quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A falta de espaço de técnicos brasileiros na Europa

O Brasil sempre foi um grande exportador de jogadores para a Europa. Espalhados pelo mundo inteiro, os casos de sucessos foram tantos, que jogadores brasileiros se tornaram sinal de bom futebol. Para técnicos, porém, a mesma lógica nunca funcionou. Alguns treinadores brasileiros famosos já deram entrevistas reclamando da falta de espaço no Velho Continente, ou sinalizando um possível preconceito contra técnicos sul-americanos. Mas será mesmo que os problemas são esses?
Técnicos argentinos, por exemplo, não encontram tantas dificuldades para fazerem suas carreiras na Europa. Bons e recentes exemplos, estão em Diego Simeone e Marcelo Bielsa. O primeiro, comandando o Atlético de Madrid, escreveu seu nome na história do clube. Conquistou a Europa League 2011-12 e a La Liga 2013-14, desbancando os gigantes Barcelona e Real Madrid e deixando de lado todas asapostas que diziam que não conseguiriam. O segundo assumiu o Athletic Bilbao em 2011, e fez um trabalho muito positivo com uma equipe menor. Atualmente, comanda o Olympique de Marsella, e é líder isolado da Ligue 1 com o melhor ataque da competição.
Exemplos de técnicos sul-americanos na Europa não faltam. O chileno Manuel Pellegrini, que atualmente comanda o Manchester City, teve grandes passagens pelo Villarreal e Málaga, apesar de ter vivido um mau momento no Real Madrid. O argentino Pochettino é a cabeça pensante do Tottenham.
Outro problema comum alegado na falta de sucesso de técnicos brasileiros na Europa é quanto ao idioma. É possível ver uma relação dos melhores trabalhos de técnicos argentinos serem justamente na Espanha, afinal, compartilham o mesmo idioma. Mas Pochettino, por exemplo, trabalha na Inglaterra e quando estava no comando do Southampton, não dava uma única entrevista coletiva sem o auxílio de um interprete. O idioma não é uma barreira tão difícil assim de ser superada.
A questão, talvez, esteja muito mais na maneira como os técnicos brasileiros encaram suas funções do que um possível preconceito ou barreiras linguísticas. No Brasil, o futebol é um esporte completamente passional, e isso se estende aos técnicos de futebol. As relações que nutrem com seus atletas no vestiário são muito mais íntimas, e até mesmo fogem de um âmbito estritamente profissional. É diferente da maneira como seus compatriotas sul-americanos regem seus times.
Historicamente, o Brasil é reconhecido pela técnica e habilidade de seus jogadores. A aplicação tática sempre esteve em segundo plano. Na Argentina, conquistas históricas como a Copa do Mundo de 1986, estão muito ligadas a disposição e aplicação tática de seus jogadores. Essa diferença na natureza do futebol brasileiro exige que seus técnicos também sejam diferentes. E isso se torna uma muleta. Se torna uma desculpa.
O treinador brasileiro muitas vezes parece ter dificuldade em se adaptar a outras culturas. Foi claramente o caso de Vanderlei Luxemburgo, no Real Madrid, e Felipão, no Chelsea. Não aconteceu uma procura por parte deles em entender como a dinâmica dos clubes funcionava, seja no vestiário ou nos treinamentos. São poucos os treinadores brasileiros que se atualizam e estudam o futebol. Ficam presos em suas ideias de futebol passional e táticas ultrapassadas.
Mano Menezes, em 2009, no comando do Corinthians, trouxe algo de diferente ao futebol brasileiro: a equipe jogava de maneira mais compacta, com os setores mais próximos, se ajudando no ataque e voltando para defender. Na mídia brasileira, se berrou que o futebol do Corinthians era “o mais Europeu do Brasil”, e apostavam no time como favorito nas competições em que entrou. Tudo isso por um estilo de futebol que chegou ao Brasil com anos e anos de defasagem.
No Brasil, as equipes são comandadas por treinadores ultrapassados, que se recusam veementemente a se atualizarem. Qualquer um que traga algo minimamente novo, que estude nem que seja um pouco, domina as competições nacionais e sul-americanas, como foi o caso de Tite, com o Corinthians, e é o caso atualmente de Marcelo Oliveira, no Cruzeiro. É de se notar que Marcelo Oliveira e Mano Menezes são de uma safra nova de técnicos brasileiros. Tite, apesar de mais antigo, é um dos poucos técnicos que não se recusou a se atualizar e se reinventou dentro do futebol brasileiro.
Essa visão de futebol que se importa com a aplicação tática de seus jogadores, chegou ao Brasil apenas recentemente. Os futuros novos técnicos brasileiros serão os primeiros que entrarão no esporte “nascidos” dentro dessa percepção. É o caso de Sylvinho e Antônio Carlos Zago.
Sylvinho, caso quisesse, já poderia ser técnico em equipes de médio porte no Brasil. Mas o ex-jogador, que teve sua carreira quase que inteira na Europa, procurou ser auxiliar técnico no Brasil primeiro, entender a rotina e se preparar antes de assumir o comando de alguma equipe. Recentemente, anunciou que será auxiliar técnico de Roberto Mancini, na Internazionale. Já o ex-zagueiro Zago, como auxiliar técnico, acompanhou a Roma na temporada passada, e atualmente exerce a mesma função no Shakhtar Donetsk.
Se darão certo, é outra história. Mas são dois exemplos que enxergam o atraso brasileiro taticamente, e estão estudando futebol para um dia assumirem suas posições como treinadores.
por André Medeiros

