, para o Cardozo é melhor que o remate.

O publico deve ter pedido para cruzar e rematar, tantas vezes quanto eu coloquei aqui, no entanto....

Paolo Maldini disse...

lanças isto no face...?

Roberto Baggio disse...

Mas isso é mentira, nao existe uma so forma de jogar futebol. Concordo em absoluto. Existe jogar bem e jogar mal. Os que jogam bem, e sao formados nesse sentido, ganham é mais vezes, por estarem consecutivamente perto de ganhar.

Roberto Baggio disse...

Yap, da-me uns minutos.

Pedro disse...

Fico embevecido.

Mas não foi no sentido aqui descrito e ou me expressei mal ou vocês perceberam mal.

Não está a causa a importância da decisão mas sim a desvalorização que eu acho que vocês dão ao golo, ao momento final. Pegando no vosso exemplo: um 2x1 que se torna num 1x0. De nada vale se o gajo que recebe a bola falhar o golo.

Um exemplo bom foi um post que no EntreDez surgiu por causa de Torres (ou Postiga tb pode ser um bom exemplo). O Nuno defendia o Torres por ele dar muito á equipa para lá dos golos, por ser inteligente nas desmarcações, na ocupação de espaços, nas tabelas, etc. Eu, na altura, disse-lhe que o problema não era esse mas sim o facto de Torres estar a passar uma fase de total desacerto de finalização. Não estava em causa o que ele fazia em prol da equipa mas sim o falhar o golo quando lhe cabia a ele o momento final. Essa capacidade de finalizar é quase tão importante como o decidir bem.

Paolo Maldini disse...

finalizar é também, como tudo, uma decisão. Em força? por cima? por baixo? para a esquerda? direita? simulo antes de finalizar?

LGS disse...

Pedro,

Correndo o risco de responder erradamente pelos autores do blog, o que eu acho que tu interpretas mal das palavras do Baggio e do Maldini como sendo uma desvalorização do golo é a valorização de tudo aquilo que te leva a estares mais perto do golo, não o "teu" golo, mas o golo da tua equipa.

Tal como muita gente aqui confunde a valorização do Messi com uma desvalorização do Ronaldo, quando são os dois elogiados.

O doutra forma, aqui se calhar até se desvaloriza o golo do "jogador" mas valoriza-se muito mais o golo da equipa porque este tem muito mais probabilidade de ter sucesso, mais vezes.

Abraço

LGS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dennis Bergkamp disse...

Até na finalização em si, ou no remate que dá golo as coisas estão completamente trocadas.

Valoriza-se muito mais um golo de primeira, em força que "fuzila" o Guarda-Redes do que receber, olhar e "fazer um passe para as redes" desviando a bola do guarda redes.

As bombas, são tremendamente mais valorizadas do que os simples desvios.

Sendo que, na generalidade das vezes.. em cada 10 "bombas" só 1 ou 2 golos se marcam, não só porque muitas vezes se remata sem olhar para a baliza e tentar desviar do guarda redes, como porque um remate em potência tem muito menos precisão do que um "passe lá para dentro".

Quantos e quantos jogos se perderam ou empataram, ou até se deixou de golear porque em vez de desviar a bola do guarda redes se tentou estoirar com ele?

Feedback tantas vezes ouvido nos treinos:

"O Guarda-Redes não é teu amigo? Então porque é que estás a rebentar com ele em vez de desviar?"

Um "granda golo" é normalmente algo de primeira, em potência. Desviar a bola do guarda redes raramente é considerado um grande golo.

Têm na cabeça que o Messi finta todagente e faz cabritos ao Guarda-redes, mas a esmagadora maioria dos golos dele são remates colocados, a desviar do Guarda-Redes.

Não porque ele é o Tsubasa (esse sim o melhor de sempre =D ), mas porque foi educado para isso. Marcar 8 golos em cada 10 oportunidades, durante a formação dele sempre foi mais valorizado do que marcar 2 golões em cada 10, mas falhar as outras 8.

