domingo, 2 de novembro de 2014

Os supostos e os pressupostos

Nos últimos tempos surgiu por aí uma nova escola. A que vou chamar a escola dos supostos. E segundo essa mesma escola, a tomada de decisão não é o factor mais importante e diferenciador da qualidade no futebol de hoje. E argumenta dizendo que, também os factores físicos são supra importantes.

"Já alguém experimentou mandar alguma trivela foguete? Acham que o golo do Lamela é apenas técnica? Experimentem rematar de letra, num gesto técnico perfeito, e verão que a bola saí a uma velocidade ridícula se não suportada por aspetos físicos fora do normal."

Essa mesma escola, é a que coloca James, e Ibrahimovic no mesmo perfil de decisão de Diego Costa e Di Maria.

"o que afirmei e reafirmo é que desta lista nem todos são claramente conhecidos por tomarem a maioria das vezes a suposta melhor decisão. Falo por exemplo de James, Robben, Diego Costa, Di María e Ibrahimovic."

E que já tem alguns seguidores que colocam Messi na mesma categoria de Hulk e Ronaldo, e como se não fosse possível ser mais atrevido, na mesma intervenção compara-os à, admirem-se, Bebé.

"No resto tb me parece q o padrão de decisão de jogadores como Messi, Ronaldo ou Hulk seja assim tão diferente dos bebés do mundo... o que existe é uma clara gradação no sucesso (resultado!) das decisões..."

O problema da escola dos supostos é que é fundada por alguns atrevidos. E os atrevidos, normalmente, não têm capacidade para reconhecer pressupostos. Conheço um tipo que diz que saber ler não é saber o significado das palavras juntas numa frase. É saber interpretar o significado das palavras em conjunto. E com isso também, perceber os pressupostos dentro de cada uma delas.

Ora aqui seguem alguns pressupostos para os atrevidos:

- Os jogadores profissionais são todos fisicamente capazes.
- As qualidades e limitações de cada individuo influenciam na sua tomada de decisão (Morfologia, técnica, capacidades físicas).
- As qualidades e limitações dos colegas desse individuo, também influenciam na tomada de decisão.
- Jogadores mais evoluídos do ponto de vista técnico conseguem fazer mais coisas que jogadores mais limitados do mesmo ponto de vista. E o mesmo é válido para o ponto de vista físico, e surpresa das surpresas, assim como para ponto de vista cognitivo.
- O jogo, hoje, é capaz de eliminar as diferenças físicas (entre profissionais) pela mais valia técnica e inteligência. Isto por hoje se jogar com mais organização que ontem, e como tal ser possível nenhum jogador atacar e defender sozinho. Ex para miúdos: O jogador é rápido e explora muito bem o espaço nas costas, mete-se o lento do Luisão a controlar a largura e a profundidade. O jogador é muito rápido na condução e muito forte no um contra um, mete-se o fraquinho do A.Almeida a defender o que é mais importante (a bola, a baliza, a relação com os colegas mais próximos).
- Qualquer jogador profissional é capaz de executar uma... uma... uma trivela foguete. Mas só se, só se, tiver a técnica necessária para isso. E quem achar que a trivela do Lamela se deve a uma "capacidade física fora do normal", e o pressuposto do fora do normal é ser algo que outros no mesmo meio (profissionais) não consigam, anda a ver demasiados desenhos animados. Quem é que não se lembra disto?
- Isto não é um espaço para crianças, onde se pretende educar, ou ensinar termos e conceitos como se de uma escola se tratasse. É um espaço para adultos minimamente inteligentes.

Depois agradeces a publicidade.