23 comentários:

M disse...

Bom texto!
Penso eu, e corrijam-me se estiver errado, sempre fiquei com a sensação de que o brasil enquanto selecção so voltou a competitivo e fortemente candidato a voltar a sagrar-se campeão do mundo (como voltou a ser) depois de muitos de seus jogadores jogaram na europa, expostos a novas, diferentes e melhores metodologias de de treino e mais exigências competitivas.

Nuno Miguel Lima disse...

Interessante reflexão, mas há uma dimensão sobre a qual me parece importante refletir e que falta no texto: como é possível haver jogadores brasileiros de top que tiveram longas carreiras de sucesso na europa, mas que enquanto treinadores não vingam? Aliás, parece-me até que são poucos os que se procuram afirmar. Leonardo é um exemplo recente, mas num contexto muito específico de ter servido de bombeiro de ocasião no Milan.
Curiosamente, entre os hispânicos temos os exemplos recentes referidos no texto: Simeone e Pochetino.
Será um probema cultural ou uma falha na formação de base?
Cumps,

Fátima Ribeiro disse...

1. Não costumo ser leitora de páginas electrónicas sobre futebol, mas acho que me vou tornar cliente :-)
2. Exemplo desse palpite é o texto que acabo de ler. Isto é, nesta página aprende-se.
3. A pretexto deste texto:
curiosa (e historicamente) um treinador brasileiro parece ter sido crucial na história (e na construção competitiva e mítica) do Benfica (e não só): Otto Glória.

Bruno Pereira disse...

Nuno Miguel Lima: uma coisa são os estímulos a que estás sujeito enquanto jogador na Europa (muito diferentes do Brasil) e outra coisa
é a evolução tática que se deu na Europa. Isso 90% dos jogadores que jogam na Europa não percebem. E 95% dos treinadores também não :P

Gonçalo Matos disse...

não sei se foi por falta de informação ou de vontade, mas o autor do texto também não consegue ilustrar as deficiencias que os treinadores brasileiros têm... ou melhor, o que é que têm de aprender para ser do nível dos melhores da europa.

