quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ainda a maravilha de Rodrigo, André Gomes e... Paco Alcácer

O apoio e a ruptura nos pontas de lança. 
No maravilhoso golo do Valência sobressaem imensas virtudes no gesto técnico de qualquer um dos jogadores. É porém, pela tomada de decisão que o lance assume o brilhantismo e o sucesso que tem.

Em Rodrigo não foi só a recepção. Foi a decisão de levar para fixar a linha defensiva, chamá-la atrás para jogar entre linhas. Colocar a bola no corredor central de frente para a linha defensiva adversária. Quantos na mesma situação iam para cima do lateral, driblariam para a linha e cruzariam? Reduzindo desde logo para níveis assustadoramente mais baixos a probabilidade de sucesso do lance.

André Gomes decide bem e executa melhor. Mas quanto da decisão do lance passou pela mente de Alcácer? Praticamente tudo! Uma percentagem elevada de avançados centro nunca pediria aquela bola no pé. Mas sim para a ruptura (pedido um passe mais vertical a fugir da direcção do poste esquerdo da baliza adversária) para finalizar  (que seria em condições suficientemente interessantes para fazer golo, mas ainda assim, a obrigar a uma rotação e a rematar com ângulo mais fechado). 

Alcácer ignorou a notoriedade própria pelo sucesso colectivo. Jogou com as probabilidades. Tinha boas chances de movimentar para ser ele o autor do golo, mas sentiu que as probabilidades da sua equipa fazer golo subiriam se ele próprio se afastasse do golo, pedindo a bola em apoio.

Este tipo de decisão não revela só inteligência e qualidade. Revela também altruísmo. Não conhecendo o avançado espanhol, a certeza porém, de que só porque deu dois passos para a direita enquanto gesticulava para receber no pé, e não dois para a esquerda a pedir na ruptura, passarei a segui-lo.


22 comentários:

Joao Rodrigues disse...

Vale a pena segui-lo é um excelente ponta de lança

DC disse...

As camadas jovens do Valência são uma classe.
E o Rodrigo estará a melhorar a tomada de decisão? Não me recordo de muitas coisas destas no ano passado.

No Porto notei que Jackson faz quase sempre o que Alcácer fez enquanto que o Aboubakar está sempre a pedir profundidade. Esperemos que vá aprendendo com o Jackson.

Destruidor de Jogo disse...

Segundo grande parte dos adeptos do Sporting, o Alcácer deveria ter rematado, porque o equilíbrio universal só se mantém se forem os ponta de lanças a marcar.

(É ir ao fórumscp, ao tópico do Montero, e apreciar o retardamento mental daquelas idiotas que, imagine-se, dizem que deveria ter sido o Montero a marcar o golo do Carrilo contra o Gil Vicente. Ou seja ele deveria ter lá ido atrapalhar o Carrillo e meter em risco o sucesso colectivo da equipa.

Portanto, o que importa é que o ponta de lança do clube lidere a lista dos melhores marcadores [ainda por cima o coxo do Slimani nunca na vida poderá aspirar a tal feito, ao contrário do próprio Montero], e que se lixe a luta pelo título e o sucesso colectivo da equipa.)

Anónimo disse...

Acho que é de sublinhar o timing do passe do André Gomes: quando era suposto demorar mais uma fracção de sgundo a dominar aquela bola, parece que a solta um pouco antes do que era de esperar e assim apanha o defesa em movimento contrário, ainda antes de definir a posição, e facilmente transforma o 2x2 num 2x1.

A recepção de Rodrigo é a raíz de tudo, mas o passe do AG é dum timing brutal, quando o defesa lá chega já ele foi embora.

Moreira disse...

Estes três do post são fantásticos, mas ajuda também ter na equipa gajos como o Dani Parejo e o Piatti, jogadores criativos e com critério. Pena cepos como o Vezo borrarem a pintura. Será Mustafi assim tão mau para terem que colocar o Vezo a titular?

José Moreira disse...

