sábado, 5 de abril de 2014

A teoria é a reflexão da prática

Há quem pense que, por não ter formação académica, Jesus é um treinador que pouco conhecimento teórico tem, sobre o jogo. E por isso, por Jesus ter sucesso, desvaloriza em absoluto a vertente teórica do jogo. E esse pensamento está, do meu ponto de vista, errado. Percebe-se que Jesus é um obstinado pela teoria, não só pela forma como a sua equipa joga, mas sobretudo pela sua mensagem. Quem diz algo como, "quem só pratica repete, e quem repete não evolui", deixa evidente a necessidade de teorizar de forma constante sobre o treino, e sobre o jogo, para que não seja ultrapassado pelos seus rivais. Ainda que sem formação académica, Jesus diz que teoriza todos os dias, no final de cada treino, no final de cada jogo. Discute tudo com os elementos da sua equipa técnica. E tenta, com essas conclusões teóricas, melhorar o nível da sua equipa.

Muitos também pensarão que, 99% dos artigos aqui expostos têm índices teóricos demasiado elevados, para que isso se possa traduzir na prática. Nada mais errado. O que fazemos aqui no blogue, 99% das vezes, são reflexões que usamos no nosso dia-a-dia, com o objectivo de melhorar as performances das nossas equipas. São discussões que temos uns com os outros, com outros colegas, com jogadores, com dirigentes, com adeptos. São conclusões que encontrámos todos os dias, como forma de resolver os problemas que o jogo traz ao nosso quotidiano. São estratégias de feedback que utilizaríamos com os nossos jogadores. No fundo, analisamos cada equipa, cada jogador, cada modelo de jogo e de treino, como se fosse nosso. E assim, mostrámos teoricamente como resolveríamos os problemas na prática. Como se enquadrariam os erros nos exercícios de treino. Como abordávamos o jogador (equipa) relativamente à performance no jogo anterior.

Aqui, neste espaço, ao contrário do que alguns pensam, fazemos reflexões cujo grau de aplicabilidade na prática, tendo em conta o nosso entendimento do jogo e do treino, é de 100%. A reflexão do jogo e do treino é feita de forma igual, independentemente do escalão que treinas, ou competição que enfrentas. É uma análise contextual, sobre os factores que mais nos ajudam (treinadores) a tirar rendimento do treino, para o jogo. Seja qual for o objectivo do treino (desenvolvimento/formação, criação de ferramentas que permitam o sucesso colectivo, valorização de jogadores).

Se estamos certos ou errados, com o tempo se verá. Mas ninguém nos tira a convicção, dada a nossa constante reflexão sobre o jogo e sobre o treino, que daqui por mais 10/20 anos o que aqui escrevemos seja absolutamente óbvio para todos.

7 comentários:

Anónimo disse...

Nao ha nada mais pratico do que uma boa teoria!

Leandro Belmonte disse...

Excelente artigo, dos melhores que foram feitos ultimamente aqui no blog, sem qualquer tipo de desvalorização aos outros.
Vocês são geniais e vê-se que é devido ao tempo de pratica, por assim dizer.
Gostava que no blog vocês abordassem de forma mais vincada as questões do treino, dificuldades, de todos os tipos, ideias vossas, mitos relacionados com o treino, porque é dificil alguém entender o jogo se não perceber o que há por trás dele, na minha humilde opinião, claro.
Um muito obrigado.

Bruno disse...

Jesus pode não saber falar, mas apesar disso, pelo que diz, demonstra que sabe bem daquilo que fala. Prova disso é, por exemplo, como citou correctamente Lenine:

«A prática é o critério da verdade»

Foi uma afirmação epistemológica utilizada por Jorge Jesus de forma e contexto muito adequado. Ele falou-a porque compreende-a, e ao fazê-lo adequadamente, demonstrou mais uma vez que leva a relação dialéctica entre teoria e prática muito a sério.

Dipeca disse...

Vocês que trabalham no terreno, quais os conceitos (p.e: corrigir um erro posicional ocorrido num jogo) mais difíceis de fazer compreender aos jogadores e como reagem eles a um exercício mais complicado (acham seca, acham interessante)?

Elias disse...

Isto me lembrou uma situação recente bem descrita aqui. http://espn.uol.com.br/post/401047_narciso-rivellino-e-o-preconceito-de-boleiros-contra-quem-estuda-futebol

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

Eu conheço esse filósofo. Muito boa citação.

Leandro,

Perceber do jogo é mesmo difícil. Perceber do treino é muito, mas muito mais difícil ainda que perceber do jogo. Se coisas básicas sobre o jogo, que colocámos aqui causan tanto constrangimento, imagina o que seria colocar mais questões sobre o treino. O primeiro passo para entender o treino, é entender melhor o jogo, na minha opinião.

Bruno,

Subscrevo.

Dipeca,

Depende do jogador. Depende, sobretudo disso.
Exercícios chatos, não fazemos. Eles não os acham chatos, porque estão sempre a jogar ( 3x3, 4x5, 8x5). Estando sempre em situação de jogo, não se aborrecem. Agora podem é achar que o exercício não é adequado, tendo em conta o objectivo da equipa (modelo de jogo). E já aconteceu um jogador "reclamar", Mister, não estamos a fazer neste exercício o que o mister quer no jogo! E nós, porquê? Ele lá explicou, e bem. Paramos, passámos ao seguinte.
Quanto a reacção a exercícios mais complexos ao nível da quantidade e complexidade dos estímulos, depende também do jogador. E do estado anímico da equipa. Não há nenhuma regra geral para nenhum grupo, ou para determinada situação. Eles podem ser super competentes em 5x5, e ter muitas dificuldades em 3x2. Depende do grupo, dos jogadores, e de N outros factores.

Dipeca disse...

Percebo, é mesmo importante estar sempre a criar exercícios em situações de jogo. Como vocês já explicaram aqui, aliás.