Atenção que por aqui, até choramos para ver um cabritinho.. mas porque muitas vezes, esse cabritinho é a melhor solução naquele momento. A mais inesperada, aquela que resulta de ver o adiantamento do GR.. e de ter a classe e capacidade para executar o que uma mente brilhante descobre.

Pedro disse...

LGS, eu percebo muito bem o que eles querem dizer. E concordo. Apenas defendo que tudo isso tem que ter consequência práctica, objectiva.

O jogo tem um objectivo que é ganhar. Esta é uma verdade irrefutável.

Para ganhar há caminhos melhores que outros. A decisão passa por escolher sempre os melhores caminhos mas se não tens capacidade para concluir a caminhada todo o trabalho torna-se infrutífero.



Paolo Maldini disse...

se perdes a bola a meio da caminhada não vai haver oportunidade para a concluíres. Daí que o 1o passe seja tão importante como o último. Por vezes o 1o passe é bastante mais fácil que o último, por vezes é bastante mais difícil... por vezes finalizar é bastante mais fácil que o 1o passe, por vezes é bastante mais difícil...

Unknown disse...

Bergkamp, as "bombas" são mais valorizadas no aspecto artístico da coisa, são mais espectaculares, mas mesmo assim haverá momentos que uma "bomba" seja mais eficaz que um remate em jeito.

Já agora, temos o golo do Rodrigo contra o Estoril que se adequa aos dois sentidos do remate. Muito boa finalização.

Roberto Baggio disse...

Bergkamp,

Eu este ano aprendi uma nova, "tá com medo de magoar o GR? Quem não tem pistola não mata!"

Todos os anos aprendendo :)

Sim, o que o público viu neste lance foi o golo do Cardozo! Não tenho dúvidas disso. E que por acaso, até é o menos importante de toda à jogada. Isto porque a acção dos outros (para além de muito, mas muito mesmo, mais difícil, pela enorme complexidade que tem e qualidade de execução que requer) foi o que permitiu a possibilidade de uma finalização fácil. E objectivo, para mim, é isso mesmo. Criar muitas situações de finalização fácil. Assim jogam as melhores equipas. Veja-se as de Guardiola. Estão constantemente a aparecer em 1x0+GR, 2x1+GR, 2x0+GR.

Laranja disse...

Já li por aí à tempos uma comparação do futebol com o Poker, nesse sentido. Com AA contra 23, terás sempre muito mais % de ganhar com o AA, mas isso não impede que a pior decisão (no poker, pior jogo) acabe por ter sucesso também (e no poker derrote o melhor jogo)...

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

Ia acrescentar que nos melhores jogadores, na grande maioria das situações, também a finalização, antes da execução, contém decisão, mas o Maldini antecipou-se. Mas deixo uma frase do Silveira Ramos de 2003:
“Na finalização a posição do guarda-redes bem como os processos de o "enganar" serão eventualmente preponderantes”.

É verdade que muitas vezes pela pressão e dificuldade do momento, mas também por falta de trabalho sobre a decisão nessa acção, porém no futebol ainda reina a finalização "ao acaso". No futuro, quando a qualidade de jogo das equipas estiver mais nivelada, eventualmente dar-se-á outra importância a estes "pormenores".

Paolo Maldini disse...

ainda este fds tive um bom bocado com o Bergkamp à conversa com o Silveira Ramos :)

Baresi disse...

Há uma ou duas semanas, o Olympiacos jogou com o Man.United.
Falou-se muito do bigode de Paulo Machado, e ele até foi entrevistado para o maisfutebol.
"sou sempre o mais divertido do balneário, a animar a malta".
E mostrou-se um festejo de um golo, em que ele arranca desde o meio campo, e está com um companheiro ao lado para fazer o golo. Sozinhos.
Ele decide continuar a jogada e , e chutar, mesmo tendo o guarda-redes pela frente. Fez golo. E eu pensei logo: Por isso é que eras tão bom, e agora já andas pelo banco.
Uma péssima decisão, coroada com a melhor recompensa do jogo, o golo.
Jogo ingrato, este, que não sabe ser justo.