Paco Alcacer é um jogador de muita qualidade, facto que me levou a estranhar a necessidade tão permente de contratar um ponta-de-lança por parte do Valencia e que culminou no empréstimo de Negredo. Com Alcacer e Rodrigo num plantel que apenas enfrentará competições internas, parecia-me que a posição no eixo do ataque estaria salvaguardada, ainda que Rodrigo esteja a ser utilizado na ala.

Quanto a André Gomes, e porque este é apenas um dos muitos lances que tem protagonizado em Espanha e que tem demonstrado a sua verdadeira valia, fica a pergunta: Porque nunca atingiu este nível no Benfica? Porque se insistiu tanto na sua subalternidade e em faze-lo entrar tantas vezes aos 90 minutos das partidas como sucedeu na primeira metade do ano passado? E, já agora, ainda se acha que os 15M€ pagos por ele eram um profundo exagero?

Eu sou suspeito, porque sou um verdadeiro apaixonado pelo seu futebol.

Unknown disse...

"Quanto a André Gomes, e porque este é apenas um dos muitos lances que tem protagonizado em Espanha"

Vamos lá ter calma José. O rapaz está a começar bem, mas não tem estado tão catita como dizes.

José Moreira disse...

Não? Dos jogos que tenho visto, e têm sido quase todos, tem sido dos melhores em campo. Tem feito coisas que nunca lhe vi fazer no Benfica ou, pelo menos, com tanta regularidade.

Johnny McCaco disse...

off topic.

Eis o que é o Boavista de Petit. Hilariante

http://tacticalporto.com/wp-content/uploads/2014/09/99.png

Johnny McCaco disse...

Excelente análise do tactcalporto.com , o site começou agora. Tenho pena que não haja para os restantes grandes, já agora. o LE não pode fazer tudo... :)

Paranhose disse...

Ainda falta referir mais um aspeto subtil, e que neste lance também é algo decisivo:

A. Gomes recebe com pé esquerdo, orienta a receção para o pé direito e passa com este. Se fizesse tudo com o direito, para além de não dar jeito nenhum na receção, demoraria mais tempo e todo o timing da jogada provavelmente ficaria estragado.

Ou seja, evidencia-se aqui a importância de jogar com os 2 pés, e de trabalhar este aspeto na formação, e se possível integrado em alguma situações de jogo que exijam trabalho de 2 pés, como a que se viu neste golo.

Baresi disse...

Off topic mas super interessante.

http://www.economist.com/blogs/gametheory/2014/09/analysing-football-styles?fsrc=scn/fb/te/bl/ed/adifferentballgame

Gonçalo Matos disse...

Li o tacticalporto hoje à tarde e gostei imenso! Muitos parabéns ao seu autor!

PS: puro desabafo. hoje tive uma discussão com o meu pai que me disse que tenho a mania que percebo de futebol e que não respeito as opiniões dos outros. Eu estava a argumentar que a maioria dos comentadores de tv nao apresentam argumentos pra justificar as suas posições, não percebem nada e são culpados pela falta de informação do adepto português. Os comentadores em causa eram os da TVI24, em particular o Dani (que o meu pai diz que sabe pq jogou). A batalha é muito dura e é desgastante, pra quem pensa contra corrente. Admiro mto a malta que escreve por aqui, no entredez e agora no dominiodejogo e no tacticalporto. É preciso coragem, somos constantementes apelidados de arrogantes e convencidos. No meu caso, só gostava que o meu pai me ouvisse e percebesse que desta vez, tenho razão. Enfim, obrigado a todos os que me ensinaram e vão ensinando, por essa blogosfera fora!

JON disse...

Gonçalo:

Ahahahah! tenho o mesmo problema... Mandei ontem o post do tactical porto ao meu pai e tudo.

O homem diz que lá venho eu com as "novas tecnologias". Não há forma de ele entender! É uma dor de alma. Não consigo encontrar ninguém com quem falar de bola!

Gonçalo Matos disse...

