terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Carlos Carvalhal responde ao Lateral Esquerdo - queres ser como os Grandes, faz como eles!

Ao contactar o Mister Carvalhal para que nos possibilitasse esta série de questões, voltámos a encontrar um treinador do alto rendimento extremamente receptivo ao nosso apelo. Tenho a agradecer-lhe, por isso, a disponibilidade que mostrou desde logo, e o tempo que perdeu com estas antigas glórias do futebol mundial. Agradecer ainda mais pela forma como educa quem o ouve e lê, tornando sempre mais rica a cultura de quem quer saber mais e é, como nós, apaixonado pelo jogo da inteligência e qualidade técnica, da organização colectiva, em sobreposição ao resto. Estamos muito orgulhosos por saber que nos lê, que nos segue, que partilha alguns dos nossos pensamentos.

Lateral Esquerdo (LE)  - Quem é o melhor jogador que viu jogar? Se não quiser especificar um, construa o seu onze de sonho...

Carlos Carvalhal (CC) - Maradona. A minha infância foi preenchida pela magia de Maradona. Num destes dias conheci-o aqui no Dubai. Falei com ele, fiz-lhe uma comunicação sobre o nosso trabalho no Al Ahli e tirei umas fotos. Senti-me um menino feliz ao pé do meu ídolo de adolescência.
Por ironia do destino, conheci Zico aqui também. Falta conhecer Cruyff...

LE - Existe algum/ns momento/s do jogo que considera mais importantes do que outros?

CC - O jogo é “Uno”, “Indivisivel” e fluído. Não há momentos mais importantes do que outros, todos são importantes porque estão ligados uns com os outros.

LE - Quais são as suas referências ao nível do treino, e do jogo?

CC - As nossas referencias são sempre as melhores equipas do mundo. Quando treinávamos na terceira divisão (por exemplo o Leixões) os nossos referenciais eram sempre as equipas de top. As vezes poderia custar uns pontos no nosso campeonato, mas era aquilo que perseguíamos. Talvez devido a esse facto chegámos na altura à final da Taça de Portugal. Continuamos na mesma esteira ainda hoje... “queres ser como os Grandes, faz como eles”.

LE - Quais foram as principais dificuldades nos países fora de portugal ao nível de treino e de aquisição? O que foi mais difícil de ensinar?

CC - O treinador Português é muito evoluído e adapta-se com facilidade ao meio onde está a trabalhar. Para além das competências tácticas e técnicas o treinador luso é muito forte na componente emocional, cria laços com facilidade e isso também contribui para fazer a diferença. A dificuldade muitas vezes é a ideia arcaica do jogar que persiste em alguns países. As dificuldades, algumas vezes, passam por convencer os jogadores e a estrutura que há outros caminhos para preparar uma equipa para jogar. Passando a fase da desconfiança, o treinador português marca claramente a diferença.

LE - Há alguma coisa que considere que seja transversal em todos os modelos?

CC - Cada treinador imprime uma impressão digital nas equipas que organiza. Podem existir alguns aspectos que sejam comuns, mas no detalhe serão sempre diferentes. E no detalhe é que está a diferença para melhor ou pior.

LE - Quando chega a um clube novo, quais são as principais preocupações ao nível da operacionalização? Quais são (normalmente) as apostas para que a equipa fique o mais rapidamente possível a jogar como quer?

CC - O único caminho para modelar uma equipa é o treino. Desde o primeiro minuto de treino, procuramos através de exercícios Específicos incorporar a nossa Ideia de Jogo, de forma a chegarmos à ideia utópica da nossa forma ideal de jogar. Utópica porque nunca lá chegaremos... Ao modelarmos a equipa através dos Princípios do nosso Jogo para os 4 momentos de jogo - sem nunca esquecer a ligação entre estes - há sempre algumas coisas que podemos melhorar, e outras coisas que se vão perdendo no decorrer do tempo e jogos. No fundo, modelar uma equipa é uma permanente construção/reconstrução.

LE - Exemplifique algum princípio que queira ver sempre e tenha sempre conseguido implementar. Ou o inverso, um relato de algo que ele queira mas que em determinado momento não tenha dado. E o porquê?

Pela minha experiência, o mais difícil de incorporar nos jogadores que chegam às nossas equipas pela primeira vez é o momento de transição defensiva. Ter a posse da bola e perde-la exige uma mudança mental muito brusca para a voltar a recuperar. Exige muito treino e muita paciência para chegar a um nível elevado. Se for para reagir e voltar à “posição” é fácil, mas se queres em função da identificação do momento do jogo uma reacção organizada, Intensa e com qualidade, vai exigir muito dos jogadores e principalmente de ti. Ter a bola para atacar é mais atrativo para os jogadores, logo será mais fácil pelo lado emocional a absorção dos princípios de jogo. Ganhar a bola para atacar (transição ofensiva) é igualmente atrativo, e os jogadores chegam ao que queremos com relativa facilidade. A forma como trabalhamos a nossa organização defensiva é muito bem recebida pelos jogadores, principalmente pela eficácia das ações. Esta, por ser muito complexa leva algum tempo incorporar os pormenores (sub dos sub princípios) mas como o fazemos com complexidade crescente o entusiasmo e a evolução é constante.

