quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Formação em Portugal


Na manhã de sábado, falava eu ao telefone com o Maldini sobre um dos grandes problemas da formação do momento. Problema esse que se verifica cada vez mais devido à crescente procura dos "clubes grandes" por parte dos pais. A esses clubes os pais reconhecem vitórias, sobretudo. Ora veja, existem neste momento dois grandes polos no futebol praticado por crianças: 

- O das equipas grandes. Cada uma com 4, 5 equipas por escalão a multiplicar pelas escolas de formação com outros nomes mas com a patente do clube mãe. Nessa realidade, os pais optam pelo nome do clube por saberem que lhes garante vitórias, com o sonho de um dia os filhos chegarem aos escalões principais desses clubes (Juvenis, Juniores), e por fim assinarem pela equipa profissional. Por isso, os clubes grandes secam todos os clubes à sua volta, garantindo por escalão a volta de 60 jogadores de grande qualidade (para o escalão em questão, nesta fase específica da sua formação), mais outros tantos por cada escola patenteada com o nome de um grande.

- O das outras equipas. Sem jogadores de qualidade que sobrem, ficam literalmente com os que ninguém quer. Têm de fazer verdadeiros milagres para formar equipas, e pegar até em quem não tem tanto gosto pelo jogo para conseguir preencher todos os escalões. No máximo conseguem juntar dois jogadores de qualidade (para o escalão em questão, no momento em questão). Mesmo os que estão no espaço geográfico do clube (residência, escola) preferem ir para os grandes.

Disso resulta o desnível verificado nas provas oficiais das respectivas associações de futebol do país. Basta olhar-se para a classificação de cada campeonato, e perceber-se que os grandes têm uma média "impossível" de golos marcados, resultante das diferenças que existem entre os jogadores dessas escolas, e o dos jogadores que os outros não conseguem ter. As diferenças de resultado nos jogos são de dez golos para cima.

Agora coloque-se você na posição dos pais. Ganhar todos os jogos por goleada, ou perder a grande maioria por goleada? A escolha parece-me lógica. O Maldini relata-me que ele (que tem um menino a jogar num clube grande) não acha graça nenhuma aos jogos que vai ver. Nem os pais. Que ele até tem preguiça de levar o miúdo todos os dias de manhã aos jogos, por já saber o resultado. Os pais dos miúdos da equipa dele já nem festejam os golos... Mas a minha preocupação não é com o Maldini, nem é com os pais. É o desenvolvimento das crianças que me importa. O que aprendem as crianças quando ganham um jogo por 10-0? Que competências é que eles desenvolvem num jogo tão desnivelado quanto esse? Semana sim, semana sim, o mesmo resultado... E os que perdem pelos mesmos números todas as semanas?

Agora coloco-me eu no papel do treinador de uma das equipas grandes, nos escaloes principais da formação. E aí, de 25 jogadores vou buscar 15 a outros clubes, que não estiveram a competir com os melhores. Que não ganhavam sempre por dez a zero. Alguns deles até perdiam sempre nas primeiras fases de formação. O que correu mal com as centenas de jogadores que até então eram os melhores (pelo menos em potencial) para o futuro?! Falta de competitividade. Esforçar-se para conseguir o resultado faz parte do progresso individual do jogador. Chegar ao limite e ultrapassa-lo, chegar a um novo limite e lutar por o ultrapassar novamente. Não é tudo, e não terá sido o único problema. Mas é certamente um dos mais graves.

As associações de futebol podiam tomar algumas medidas no sentido de zelar pelos interesses dos jovens jogadores. Dos futuros craques que ali começam. Mas para o fazer, devem perceber que para os jovens evoluírem tem de haver competição. Eles devem ir para o jogo competir. Devem ter dificuldade para conseguir o resultado, porque sem dificuldade não há evolução. Poder-se-ia avaliar um conjunto de normas (como campeonatos de elite, ou redução do número de equipas/jogadores inscritas/os por cada clube), que vão contra os interesses financeiros dos clubes e das associações. Mas há regras que podem ajudar a mudar o jogo sem tocar em tais interesses, se quem pensa e trata do futebol  de formação estiver aberto à mudança. Na Noruega existe uma regra no futebol das primeiras etapas de formação, que dita que quando a diferença no marcador é superior a 3 golos (3-0, 4-1, 5-2, etc...) a equipa que ganha passa a jogar com menos um jogador em campo, até se verificar (ou não) novo nivelamento do resultado (diferença de apenas dois golos). Com uma regra simples garantem algumas coisas:

- Maior competitividade nos jogos;
- E não havendo, garantem mais condições para uma equipa inferior chegar ao golo e também para não sofrer;
- Garantem um estímulo competitivo mais adequado aos jogadores menos evoluídos;
- Garantem um estímulo competitivo mais adequado aos jogadores mais evoluídos;
- Garantem a descentralização dos miúdos, porque mesmo no clube da zona conseguem "competir" contra os grandes (e os pais olham muito para isso);
- E com a descentralização garantem um contexto mais rico e de maior competitividade para todos os jogadores, e com isso uma maior evolução dos mesmos (que é afinal o objectivo de todos);

Simplesmente genial, não acham?

 No futebol de sete onde existe maior probabilidade de se chegar a resultado avultados, pelas dimensões do terreno, seria interessante uma regra deste género, ou não?

PS: Não confunda o catalogar de jogadores (grande qualidade/os que ninguém quer) com um preconceito para os miúdos. Com o dizer de: este chega para isto, aquele nunca vai chegar. Existem, de facto, diferenças técnicas e físicas marcantes que fazem desequilibrar os jogos nestes escalões, sobretudo quando uma equipa tem 15 jogadores de grande nível técnico e físico para a idade. Por aqui, entende-se que essas diferenças se reduzem com o tempo. Por aqui sabe-se que em muitos, muitos, muitos casos os jogadores que estão na frente naquele momento são ultrapassados por alguns que não davam um pontapé na bola até então. Mas causa-nos transtorno e depressão ver tanto talento em fases precoces ir pelo cano, por nada...

50 comentários:

João disse...

O tema já não é novo, mas grande post.

Não estando por dentro, não compreendo os grandes terem mais de um clube por escalão. Fará mais sentido terem clubes/escolas filiados, desde que hajam regras, etc...