Helder Silva disse...

Parabéns Lateral Esquerdo é merecido este reconhecimento :D

Continuem o bom trabalho :)

Anónimo disse...

Pedro acho (repito acho), que a diferença do que defendes relativamente ao Paolo será mais ou menos isto:

Um avançado que num jogo tome 10 boas decisões que poderão permitir (probabilisticamente falando) que a equipa chegue ao golo, mas que ande em desacerto quando chega a sua hora de finalizar (digamos 2x por jogo não faz um golo de grau médio-facil), deverá sair da equipa por não estar a finalizar? Sim ou Não?

Rumo Norte disse...

É só filósofos. A decisão tem que ser acompanhada pela capacidade de execução (técnica, física e psicológica). Eu na minha cabeça sou um jogador do caraças, o problema é que lá dentro há sempre gajos que sendo muito mais burros do que eu, controlam a bola com um toque, correm mais e nunca se atrapalham com a pressão.

O ponto é redutor: não é a capacidade de decidir, é o equilíbrio entre todas as componentes do jogo e do jogador. Não é a preponderância do cérebro sobre o físico, é a harmonia entre os dois. Por isso é que o CR é melhor jogador que o Messi; porque no equilíbrio das qualidades excepcionais que ambis têm, o CR tem um grau de dificuldade maior; ele usa muito mais argumentos, joga em maior risco, e potencia melhor quem está ao lado dele.

Na preponderância do cérebro sobre o físico temos o jogo de futebol entre os filósofos gregos e alemães dos Monty Python.

https://www.youtube.com/watch?v=7E_8EjoxY7Q&feature=youtube_gdata_player

Paolo Maldini disse...

capacidade de execução técnica fisica e psicologica? lol

Baggio, vem cá tu tratar disto lol

Matsu disse...

Concordando com tudo o que dizem sobre Futebol, discordo sobre o que dizem sobre os desportos 'individuais', ou querem dizer desportos de performance? É que no 'meu' desporto, Judo, o processo de tomada de decisão é fundamental, rapidíssimo e em que o erro é castigado de forma muito mais severa. Por isso mesmo adoro Judo e Futebol, a tática é tudo, a inteligência é tudo!

Paolo Maldini disse...

MAtsu, de acordo! Mas no futebol tens uma variável extra que não tens no Judo. Perceber também a linguagem corporal de colegas. As melhores decisões não te envolvem a ti única e exclusivamente e ao teu adversário.

Mas tens confronto...o que por si só o torna mais complexo que outras que não há confronto, mas sim... obter marcas.

Roberto Baggio disse...

Maldini,

O artigo é teu, desenmerda-te

MM disse...

Boa noite, desde já os meus parabéns pelo blog! Acompanho diariamente, mas deve ser a 2 vez que comento.

Rumo Norte, discordo completamente contigo. Para mim, muitas pessoas confundem o facto de o CR ter "mais argumentos" do que o Messi, o motivo para um ser melhor que o outro. O futebol, como em quase tudo na vida, o que interessa no fim é a eficácia. Eu não me interessa se o jogador X joga com os 2 pés, tem uma velocidade fantástica, uma grande força e 2 metros de altura, interessa me sim se o jogador em 10 lances é eficaz em 8, seja com um pé, com a cabeça, o que seja. Para mim é isso que distingue o Messi do Ronaldo, e tantos outros jogadores, porque o Messi em 10 passes, 10 desmarcações, 10 fintas, 10 remates, 8 são eficazes, mesmo jogando só com um pé, tendo metro e meio e tendo um remate mais fraco.
Quando me perguntam qual foi o jogador que mais gostei de ver? Ronaldinho, que classe. Mas sem dúvida que o Messi e o CR são mais eficazes que este, mesmo não fazendo as magias do primeiro.