LE - Resuma cada momento do jogo, do seu modelo de jogo, em duas palavras no máximo. 

CC - Bolas paradas ofensivas e defensivas – Concentração e Eficácia.
Organização ofensiva – Talento e Inteligência.
Transição defensiva – Interpretação e Intensidade.
Organização defensiva – “Rede” e Organização.
Transição ofensiva –  Interpretação e Primeiro passe.

LE - Como é pensar como mostrou no seu livro - Recuperação é muito mais do que recuperar - jogar zona, e encontrar jogadores que toda vida conheceram o h-h? Quais são as principais dificuldades no ensino de comportamentos zonais, e como as ultrapassa?

CC - Para quem tem um passado de muitos anos a jogar HxH não é fácil modelar um jogador para ter um comportamento zonal. Este, tem como principal referencia o jogador adversário, a sua “anulação” e muitas vezes faz perseguições ao adversário direto para fora da sua zona de ação. Modelar um jogador para um comportamento zonal pressupõe em primeiro lugar fazê-lo interiorizar as vantagens desta forma de abordagem: deixa de ser um comportamento “individual” para ser um comportamento de interdependência. Não só com os seus colegas de setor, mas entre toda a equipa (a equipa joga em “rede”); as referencias deixam de ser individuais e passam a ser “colectivas”; a posição da bola passa a ser o referencial mais importante para ajustar posicionamentos; depois há um conjunto enorme de sub-princípios relacionados com esta forma de abordagem que carecem de muito tempo para maturar (distancia entre jogadores, pressão sobre o portador da bola e adversário, coberturas, etc).
Ultrapassar os obstáculos carece de muito treino e paciência. Se calhar o exemplo dado por Menotti em determinada altura ajuda, e muito, a entender as vantagens e desvantagens de jogar “individual” ou jogar "zona"... “Uma casa estava guardada por 2 cães, ao ser assaltada um dos ladrões chamou a atenção dos cães e logo estes ”atacaram” o ladrão e perseguiram-no abandonando a casa, o outro ladrão entrou nela sem dificuldade. Numa outra casa que tinha dois cães “guardiões”, os ladrões utilizaram a mesma estratégia, os cães mostraram-se na mesma agressivos mas não largaram a porta da casa...

LE - Qual é, para si, a característica mais importante de um jogador de futebol moderno?

CC - Ontem hoje e amanhã... inteligência. O jogo de futebol é um exercício de inteligência. Não inteligência académica, mas sim inteligência na ação, em movimento... Lamento que muitos estejam a destruir a importância do talento e criatividade (associados à inteligência). Mas por muitas voltas que quiserem dar, os melhores, aqueles que marcam a diferença e fazem as pessoas irem aos estádios, serão sempre os mais talentosos. Não os que correm mais rápido ou que que saltam mais alto...

LE - Como é que conheceu o Lateral Esquerdo? Qual é a sua opinião sobre o blogue?

CC - Conheci o vosso blogue nas redes sociais. Parei um dia a ler um artigo e pensei... este tipo (ou tipos) jogaram futebol... fiquei um leitor assíduo pelo conhecimento específico do que analisam. Parabéns.

LE - Fantástico Mister Carvalhal! e para quem, como nós, quiser seguir o mister Carlos Carvalhal é só carregar aqui.

4 comentários:

Diogo Santos disse...

Mais uma grande entrevista e mais um grande trabalho. Parabéns

Ricardo Sala disse...

Excelente trabalho!

Já agora aproveito, e tendo em conta as palavras do Mister Carvalhal de como chegou ao blog e também do princípio do "Six degrees of separation"...alguém pode chegar este blog ao Mister Lopetegui por favor? Muito obrigado.

Saudações.

Rafael Antunes disse...

Boa!

É isso!!!!

Eu tive o privilégio de poder acompanhar uma semana de pre-época do Vitória de Setúbal, quando subiram à primeira liga sob o seu comando.

Ainda não estava preparado para perceber muitas das coisas que vi... Anos mais tarde, olho para apontamentos da época e fazem imenso sentido... :D

Obrigado mister, e boa sorte!

João Mendes disse...

No outro dia falava depois do jogo com um amigo meu em que a equipa que ele jogava tinha acabado de perder 3-0, com 3 golos de bola parada e ele dizia-me o 3º golo foi culpa minha, era eu que tinha de marcar aquele homem. Eu tentei explicar que naquela situação era praticamente impossível uma situação de hxh para aquele lance, e tentei-o fazer ver porquê.
Num jogo em que se quer cada vez mais colectivo é um contra-senso alguém pensar nas bolas defensivas hxh. Para além de ser muito mais fácil ultrapassar esse tipo de método defensivo a facilidade com que se pode responsabilizar um só elemento é muito grande para o que se quer um jogo colectivo.

O exemplo do mister Carvalhal não é o melhor, mas é um muito fácil de se perceber.

Quanto ao resto muito interessante esta entrevista, de um apaixonado do futebol.