A um outro nível, a Youth League/Champions é já algo interessante para aumentar a competitividade dos juniores, mas não é possível fazer um prova ibérica? Os custos associados não compensam a maior competitividade?

Rafael Antunes disse...

É bom que se tente garantir competitividade, vontade de aprender mais e ser cada vez melhor. Sem competitividade muito trabalho fica por fazer...

Antes de mexer no jogo devem tentar-se caminhos mais administrativos... Mas também é facto que nível das associações, tudo parece parado e a assobiar pro lado.

Essa regra vejo-a com bons olhos... Tão bons olhos que até a vejo como parte de um fair-play financeiro tão apregoado e tão pouco concretizado!!!

Não acham injusto que uma equipa de tostões ganhe só 3 pontos quando ganha a uma equipa de milhões?!

Mas este meu devaneio, a nível de formação (e a qualquer nível) é impraticável...

nuno leão disse...

Interessante? Para quem? Para os jogadores dos clubes grandes que tinham um novo estimulo? E para isso havia um que tinha que sair de jogo (ou seja menos tempo para um miúdo)...
Perguntem antes à FPF as alterações que tem feiro nos últimos tempos, em proveito de quem são... E se calhar entendemos estas acumulações maciças de miúdos sob os mesmos emblemas.

Dinis Domingos disse...

Parece-me que o problema principal é o capitalismo... Para mim, a única solução é como a NBA, NFL e etc. Drafts dos jogadores das escolas e mais nada! E se um clube grande quer muito um jogador tem que trocar posições. Acho que é o sistema mais justo

João disse...

Reparem quantos jogadores têm inscritos o Benfica e Sporting nos seguintes escalões:
Benfica 66 infantis
Sporting 67 iniciados
Benfica 61 iniciados
Sporting 66 iniciados

E isto sem contar com os jogadores que têm controlados nas suas escolas por Lisboa fora.

É mais interessante para um miúdo jogar numa equipa C de iniciados a distribuir goleadas ou poder jogar uma ou duas divisões mais acima, tendo que lutar pelo resultado todos os domingos?

Infelizmente quem dirige o futebol não quer, nem interessa remodelar o que quer que seja, e ainda haver a hipocrisia de falar de falta de competitividade quando é fomentada pelos próprios.

Dipeca disse...

Realidade dura. E fora dos grande pólos são as tais escolas com nome de clube grande que ficam com os melhores, depois como a demografia tb não ajuda, há que fazer uma equipa com 17, 18 crianças em que só 4,5 querem mesmo aprender. É incrível a imaginação que há que ter para se compor uma equipa.
Mas o problema tb vai dos treinadores e dirigentes dos clubes, grandes e pequenos. A sede de vitória, a procura do resultado é sempre mais forte que a vontade de ensinar. Vejo coisas como um treinador a mandar jogar sempre para X pq ele finta tudo ou chutar de longe pq o GR é pequeno etc..
É mto difícil mudar essa mentalidade do "Quanto ficaste domingo?" para um "Como jogaste domingo?". Não sei se há regra que possa mudar a mentalidade.
Eu nem as subidas e descidas de divisão acho mto justas, 1ª pq se premeia não os vencedores, mas sim os do escalão seguinte, ou seja, quem vence o campeonato este ano, sobe de escalão e outro irá competir no patamar mais exigente. Depois vejo miúdos de 13 anos a serem quase violentos contra colegas de outras equipas pq têm de subir! Competir sim, agressividade sim, violência não..
Havia, de ser obrigatório realizar ações de formação para todos os treinadores e delegados das associações, mas com gente competente, não com os atuais formadores...

Pedro Brito disse...

Bom dia,

Este é um tema importante sem dúvida e que tem sido visto com outros olhos de há uns tempos a esta parte. Começou com a criação das equipas b, que foi um grande passo e começamos já a ver resultados. Mas é óbvio que não pode ficar por aqui, e para isso temos de saber olhar para aquilo que os melhores fazem. Acredito que muitos dos leitores deste blog já tenham ouvido falar nas academias da Alemanha, em que todos os clubes da 1ª e 2ª divisão são obrigados a ter academias de formação para poderem inscrever o clube na competição. No meu ponto de vista esta seria a solução, pois nenhum clube em Porugal é capaz de lutar com os três grandes, no que toca a condições de trabalho. Nivelar as condições de trabalho entre as equipas da 1ª Liga já seria um grande passo para que se verificassem melhorias significativas. Para isso seria necessário um grande investimento por parte dos clubes é verdade, mas que a médio, longo prazo (5-10 anos) traria rentabilização. Outro problema é a organização das competições, que não permite a competitividade. Este é um problema que também seria resolvido a curto médio prazo com a solução anterior. Também a contratação de profissionais a tempo inteiro seria necessária, o que implica um salário muito superior ao que se verifica na grande maioria das equipas, que ronda os 200 ou 300 euros.
A formação em Portugal começa a ser vista com outros olhos, e ainda bem. Temo-nos contentado em ter o melhor, mas o que nos devia interessar era formar os melhores e não apenas o melhor, sendo os outros medianos.

Pedro Ferreira disse...

Baggio/Maldini,

vocês treinam em que escalão ?

Tenho um amigo que à umas epocas era treinador de uma equipa de juniores num escalão secundário, fizeram uma boa época, conseguiram subir de divisão, bons jogos boa qualidade em vários aspectos... Final de época um desses papões do fut juvenil, chega lá e leva 6 ou 7 jogadores do 11 base.. em janeiro só 1 jogava, uns tavam no banco sem calçar e outros já estavam quase dispensados..


Parte do problema está aqui.. aliciam-se os miudos ( Pais) com propostas tentadoras mas dps não se lhes dá o devido acompanhamento de modo a que a evolução seja gradual..

Um miúdo africano com mais 20cm e mais 10kg que todos os outros, marca 50 golos em 15 jogos, vai para uma equipa superior porque se olhou para os registos e ficou tudo impressionado, chega lá e afinal não é tão bom como os registos indicam..É dispensado e depois volta para uma equipa mais modesta.. mas com que disponibilidade? com que vontade? quantos não ficaram pelo caminho?


abraço

Pedro disse...

Parece ser um problema bicudo de resolver.
O exemplo da Noruega não me parece bom. Desvirtuar as regras do jogo faz-me sempre confusão. Mas não conheço o futebol de formação e como tal não quero opinar sobre os efeitos de tal medida pq não conheço.

