terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Jorge Jesus sobre a era da organização.

Dizer que Jesus não sabe comunicar é não perceber nada de comunicação. Em quase todas as conferências de imprensa em que aparece dá informação relevante sobre futebol. Muito diferente das informações que o grande público ou os jornais procuram, fazendo a adoração dos discursos eloquentes pobres em conteúdo. Nos exercícios das suas funções como treinador de futebol Jesus é um comunicador exímio, e só não aprende com ele, sobre futebol, quem não quer.

Sobre a conferência de imprensa, uma discussão que tenho tido recentemente com outros treinadores mais próximos, onde defendo que o futebol caminha para a era da organização. Esta é a minha ideia, e pelos vistos, também a de Jesus. Ainda que algumas das pessoas com quem discuto (Ronaldinho, que é treinador comigo) não concordem com essa premissa. Digo-o, porque cada vez mais vejo as equipas abdicarem dos momentos de transição para decidir os lances, optando por uma abordagem de menos risco, com maior concentração de jogadores a atacar ou a defender. E isso permite, como Jesus explica bem, aquilo que acontece em modalidades como o Andebol ou o Basquetebol, organização ofensiva seguido de organização defensiva, seguido de organização ofensiva. Ou se quiserem, organização ofensiva - transição defensiva (para colocar o máximo de jogadores atrás da linha da bola e reduzir o espaço em que se defende) - organização defensiva - transição ofensiva (para equilibrar a equipa, abrir as linhas de passe, distribuir bem os jogadores no campo) - organização ofensiva. Nas equipas que observo isto não acontece sempre para quem recupera a bola, mas para quem a perde parece-me mais que evidente. Interessa defender com muitos atrás, o que vai fazer com que quem ataca o faça sempre em organização, construção, criação. O que vai exigir cada vez mais trabalho de qualidade, do ponto de vista ofensivo, aos treinadores do alto rendimento. Diga-se o trabalho mais difícil é esse - ter um jogo ofensivo de grande qualidade. Até aqui poucos se mostram verdadeiramente competentes nesse momento, talvez por não perceberem a evolução do jogo. Mas como Jesus diz há que evoluir, há que perceber a mudança no jogo, há que olhar para o que se anda a fazer noutros lados e reflectir sobre o que se passa.

Uma coisa é certa, os tempos de lançar onze jogadores para o campo de qualquer forma estão cada vez mais longe. E cada vez menos a incompetência técnica vai ser premiada. O futuro está aí, e quem o continuar a recusar vai continuar a cair.

11 comentários:

LGS disse...

Salvé Baggio,

"...o futebol caminha para a era da organização. Esta é a minha ideia, e pelos vistos, também a de Jesus. Ainda que algumas das pessoas com quem discuto (Ronaldinho, que é treinador comigo) não concordem com essa premissa."

Não concordando com a tua premissa, fiquei curioso: qual é a opinião do Ronaldinho?


PS: Que é feito dele que nunca mais o vimos por cá?

Roberto Baggio disse...

Eu percebo o queres dizer mas isso nao é estanque, porque equipas que baixam as linhas gostam de aproveitar o contra ataque e isso provoca transicoes porque quando a outra equipa recuperar vai querer aproveitar o espaço que nao tem tido e uma coisa puxa a outra
Para nao falar dos mauricios que sempre que tem a bola aumentam a probabilidade de transicao em 1000%

Em linhas gerias é isto...

João disse...

Baggio,

Talvez não seja a melhor pessoa para discutir isto ao pormenor, mas saber comunicar pode não ser o que estás a dizer: "Em quase todas as conferências de imprensa em que aparece dá informação relevante sobre futebol".

Saber comunicar - depreendendo que objectivo seja passar para o grande público as ideias gerais do jogo - suponho que seja saber dizer isso de forma perceptível para esse mesmo grande público.

A mesma coisa interessante pode ser bem ou mal comunicada. Acho eu.

E dentro desta minha opinião, penso que o JJ não exímio nesse ponto, embora não seja mau quanto se diga. Não é por falar mau português, é por conseguir passar ou não a mensagem.

Agora, comunicar para o grande público pelos media também é diferente de comunicar com os jogadores e equipa... pelos vistos aí, atinge níveis muito bons (pelo menos no jogo em si).

J. Saro

Blog de Portugal disse...

Este é um debate super interessante.

Por um lado, compreendo as declarações do JJ, e tenho que respeitar, dada a pessoa que fala.

Por outro lado, as transições continuam a ser os momentos (com as BP) em que há mais golos.

Vendo o futebol como um confronto de dois sistemas (quando não surge um terceiro xD), apesar do que o adversário faz ser sempre importante e condicionar o jogo, não será que a própria mentalidade das equipas grandes leva a isso? Por vezes alguma sobrevalorização de manter a posse, sair da pressão em segurança, e assim permitindo que o adversário se reorganize com as linhas atrás da bola.