acho que o problema do Brasil é terem a "arrogancia" de que não precisam de ser fortes tacticamente por serem super fortes tecnicamente. quando ouvi gente da CBF depois de levarem uma sova da alemanha, dizerem que não tem de mudar tudo, fiquei convencido que a mentalidade não vai mudar de certeza. quando te mostram o exemplo mais obvio possivel do que deves fazer para melhorar e mesmo assim não consegues retirar nada desse exemplo, então está tudo dito.

curiosamente, no outro dia pensei para mim que há um jogador brasileiro que espero mesmo que venha a ser treinador. e provavelmente, se vier a ser, vai ser top daquele pais, especialmente se também tiver boas ideias sobre os processos ofensivos da sua equipa. esse jogador é o Luisão do Benfica, que me parece que neste momento é o jogador brasileiro mais à no que toca aos aspectos tácticos e estratégicos do jogo.

João Duarte disse...

É possivel jogar à "europeia" num clima como o brasileiro? ou seja, blocos juntos, pressão constante em vários níveis do terreno, transições rápidas...

Ou seja, com aquelas condições de temperatura e humidade não teremos sempre um futebol menos dinâmico e com menos alterações posicionais dos jogadores?

Pode-se jogar à "europeia" no Brasil sem que a equipa a meio não dê um estoiro?

Dennis Bergkamp disse...

João Duarte,

Percebo o que dizes, mas se treinares "a brasileira", não consegues jogar a "europeia", seja no Brasil ou na China.

Se o comportamento extra futebol dos jogadores também for chopinho e forró, dificilmente o consegues.

Não conheço como deve ser o quadro competitivo deles, mas se tiveres tempo suficiente de descanso, consegues fazer as coisas com o mesmo estilo, se calhar não com tanto tempo... mas seria algo como "5-0 ao intervalo e depois é só gerir"

Os jogos morriam aos 60, 70 minutos, mas desde que mantivesses a organização não havia grande stress

rredonda disse...

Não é difícil perceber este fenómeno de falta de treinadores (competentes) brasileiros. É verdade que existem imensos brasileiros, muitos deles grandes jogadores, que cresceram futebolisticamente na Europa. Mas é preciso ver que grande parte dos jogadores, especialmente os brasileiros, têm uma dificuldade muito grande em entender o jogo que jogam. Não estou a dizer que não conseguem jogar bem, porque muitos fazem-no até excepcionalmente, mas muitas vezes adoptam os comportamentos correctos porque o treinador lhes disse para se comportarem assim, ou porque instintivamente conhecem as melhores decisões. Contudo não compreendem porque se devem comportar assim, apenas sabem que é assim o correcto. É como aqueles alunos que decoram uma página inteira e a sabem debitar, mas se a pergunta for feita de forma menos directa nem conseguem responder.

Por outro lado é preciso entender a cultura. O futebol brasileiro cresceu e desenrola-se em redor do fascínio pelo futebol de rua. Tanto o jogador como o adepto brasileiro tiram gozo é do cabritinho por cima de 3 homens para se afastar da zona de decisão, do passe de letra mesmo sem nexo, da sequência de fintas que permite o bloco defensivo reorganizar-se. E o mesmo se passa em relação ao discurso. Quanto mais "puro" ou seja mais próximo das emoções muitas vezes irracionais, mais o adepto se deixa seduzir. É um pouco a adoração pelo "populismo do futebol".
Não admira por isso que tenham rejubilado com um Scolari mesmo que seja das maiores nulidades futebolísticas dos 5 continentes. Depois de levarem 7 queriam matá-lo, mas acham que a culpa é de ter convocado o Fred e não percebem que foi por não existir ideia de jogo.

Dizem que o Brasil é o pais do futebol, mas eu acho que é precisamente o ecossistema mais hostil para o desporto-rei.

rredonda disse...

