sábado, 6 de dezembro de 2014

Pirlo - "Transferências" de Crianças

Na introdução do livro, Cesare Prandelli fala dos tempos em que conheceu o Sr Pirlo, ainda nas camadas jovens do Brescia, enquanto era treinador do Atalanta.

Tentando traduzir o que lá vem, é algo como:

"Chegamos a tentar arranjar uma reunião para discutir a possibilidade de o trazer, mas o nosso presidente Percassi, um "iluminado" (sem sentido prejurativo, eu é que não encontrei palavra melhor para traduzir), percebeu que iamos causar um incidente diplomático. Nunca esquecerei as suas palavras - Pirlo fica onde está, Pessoas como ele devem ser deixadas em paz. Ele precisa de continuar a fazer o que gosta e a jogar com alegria. Não quero que ele sinta qualquer tipo de pressão. Ele deve continuar um jogador que pertence a todos"

Naquela altura já todos tinham percebido o raro talento que andava por ali, 2 ou 3 anos mais novo do que os outros, mas ... já com todagente a ir ver os jogos para o ver a ele, só a ele.

Numa semana em que aqui no blog se falou de formação, onde se apontou o dedo a uma serie de situações, é importante pensar sobre isto - Transferências de crianças.

Legalmente, qualquer criança pode passar de um clube para o outro, sem problema nenhum. Temos visto (em Lisboa pelo menos, mas acredito que seja um fenómeno que se verifica em todo o lado), crianças que quando chegam a idade de infantis de 1º ano já estiveram em 2 ou 3 clubes diferentes.

Se por um lado, faz todo o sentido que se procure as melhores condições possiveis para que as crianças aprendam e se desenvolvam, estão os pais (que no fundo são quem manda) preparados para fazer essas escolhas?

  • Qualidade de treino - O que é isto e como é que se avalia? 
  • Competitividade dentro da equipa - O miudo é dos melhores, é mais um, é dos mais fracos?
  • Competitividade da equipa em relação as outras onde está inserida - Vão ganhar tudo porque os adversários são muito fracos, ou vão ter de discutir as coisas sempre até ao fim?
Estas são coisas que devem pesar na cabeça de quem escolhe para onde leva os miudos.

Problemas identificados por quem vive este fenómeno sem ser com olhos de pai de futuro Cristiano Ronaldo:

  • Clubes a contratarem treinadores não porque lhes reconhecem muita competência para o ensino do jogo, mas porque "trazem" não sei quantos jogadores com eles. De repente o clube XYZ era fortissimo porque tinha uma "fornada" excelente, e de repente foram todos para o XPTO e o clube onde estavam... puff
  • 4 ou 5 clubes com os jogadores "todos", e os restantes com muitas dificuldades para trabalhar
  • Uma desigualdade gigante entre clubes que jogam uns com os outros, com resultados super desiquilibrados.
Urgente criar condições para garantir que os miudos conseguem crescer como o Pirlo. Tranquilos para poderem jogar com alegria e sem grandes pressões. Com exigência, mas sem terem uma mochila de pressão maior do que a que podem carregar. 

4 comentários:

Frederico disse...

Quanto às transferências de crianças:
Se não me engano em Inglaterra os putos não podem ser transferidos para longe da família.

Blog de Portugal disse...

Por isso é que em Portugal, como há esta fome dos clubes grandes pelos miúdos talentosos, parece a caça ao tesouro, então quando um miúdo vai para o outro clube, o clube onde estava tem que ser indemnizado!

Isto recompensaria imenso os verdadeiros clubes formadores, e provavelmente formaria um efeito de verdadeira preocupação com a formação dos miúdos.

P.S: Para os autores do blog, vocês já apanharam miúdos mesmo craques craques, de longe? O melhor que eu vi a jogar em Portugal é, espantem-se, norueguês...

Paolo Maldini disse...

se eu te disser que há uns anos qd tinha pré-minis!!!! ao meu encargo percebi que um miúdo de 3 anos era sobredotado, acreditas? A tomada de decisão do miúdo (com 3 anos!!! juro!!! à beira dos 4...) era inacreditável! Sem se trabalhar nada para além da individualidade... Com 3 anos já jogava 2x2 a fixar e soltar...para o espaço e não para o pé para isolar o colega! por intuição!

o miúdo ainda não tem 10 anos e está a jogar no Benfica.

Dennis Bergkamp disse...

Felizmente já tive a oportunidade de trabalhar com criançada com um nível tão elevado que o meu maior medo era ser um impecilho no seu desenvolvimento.

Espero não ter sido, mas só daqui a uns anos é que se vai ver isso.

(Quando eles são mesmo mesmo mesmo bons, que diferença faz, realmente, o treino?)

Acredito que se os clubes tivessem de pagar (seja em $, seja em serviços, em material, seja o que for) por transferências de miudos, iam ser 300000x mais creteriosos nas escolhas. Logo, para se chegar a um clube grande teria de se provar durante mais tempo que se era realmente muito bom.

Isso podia ser uma solução interessante, mas tem um contra.

Durante o ano passado recebi várias crianças que vinham de um contexto onde os treinadores não os deixavam fintar, onde o treino era super mecanizado, onde a relação treinador-criança era (segundo eles contaram) péssima do ponto de vista pedagógico.

Ao ter de se pagar para estes miudos se transferirem para "o clube do lado", muito provavelmente as crianças não iriam mudar, iriam continuar a "levar com aquilo" até acabar por não querer mais jogar futebol.

Tem aspectos muito positivos, mas ao mesmo tempo seria uma medida que ia entalar muita criançada que não está ao nível dos melhores, mas quer mudar para poder jogar com mais liberdade, num ambiente mais tranquilo.