Ps: Gostaria que fizessem um artigo sobre as mudanças no Barcelona. Como é que podem jogar tão mal, depois de tudo. É tudo motivacional?

Cumprimentos (e espero não ter dito nenhuma barbaridade)

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

Fantástico. Após anos de investigação, uma infinidade de fontes pesquisadas, anos de treinos, jogo, cursos, seminários, etc... afinal bastava ver Monty Python para aprender o jogo e o seu treino. Não sei porque é que o Ricardo Araújo Pereira não é o melhor treinador português, uma vez que foi um dos que provavelmente melhor compreendeu os geniais comediantes.

Rumo Norte disse...

MM,cometes um erro comum a quem não domina estatística: confundes a eficácia percentual com a eficácia absoluta. No último jogo entre o Benfica e o Gil Vicente, a eficácia do Gil Vicente foi 100% - para efeitos desta discussão, admitamos que apenas tiveram um remate, e com esse remate conseguiram um golo. A eficácia do Benfica foi muito menor, tiveram muito mais remates, e só conseguiram um golo. Em que ficamos? É preferível ter a eficácia do Gil VIcente ou do Benfica? Eu digo a do Benfica, porque o Benfica conseguiria ganhar o jogo com um pequeno aumento de eficácia, enquanto o Gil Vicente apenas pode piorar. O FCP, durante as duas épocas com o VP, em que foi campeão, conseguiu espremer a sua eficácia percentual ao máximo (nunca fiz a análise, mas desconfio que o Porto foi uma equipa com uma eficácia assombrosa, especialmente no ano passado). O problema do Porto é que já não consegue fazer crescer essa eficácia mais, apenas podia descer - aqui nem tanto pela qualidade de decisão dos jogadores ou do treinador, apenas porque o sistema do FCP está pendurado por linhas desde que se começaram a vender jogadores sem os substituir por outros de valor idêntico ou superior (vide o que o Benfica fez com Javi Garcia/Matic e Witsel/Enzo) e compara com o Porto desde que vendeu o Falcao, Hulk, Moutinho e James.

Há um estudo sobre o CR e o Messi que prova que o CR trabalha muito mais que o Messi. https://www.youtube.com/watch?v=kPQj155UyKY
O Messi pode ser mais eficaz (na verdade converte cerca de 22% contra 12% do CR ) mas o CR é muito mais trabalhador, em circunstâncias mais desfavoráveis. Logo, na minha *opinião*, que prezo a ética de trabalho, o esforço, a intensidade e a entraga, o CR tem mais mérito. Onde o Messi é talendo dado pelos deuses do futebol (com muito trabalho por cima, é certo), o CR é muito trabalho por cima do talento dado pelos deuses do futebol. A difernça é ligeira, mas clara para mim.

Saber Sobre o Saber Treinar, devias ler o meu comentário com mais cuidado: o meu ponto é exactamente o oposto do que queres fazer passar. Eu digo que o cérebro e o físico têm que estar alinhados. É uma verdade de LaPalice, mas a ideia que um dos orgãos tem preponderância sobre o outro é falsa e demonstrável pelos factos. Vê (uso o CR mais uma vez) este video sobre os testes feitos ao menino.

http://www.youtube.com/watch?v=vSL-gPMPVXI

Há situações em que o cérebro está em piloto automático: quando apagam a luz e o CR ainda assim consegue acertar na bola, não é o cérebro no sentido cognitivo que está em controlo, é a "memória muscular", obviamente armazenada no cérebro, mas que reage por instinto - não há tempo de pensar. Aprecio tanto como qualquer outro os regista cerebrais a la Rui Costa, Pilro, ou Aimar, mas gosto ainda mais dos jogadores como o Suarez, o Balotelli, ou o CR, que choram, riem, se zangam, voam e fazem voar. Já o Messi aborrece-me: faz maravilhas impossíveis com o ar de quem come uma bolacha. Aprecio o talento, mas falta-lhe a emoção. Dir-te-ia que ver o futebol só com a razão é a mesma coisa que estudar xadrês. E o Ricardo Araújo Pereira é um dos mais argutos comentadores de futebol que conheço: um bocado tendencioso, mas pelo menos todos sabemos que nos vamos rir com ele.

