segunda-feira, 4 de agosto de 2014

"Ensinar 11 jogadores a jogar não é assim tão difícil, porque eles não são iniciados, têm noções básicas de ocupação de espaços"

É o que se canta por aí. Pensa-se que os treinadores têm alguma fórmula mágica e que são obrigados num mês a colocar uma equipa completamente nova a jogar de acordo com as suas ideias.
Ninguém percebe a dificuldade que é ensinar um jogador e o colocar dentro do sistema. Ninguém percebe o que é colocar 5, 6, 7, ou 8 jogadores novos ao mesmo tempo no mesmo onze inicial, com uma ideia comum de jogo.
As dificuldades surgem do jogador não conhecer as referências da equipa. São ainda, na sua maioria, jogadores sem qualquer cultura de ocupação de espaços, ao contrário do que se diz. Pelo que o trabalho é ainda mais difícil. As dificuldades maiores surgem de não terem qualquer referência em campo que os passa ajudar, de não terem qualquer jogador modelo para imitar, para os guiar, para os corrigir.

Em tempos, numa equipa que treinava, perdi um jogador que me fazia o trabalho todo de dentro do campo. Não usava a braçadeira mas era o capitão. Eu falava pouco lá para dentro porque ele corrigia tudo, comunicava com todos, percebia como ninguém a ideia de jogo e obrigava os colegas a guiarem-se por ela. Desde logo, nos jogos seguintes senti a sua falta. Gritava muito para dentro de campo, estava mais intranquilo, e tinha maior necessidade de focar e corrigir logo cada situação. Os erros aconteceram mais vezes, muito mais vezes. E isso é ter um modelo por quem os outros se possam guiar dentro de campo. É ter uma referência que os ajude a estabilizar os comportamentos. A passar a ideia que o treinador tem para a equipa.
No Benfica, Jesus falou de Luisão e Enzo. Eu poderia acrescentar Amorim. Mas numa equipa com tantos fogos para apagar não há um Amorim que resista. Siga o link.

21 comentários:

Shield from Tyrrany disse...

Provavelmente a equipa vai alinhar com: Maxi, Luisao, Andre almeida, ruben amorim, enzo, salvio, gaitan e lima. Ou seja, 8 jogadores que sempre jogaram regulatments na epoca passada. Nos nogos a contar o Benfica vai estar fortissimo pq estes jogadores conhecem profundamente o modelo de jogo e como executa-la

Tomcat disse...

Olha :)

Tomcat disse...

O nuno do entredez tem opiniões muito vincadas e que são muitas vezes consideradas um exagero. Lembro-me de uma vez ele ter dito que as pessoas em Portugal não gostavam de futebol, calhou nascerem num país em que a malta se galvaniza em torno desse desporto específico, e que se o fizessem em torno da natação (acho que foi esse o exemplo que ele utilizou), então todos nós seríamos entusiastas da natação.

Lembro de na altura achar esta consideração muito radical, mas é algo que tendo a considerar cada vez mais verdadeiro. Quando se desvaloriza desta forma o trabalho de um treinador (e atenção que estamos, para todos os efeitos, quer gostemos da pessoa em causa ou não, a falar de um Treinador, não de um Sá Pinto), não se pode ter propriamente apreço pelo desporto em si. Não se pode estar dentro daquilo que é, quanto a mim, a parte mais bela e intelectualmente estimulante do futebol, aquilo que o distingue dos restantes desportos e que o torna o desporto mais difícil de praticar.

Just my two cents.

Irredutível Marítimo disse...

Isto é o que acontece todas as épocas com as equipas deste país. Por estar a acontecer com aqueles que monopolizam o futebol português e que se tinahm habituado a viver acima das suas possibilidades é caso para tanta admiração?

Garrido disse...

Entendo que nesta operaciolanização de ideia de jogo, impõe-se também discutir de que forma é que individualmente os jogadores são estimulados para a especificidade do trabalho sectorial e inter-sectorial vs trabalho individual.
Com isto, quero dizer - vi o Talisca jogar a 6, a 8 e a 10. Vi o João Teixeira jogar a 6 e a 8. Vi o Cancelo jogar a 2 a 5 e a 7. O bernardo a 8 e 10. E por aí adiante para o Candeias, Bébé, Jara, Benito etc. Ou seja, parece que Jesus entende como mais relevante que os jogadores sejam capazes de interpretar o modelo de jogo, antes de terem a "memória-muscular" de movimentações ofensivas ou de transições defensivas.
Põe-se a questão de saber se numa fase em que tanta aprendizagem é necessária, se abordar o treino e os jogos com os jogadores a cumprirem papeis mais "especializados" -> o Talisca jogar sempre a 8, o Teixeira sempre a 6, o Benito sempre na Ala, o Candeias sempre a jogar com o maxi nas costas etc...não seria mais produtivo.
Acho que a discussão é: nesta altura é melhor previligiar sectorial e intersectorial em que cada jogador cumpre o seu papel de modo mais ou menos fixo, ou obrigar todo o plantel a saber executar todas as posições do seu sector.