A questão do poder dos grandes: E se fosse limitado o número de jogadores inscritos por cada escalão?

dezazucr disse...

É um problema de que falo com os meus amigos já há algum tempo.

Para além do foco exagerado em ganhar em idades precoces (basta lembrar que o grito de guerra mais habitual das equipas que encontro é "quem é que nós somos? equipaX!equipaX!equipaX!; o que nós queremos? ganhar, Ganhar, GANHAR!!") tentam colocar as crianças a jogar como adultos. Vês a equipa do Sporting ou Benfica a jogar e o foco é sempre ganhar pelo máximo possível e jogar de uma forma exageradamente táctica em que não dão qualquer hipótese às outras equipas - não se desconcentram nem um pouco, isto falando de equipas com crianças com 8, 9 e 10 anos, não há espaço para brincadeira, é tudo demasiado adulto. Depois, é óbvio, com os tecnica e fisicamente mais dotados os resultados avolumam-se.

Mas depois boa parte desses miúdos chegam aos 15/16 anos com perfis de jogadores defensivos, certinhos, tacticamente feitos, parecem máquinas de tão formatadas.

O meu miúdo joga numa equipa das redondezas de Lisboa. Uma boa equipa. Fui sondado pelo Sporting o ano passado e pensei sinceramente em deixá-lo ir. Mais pelo que vejo da diferença de intensidade que tanto os miúdos do sporting e do benfica têm, mas sinceramente, será que essa intensidade e concentração no jogo nessa idade é benéfica para a evolução?
Ou jogando aos 10 anos como adultos não jogarão como reformados aos 20 anos?

Não é uma decisão fácil pois a ideia que tenho é que os métodos de treino são bem melhores nesses clubes, pelo menos acredito que têm mais atenção (mais treinadores).

No clube dele lá vão ganhando (este ano contam só vitórias em 6 jogos) mas são vitórias difíceis, 3-2, 2-4... E isso obriga a estar a lutar o jogo todo o que em termos mentais ajuda a moldar o mindset, cria resiliência.

A decisão para os pais é sempre difícil, principalmente porque também os filhos quando se apercebem que são melhores que os colegas começam também a perguntar se não poderíam ou conseguiríam jogar num dos grandes :(

dezazucr disse...

O Belenenses, por exemplo, resolveu este ano apostar forte e entre equipas diretas e escolas, tem, só no escalão de Benjamins A 9!! equipas.

Roberto Baggio disse...

Pedro, "O exemplo da Noruega não me parece bom. Desvirtuar as regras do jogo faz-me sempre confusão."

É exactamente aí que reside a subtileza da questão. Isso não é nada que os treinadores não façam no treino - desvirtuar as regras do jogo - por forma a fazer evoluir os miúdos num determinado contexto. Nenhum treinador que está no treino, mete duas equipas a jogar, vê uma a ganhar de forma contundente e fica parado a olhar. Muda logo as regras, os jogadores, etc, por forma a equilibrar. Mete quem ganha em dificuldades, etc. As mais variadas formas. Isto porque, para a evolução de todos é preciso que exista dificuldade. E o pensamento nestas idades é esse. Evoluir, evoluir, evoluir. e os JOGOS não são nada mais do que treinos, contra COLEGAS que não estamos habituados a defrontar, que não conhecemos. E o problema é que parece que o jogo (nestas idades) conta realmente para alguma coisa que não para a evolução deles. O jogo é um treino. Um treino diferente, mas deve ser encarado como tal, até começar a ser a sério. Aprendizagem sempre em primeiro lugar. Dificuldade acrescida para os mais evoluídos, dificuldade na medida para os menos evoluídos. É assim que funciona no treino. É assim que deve funcionar no treino em competição. E aqui estou a focar só no futebol 7, por acreditar que no futebol de 11 resultados de 10-0 são mais difíceis de conseguir.

O maior problema é perceber-se que a competição é só mais um treino (falo destes escalões obviamente).

"E se fosse limitado o número de jogadores inscritos por cada escalão?"

eu falei disso no texto. isso vai contra as finanças dos clubes e das associações. não há nada a fazer quanto a isso.

dezazucr, pois...

GV disse...

Excelente post Baggio!

Deve ser de facto complicado estar a trabalhar para que os miúdos aprendam e evoluam e ter os pais ansiosos por vitórias... E depois ter os grandes (eucaliptos) a dominar...

Parece-me que é uma questão de gestão do futebol de formação em geral e dos clubes em particular. Isto é:

Por um lado, concordo que as entidades que dirigem o futebol devem criar regras que promovam a competitividade em prol da formação, procurar criar condições que aumentem a qualidade. Esse exemplo da Noruega parece-me bom.

Por outro lado, será que os clubes não podem assumir uma postura e tentar não se desviar dela? Contratar treinadores que queiram efetivamente formar, não pressionar os mesmos pelos resultados na classificação mas sim pelo reconhecimento do mercado de que, por essa via, se trata de um bom clube formador e colher os frutos por aí.

Mesmo nos seniores e concretamente na primeira e segunda liga e taças, acho que se deveria fazer algo que acaba por estar ligado.
Obrigar os clubes a ter mais jogadores portugueses (mesmo com a livre circulação de pessoas e bens, é possível fazer mais), de forma gradual sem dar cabo da atual sustentação financeira de uma só penada.
Nas taças por exemplo, os grandes (haveria que definir bem o que é um grande) nunca jogarem em casa. Etc...

Cumps,

Pedro disse...

Baggio,

A questão passa então por definir, nestas idades, que o jogo a sério mais não é do que um treino com jogadores desconhecidos e não uma competição.

Se os intervenientes aceitam isso já não sei.

R.B. NorTør disse...

O exemplo norueguês que o Baggio trouxe também fala de uma outra situação e essa é o envolvimento dos pais. Enquanto que para os noruegueses é natural que o filho tenha de evoluir e não necessariamente ganhar, para o pai típico português vou assumir que tal não se passa.

Não sei se os pais do futebol têm uma mentalidade diferente dos de alguns desportos individuais, aqueles onde posso falar, mas o que costumava ver era pais que tinham um comportamento mais próprio de "malta dos petardos" do que "encarregados de educação". Como somos todos humanos e já não é a primeira vez que o comportamento e os comentários dos da bancada são mencionados...