Fui ao baú do Posse de Bola e encontrei isto

Há cerca de dois anos, conversava com um jogador sobre o jogo da semana anterior. Conversas para aqui, e para lá, ele diz-me: "Mister, eu driblei fácil aquele lateral. Eu fui para cima dele, simulei que ia para um lado, ele virou, depois foi só correr para o outro lado". Essa mesma conversa sugere o tipo de informação de suporte que o jogador utilizou para driblar, e mais do que isso, sugere como treinar e melhorar esse tipo de gesto técnico, bem como as qualidades físicas necessárias para o executar. Como se percebe, ao contrário do que Scolari pensa, contornar pinos em nada melhora o drible. Isto porque o pino não se mexe, como é óbvio. Logo, o exercício fica completamente fora da realidade que é o jogo, não melhorando absolutamente nada que ao jogo diga respeito.

Ainda há por aí alguém que continue a achar que treinar por forma a cultivar a tomada de decisão, que jogar por forma a cultivar o que se treina vai robotizar o jogo? Depois desta intervenção do Lucas, fica fácil perceber que mesmo no drible tudo é diferente, e que cada lance é um lance. E se o é no um contra um, imagine-se as milhares de possibilidades que existem num onze contra onze. Robôs são os Quaresmas e Sálvios que independente do contexto fazem sempre o mesmo movimento (ir para cima). O contexto é variável, e isso impõe que analisando o contexto (ou por outras palavras, procurar o melhor caminho, tomar a melhor decisão) se tome uma opção diferente da anterior.
Dá para entender a importância da tomada de decisão, ou se quiserem da análise do contexto?!

17 comentários:

Jose Castro disse...

O maior cego é aquele que não quer ver.
Tenho estado atento às publicações deste blog e tenho aprendido todos os dias um pouco mais sobre Futebol e até ao fim da minha vida irei estar sempre a aprender, pois quem acha que sabe tudo estagna.
Só tenho 17 anos, por isso, trabalhando para isso, espero melhorar na compreensão e na discussão e também na aplicação prática através da teoria do Futebol. Continuem assim. Todos nós agradecemos.

LGS disse...

LE em grande com estes dois últimos posts. Mais textos deste género são bem vindos.

Pedro disse...

Hulk na mesma frase que Ronaldo e Messi??
Medo!!!

Consigo perceber o que é pretendido com a questão da trivela foguete mas concordo com o que dizes. A este nível de profissionalismo não deve ser isso que faça a diferença. Há jogadores mais fortes que outros, que chutam mais forte que outros. Quando se discute a questão da força e capacidade física não acho que seja no sentido que se pretende com o uso da trivela foguete.

Rafael Antunes disse...

AMENdoim!!!!!!

João Santos disse...

Meus caros, a tomada de decisão é a base de tudo na vida, não apenas do futebol. É um fator obviamente determinante e sem uma boa tomada de decisão ninguém consegue sucesso em nenhum atividade. No entanto, parece-me que andam "obcecados" com o tema e passam mais tempo a falar do óbvio do que de outra coisa. Para além disso, penso que os vossos "ódios de estimação" (Quaresma, Adrien, Diego Costa, Herrera, Salvio, etc, etc, etc...) e a vossa constante perseguição aos mesmos tem contribuído de forma geral para uma queda de qualidade do blog ultimamente. De há uns meses para cá, a maioria dos posts têm-se resumido a "Jogador X, Y ou Z é muito mau" ou "a tomada de decisão é o mais importante no futebol".

Espero que não levem a mal este comentário, isto é apenas um desabafo de um leitor assíduo e que muito tem aprendido convosco.

Um abraço

Roberto Baggio disse...

João Santos, obrigado. Mas se quiseres, podes cuidar da linha editorial do blogue. É um convite sério.
Cumprimentos

Rumo Norte disse...

Baggio, pões-te a jeito!

Que raio de comentário! Não concordo com o João Santos na "perda de qualidade do blog" por causa dos "ódios de estimação", mas a chamada de atenção dele é a minha posição sem tirar nem pôr. Daí a responder dessa forma, parece-me um exagero.

João Santos, o Baggio levou a mal!