Rumo Norte disse...

Baggio, Maldini: decidam-se. Se disse alguma mentira ou se tenho um erro de análise, eduquem-me; eu estou disposto a aprender. Mas essa de andar a passar a batata quente, surpreendeu-me.

Já agora, deixem-me anotar: admiro muito o trabalho que fazem com este blog. Presumo que o que vos motiva é não só a explanação das vossas ideias, mas também a discussão, a troca de pontos de vista diferentes, e até a polémica, se por acaso se for por aí. A mim, é isso que me motiva.
Se algum dia acharem que estou a ser inconveniente ou que não querem a minha contribuição, digam-me. Como se diz, sou filho de boa gente, e saberei ir pregar para outra freguesia.

Obrigado pelo espaço de partilha que aqui conseguiram. COntinuem, que eu também por cá andarei enquanto me quiserem.

Roberto Baggio disse...

Rumo Norte,

Cometeste ali um erro técnico. Dando a entender que a capacidade de execução era técnica, física, e psicológica.

Quanto ao resto do teu comentário, dá a entender que pensar não dá trabalho. Que o esforço cognitivo não se trabalha. Dás ainda mais a entender que o esse tipo de esforço, cognitivo, não é muito mais difícil de trabalhar que o físico/técnico. Sendo que estamos a comparar jogadores do alto rendimento +/- da mesma geração.

Eu sei que ter qualidade técnica e ser inteligente ao mesmo tempo é a coisa mais difícil de se conseguir no futebol. E Messi é isso tudo ainda junta grande capacidade física, bem como aparecer nos momentos de decisão. Mas imagine-se que Messi não aparecia nos golos e não tinha a capacidade física (Força, velocidade, agilidade) para fazer aquelas arrancadas que faz. Ainda assim a inteligência e qualidade técnica fariam com que fosse o melhor do mundo. Por exemplo:
http://possedebolla.blogspot.pt/2014/01/exercicio-de-treino.html

Compreenda-se a dificuldade que é interpretar, imaginar a solução, e executar com sucesso o que Messi propõe. Em comparação com remates de média distância de qualquer parte do campo, onde não há qualquer tipo de interpretação. É só fé em Deus. Fazendo das tua palavras minhas, é só, instinto. Num jogo para inteligentes, que requer pensar, obviamente que quem pensa e executa melhor, tem que ser o melhor.

Roberto Baggio disse...

Um dia desses um amigo meu da blogsfera fez um artigo onde dizia:
Ha os rapidos. Que desequilibram com capacidades fisicas e tecnicas.
Ha os lentos. Que desequilibram com a inteligencia, temporizaçao, criatividade.
E ha o Messi.

Aza Delta disse...

Já agora, digam-me uma coisa:

Estão Ronaldo e Bruno Alves numa situação de 2 x 1 + GR, ronaldo tem a bola. qual é a opção que tem mais probabilidade de sucesso?

Paolo Maldini disse...

bruno alves em 1x0 com gr. qual é a duvida? até se fosse um junior essa probabilidade era maior, qt mais um jogador internacional

pitons na boca disse...