Aliás, relaciona-se mesmo com uma dúvida muito forte que tenho. Em que preferem apostar:

1 - Passe seguro, com 90% de hipóteses de manter a bola, e apesar de todos os passes poderem ser importantes, não leva a desequilíbrios.

2 - Passe algo arriscado, com 40/50% de hipóteses de manter a bola, mas se for bem-sucedido cria grandes desequilíbrios no adversário.

Vejo esta dúvida dentro do que é a tomada de decisão, mas pode enquadrar-se facilmente no que pode ser a saída rápida em direção à baliza adversária na transição ofensiva.

Roberto Baggio disse...

J.Saro, "suponho que seja saber dizer isso de forma perceptível para esse mesmo grande público."

É o que ele faz. Só que ele, ou outro qualquer, não podem perder 5 minutos a responder a cada pergunta. Como digo, um gajo que tu ouves, e aprendes quase a cada conferência, nunca na vida é um mau comunicador. Muito pelo contrário. Ele não tem que ser poeta, tem que passar a mensagem.

Blog, sim é interessante. E por isso coloquei ali, que mesmo n sendo verdade para quem recupera a bola, quem n a tem tende a baixar logo, tirar espaço nas costas, meter mtos atrás. O que impossibilita uma transição ofensiva (directa) de qualidade. E isso faz com que a equipa saia mais vezes em organização do que o que se podia prever.

G. Fabrinni disse...

Roberto Baggio,
Já há muito tempo que tenho vindo a observar essa questão. Fui jogador de andebol muitos anos, mas sempre tive uma paixão maior pelo futebol, o que faz com que muitas vezes tente aplicar as ideias de criação do andebol no futeblo. Tudo isto pode parecer muito surreal, mas na minha cabeça faz sentido. Acho que um jogador de andebol tem muito mais capacidade de poder observar e aproveitar os espaços. Muitas vezes quando vejo um jogo vejo muitas situações de jogo que eu, se tivesse a qualidade técnica que um jogador de futebol tem com os pés conseguiria resolver facilmente. Imagino que possas nao ter muito conhecimento sobre andebol, ou secalhar até tens, nao sei mesmo, mas o que quero dizer com isto é que o jogo ofensivo de andebol, basei-se no máximo aproveitamento dos espaços, visto que o espaço é muito menor e todos os jogadores da equipa contrária estão a trás da linha da bola, obriga-nos a jogar sempre de cabeça levantada e a observar constantemente o jogo. O jogo passa todo por atacar o espaço, fixar o defesa e passar, até que consigamos por um colega de equipa na cara do guarda-redes, que é o que deve de acontecer no futebol e que facilita a finalização e que muitos jogadores profissionais não têm capacidade para fazer, verificando jogo sim jogo sim deciões horriveis, que vocês até costumam publicar aqui no bloque, em que muitas vezes basta atacar o defesa, fixar e passar, eleminando obstaculos e criando superioridade numerica. O que a maior parte dos jogadores de futebol não têm capacidade para fazer.
Não sei se vês jogos de andebol ou não, mas caso nao vejas, defio-te a ver um joguinho e observares essas questões.eheh Abraço ;)

G. Fabrinni disse...

Nos links em baixo alguns exemplos do que falava. Atrair, fixar e soltar.

https://www.youtube.com/watch?v=zcIuEOCRWok


https://www.youtube.com/watch?v=xz-0izp7FD4

Roberto Baggio disse...

O meu pensamento é exactamente esse Fabrinni.. Defender contra muitos, espaços curtos, perceber que espaços atacar. Circular até encontrar o momento certo para atacar.

Já vi vários jogos de Andebol. Não tenho visto ultimamente. Mas, vou tentar ver nos próximos meses.

Abraço

Blog de Portugal disse...

Eu joguei algumas vezes andebol, e tive já um grande professor dessa modalidade.

Entendo que seja mais fácil resolver as situações do futebol nesse sentido, pois são muito similares às do futebol, de atrair, fixar e soltar.

Mas no andebol a preocupação e a concentração necessária para dispender para receber a bola é muito mais pequena que no futebol.
Mesmo os de TOP têm que "gastar" alguma concentração para receber a bola, é impossível descentralizar a atenção muito dela.

No andebol essa descentralização pode ser bem maior, pois é tremendamente mais fácil receber a bola, dado que a mão e sobretudo os dedos são as partes do corpo com maior motricidade fina.

Roberto Baggio disse...

Blog, de acordo... e sobretudo pq no futebol a bola nca está realmente controlado, certo?

Blog de Portugal disse...

Sim, claro. Nas modalidades com as mãos não se pode ir lá tirar a bola em quase todas as situações. No futebol pode-se.

E estando a bola na mão, nunca vi um jogador profissional a deixá-la soltar por falha técnica. No futebol um controlo tão seguro só acontece em algumas situações.