A questão que se coloca no entanto relativamente à "regra norueguesa" volta a ser do comportamento humano. Vamos assumir que se torna regra também em Portugal, será expectável acreditar que não passarão a haver ordens para trocar a bola aos três, ou para o redes lá deixar entrar um a cada dois? E depois a questão do "mas porque é que é o meu filho que sai"?

Miguel Pinto disse...

"O futuro do futebol em Portugal passa pela formação"
Esta frase apregoada aos sete ventos por toda a gente que o adora, desde a tutela do desporto até ao funcionário da lavandaria do clube, tarda em ser colocada em prática da melhor maneira.
O post é deveras elucidativo da realidade existente no nosso país. Vamos assistindo impávidos e serenos a uma progressiva mediatização de miúdos de 6, 7, 8, 9 ,10 anos que, por conseguirem executar um qualquer nº de circo mais ousado são imediatamente rotulados de futuros craques e então toca a mudarem-se de armas e bagagens para a capital ou para o Porto porque 'o futuro começa hoje' e 'isto pode ser uma oportunidade única' aliado a um contundente 'não posso tirar este sonho ao miúdo'. Mudam-se hábitos saudáveis das crianças, deixam de conviver com os amigos, os pais são forçados a alterar as suas vidas e a troco de quê? Do incerto, da expetativa que poderá saír gorada ao fim de 2 ou 3 ou 4 anos quando lhes é comunicado que afinal o miúdo cresceu pouco em altura mas até tem talento ou porque apareceu um outro com melhor nota artística entretanto descoberto pelo olheiro. E as repercussões que poderá causar no crescimento da própria personalidade do miúdo? 'então se sou bom porque é que vim embora?'. Como será o comportamento dele quando é 'obrigado' a voltar ao seu antigo clube ou, porque sente vergonha, escolhe o do vizinho? O mesmo se passa naqueles que andam até aos 18 anos e depois são dispensados e o mundo deles rui por completo se não tiverem alguém que os ampare emocional e psicológicamente.
Do ponto de vista da competição parece que algo vai ser feito no sentido de se acabar com os campeonatos de futebol de 7, passando a haver apenas torneios, ou seja, mesmo que as equipas grandes continuem a sê-lo passará a haver mais espaço para que outras equipas também possam ganhar torneios porque os tubarões não poderão estar em todos, acho que a ideia será um pouco essa. Na dinamarca funciona um pouco dessa forma, no futebol de 7, e até os pais podem fazer parte da equipa técnica ajudando nos treinos o treinador principal, imaginem isto em portugal!!!
Depois temos também os treinadores que querem ser campeões a todo o custo (faz bem ao curriculum) e confundem as diversas etapas do processo de formação que os miúdos têm de passar e confundem-se a eles próprios porque como ganham, muitas vezes por terem os melhores, ficam cegos (se é que já o são por natureza) e surdos porque mais tarde, em contextos menos favoráveis, irão ser confrontados com miúdos menos dotados e aí a culpa vai ser do diretor, do pai, do roupeiro, do coordenador, do árbitro e finalmente do miúdo que não o entende.

Como já o disse aqui ou no posse de bola há uns tempos atrás, é fácil criticar os brasileiros pela hecatombe sofrida no mundial e que os obrigou a pensar no processo desde as bases (não sei o que tem sido feito mas duvido que o consigam alterar substancialmente) mas esquecemos que por cá as coisas poderiam estar muito melhores se realmente conseguirmos perceber qual será a melhor forma de aproveitarmos os recursos que temos e a par disso formarmos cada vez melhor os treinadores, os dirigentes e os pais.

Abraços

Paolo Maldini disse...

por acaso n concordo com o exemplo noruegues...

a solução rápida e eficaz era mm limitar o n de jogadores inscritos por ano de nascimento.

com tempo logo pego nisto...

Roberto Baggio disse...

Pensamento colectivo. Não há em Portugal... quase não há em Portugal...

Pedro Manuel Anastácio disse...

Baggio/Maldini

Não acrdito que haja necessidade de desvirtuar a competição para se colher frutos, como ai dizia um comentador, hoje em dia os putos das equipas grandes têm neles incutidas já as tais culturais de vitória logo obriga a que esse miudos aprendam tudo no futebol mais rapidamente possivel.

Pedro Manuel Anastácio disse...

Já há alguns atrás um familiar meu foi treinador/formador nos infatis num clube pequeno aqui da região, e o trabalho que ele fazia era o básico no inicio, perceber as capacidades fisicas e técncias de cada um dos miudos, perceber quais eram as limitações nos miudos, e acima de tudo tentar fazer quase que um esboço de um plano do que cada jogador poderia dar à equipa em cada posição.
Da equipa anterior esse meu familiar ficou com todos não correu com nenhum e ainda incluiu mais 20 putos novos das captações, ficou com um total de 36 miudos num só escalão de infantis sendo que no final da época todos eles tiveram no minimo 10 jogos efectuados sem contar com jogos de treinos.
Como foi possivel?
Simples, havia interação e uma relação de professor/amigo/dinamizador com os miudos, não havia jogos, havia uma saida de grupo a um local qualquer, nomeadamente passeios à praia mesmo no inverno com pequenos exercicios de estimulação de trababalho de equipa, ou até passeios de até ao Algarve ou ao Norte apenas para realização de um joguito de treino e confraternizar com os outros jogadores e equipas que não conheciam.
Todos os miudos entendiam que o futebol não era para ser visto como o "Grande Plano de Vida" mas sim como uma forma de desenvolver as suas capacidades cognitivas e para ocuparem o tempo livre com algo diferente que no futuro poderia lhes equivaler aquela celebre frase "Eu fui federado na equipa tal e consegui bons resultados".