Em relação ao conteúdo do post. O LE tem razão ao dizer que um profissional de futebol tem níveis físicos "capazes". Mas "capaz" não é "igual".Nem nível físico é a única variável. O efeito cumulativo das variações (pequenas que sejam) num conjunto alargado de variáveis dá o largo espectro de diferenças entre os jogadores (mesmo os de topo).

Ao nível conceptual, e essa crítica já a fiz aqui em outras ocasiões, a redução da complexidade do jogo à tomada de decisão como principal diferenciador na qualidade do jogador (não digo única para tentar ser justo, embora por vezes a percepção que fica é essa) deixa de lado que há pelo menos mais cinco ou seis: primeiro, a técnica (controlo de bola e execução, timing e intensidade do contacto, gesto técnico correto, etc); depois, o físico nas suas variadas vertentes (velocidade, força, endurance, capacidade de choque, equilíbrio e flexibilidade, velocidade de reação, etc.); o tático (perceber o jogo nas suas variações e interpretações do modelo de jogo); o cognitivo (capacidade para aplicar o conjunto de caracterísitcas anteriores - técnicas, físicas e táticas - à situação em que o jogador se encontra em cada momento, de forma consciente e com propósito); e o intuitivo (brilhante o video com o Lucas, a dizer que não sabe como fez um drible, e que noutro caso fez em jogo e não conseguiu no treino). A "tomada de decisão" eu entendo como o cimento que liga isto tudo: o propositado e o intuitivo, o físico e o cognitivo, e até o psicológico. Claro que há cimentos mais fortes e mais fracos; e a tomada de decisão é trabalhada e trabalhável com o apoio do treinador, dos colegas, da "self-awareness" ou capacidade de auto-conhecimento do jogador.

Mas a tomada de decisão, por si só, isolada como por vezes parecem querer fazer passar, não explica tudo. O futebol é demasiado complexo para deixarmos a impressão que reduzimos o jogo a apenas uma variável.

Mário Horta disse...

Gosto deste blog, normalmente concordo com a maioria das coisas que aqui sao escritas. Mas queria deixar aqui alguns 'mas' relativamente a dois pressupostos:

'-Os jogadores profissionais sao todos fisicamente capazes'

- Sem dúvida, mas há uns mais capazes que outros neste aspecto dentro das suas várias componentes ( velocidade , força, agilidade, resistencia etc), componentes estas que em certos momentos do jogo, nomeadamente quando a equipa por algum motivo está desequilibrada, fazem toda a diferença. Ex: Robben contra Sérgio Ramos no mundial.

'- O jogo, hoje, é capaz de eliminar as diferenças físicas (entre profissionais) pela mais valia técnica e inteligência. Isto por hoje se jogar com mais organização que ontem, e como tal ser possível nenhum jogador atacar e defender sozinho. '

Mais uma vez, digo, quando a equipa tem desequilibrios tácticos do ponto de vista defensivo (porque inevitavelmente os vai ter mais tarde ou mais cedo) e aí as diferenças fisicas deixam de estar eliminadas. Outro Ex: Gareth Bale final da Copa do Rei

Usei o mesmo argumento para responder aos dois pressupostos, mas acho que exprimi bem a minha ideia.

Cumprimentos,
Nuno

Mário Horta disse...
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Mário Horta disse...
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Mário Horta disse...
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Gonçalo Teixeira disse...

http://www.miragens.abola.pt/media.aspx?id=20943 Tomada de decisão. Porque é no meio que está a baliza. 2 x 3. Muitas saudades Nolito, fico triste por nunca terem percebido o teu futebol.

Paolo Maldini disse...

Rumo Norte,

eu acho que não percebes a mensagem que se tenta passar. talvez pq a passamos mal, não sei. Ng desdenha o técnico nem o físico. a questão é q a um nível mt elevado, n é ai que estão as grandes diferenças de qualidade entre os jogadores. Por exemplo, no recente Real Barça é impressionante verificar q n se falham ali recepções nem q a bola venha de dezenas de metros e com picos e por cima. E a menos que estejamos a comparar um jogo entre o FCP e uma equipa da distrital, ai sim... faz mt sentido perceber as diferenças físicas e técnicas. Ao nível alto, tb as há, mas isso n é o factor mais diferenciador dos jogadores.