Rumo Norte, reduzes a "eficacia" do comentário do MM à finalização, quando se trata de "eficácia" em todas as acções, mesmo as menos perceptíveis (por exemplo, as tomadas de decisões acertadas). Neste particular, joga muito o aspecto anímico do jogador. Durante aproximadamente 3 épocas, Ronaldo tomava uma quantidade exagerada de más decisões, que só não tinham mais consequências porque a equipa construía uma quantidade enorme de oportunidades (bem como ele próprio) e o resultado acabava por ser favorável. Quando digo más decisões falo de optar por rematar, fazer o passe na altura certa, fazer o passe para o colega em posição mais favorável, partir para o 1c1, e por aí fora. Messi, durante essas 3 épocas tinha uma quantidade de decisões acertadas muito maior que Ronaldo.
Coincidentemente (ou não) com a quebra física de Messi na ultima metade do ano passado inverteram-se os papeis. Vê-se Messi a forçar um pouco mais jogadas em que tenta decidir sozinho ou furar, e nota-se Ronaldo mais "jogador de equipa".
Ronaldo parece ter tirado um peso das costas, ao ganhar a bola d'ouro, Messi parece querer provar do dia para a noite que continua a ser o que era antes da quebra.
Ronaldo vive muito mais do poder físico, da explosão em velocidade e arranque (e nesse aspecto, trabalhou como ninguém e merece o devido reconhecimento). Messi, pela sua imprevisibilidade acaba por ser superior a isso e, em condições normais, é melhor.

Isto daria para muito mais conversa, mas vou-me ficar por este comentário um pouco simplista daquilo que acho.

Já agora, não concordando com tudo o que dizem, acho um excelente trabalho, o que fazem neste blog.

Rumo Norte disse...

Pitons na boca, tens razão. De facto, neste caso, reduzo a eficácia ao golo. Mas a minha mensagem é outra: é que analisar percentagens e analisar valores absolutos são coisas diferentes - as percentagens dependem das bases que se usam. O problema da tua afirmação (que o Messi tem/teve muito melhores decisões do que o Ronaldo) é que não dizes onde obténs a tua informação. Fico com a ideia que é uma percepção, baseada na tua avaliação intuitiva dos dois jogadores, e condicionada pela tua preferência. Se tiveres dados para basear o que dizes, agradeço-os, estou sempre disposto a aprender. No final, a decisão do "melhor jogador, Messi ou Ronaldo?", é uma pergunta sem resposta. São ambos fantásticos, e depois é como perguntar o que é melhor, gelado de morango ou gelado de chocolate? Depende dos gostos. Eu gosto mais da forma como joga o Ronaldo, e digo, baseado nas estatísticas que tenho, que ele trabalha mais. Donde, sendo ambos fantásticos, mas pensando eu que a posição onde o Ronaldo joga é mais difícil , porque tem menos terreno de jogo onde se explanar, e está mais longe da baliza, e trabalhando ele mais que o Messi, digo que é o melhor do mundo há 5/6 anos (houve de facto um ano em que o Messi foi imbatível, mas nunca deveria ter tido as quatro vitórias seguidas).

Baggio, explica-me então o que é a capacidade de execução, porque se calhar estamos a falar de coisas diferentes. Vamos ver: não há movimento sem cérebro; os mortos não se mexem. Deixando portanto de lado que o cérebro está sempre envolvido, eu digo que na vertente tática um jogador usa os mecanismos cognitivos conscientes, enquanto que nas vertentes técnica, física e psicológica, os mecanismos cognitivos são sub-conscientes. Quero dizer com isto que a relação do jogador com o jogo de equipa (tática) tem que ser propositada no curto prazo, é consciente e voluntária; enquanto que a relação do jogador com a bola (técnica), com o seu próprio corpo (física) e com a sua capacidade de aprender, ser humilde, ser atento, vencer a dor, o cansaço e o desânimo, ter ambição (psicológica), é instintiva (no sentido que a velocidade a que acontece é mais rápida que o pensamento, e de mais difícil controlo consciente). Esta dualidade, entre a racionalidade e a emoção/instinto, é um novo modelo cognitivo. A concepção do lado esquerdo/criativo - lado direito/racional do cérebro está posta de lado pelos cientistas cognitivos, e entende-se que há uma ligação das emoções e dos reflexos a mecanismos fisiológicos inatos (as dores de barriga com medo, os vómitos no stress, suores frios, o ruborescer com a vergonha ou excitação, são apenas as manifestações mais dramáticas).