Mas vamos ao trabalho propriamente dito, dos Infantis que passaram de uma época para outra, houve todo um plano orientador, houve miudos que eram guarda redes e que passaram para avançados, porque lá está sabiam estar mais em jogo na frente do que ter atenção ao que se passava no jogo estando na baliza, houve extremos que passaram para defesas centrais, porque lá está técnicamente não eram evoluidos mas táticamente sabiam preencher bem os espaços, ou seja, houve miudos que tiveram de ser reeducados.
Muitos pensam, porra houve de certeza miudos a desistire, pelo contrário, houve miudos a sentirem que havia todo um plano que estava para ser cumprido e para ser cumprido tinham que ser bons mesmo muito bons nas posições que lhes foram atribuidas, e ai está a chave.....fazer os putos sentirem que fazem parte de algo grandioso, darlhes uma objectivo para lutar, isso aumentará a auto estima ajudará ao desenvolvimento de todas as suas faculdades individuais e funcionará como um estilo pessoal se forem obrigados a apresentar os resultados escolares de periodo a periodo, pois um miudo que tivesse negativa passava 3 jogos excluido da equipa de jogo por castigo.
Ou seja existe sim necessidade de haver treinadores/formadores de jovens personalidades, nada mais, porque se lhes aumentares o estimulo durante o ano, quer seja com um passeio a algum lado quer seja com passeatas mesmo a pé na própria região, isso irá valorizar os miudos, não lhes fará ganhar mais jeitinho para a bola, mas dá uma vontade pessoal enorme de vencer o adversário que se segue.

Pedro Manuel Anastácio disse...

Muitos de nós sabem, na nossa juventude, o quão porreiro e giro era passear-mos nas ruas quer quando era para ir para o treino quer quando era para ir para algum jogo com o Fato de treino do clube vestido, aquela cena de ver toda a gente a olhar para nós sentir-mos o orgulho de ter o simbolo ao peito mesmo que de um clube pequeno, até aquela chama romântica de ver as miudas a olhar para nós vaidosos a andar de cabeça no ar como que a dizer "sim eu sou jogador de futebol", pois essas coisas não mudaram, elas matem-se intactas.

É necessário voltar a passar para os miudos a vontade de respeitar um simbolo e faze-los perceber que, no futebol, tal como na vida estundanti/professional, existem padrões mas que em todos eles devemos dar o melhor de nós, porque o padrão principal é sermos nós próprios e sentir-mos orgulho naquilo que fazemos, e os pais têm de perceber que nem todos os miudos nasceram para ser Ronaldos, mas podem haver miudos que não nasceram para ser Ronaldos mas que por exemplo serão exemplares cirurgiões e que com o futebol irão perceber que o trabalho de equipa quer num campo de futebol quer numa mesa de operações é vital para alcançar o objectivo quer seja a vitória num campeonato nacional quer seja a salvar a vida de uma pessoa, cada macaco no seu galho mas cada um deles com igual importância.

Rumo Norte disse...

Baggio, muito bom. Sigo-vos há dois-três anos, sempre com gosto, nem sempre concordando com tudo. Hoje acertas com o martelo na cabeça do prego e enterras tudo de uma vez. Parabéns.

Lanço um desafio:as tuas soluções pprecisam de ser aplicadas para o bem dos miúdos e do futuro do futebol Português. Como é que se muda este sistema? Precisamos de um plano realista e exequível.

Abraço

nuno leão disse...

"E o pensamento nestas idades é esse. Evoluir, evoluir, evoluir. e os JOGOS não são nada mais do que treinos, contra COLEGAS que não estamos habituados a defrontar, que não conhecemos. "

Ora aqui está a grande verdade que muita gente insiste em ignorar. Mas também são treinos com situações e regras bastante especificas, por isso também me mete muita impressão desvirtuar as regras. Para isso seguíamos o modelo inglês, em que a competição só surge muito mais tarde, e até aos 15/16 se não me engano funcionam como as nossas escolas de futebol, com convívios e torneios. Mas isso também era um modelo a ser pensado pela FPF.

Infelizmente a a nossa realidade actualmente é de pais que pensam que já têm craques formados aos 15/16 e que nem hesitam em abdicar da estabilidade e prazer de jogar dos filhos, para seguirem promessas de um el dorado futebolístico.

Sandro Barbosa disse...

Eu acho que o problema de fundo é mesmo um problema de mentalidades. Antes de qualquer regra ou legislação, é preciso que todos os intervenientes no meio percebam qual é a realidade para que devem contribuir, e como cada um deve contribuir para essa realidade.

É complicado convencer um treinador a pôr o ensino à frente da conquista do caneco, quando externamente tudo aponta no sentido inverso. São os pais, é o clube, é a própria carreira. Quando um "grande" contracta um treinador para a formação tradicionalmente olha para o quê? para o perfil e qualidade dos jogadores que lhe passaram pelas mãos, ou pelos canecos que levou para casa?

Ou seja, não cabe só ao treinador ter vontade, nem ao estado legislar. Cabe a todos os envolvidos perceberem qual é o caminho certo, e valorizarem quem percorre o dito caminho. É uma vontade colectiva sim, e é um grande problema do país. Não só no futebol.

Paolo Maldini disse...

Pedro Ferreira, n treino na formação, mas tb tenho responsabilidades ai

Paolo Maldini disse...

"muitos de nós sabem, na nossa juventude, o quão porreiro e giro era passear-mos nas ruas quer quando era para ir para o treino quer quando era para ir para algum jogo com o Fato de treino do clube vestido, aquela cena de ver toda a gente a olhar para nós sentir-mos o orgulho de ter o simbolo ao peito "

Pedro Anastásio, tenho um episódio giro que se passou ontem em relação a isto. Os fatos de treino novos (de uma marca mais credenciada) chegaram recentemente ao clube. Ontem um miúdo de 16 anos veio falar cmg sobre isso e eu perguntei-lhe "é giro, n é?" "ya mister! Já levei para a escola, as miúdas todas a olhar, a perguntarem - tu jogas ai??" "ainda vais arranjar uma namorada nova graças ao fato de treino!" ele riu-se!

Zelxandre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dennis Bergkamp disse...

" Ainda que a ideia seja muito boa para portugal, pode-se fazer algo diferente que potenciemos jogadores e não dar-lhes o peixe mas sim ensina-los a pescar. Porque não, estando a ganhar 3-0 e dominando, criares parametros de jogo (rematar c o pe mais fraco, limitar os passes antes da transição, obrigar a jogar primeiro por um jogador-chave)...algo que desenvolva a forma de jogar, ao inves de facilitares. Outra coisa é o desconhecimento da realidade norueguesa. Aqui os clubes grandes so recrutam a partir dos 15/16, o que leva os clubes a trabalharem c o que têm durante anos a fio. Até podes ter o Ødegård no Bergsøy que so aos 15 é que ele baza para outra realidade (o que n impede que possa treinar no clube pequeno e jogar no grande por vezes...)
Aqui, essa regra usa-se no 7 e no 9 porque é pratico, treinadores sao pais e nao querem ter trabalho. Nao pensam em fazer o jogador evoluir e desenvolver porque nao sabem e nao querem perder tempo. É um comodismo."

