sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Guardiola II

Coisas giras e o último parágrafo na senda de textos recentes. "Pero no ocurre nada parecido". Culpa do treinador de certeza ou não me digam que os jogadores não são marionetas do seu treinador e que quem joga são mesmo os jogadores?!

E o texto inicial aqui.

"Desde sempre, mas talvez com maior relevância desde o fenómeno Mourinho que o público em geral tem a tentação de elevar os treinadores à condição de deuses. Não necessariamente no bom sentido, mas no sentido de que as vitórias e as derrotas passam apenas pela sua performance, ignorando que são homens / mulheres que jogam o jogo e não máquinas comandadas por estrategas.

É por isso que nas caixas de comentários continuam os argumentos de que X é bom porque venceu 3 campeonatos, ou Y é mau porque em 5 anos apenas venceu 2. Como se o jogo fosse treinadores contra treinadores, quando são jogadores contra jogadores.

O treinador deve ser avaliado pelo processo. Pela organização da sua equipa. Nunca pelo resultado, não ignorando que com organização garantidamente que obterá bons resultados para o contexto que exerce.

Na época transacta, por exemplo, viu-se Jorge Jesus ser considerado responsável pelos únicos pontos que perdeu em toda a segunda volta até se sagrar campeão nacional. Num jogo em que o seu avançado falha um penalty no último minuto. E se Cardozo tivesse acertado na rede. O treinador era bom? Ou o exemplo perfeito. Quando há dois anos Vitor Pereira foi incompetente durante uma época inteira depois de Jackson ter perdido 4 pontos em penaltys, para voltar a ser um bom treinador, depois de Artur Moraes ter tornado um belíssimo treinador num incompetente (que perdeu um jogo em trinta e contra uma das melhores equipas de toda a história em Portugal, que alinhava com Hélton, Danilo, Alex, Mangala, Otamendi, Lucho, Moutinho, Fernando, James, Jackson, Varela. Coisa / Milhões pouca / poucos). Para o público em geral só há um treinador bom por cada Liga. E só se percebe quem é o bom quando acaba o campeonato. Nada mais errado, obviamente. Estes erros de avaliação grosseiros revelam não só um total desconhecimento do que é o trabalho do treinador, como surgem maioritariamente associados a uma incapacidade gritante para perceber a qualidade dos jogadores. Normalmente os “seus” jogadores são todos craques e melhores que os do adversário. Logo, a incompetência será sempre do treinador. Por exemplo, Jesus foi tornado réu por não ter sido campeão num ano em que do seu plantel inteiro só um, dois, máximo dos máximos três jogadores do seu onze entrariam na equipa de quem se sagrou campeão. Claro que na altura bateram muito por aqui. Sobretudo quando se elegia James como estratosférico e o melhor da Liga. Hoje, apenas porque alguém pagou um valor estapafúrdio talvez já seja bom. Antes não era…

Ao treinador compete dar armas (organização) para que os seus atletas sejam mais do que individualidades no campo, mas que se saibam relacionar entre si, com princípios colectivos. Que ocupem o espaço e se movimentem com e sem bola, ofensivamente e defensivamente, de acordo com ideias comuns. Neste espaço valorizamos os que para além de conseguirem criar estes princípios, o façam em todos os momentos do jogo. Tratem todos os momentos com a devida importância, e que como tal tenham a equipa preparada para jogar o que o jogo der. Conseguindo isso, o melhor treinador do mundo pode perfeitamente perder com o pior. É que são humanos que jogam o jogo.

E é em função disso, que ainda na época passada, naquilo que será garantidamente um choque para quem não vê o jogo com olhos de ver, declarei aqui que Jorge Jesus é bastante superior a José Mourinho enquanto treinador de futebol. Porque as suas equipas estão muito mais preparadas para o jogo que as do mais titulado treinador português.

Se alguém se der ao trabalho de analisar jogos de um e outro perceberá facilmente que ofensivamente as equipas de Jesus têm movimentações que permitem mais linhas de passe ao portador, que oferecem mais, mais variadas e mais próximas soluções para prosseguir as jogadas (em apoio, em ruptura, à esquerda, à direita, em cobertura). Que defensivamente o jogo de controlo da profundidade que permite a equipa manter-se mais compacta, mais próxima e ainda assim não consentir bolas nas costas é bastante superior em Jesus do que o que é nos últimos vários anos de Mourinho. O controlo da largura. Não há um momento do jogo em que Mourinho se superiorize a Jorge Jesus. Mourinho que continua ano após ano a pescar jogadores saídos dos colectivos de Jesus, para que pouco depois pareçam apenas banais nas suas equipas.

E é porque a generalidade do público não percebe o que é o trabalho do treinador que o futuro de Marco Silva no Sporting pode tornar-se preocupante. Em poucos dias, viu-se organização. Ideias. Jogar colectivo. Enfim, competência. Todavia, a herança pontual e de classificação é demasiado grande para a qualidade individual da sua equipa. Se Leonardo Jardim entrou (e saiu) na hora perfeita, Marco Silva fá-lo num dos anos mais difíceis de agradar à massa adepta leonina. Não interessa se naquilo que o treinador controla Marco mostra credenciais. Se pela qualidade individual que têm os jogadores do Sporting não conseguirem a percentagem de pontos da época transacta (e tal não se afigura nada fácil), o mais fácil será pedir-se responsabilidades a um treinador que até apresenta mais argumentos que o seu antecessor. Não desprezando qualidades óbvias que Jardim tem.