Tudo isto para dizer o quê? Que a capacidade de execução *com bola*, o domínio da mesma, a movimentação sob pressão, a decisão instantânea são do domínio do sub-consciente; a capacidade de execução *dentro da equipa*, essa sim no domínio da tática, o ajuste ao posicionamento dos outros elementos do jogo, o aparecer no sítio certo no momento certo, são muito mais conscientes.

Na soma, o que digo, e que vai contra o lema do blog, é que o cérebro e o físico, na excelência do jogo, estão em perfeito equilíbrio. Nenhum se sobrepõe ao outro, reforçam-se. A criatividade sem critério dá o "brinca na areia". O critério sem criatividade dá o "tosco", o carregador de piano. O critério + criatividade sem a capacidade física dá o Aimar a jogar na Tailândia. A criatividade e força física sem a solidez psicológica dá o Quaresma. Podia continuar, mas seria cansativo.

A minha discordância de fundo contigo é que me parece que dás sempre mais primazia a alguns elementos/momentos do jogo (criatividade, influência do treinador no treino posicional, erros individuais), enquanto que eu digo que não há chave fixa, há modelações de frequências, que incluem essas variáveis, mas muitas outras, muitas fora do controlo consciente da própria pessoa (os tais instintos, os reflexos condicionados, os mecanismos fisiológicos).

pitons na boca disse...

"No final, a decisão do "melhor jogador, Messi ou Ronaldo?", é uma pergunta sem resposta. São ambos fantásticos, e depois é como perguntar o que é melhor, gelado de morango ou gelado de chocolate? Depende dos gostos."

Concordo completamente com essa afirmação. Admito que identifico-me mais com a forma de jogar de Messi, e que o futebol do Barcelona (que muitos apelidam de sonolento) dos últimos 3/4 anos me deixa completamente maravilhado. São maneiras diferentes de ver o futebol, uns preferem o jogo cerebral que define e escolhe os tempos de aceleração, outros haverá que preferem o futebol vertigem da velocidade a todos os tempos.
Não acho é que seja necessário apresentar "tabelas, números, dados" para chegar à conclusão sobre o melhor (será sempre um bocado subjectivo). Poderá colocar-se em causa toda e qualquer tabela ou questionar se realmente estão lá todos os dados, nem vou por aí. Mas não me guio por tabelas alheias para achar que um é melhor que o outro, guio-me por aquilo que me é dado a ver nos muitos jogos deles que vejo.
No fundo, o que importa é sabermos que temos uma sorte descomunal de viver numa altura em que jogam estes dois autênticos extra-terrestres. Cada um escolherá "o seu melhor", com melhor ou pior argumentação para tal. O resto... são piners, como diria o outro. :)

Roberto Baggio disse...

Rumo Norte,

http://www.fmh.utl.pt/agon/cpfmh/docs/documentos/aulas/267/Treino_tecnico_doc_apoio.pdf

Esse documento deverá ser esclarecedor. No fundo, tu estás a falar de Habilidade motora. Mas habilidade motora não é capacidade de execução. A execução é a técnica pura, a execução do movimento. E isso, por si só, exige zero do cérebro. Comparativamente a tudo o resto, como é óbvio.

Sobre o resto http://possedebolla.blogspot.pt/2014/01/perececao-acao.html



A inteligência é o factor mais importante do futebol moderno, porque a grande maior parte dos estímulos hoje, são complexos. Exigem capacidade cognitiva para resolução dos mesmos. E aliás, perguntas a qualquer treinador mundial, e ainda que não saiba o que é, todos vão responder o mesmo: Tomada de decisão e técnica.

Isto por que motivo? Porque todos os jogadores têm capacidade física. Capacidades físicas diferentes, claro, mas têm lá a capacidade de correr, saltar, mudar de direcção, travar, acelerar, etc...