sábado, 5 de abril de 2014

O poder de um grande colectivo

Defender encurtando ao máximo o espaço quando portador da bola adversário sob pressão. Baixar momentaneamente a última linha controlando a profundidade com bola descoberta. Pressionar em bloco, campo muito curto. Após a recuperação da bola, afastar rápido, com toda a gente a saber exactamente onde estarão os colegas. Ofensivamente oferecer sempre quatro linhas de passe próximas ao portador. Movimentação / mobilidade, ao redor do portador, garantindo que com opções, este não fica exposto, permitindo-lhe não ter perdas, e no momento em que as tem assegurar uma transição defensiva eficaz pela proximidade de jogadores no espaço onde a bola é perdida. 

Num post recente não ficou bem claro o que se pretendia dizer. Jorge Jesus não é bom porque pode chegar a três semi finais europeias em cinco anos. Chega lá porque é bom. É diferente. E é bom porque as suas equipas são em toda a Europa do futebol das que revelam traços mais acentuados. Identidade mais visível do que é o trabalho de um treinador. E bom. Por isso o Benfica passou de uma percentagem inferior a 60% de vitórias nos jogos que disputava (sendo que por eliminado cedo em todas as provas, o grau de dificuldade era sempre menor), para uma percentagem superior a 70%. Não é por ganhar que é bom. É por ser bom que ganha quase todos os jogos. Por esta altura é bem capaz de já ter vencido mais jogos fora em competições Europeias que todos os outros ex Benfica juntos nos últimos trinta anos. Já era bom na época passada em que não venceu qualquer troféu.

Tudo isto a propósito da magnífica entrada de André Almeida no meio campo do SL Benfica em Alkmaar. André é um jogador pouquíssimo talentoso. Não é criativo, tão pouco revela qualidades na relação com bola. Na verdade, excepção à leitura que faz dos lances em termos posicionais, não se conseguem perceber grandes qualidades em Almeida. Todavia, inserido num grande colectivo, tudo se desvanece. É curioso que hoje há quem pense que ter Fejsa em detrimento de Matic valeu ao SL Benfica um salto qualitativo. Já havia sido assim com bastantes outros jogadores que acabaram transferidos. A qualidade individual não aumentou. O colectivo é que segura as individualidades. Os dois Andrés da segunda divisão chegaram a internacionais em menos de uma época. E é curioso verificar que fora do seu habitat (o colectivo do SL Benfica) não têm conseguido mostrar qualidades. Gomes, num Mundial sub 20, apenas a defrontar miúdos da sua idade, foi uma enorme decepção. 

No campo oposto, e após toda a perda de um jogar magnifico, é curioso verificar o que jogam hoje Danilo, Alex Sandro, Mangala, Otamendi (entretanto partiu), entre outros. Imagine que opinião se teria hoje de qualquer um dos valiosos jogadores azuis e brancos, se não tivessemos num passado recente, quando inseridos num grande modelo, percebido a enorme mais valia que todos são. O melhor, individualmente, quarteto defensivo da Liga hoje parece um grupo de desalinhados. 


10 comentários:

Aza Delta disse...

Muito bom artigo. Concordo em absoluto.

Tenho uma dúvida quanto ao Porto, relativamente a este aspecto. Se é indesmentível a descida de qualidade do colectivo, e se notou a perda do dedo do Vitor Pereira, achas que se a disposição táctica não tivesse mudado, e se jogadores como ) Moutinho não tivessem saído o descréscimo tinha sido tão grande?

Isto é, além de ter saído o técnico, saiu um dos jogadores que mais tinha interiorizado as ideias do técnico. achas que se esse jogador tem ficado, se poderia ter mantido mais do Porto do treinador anterior?

Fernando José disse...

A questão do Jorge Jesus ter perdido tudo na época passada e a sua passagem de bestial a besta em pouquíssimo tempo, é uma daquelas situações que nos fazem reflectir a fundo várias dimensões do futebol.
No final da época passada tive discussões acesas sobre a sua continuidade ou não e sempre me pareceu errado trocar meses de muito bom trabalho pelos últimos, ainda que decisivos, minutos da época.Hoje vejo que estava certo.
Gostava que me respondessem a isto, se possível:Até que ponto de legitimidade chegam as dúvidas e até criticas dos adeptos benfiquistas ao trabalho deste treinador?

Paolo Maldini disse...

Fernando, tende-se a avaliar a performance do treinador como se não fossem os jogadores quem joga o jogo. A avaliação deve ser feita do ponto de vista de que ao treinador cabe dar armas (formar um colectivo) aos seus jogadores para serem bem sucedidos. Não é ele que marca os golos, corta as bolas ou bate os penaltys...

Numa liga com os melhores 16 do mundo, haverá sempre gente a dizer que estão lá 6 ou 7 maus treinadores. E não estão...são os melhores 16 do mundo, ne?