Quem segue o blog há muitos anos recordará os textos com imagens a expor a falta de organização do Sporting de Sá Pinto. Tudo aleatório, jogadores sem se relacionarem entre si, enfim, tudo à deriva. Total desvalorização das individualidades porque não haviam ideias. Bastava ver aquela organização para se poder classificar de mau o trabalho do treinador. Independentemente do resultado dos jogos. Marco Silva por seu lado mostra qualidades precisamente porque naquilo que controla mostra organização. Se há décima jornada tiver zero pontos, a opinião será a mesma. Há organização. Naquilo que o treinador controla o treinador do Sporting é bom. Mas, não é o treinador que joga. Falta só perceber-se os detalhes (restabelecimento de equilíbrios, um pouco de maior encurtamento do espaço em largura, e jogo posicional de controlo da profundidade na última linha, defensivamente. E número de caminhos (movimentações) para a baliza adversária, ofensivamente) que são no fundo o que separa os bons dos óptimos.



P.S. - Mourinho gera amores e ódios. Não tome a opinião actual sobre o trabalho de Mourinho, como algo relacionado com a sua personalidade. Apenas o que mostra no campo. Para que perceba que não há amores / ódios, basta consultar as etiquetas com o seu nome para perceber a influência grandiosa que teve em tudo o que por aqui se escreveu / escreve desde sempre.  E era mais fácil elogiá-lo agora que priva quase diariamente com um dos autores que iniciou o blog comigo."

8 comentários:

Miguel Pinto disse...

""Pero no ocurre nada parecido". Culpa do treinador de certeza ou não me digam que os jogadores não são marionetas do seu treinador e que quem joga são mesmo os jogadores?!"

Bem, se com isto queres justificar a tua tese contrariando dessa forma a minha visão exposta no meu último comentário és livre para o fazer. Claro que esta situação ocorre muitas vezes durante os jogos, assim como aquela que expús. Qual delas sucedeu? Pelos vistos ninguém tem a certeza por isso vale o que vale.
Concordo que aquilo que dizes acontece muitas vezes mas eu, por experiência própria, como jogador, também já presenciei muitas vezes o contrário, daí a minha dúvida.

Abraços

Pedro disse...

Uma simples pergunta: Se os jogadores não fazem nada que o treinador pede/pensou para o jogo em causa, o que deve/pode o treinador fazer?

Ou não faz nada e senta-se no banco a jogar Candy Crush?

joana lopes disse...

O papel de um treinador vai muito mais além do que a organização da equipa. Quem não vê isto é porque não tem conhecimento algum do que é o futebol e da complexidade que existe quando lidas com tantas personalidades e egos diferentes. Comparar Jesus com Mourinho é apenas aceitável no que á organização da equipa diz respeito, em todos os outros parâmetros existe um mundo de diferenças.
Muitos parabéns pelo tipo de análises que se faz ás equipas aqui no blog, mas mais uma vez deixo um alerta… O que leva uma equipa ao êxito é muito mais que a organização colectiva da equipa daí Jesus ter os resultados banais que tem, com planteis de qualidade fantástica (exceptuando este ano).

Miguel Pinto disse...

O 3º golo do jogo de hoje do Bayern marcado pelo Robben é mais uma obra de arte. Desde o começo da jogada até à finalização é um regalo para quem gosta deste futebol.

Abraços

Paulo Dias disse...

Jesus ter os resultados banais que tem, nem sei se ria se chore...

Ricardo Barahona disse...

Tenho que discordar com vocês quando dizem que Mourinho é neste momento pior treinador que o Jesus. Apesar de gostar do Jesus e esperar que continue no Benfica, acho que um bom treinador não se resume a conseguir implementar uma boa tactica. Se fosse isso se calhar Jesus até poderia ser o melhor. Ainda hoje re-vi um especial do Jose Mourinho apos ter ganho a premier pela primeira vez e aí percebe-se que um dos grandes aspectos do Mourinho é o trabalho mental das suas equipas, altamente necessário para clubes com aspiração para serem grandes. Enquanto as equipas de Jesus tremem em finais, com jogadores nervosos a fazerem jogos abaixo da média, Mourinho formata os seus jogadores de forma a não vacilarem nesses momentos, transimite confiança à sua equipa. Guardiola também me parece excelente nisso, uma equipa desesperada por mal conseguir ter a bola, no desespero arrisca mais em jogadas com menos probabilidade de sucesso, fica mais nervosa, e acaba por fazer vários erros. Já agora vejam a entrevista do Mourinho, apesar de velhinha dá para ver como Mourinho pensa nas partes do jogo que "não se vêem."

https://www.youtube.com/watch?v=-tL5YwAoXAk

Blog de Portugal disse...

A organização da equipa é muito importante, mas o papel de um treinador àquele nível ultrapassa muito mais que isso, muita coisa não passa cá para fora e tem um impacto tremendo no rendimento da equipa.

É possível comparar a qualidade da organização de das equipas observando vários jogos de cada uma, e aí concordo que JJ possa ser superior, mas em outros assuntos é Mourinho, sem dúvida.

Deixo aqui algo que A. Villas-Boas falou numa conversa com alguns treinadores, afirmando que quando esteve na P. League foi quando sentiu mais dificuldades em ter um plano de jogo, pois era muito frequente observar aos 5min que o jogo não ia ter nada a ver com o que ele/equipa técnica pensavam. Típico da Premier League.

Nicolae Santos disse...

Gostava de ver um dia uma boa análise, não contaminada pelo patrioteirismo vigente, entre Guardiola e Mourinho. Qual deles o melhor, mais inovador e que melhor deixará no futebol ?
Abraço