Tu vias o meio campo do Barça e todos os jogadores do mundo eram tecnicamente ou fisicamente capazes de fazer o que eles faziam. Passes curtos, mt curtos! recepções orientadas... mas, a verdade é que ali n era o gesto técnico que impressionava! Eles tecnicamente e fisicamente não faziam nada que qq profissional não conseguisse fazer em mtas das suas acções! O q diferenciava das outras equipas era precisamente a inteligencia das suas acções.

Portanto, se eu for jogador com um gajo paraplégico é óbvio que eu vou ganhar pelo físico. Mas, excepto nas taças essas diferenças entre jogadores não são assim tão acentuadas dentro das Ligas para que se possa crer que é isso que faz a grande diferença.

É óbvio que se o Nani não fosse aquele bicho físico e técnico não seria o jogador que é, mas só o é pq é extremamente inteligente! Se não era só mais um Bebé! Fisicamente e tecnicamente se calhar o Bebé é top dos tops! Porque não joga ele um caralho?!

Pedro disse...

Não sendo treinador e não percebendo um caralhu disto acho que começo a perceber as duas posições.

E acho que a explicação do Maldini 20:07 ajudou bastante a clarificar esta “obecessão” pela tomada de decisão. Julgo que o que esta linha editorial defende é: na elite do futebol a vantagem de teres jogadores que conseguem tomar as melhores decisões, de criar novas situações, no momento certo é muito superior aos restantes conjunto de atributos que fazem parte das capacidades e competências de um jogador de futebol. Já que a variação dos restantes atributos é diminuta.
Se calhar o facto de termos um Asafa Powel que seja jogador da bola trás nos menos vantagens do que termos um Einstein da bola. Partimos do pressuposto que o Einstein também é rápido só que o Asafa é um bocado mais. Neste nível as variações começam a ser cada vez menos significativas e o que começa a ser “novidade” ou o que desequilibra mais vezes é a forma como os jogadores conseguem ou tentam controlar/criar o jogo.

(alguns exemplos) saber para que pé se deve passar a bola, saber quando dar no pé ou quando passar para a frente ou ainda passar de forma permitir que o colega siga em melhores condições etc.

Onde já vi respostas, dos autores do blog (que sabem mais disto a dormir do que eu acordado e nem sequer ponho isso em causa mas também gosto de pensar por mim mesmo que não seja o correto) é quando minimizam/desvalorizam um CR7 por exemplo. Acho que a excelência de atributos, velocidade, jogo aéreo, domínio de bola, remate, etc… não devem ser completamente negligenciados. Para além disso também acho que a tomada de decisão do CR7, no caso dele mais virado para o golo, também não vale zero (sentido de oportunidade, antecipar-se aos adversários, ler o jogo para saber onde se deve colocar).

Vou dar um exemplo que pode ser parvo e facilmente contraposto.

Quando jogava matraquilhos havia um jogador que fazia sempre a vírgula. Eu sabia o que ele ia fazer mas simplesmente não tinha rapidez para colocar os bonecos no sítio onde a bola ia entrar. Fazer isso, antes dele iniciar o movimento, era abrir a baliza completamente, o que, lhe facilitaria ainda mais a vida ao adversário.

Bem sei que provavelmente me vão dizer que este tipo de situações no futebol atual são minimizadas com a tática e a forma de defender em equipa mas eventualmente há situações em que isso pode acontecer.

Quase que dá vontade de fazer uma média ponderada para resolver esta situação. Já agora acho que era um desafio engraçado para lançar à comunidade. Se quiserem posso ajudar.

Obrigado pelas leituras e perdoem-me as várias incorreções nos termos que certamente incorri.

abc