Cumprimentos

Roberto Baggio disse...

"Lembro de na altura achar esta consideração muito radical"

De acordo... A minha evolução foi também nesse sentido, relativamente às ideias do Nuno.

A diferença hoje é que não tenho dúvidas de que ele sempre esteve certo na esmagadora maioria das coisas que escreveu. E na esmagadora maioria das ideias dele. Que digo-o sem qualquer tipo de vergonha, na sua esmagadora maioria são também minhas por culpa dele.

Culpa dele, e do Lateral Esquerdo, e muito, muito, muito, do Centro de Jogo, claro.

Roberto Baggio disse...

"Acho que a discussão é: nesta altura é melhor previligiar sectorial e intersectorial em que cada jogador cumpre o seu papel de modo mais ou menos fixo, ou obrigar todo o plantel a saber executar todas as posições do seu sector."

Na minha opinião, e conhecendo o modelo de Jesus como conheço, e a forma como ele quer que a equipa ataque e defenda, em centenas de situações de jogo "Talisca" vai ser 2,3,5,6,8,10; "Jara" vai ser 9.5, 9, 7, 11;
"Benito" vai ser 2,3,5,6,7,11...

No meu modelo de jogo é igual, pelo que habituar desde logo os jogadores à permuta de posições, a reagir de acordo com o contexto que encontra me parece o mais adequado, para as ideias de Jesus.

Garrido disse...

Baggio,

Eu acho que no contexto desta pré-epoca esta operacionalização está a falhar, e um dos motivos é justamente a abordagem à constante permuta dos posicionamentos.

A dificuldade dos adversários escolhidos dificulta sobremaneira adquirir "certezas" nos posicionamentos dos mais novos (e são tantos!!!) pelo que, quando o Jesus falava na dificuldade dos mais novos entenderem a ideia de jogo da equipa, acho que isso se deve a demasiados jogos seguidos + nivel de dificuldade demasiado alta.

Na linha daquilo que escrevi à pouco, com tanta gente nova, com tanta carga física, e com um modelo de jogo exigente (como é o do Jesus), acho que os miudos adquiriram poucas convicções sobre o sistema em si.

Pensei que se fosse eu a treinar, provavelmente abordava esta pré-época com um nivel de adversários muito mais baixo, com uns dois adversários mais difícieis no final apenas.

Vejo os miudos muito pouco confiantes no sistema e com muitas dúvidas sobre si próprios e sobre a interpretação que os colegas fazem do sistema.

Vão ser complicados os primeiros dois meses de campeonato para o Benfica.

Roberto Baggio disse...

Eu discordo. Adversário mais fracos não permitem que os jogadores adquiram as competências defensivas ao nível de posicionamento que Jesus quer. E, sendo que grande parte dos miúdos não vai ser titular, percebo perfeitamente que Jesus no jogo queira que eles passem por muitas, muitas, muitas situações. Não só para que percebam a dificuldade (ao nível da velocidade que se exige posicionar bem), como também façam uso regular daquilo que jesus quer. E isso só surge com repetição. No treino, por exemplo, quero que eles joguem defensivamente com uma determinada forma geométrica, crio contexto de exercitação onde eles o façam, em 15 minutos de forma constante. Para que com a repetição se melhore. Foi isso que Jesus procurou, e não creio que tenha sido má ideia. Por outro lado, há a questão do perceber a real qualidade dos jogadores, contra verdadeiros adversários.

Na minha opinião, eu faria igual ao Jesus. Adapatar desde o primeiro treino/jogo os jogadores as exigências que vão ser regulares no modelo de jogo.

"Vão ser complicados os primeiros dois meses de campeonato para o Benfica."

Quando é que não foram, com Jesus?!

Baresi disse...

O Benfica perdeu muitos jogadores nucleares na sua equipa, mas não perdeu o essencial: Jorge Jesus.
Markovic, Siqueira e Oblak só jogaram o ano passado,
Com Luisão, Enzo, Amorim, Gaitan, Lima, Ola John e Salvio (mais Silvio e Fejsa) pode-se fazer uma boa equipa. Mesmo saindo Gaitan, o Benfica terá uma equipa forte, se sair Enzo é que a coisa vai ficar mais complicada porque ele é o jogador que une as pontas...