É verdade acho que falta aí o nome do Dunga no leque dos treinador mais "europeus". Escrevi isto há um mês e vem agora a propósito:

http://rredonda.wordpress.com/2014/11/13/tacticomio-o-brasil-europeu-de-dunga/

Gonçalo Matos disse...

rredonda,

vi o teu artigo, não vi o jogo em questão, mas como defendeu o Brasil? porque para mim, mais do que a org e trans of, o que acho mesmo mais fraco no brasil são a org e trans defensivas. e é certo que não podes dissociar os 4 momentos, mas podes ter os aspectos defensivos muito mais fracos que os ofensivos.

NSC disse...

O Brasil é, actualmente, o país da bola quadrada. Eu tenho família lá e sei que os sete secos não serviram de nada. Continuam a achar que sabem tudo e lá o João de Deus era o maior.

MOS disse...

Ainda nem temrinei de ler o comentario do Gonçalo Mattos, mas digo que está corretissimo.

"acho que o problema do Brasil é terem a "arrogancia" de que não precisam de ser fortes tacticamente por serem super fortes tecnicamente. quando ouvi gente da CBF depois de levarem uma sova da alemanha, dizerem que não tem de mudar tudo, fiquei convencido que a mentalidade não vai mudar de certeza. quando te mostram o exemplo mais obvio possivel do que deves fazer para melhorar e mesmo assim não consegues retirar nada desse exemplo, então está tudo dito."

Exatamente. Essa arrogancia de o brasileiro se achar o melhor do mundo ("todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta") é que torna o Brasil ultrapassado nao so na formação de treinadores(como quase sempre foi, apesar de o Brasil segundo dizem, ter ajudado naqueles conceitos de recomposição com Zagallo na ponta esquerda, e laterais apoiadores com, salvo engano, Nilton Santos), como tambem agora na formação dos jogadores.

Formação deficiente dos jogadores talvez nao do ponto de vista tecnico(embora esse seja um problema, mas nao talvez o maior problema), mas principalmente tatico e de formação pessoal. É incrivel, por exemplo, a quantidade de jogadores brasileiros talentosos que jogam a sua carreira no lixo, ou por se acomodarem muito facilmente depois de atingirem um certo patamar financeiro/de reconhecimento profissional, ou por serem envoltos nessa megalomania de sair do Brasil para ser "o melhor jogador do mundo" mas sem querer lidar com o onus de manter uma carreira em alto nivel, que demanda um nivel de profissionalismo que muitos nao estao dispostos a arcar. Alguns podem dizer que essa qestão de desperdicio de talento é algo individual, mas essa repetição de padrao de alguns Brasileiros, é preocupante.
-

A educação é um problema nacional,a educação no futebol nao seria diferente. Tanto na formação dos jogadores quanto de treinadores.

MOS disse...

Ainda nem temrinei de ler o comentario do Gonçalo Mattos, mas digo que está corretissimo.

"acho que o problema do Brasil é terem a "arrogancia" de que não precisam de ser fortes tacticamente por serem super fortes tecnicamente. quando ouvi gente da CBF depois de levarem uma sova da alemanha, dizerem que não tem de mudar tudo, fiquei convencido que a mentalidade não vai mudar de certeza. quando te mostram o exemplo mais obvio possivel do que deves fazer para melhorar e mesmo assim não consegues retirar nada desse exemplo, então está tudo dito."

Exatamente. Essa arrogancia de o brasileiro se achar o melhor do mundo ("todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta") é que torna o Brasil ultrapassado nao so na formação de treinadores(como quase sempre foi, apesar de o Brasil segundo dizem, ter ajudado naqueles conceitos de recomposição com Zagallo na ponta esquerda, e laterais apoiadores com, salvo engano, Nilton Santos), como tambem agora na formação dos jogadores.