O pior é que o meu pai conhece o Baggio e o Ronaldinho do posse, pessoalmente e respeita bue a opinião deles. No entanto a minha ja e mais difícil! Desconfio que ele nunca leu um post do posse de bola, apesar de saber que somos nos que maioritariamente escrevemos lá.
E atenção, o meu pai ate percebe mais que a media

Johnny McCaco disse...

Partilho da vossa dor e frustração, Gonçalo Matos e JON. Parece que, apesar de todos verem a mesma coisa, que falamos linguagens diferentes ou somos de Marte. São anos, décadas de zero de análise futebolística como deve ser na comunicação social e no discurso dos treinadores (que por sua vez, respondem a estímulos e questões irrelevantes da com social). Basicamente o cérebro de quase toda a gente, ao longo dos tempos, aprendeu a ver o futebol de determinada maneira, e é muito difícil reaprender. É como falar uma nova língua. Pode-se começar a dar a nova gramática aos outros, mas se à volta deles ninguém fala essa linguagem (comunicação social, adeptos), é muito difícil apreenderem e/ou aceitarem e interiorizarem esta nova linguagem, e quanto mais tarde pior. E tenho bem a sensação que não percebia de futebol até há +/- 2 anos, quando o vejo há um quarto de século, pq já tenho 32. Pelo menos nestes blogs vamos conhecendo gente que partilha da mesma sensação que nós, e tem vontade de aprender, sim, porque há muitos que vêm aqui há bué e não interiorizam nada, ou não têm vontade ou não têm a capacidade para tal, ou porque há gente que tem maior dificuldade em usar a plasticidade cerebral para "reescrever" ou interiorizar determinadas concepções, que contradizem as que estão interiorizadas há décadas, o que associo a menor inteligência, infelizmente. O próprio acto de ver um jogo desta forma, mais global, sem estar atento apenas À zona da bola, requer muito treino (os jogos na tv não ajudam, porque focam muito o jogador que tem a bola ou a sua zona de acção).Parabéns a todos, não é nada fácil!

Interior-Direito disse...

Ainda há pouco li isto: http://bleacherreport.com/articles/2210202-football-writers-week-jonathan-wilson-on-how-tactical-analysis-went-mainstream?utm_source=twitter.com&utm_medium=share&utm_campaign=web-des-art-bot-20

Johnny McCaco disse...

https://www.youtube.com/watch?v=OnuMXsYuGOk

Este é o lance desde o início, e aqui fica clarinho como água, o Vezo não tem desculpa, fazem-lhe o passe e ele perde tempo a recuar, e depois sai charuto, poderia ter decidido bem melhor e bem antes.

Johnny McCaco disse...

Gostei, interior direito. Mas como diz o artigo: You’d think there’d be space for the many approaches to co-exist harmoniously (most people, I’d suggest, are a combination of all three), yet elements of the first two schools regularly attack the third. As somebody who writes tactics columns, I’ve been accused of ruining the game, taking the fun out it. I understand if people don’t like it; what I don’t understand is the hostility. If you don’t like it, don’t read it; football still happens

Pois, mas o problema é que quem vê o futebol como adepto, normalmente não fica por aí, acha que percebe daquilo como treinador. Quanto mais ignorante, menos vê as suas limitaçõs. The Dunning-Kruger effect :D

Anónimo disse...

Ora ai esta, Paco Alcacer mais uma vez. Veja-se hoje o primeiro golo contra o Cordoba. A temporização no ataque ao espaço, e depois o gesto tecnico. Muito se fala na inteligencia de jogo e tomada de decisao, e bem obviamente, como sendo o aspecto mais importante no jogo. Mas neste lance ele mostra como a tecnica tambem é fulcral, neste caso o gesto tecnico do cabeçeamento. Perfeito.

Anónimo disse...

Engraçado! não eram estes dois gajos, que no Benfica não sabiam decidir?

DC disse...

Não é por nada, mas o NES a continuar assim chega ao fim do ano com mais reputação internacional que o JJ. Se ficar nos 3 primeiros da liga ganha grande estatuto.