É dar tempo ao tempo a JJ, e ver até onde ele conseguirá levar esta equipa

Nuno Ribeiro Margarido disse...

O que é que pode ser uma referência? As linhas de campo? Os adversários? Um colega da mesma equipa?

Shield from Tyrrany disse...

A motivo por contratar Djavan: http://thesoccerprophet.blogspot.pt/2014/08/the-djavan-episode.html … Foi simplesmente para ele nao poder ir ao Sporting

Roberto Baggio disse...

Cabazadas argumentativas? Hum, não me lembro de ter lido esses artigos. Quer dizer, lembro-me, mas...

Quanto ao resto, fantástico comentário! No tamanho.

Pedro disse...

E todos aqueles casos de sucesso em que um treinador pega numa equipa nova e tem sucesso imediato?



Roberto Baggio disse...

Que equipas?!

Dennis Bergkamp disse...

É complicado e percebo o que o leitor que falou que era preferivel eles primeiro saberem a "sua posição" e depois fazerem o resto.

Os jogadores, principalmente aqueles que têm pouca cultura de jogo, apenas se preocupam com eles próprios.

Os treinadores preocupam-se com o global. É por isso que no treino um jogador azia se está "fora da sua posição" e o treinador fica lixado com isso, porque o jogador não percebeu que ele foi colocado ali para aprender.

Acho que... por um lado é preciso dar sucesso, e isso faz com que seja necessário eles estarem mais tempo a fazer aquilo que em condições normais vão repetir muitas vezes e só depois de saber o ABC da posição "8" (por exemplo) começarem a perceber que ser "8" é momentaneo, e que na dinâmica do jogo vão ter de saber fazer tudo.

Por outro lado, se queremos ensinar a sério, se queremos que o todo seja realmente mais do que a soma das partes.... temos é de ensinar o jogo, e não a posição. O jogador tem de perceber o que faz, e o porque é que o faz, não deve jogar de cor.

Isto, se queremos que a ideia de jogo seja mesmo algo que é cultura, que é hábito, e dessa forma... consistente e resistente.

Paolo Maldini disse...

Ai Telmo, continuas tão ressentido... isso nem é saudável.

Telmosexual disse...

Porra o Telmo é granda stalker!!!! Cuidado com ele!!!!

Gonçalo Matos disse...

"Em tempos, numa equipa que treinava, perdi um jogador que me fazia o trabalho todo de dentro do campo. Não usava a braçadeira mas era o capitão. Eu falava pouco lá para dentro porque ele corrigia tudo, comunicava com todos, percebia como ninguém a ideia de jogo e obrigava os colegas a guiarem-se por ela."

Nenhum jogador nasce ensinado, o treinador terá sempre um papel fundamental, o mais importante. Como teu jogador, tu deste-me ferramentas que nunca me tinham sido oferecidas. E essas ferramentas possibilitaram construir aquilo que eu mais gosto de fazer, que é jogar bom futebol! Se esse jogador tinha essa importancia, era porque acima de tudo ele acreditava nas tuas ideias, no teu trabalho e sabia que ele levaria a vossa equipa ao sucesso! A dúvida, no meu caso nunca foi se as ideias eram boas, mas sim se a minha equipa seria suficientemente boa para as compreender e executar!

As tuas ideias nunca me tinham passado pela cabeça!
Eu quando jogava sentia sempre que tinha a liberdade para fazer o que queria e ao mesmo tempo a capacidade de tomar a melhor decisão, com ou sem bola.
O caminho era sempre muito claro. Enquadrar, fixar, libertar, aparecer no espaço, repetir ou finalizar. Depois correr, sair na contenção, correr pra cobertura e assim até ter a bola. Era simples!

Não tenho qualquer dúvida que tu e o Ronaldinho foram os melhores treinadores que apanhei, porque acima de tudo, o que vocês pedem aos vossos jogadores é que entendam primeiro o jogo e depois o que voces pretendem! Vocês ensinam a jogar!

Ha quem pense que JJ é sortudo por ter jogadores como Enzo, Luisão, Amorim. Eu diria que sortudos são eles por terem o prazer de treinar com alguem que lhes pode ensinar tanto! A maldição de trocar para alguém que sabe menos é terrível...

Um abraço!

Pedro disse...

Que equipas?
Mourinho no Chelsea, AVB no porto..olha...Jesus no Benfica.

Roberto Baggio disse...

Era o que receava. Não entendes o contexto.
Mas também não te vou explicar o que é por demais evidente.