Formação deficiente dos jogadores talvez nao do ponto de vista tecnico(embora esse seja um problema, mas nao talvez o maior problema), mas principalmente tatico e de formação pessoal. É incrivel, por exemplo, a quantidade de jogadores brasileiros talentosos que jogam a sua carreira no lixo, ou por se acomodarem muito facilmente depois de atingirem um certo patamar financeiro/de reconhecimento profissional, ou por serem envoltos nessa megalomania de sair do Brasil para ser "o melhor jogador do mundo" mas sem querer lidar com o onus de manter uma carreira em alto nivel, que demanda um nivel de profissionalismo que muitos nao estao dispostos a arcar. Alguns podem dizer que essa qestão de desperdicio de talento é algo individual, mas essa repetição de padrao de alguns Brasileiros, é preocupante.
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A educação é um problema nacional,a educação no futebol nao seria diferente. Tanto na formação dos jogadores quanto de treinadores.

MOS disse...

Ainda sobre arrogancia...

É um "estado de espirito" que contamina tudo o que está voltado ao futebol do Brasil. De treinadores a jogadores e diretores (tanto das federações Estaduais quanto os da Confederação Brasileira de Futebol), passando por torcedores(acho que em Portugal o nome é adepto) e ate os grandes meios de comunicação.

E , acreditem ou não, a grande midia aqui é sim muito prejudicial para o futebol brasileiro. Pois se repete incessantemente o mantra de forma inconsciente de que somos "os melhores". Nao somos. Aqui uma unica rede de televisao detem os direitos do campeonado Brasileiro(que repassa para outra rede de televisao) e a "Copa do Brasil" na tv aberta.(para um pais com o tamanho do Brasil isso é grave).

Em troca de privilegios com a CBF, a Rede Globo adota um discurso ufanista e repetidor de cliches. Nao se desenvolve nem nos torcedores, nem em ninguem, o minimo de senso critico em relação a futebol nacional.

A prova disso é quando chega a Copa do Mundo. Ai de quem ousar criticar a seleção brasileira para a maioria das pessoas. Para a maioria, o Brasil SEMPRE está " com uma mão na taça"

Outro problema na questao dos tecnicos é que aqui ha pouca ou nenhuma exigencia na capacitação dos treinadores. Qualquer um que tenha sido " boleiro" e que goste de um bom churrasco para fazer um churrasquinho com os jogadores, tem capacidade de ser treinador no Brasil.

Aqui, quem procura fazer uma Faculdade de "Educação Fisica" e especializar-se é visto como "professorzinho" como "teorico"(em sentido pejorativo). Ainda impera, na maior parte dos torcedores(principalmente os mais antigos) e naqueles ligados ao futebol mais diretamente, de que so quem jogou bola profissionalmente tem capacidade para treinar, ou que alguem qe tenha sido profissional sem nenhum tipo de especialização é automaticamente melhor que aquele que, a despeito de nunca ter jogado, procurou estudar e se especializar.

MOS disse...

Exemplos da arrogancia Brasileira.
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http://esportes.estadao.com.br/noticias/geral,muricy-ramalho-desafia-pep-guardiola-a-trabalhar-no-brasil,808743
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http://www.lancenet.com.br/santos/Muricy-Guardiola-ganhara-trabalhar-Brasil_0_605939416.html

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http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2014/05/confiante-no-hexa-parreira-afirma-nao-queremos-perder-segunda.html

Benfiquista Tripeiro disse...

Podiam começar por diminuir o tamanho daqueles campos gigantes.

rredonda disse...

Gonçalo Matos, confesso que já não me lembro bem do jogo e que não vi muito mais do Brasil a partir daí. E o processo defensivo não foi praticamente posto à prova porque aquela Turquia era mesmo muito má. Pareceu-me haver a preocupação de encurtar os espaços entre o meio campo e a defesa o que já é bom, e a linha defensiva raramente se desposicionou tirando os desvarios do David Luiz, mas resolver isso só não o pondo em campo. Lembro-me de não ter gostado da falta de pressão na primeira fase de construção da Turquia precisamente por eles serem tão maus e de por isso o Brasil ter passado mais tempo em organização defensiva do que devia, mas assim que a Turquia passava do meio campo os espaços ficavam muito curtos, o Brasil fazia muita pressão e recuperava de imediato a bola. Mas o jogo mais pareceu um exercício ofensivo de treino por isso só vendo jogos mais a sério é que dá para perceber se defensivamente também está a existir trabalho eficiente.