O Jesus nos resultados que tem tido, teve a infelicidade de apanhar o melhor FCP doméstico dos últimos 30 anos (e c 11 mt mais fortes q o SLB, apesar de ser uma realidade que custa a admitir aos benfiquistas), onde curiosamente só deu FCP. Em 3 anos, o FCP perdeu 1 jogo. Foi isso que foi preciso para que JJ não tivesse hoje muitos mais troféus.

No final da época passada referiu-se aqui que quem mantivesse o treinador (V.Pereira / Jesus) seria o grande favorito ao troféu.

As equipas de Jesus, colectivamente são sp do melhor que há. Agora se os jogadores lá dentro com as armas que têm são em sucedidos ou não (por ex em Barcelos o Cardozo falha um penalty que podia/pode custar mt caro)... não é ele ou qq outro treinador que joga! São os jogadores!

Paolo Maldini disse...

Aza Delta, Moutinho e James (p mim o melhor jogador em Portugal).

Mas se o FCP contratou PFonseca foi pq gostava do que ele iria trazer! Ele n começou a jogar em 4231 no FCP. Já o fazia! Se não quisessem aquelas ideias, teriam ido a outro lado...

Aza Delta disse...

Estive para meter o James, mas quis destacar o Moutinho, pq era fundamental na transição defensiva do Porto.

Se o Moutinho e Fernando continuassem no meio campo do Porto n achas que a reacção à perda de bola do Porto no meio campo do vitor pereira podia ter transitado para o Porto do PFonseca, mesmo que o sistema fosse outro?

formatted error free disse...

Maldini,

em temos de dupla de centrais, é melhor Mangala/Otamendi ou Garay/Luisão? qual preferes?

Fernando José disse...

Concordo em pleno.
Só fazendo um pouco de advogado do diabo e no seguimento da questão "Jorge Jesus e os adeptos do Benfica", o que achas das exibições do Benfica contra o Porto ao longo do consulado de Jesus no SLB?

Paolo Maldini disse...

formated, o Luisão antes Jesus era dos piores centrais que recordo nos grandes em Portugal. Péssimo mesmo...pq não havendo colectivo, sobressaiam os seus traços individuais (lento, duro de rins, mau nas abordagens 1x1 e até...pasme-se, era fraco no ar. Ai foi crescendo e antes de jesus já estava melhor). Hoje é dos melhores centrais que recordo.

Portanto, respondendo assim... quais teriam mais sucesso noutra equipa? Os dois do FCP. Otamendi para mim é o melhor dos 4. Gosto mais de Garay que de Mangala, mas defensivamente o do FCP se num colectivo forte é intransponível. Mas, a classe do Garay (e do Otamendi) não se compra nas farmácias...

Paolo Maldini disse...

Fernando José, contra um dos melhores Portos que recordo (AVB e Vitor Pereira...e lembrar que ser do melhor duma equipa q domina há 30 anos n é coisa pouca) os resultados mostram inferioridade clara. Na minha opinião pq esses FCP tinham mais qualidade individual q o SLB (o ano passado, por exemplo, se calhar bastava trocar GR e podia ter sido diferente)e colectivamente tb eram soberbos.

Ao FCP de Jesualdo, JJ venceu 2x perdeu 1. E a este FCP, com a sua melhor equipa tb venceu (n vi esse jogo para perceber se houve superioridade, mas pelo que me disseram, houve...) Tb n vi o jogo no Dragão para a Taça...

Rumo Norte disse...

Maldini, concordo com o tom geral do artigo. Tenho algumas dúvidas nas avaliações individuais dos jogadores que fazes. Para mim, tirando aqueles jogadores que a olho nú se vê que têm qualidades extra, quando se comparam os centrais do Porto e Benfica, por exemplo, eu tenho dificuldade em hierarquizá-los. Porque o conjunto das qualidades que um central desta categoria tem que ter não são contabilisticamente quantificáveis com o rigor que vocês apregoam. Eu posso ter uma preferência, por estilo ou personalidade do jogador, mas entre os quatro que referem, Mangala, Garay, Otamendi e Luisão, não me lixem, venha o diabo e escolha! São todos jogadores fantásticos! (Dou-te um doce: no passado, também já achei que Benfica deveria ter vendido o Luisão com uma boa oferta por causa das mesmas limitações que referes; mas esta época o senhor está intratável, não só a defender como a atacar). Mas por isso mesmo, por eu achar que as qualidades individuais são potenciáveis pela forma como o treinador as utiliza dentro de um sistema de jogo, a tua avaliação do JJ só peca por defeito: para além da evidente e superlativa qualidade que tem como treinador de campo, é claro para mim que ele é também um excelente manager e um extraordinário "desenvolvedor" de jogadores. Ainda me mete um bocado de confusão como vocês continuam a metê-lo no mesmo saco do VP; eu acho que ele está umas duas ou três prateleiras acima, no mínimo e com muito boa vontade para com o VP.