Pedro Espinha (não estava a conseguir postar e pediu-me para o fazer por ele.

Fica desde já um grande abraço do LE para a Noruega

Roberto Baggio disse...

Bergkamp e aí pegamos na formação dos treinadores.

Maldini, não é o melhor. Mas como é que tu dizes a associação ou aos clubes: Olhem, agora fazem menos dinheiro, mas os miúdos ficam melhor.

Com melhor formação dos formadores, e instruções claras dos clubes que formam tudo seria melhor... mas e consciência colectiva para isso? Bom.

Não tive tempo de ler todos com atenção, mas logo faço isso e respondo.

Abraço

R.B. NorTør disse...

Isso da formação dos treinadores da formação, não foi um dos grandes pilares da reestruturação da Bundesliga?

Henrique disse...

A limitação do nº de inscrições parece-me o primeiro passo que tem de ser dado.

Sobre o papel da competição na formação estou completamente de acordo. Deveria servir como um treino adicional, onde os jogadores encontram mais dificuldades e onde a motivação e a recompensa seriam maiores.

Há também que ponderar o considerável atraso cultural da sociedade portuguesa, que é responsável por muitos dos problemas com os pais dos miúdos.

Pedro Manuel Anastácio disse...

Maldini

Os miudos são tão vaidosos agora nesse aspecto como eramos nós com a idade deles, querem firmar posição, e se falarmos por exemplo de miudos de uma localidade tipo aldeola do interior de Portugal virem por exemplo fazer um encontro amigável contra por exemplo o Almada, e depois do jogo terem por exemplo a oportunidade de ir ao Jardim zoológico ao Almada forum e sempre envergando o fato treino do clube, ora isso ainda mais os envaidece, é um orgulho pessoal para eles.

O problema da formação em Portugal é tb se ter deixado um bocado, em algumas zonas principalmente, a velhinha cultura de clube que qualquer um podia usufruir para a mais moderna "Escolas de Formação" onde pagas X ao ano ou ao mês, pais com maiores dificuldades não conseguem fazer.....isso sim causa-me alguma confusão ainda, deveria haver um maior acompanhamento aos miudos que querem jogar à bola mas que não podem frequentar as pomposas "Academias ou Escolas de Formação"

Dennis Bergkamp disse...

Pedro Anastácio,

Isso é muito bonito e é um problema grave. Futebol já não é para todos. Mas...ias ao dentista se ele fosse um "curioso" e trabalhasse de borla, por amor a clinica?

Ou sentes-te mais seguro a deixar que alguém que se preparou realmente para te tratar dos dentes o fizesse?

Isto mexe com muita muita coisa. É uma "industria" que mexe com muito dinheiro e com muita gente.

Limitar o nº de equipas inscritas seria um caminho, deixar que os treinadores fossem treinadores em mais do que um clube também era importante.

O que a AFL este ano fez.. até pode ter sido com boas intenções, mas foi um tiro no pé. Com 3 fases, teoricamente as coisas iriam ficar equilibradas do meio para o fim. Com não sei quantas equipas, a duas voltas... em que ao fim de 6 jornadas já há varias equipas com mais de 90 golos sofridos.. é um passo muito grande para que o nº de praticantes comece a ser cada vez mais reduzido.


Ao não conseguirem dividir por competências, vai haver sempre muita gente que não evolui porque não tem competição, e muitos mais que desistem porque não estão para "encher a mala" todas as semanas. O que é muito fácil de perceber.

Como olhamos mais fácilmente para o topo, esquecemo-nos sempre da base da piramide.

Quem adora o jogo vai sempre estar ligado a ele. Como jogador, como treinador, como dirigente, como arbitro. Se a vida desportiva de alguém é de insucesso atrás de insucesso... vamos ter muita gente válida a deixar a modalidade.

Mike Portugal disse...

Bergkamp,

"...não estão para "encher a mala" todas as semanas..."

Não faço puto de ideia de como funcionam as coisas a esse nível, mas os pequenos jogam com os grandes todas as semanas? Quantas equipas há? Qual é o calendário de jogos?

Pergunto porque não sei mesmo nada.

Pedro Manuel Anastácio disse...

Bergkamp

Mas isso é assumir o futebol como apenas um meio de lucrar, reduzes o numero de equipas, reduzes o numero de praticantes e daqui a 15 anos andas a chorar que existe falta de opções nacionais....porque lá está Portugal é muito pequeno.

Por exemplo no concelho onde resido (um dos maiores a nivel nacional com cerca de 400km2 de território) entre cerca de 4 clubes que aqui existem de pequenissimo porte, existem cerca de 160 miudos a treinar entre os 9 e os 13 anos, desses 160 miudos por ano saiem cerca de 30 para o Sporting, Benfica, Vitória de Setubal e Barreirense, e saiem 30 como houve anos de sairem mais e miudos a seguirem com 16 ou 17 anos para o Boavista, Nacional da Madeira etc, ou seja, falamos num numero brutal de miudos, os que ficam nos clubes pequenos ao verem os "amigos e colegas" seguirem para outros caminhos ficam com aquela sensação de que "para o ano é o meu ano" como tal dão o litro e o litro e meio.

O problema é que nem todos poderão chegar longe, como tal tem de haver trabalho de base.
Eu sei que hoje tudo é dinheiro e sei bem quando dizes que "entregar a profissionais de nivel"...pois o meu familiar era treinador de infantis, após 3 anos nesta área foi para os iniciados e passados 4 foi para os juvenis e ai parou porque lá está as escolas de formação começam sim elas a serem os culpados das más práticas.