MOS também concordo contigo e com o Gonçalo na questão da arrogância, tocaste também num ponto chave que é o efeito negativo dos media na cultura futebolística mas acho que é um problema global. A falta de profissionalismo dos jogadores acho que é um problema social mais do que de formação, tem a ver com a falta de estrutura de alguns valores nos meios socioeconómicos de que são provenientes a maioria dos jogadores.

DC disse...

VI recentemente dois jogos lá e aquilo é zerinho mesmo. Só duelos individuais, ninguém sabe o que é uma cobertura, aplaude-se o jogador que suja mais os calções e não o que está bem posicionado.
E agora alia-se a isso uma geração com muito menor talento que as anteriores. Segundo o que questionei por lá isso deve-se ao facto de todos os clubes do Brasil estarem a deixar de investir na formação para apostarem em terem craques já formados.
E depois os treinadores são sempre os mesmos, só vão rodando. Cada um deles, Joel Santana, Muricy, Mano, Scolari, Luxemburgo, já treinou uns 5, 6 clubes brasileiros pelo menos. É um jogo de cadeiras entre idiotas.

MOS disse...

Opa. Olha so. Mais um exemplo da pessima formação brasileira.

Vejam o que o jovem jogador, referencia tecnica da seleção brasileira atual, tem a dizer sobre o seu entendimento do que é o jogo. Ao menos ele reconhece a falha na formação de atletas e que tem problemas com isso...

http://esportes.terra.com.br/craquesneymar/neymar-critica-formacao-no-brasil-e-diz-nao-entender-tatica,c8cbdffb2a657410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

Se o melhor jogador e referencia do time afirma uma coisa dessas é porque o Brasil ta no buraco mesmo...

MOS disse...


rredonda
"MOS também concordo contigo e com o Gonçalo na questão da arrogância, tocaste também num ponto chave que é o efeito negativo dos media na cultura futebolística mas acho que é um problema global."

rredonda,

Eu nao duvido de voce, quando afirma que o problema é global. Nao conheço muito bem a relação dos meios de comunicação dos outros paises com o futebol nacional , a nao ser pelas visitas frequentes que faço aos sitios esportivos de Portugal, Espanha e Inglaterra. Em relação a Espanha, nos sites que visito, especialmente os de Madrid, vejo uma relação ufanista com o futebol e seleção Espanhola. Na Inglaterra, pelo menos a BBC me parece mais comedida, embora queiram empurrar vez por outra que a seleção da Inglaterra tem o mesmo status de Brasil, Alemanha e Italia, mas nao tem.

Sobre os meios portugueses, a impressao que passa, quando leio , é um certo derrotismo, uma mentalidade derrotista. Mas repito: nao sei pq nao conheço a fundo. Ja vi por aqui alguns falarem que um tal de "Freitas Lobo" dai de Portugal fala muita merda.

No entanto, desconheço se nesses paises existe uma relação de promiscuidade de alguma rede de comunicação como existe no Brasil. Aqui como eu disse , é uma relação promiscua que gera um ciclo vicioso dificil de ser rompido.

A Rede Globo, em troca de direitos televisivos dos principais campeonatos do País, e de direitos quase exclusivos de transmitir jogos da seleção brasileira, bajula a CBF, omitindo os erros no futebol do Brasil, e criticando de forma amena o que merece uma reprimenda muito maior. Dessa maneira, a ideia que a CBF quer vender (como Gonçalo Matos afirmou, que leu de declarações dos homens fortes da CBF de que o futebol brasileiro esta uma maravilha) encontra um porta-voz perfeito: a maior redede tv/radio/jornal do país.(depois do 7x1 a rede globo vem tentando , de forma muito superficial apontar os problemas e sugerindo "caminhos" para a questao do futebol brasileiro, mas isso com um delay de anos e de forma generica)

Em troca disso, a Rede Globo praticamente manda no futebol nacional no que diz respeito ao calendario e horario de jogos. Recentemente, criou um novo problema com uma divisao ruim das cotas de tv. E assim o ciclo se mantem: cbf, cede os direitos para a globo, que omite os erros e... fortalece a propria estrutura viciada.

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". A falta de profissionalismo dos jogadores acho que é um problema social mais do que de formação, tem a ver com a falta de estrutura de alguns valores nos meios socioeconómicos de que são provenientes a maioria dos jogadores."

Concordo integralmente. Acredito que uma mudança socioeconomica com enfase no ponto educacional, poderia melhorar determinadas coisas. No entanto, apesar de nao conhecer com meus proprios olhos as condições das categorias de base para os jovens, os relatos de condições precarias que nao proporcionam o minimo para esses jogadores. Talvez essa nao seja a situação nos maiores clubes. Mas na maioria sim.

Sem contar que , na maioria dos grandes clubes, a politica nas categorias de base é "ganhar titulo" ainda que isso implique nao "ensinar" aos jogadores. O importante é ganhar titulo nao importando o estilo de jogo com que se consiga.

Gil Von Doellinger disse...

http://www.ojogo.pt/Internacional/interior.aspx?content_id=4306408

Bartolomeu disse...

Sou brasileiro e afirmo: todos os que falaram da arrogância brasileira, de achar que aqui sabemos de tudo e não precisamos melhorar em nada, mesmo após a prova inequívoca dos 7x1, é EXATAMENTE o que acontece. É o pensamento deletério que reina por aqui, lamentavelmente. Mas há uma pequena luz no fim do túnel. Alguns poucos não compartilham desta empáfia e estão sendo as locomotivas, ainda que vagarosas, de uma evolução tática no país. Cito principalmente Tite, mencionado no texto. Seu êxito foi tão relevante por aqui que vemos alguns treinadores mais novos tentando assimilar e aplicar um futebol verdadeiramente tático às suas equipes. Ainda é incipiente, mas para quem ouviu as declarações aviltantes dos dirigentes da CBF após o 7x1 dizendo que isto foi apenas uma fatalidade e que nada precisaria ser modificado, é um alento.

Sou torcedor do Flamengo e aqui tivemos a grata surpresa de ver Vanderlei Luxemburgo também se reinventando. Estávamos brigando contra o descenso. Quando ele foi contratado, achei que tínhamos assinado nossa sentença de morte. Mas para surpresa de todos, o time passou a jogar um futebol bem mais organizado, com compactação e organização setorial, especialmente na marcação, e isso nos levou ao 10º lugar e às semi-finais da Copa do Brasil sem grandes dificuldades. Um técnico da velha guarda que, conquanto mantenha o discurso de que nada mudou na sua forma de trabalhar, na prática parece ter se conscientizado de que não poderia continuar praticando o futebol dos anos 90.

Tomara que continue assim no ano que vem. Como flamenguista, sei bem que os bons treinadores por aqui são raríssimos.

Parabéns pelo excelente texto.

Alexandre Palmeira disse...

Nasci no Brasil e acompanho o futebol brasileiro há muitos anos e por isso posso dizer sem qualquer "arrogância" que o problema do futebol brasileiro foi ter tido muitos cracks juntos... Romário tinha acabado de dar uma copa e já tinhamos Ronaldo pronto pra se tornar o melhor jogador da década seguinte. O Brasil sempre se fiou na individualidade e nunca no trabalho coletivo, tático... só que agora já não produzimos Rivaldos, Ronaldos, Ronaldinhos e etc e começam a aparecer os problemas mas para resolver esses problemas muitas vacas sagradas iam ter que cair e isso lá não é permitido.