O meu familiar tem o nivel 3 de treinador de futebol, tinha background de competição e fez parte das seleções nacionais nos escalões de formação, todas incluindo a de Setubal e Lisboa.....
Predipôs-se a ser treinador do clube durante esses anos apenas a recebe 120 mês nos infantis, 170 nos iniciados e 220 nos juvenis, porque fazia tudo em pós laboral, o problema é que com a implementação das escolas de formação as coisas deixam de ser geridas por escalão mas sim pelo bolo geral e o que acontece, "alimenta-se" apenas quem está na mó de cima, ou seja, se o Juvenis estão na luta pelo titulo, sacrifica-se todos os outros escalões para que nada falte aos juvenis e foi por isso que o meu familiar saiu do clube com muita tristeza.....ficou sem receber cerca de 9 meses porque os inciados tinham passado aos nacionais como tal tinha-se que pagar as deslocações equipamentos e etc, o Juvenis (que era a equipa que o meu familiar estava a treinar) ficaram esquecidos no tempo porque como estavam num patamar mais baixo e sem tanto relevo ninguem quis saber deles, resultado 9 meses sem receber e miudos a irem jogar ao Arrentela a ter de ir com os pais e etc porque o autocarro do clube ia para levar os inciados para outro lugar qualquer ainda assim os Juvenis conseguiram subir de divisão e nessa época conseguiram pela 1ª vez na vida do clube irem para os Nacionais e o Iniados que tudo tinha tido baixaram de divisão e ainda despediram o treinador ao qual pagavam 500 euros mês e ainda tiveram que pagar cerca de mais 2000 por rescisão de contrato....

Acho que a solução tb não passa por reduzir o numero de praticantes, isso então ainda seria um maior tiro no pé, porque clubes que apenas têm escalões de formação praticante deixariam de existir.

Dennis Bergkamp disse...

Mike,

Fui agora "cuscar" os resultados do fim de semana, e numa série de benjamins de 1º ano, em Lisboa, há uma equipa com 138 golos sofridos e apenas 3 marcados. Em 6 Jornadas.

Todos os clubes têm direito a participar em todos os escalões. Mas imagina a situação.

Tens o Santos a competir, com 4 equipas, e depois tens mais 4 clubes ali a volta com 1 equipa cada um.

É obvio que os miudos vão todos querer jogar no Santos. Logo, os melhores vão la estar, os 2ºs melhores também, os 3ºs melhores idem, e adivinhem lá... os 4ºs tb. E os restantes... sobram para os outros clubes.

Se o Santos apenas conseguisse ter 2 equipas, mesmo que os restantes clubes tivessem também 2 equipas o nº de praticantes ia ser semelhante.

Mas como o Santos ia ter de escolher, porque não iam poder ter TODOS, ia sobrar uns mais ou menos para as outras equipas.

Logo... o Santos ia ter miudos a aprender mais, e todagente jogava e realmente.. competia. Mesmo que o Santos fosse campeão todos os anos, dificilmente a 6ª jornada havia alguém com 138 golos sofridos.


O problema é que se cada equipa tiver 14 miudos. Se o Santos tiver menos 28 miudos (2 equipas) são menos 28 mensalidades. E isto mexe com muita coisa.


Pedro Manuel Anastácio disse...

Bergkamp

Uma Pergunta para a tua resposta ao Mike.

Porque não uma politica de se tens mais que X miudos só podes inscrever Y para uma determinada competição os restantes, no entanto podes jogar com os restantes para um campeonato paralelo de Reservas.

Em Teoria continuarias a ter os mesmos miudos, na prática irias desmotivar os clubes à tal má prática de secar tudo em volta e obriga-los a refrear o impeto..
Pois se só podes ter por exemplo 33 miudos inscritos numa competição e se te sobram ainda mais 60 que podem apenas jogar numa competição de reservas, não faz sentido manter esses 60 como tal esta politica a curto prazo iria sim obrigar o Santos a refrear os ataques aos miudos logo apenas chegaria ao ponto de ter apenas no máximo 50 ou 60 miudos no total, deixando assim margem de manobra aos clubes das imediações.

Mike Portugal disse...

Percebi o raciocínio. E sim, isto só la vai com nova legislação, porque para mudar mentalidades precisas de legislação a acompanhar.

Futebol Táctico disse...

No futsal de formação, pois estou dentro do tema, existe este ano um novo modo de se jogar o campeonato. Nos juniores, por exemplo, existem 12 equipas das quais as 7 primeiras após 11 jogos (ou seja uma volta) são transportadas para outro campeonato. Essas 7 equipas jogam entre si de modo a decidir a classificação (1º, 2º, 3º, etc). As outras 5 equipas jogam entre si para decidir a classificação também elas (8º, 9º, 10º, etc).

A intenção é reduzir o desnível das duas equipas que estão frente-a-frente, de forma a existir jogos mais equilibrados em todas as fases sem desvirtuar a ideia jogo (não sei se gosto da ideia que existe na Noruega).

Nuno Martim disse...

A AFVR fez isto "Noruega existe uma regra no futebol das primeiras etapas de formação, que dita que quando a diferença no marcador é superior a 3 golos (3-0, 4-1, 5-2, etc...) a equipa que ganha passa a jogar com menos um jogador em campo, até se verificar (ou não) novo nivelamento do resultado (diferença de apenas dois golos). Com uma regra simples garantem algumas coisas". Mas foi apenas num campeonato que não era oficial! Este ano a regra de retirar um jogador deixou de existir porque o campeonato passou a ser oficial e são as regras da Federação! Tem de ser a federação a mudar as regras e não as associações! Bom artigo!!!

LGS disse...

Baggio,

"Maldini, não é o melhor. Mas como é que tu dizes a associação ou aos clubes: Olhem, agora fazem menos dinheiro, mas os miúdos ficam melhor."

Acho que a questão é fazer ver aos responsáveis que AGORA fazem menos dinheiro mas a MEDIO/LONGO prazo fariam muito mais. Porque acho que dinheiro que deixariam de ganhar no imediato seria um investimento que daria mais e melhores proveitos, quer desportivamente, com melhores jogadores, quer financeiramente com a redução de custos, aumento da sustentabilidade da industria do futebol e quem talvez com um aumento nas vendas de passes de alguns dos formandos.

É claro que afirmo isto sem fazer contas, mas o raciocínio parece-me válido.

Mas lá está, como o Sandro Barbosa disse lá em cima "É uma vontade colectiva sim, e é um grande problema do país. Não só no futebol." E Portugal, tirando na era dos descobrimentos, nunca foi muito dado a vontades colectivas ou planos cujos benefícios só se fazem sentir passados vários anos...

bio disse...

Enquanto os pais continuarem a olhar para os putos como PPR's parece-me difícil haverem grandes mudanças...
No entanto, excelente artigo.

Roberto Baggio disse...

"Acho que a questão é fazer ver aos responsáveis que AGORA fazem menos dinheiro mas a MEDIO/LONGO prazo fariam muito mais. Porque acho que dinheiro que deixariam de ganhar no imediato seria um investimento que daria mais e melhores proveitos, quer desportivamente, com melhores jogadores, quer financeiramente com a redução de custos, aumento da sustentabilidade da industria do futebol e quem talvez com um aumento nas vendas de passes de alguns dos formandos."

Utopia.

"Tem de ser a federação a mudar as regras e não as associações!"

Quem organiza os campeonatos é que manda. E a federação organiza os campeonatos nacionais e as associações os distritais. Portanto quem manda são as associações.

Rumo, o caminho é o da melhor formação dos treinadores. Eu como treinador, percebendo que o jogo está "fácil" para a minha equipa, coloco outras dificuldades a mesma. Por exemplo, só jogam ao primeiro toque. Mas não é isso que se faz. O que se faz é marcar, marcar, marcar, até não haver mais bolas em campo. Esse é o caminho. A reforma na formação dos treinadores da formação.
Mas, como isso em Portugal é impossível, o segundo caminho é mudar a legislação. Limitar o número de equipas por escalão e o número de atletas inscritos de cada clube. Mas como isso é impossível porque vai mexer com as finanças dos clubes, deve-se fazer campeonatos de acordo com as competências dos jogadores. Dividir por séries, e colocar as melhores equipas a competir contra as melhores, e as outras a competir com as outras de acordo com o nível de cada uma. Mas como isso ia fazer com que o Benfica tivesse de jogar 10 vezes entre si (por ter 6 equipas) também não é provável que aconteça. Então o caminho deve ser de equipas mais evoluídas jogarem no escalão acima. Por exemplo, o Benfica 2003, joga no campeonato de 2002. Mas como obrigação.
Mas como os clubes querem ter autonomia na gestão dos recursos humanos, também não me parece exequivel...
Difícil uh?!

As associações têm de intervir e zelar pelos interesses do.futebol. E é do interesse do futebol que alguma dessas coisas acima feitas seja aplicada.

LGS disse...

"Utopia"

Certo, mas não devem as utopias um objectivo mesmo sabendo que nunca lá chegaremos? Não é isso que vocês tentam fazer com as vossas equipas, por exemplo, tentar aproxima-las do futebol que idealizam (utopia)?


No entanto percebo o que queres dizer. O problema está em todos os "mas" que apontaste na resposta ao Rumo.

Mas eu gosto de utopias, acho que são elas que nos fazem melhorar. São um idealista, ou se calhar só ingénuo...

Roberto Baggio disse...

Não foi uma crítica LGS...

Jorge disse...

Roberto

A divisao por serie e, na minha opiniao, a melhor ideia, se adicionares a restricao de duas equipas do mesmo clube nao poderem competir na mesma serie e as promocoes forem feitas por forma a manter competividade. Se a segunda equipa do Benfica ganhar os jogos todos na segunda divisao, passa a serie acima na epoca seguinte, se ja la estiver outra equipa do Benfica, nao podem competir. Se este sistema for anunciado com antecedencia e imposto consistentemente elimina os incentivos para os clubes grandes atrairem os melhores jogadores.
As promocoes seriam feitas de acordo com a performance da equipa, a equipa sub 11 que ganhe os jogos todos joga uma serie acima no escalao sub 12.

LGS disse...

Eu sei, não levei como tal. ;)

Jorge disse...

Ja agora

O problema de formacao e muito mais preocupante nos EUA a nivel de todos os desportos, ja que o objectivo e sempre de ganhar. Em todos os escaloes e e raro ver uma modalidade em que a abordagem ao treino e jogos tenha objectivos de longo prazo. O racio de jogos para treino e incrivelmente alto em todas as modalidades, e os treinadores treinam para ganhar ou perder por poucos, limitando o tempo de jogo dos jogadores mais fracos(tecnica e fisicamente), e sobre-utilizando os jogadores mais fortes.
Quanto ao comportamento dos pais, acho que nao deve haver grande diferenca...

Blog de Portugal disse...

Excelente tema.

Para já, quando a formação vem ao calha em Portugal é para falar de Juniores, mas isso é só uma pequena parte.

A grande maioria da formação é isto.

Dou o exemplo que se passa no Porto: o Dragon Force está a tentar secar tudo. Se virmos os vários pólos + as equipas do FC Porto, é um número absurdo (e agora até no estrangeiro - Brasil e Colômbia).
Assim, têm uma base de seleção e prospeção enorme, e o dinheiro que ganham é de loucos, pq têm também a associação ao FCP.
(Nota: quantos miúdos e pais dizem que jogam no Porto, quando na realidade é Dragon Force).

Aqui, as equipas que tradicionalmente se conseguem bater são Boavista (desorganização total na formação), Leixões (desorganização, mas não tanto, têm a vantagem de serem muito fortes em Matosinhos), Padroense...

A minha proposta seria que em qualquer idade deveria ser oficial a ligação do jogador ao clube. Se um dos grandes fosse lá pegar o miúdo, tinha que pagar!
Assim, quantos clubes mais pequenos não iam começar a olhar bem para a formação, pois se o fizessem, conseguiriam crescer e ser cada vez mais fortes e competitivos.

O problema é que as pessoas que mandam em Portugal, tal como uma boa parte da população, seja no futebol ou noutras coisas, olha para si e para os seus próximos.
Não sei a mentalidade de outros países, mas na Alemanha fez-se uma mudança a sério, e os resultados estão aí. São os melhores do mundo.

João Santos disse...

Muito bom. Este artigo é o que sempre disse e defendo. Devia era ir direitinho para os senhores das associações de futebol que estão sentadinhos nas suas cadeiras e quando fazem as regras dos escalões de formação não levam em conta estes grandes promenores. Hoje em dia a formação é um grande negocio para os grande e as empresas que os rodeiam, esqueçendo a evolução, competetividade dos miudos e do campeonato. Porquê será que não se mudam as regras....pensem nisso!!! é mais uns a ganhar com isto. Os miudos quando chegam aos iniciados e Juvenis são esquecidos e abandonados, e os Pais são os grandes responsaveis disso. Nessa altura vão ver se é ou não verdade!! quem sofre ? ai já serve irem jogar lá para o clube do bairro, perto de casa... Pensem nisto com muito cuidado e sobretudo nos vossos filhos. Fica aqui para refletirem. Bom Natal