quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

«Ninguém me defende»

Declaração do mister Conceição numa das suas já famosas conferências de imprensa. Mas Sérgio, nem tu te defendes. Depois da miséria que foi a organização ofensiva e transição defensiva de uma equipa que jogava com mais dois elementos em campo, vir dizer que se não fosse Hélton o resultado tinha sido histórico, é no mínimo hilariante. Depois de infinitos cruzamentos, seguidos pela regra do água mole em pedra dura, com toda equipa do Porto a defender na área (como se impunha), tanto deu que não furou. É o cúmulo da falta de criatividade colectiva, da falta de treino de princípios ofensivos de qualidade, para quando a equipa se veja obrigada a assumir o jogo - contra adversários de menor valia individual e contra equipas em inferioridade numérica. A culpa normalmente é do árbitro, e hoje do Hélton, quando tudo o que se limitou a fazer foi facilitar a vida ao Gr do Porto, que sem dúvida fez uma boa exibição. Independentemente da sua mais valia individual, o Porto com 9 ter conseguido duas saídas em transição que acabaram na área do Braga, diz muito do que é a equipa em organização ofensiva. Que tal falar menos nos árbitros e trabalhar a equipa com princípios de maior valia? Queremos atacar pelos corredores, certo? Então vamos lá encontrar uma forma diferente de desequilibrar aí, sem ser o pontapé para dentro do galinheiro sem critério... Vamos tentar ser um pouco mais imprevisíveis, por forma a deixar o adversário um pouco mais desconfortável no jogo. Isso exige trabalho, exige muito treino, muita repetição, novos condicionalismos, evolução.

Posicionamento inicial
O nome do exercício de treino é zonas de atracção. O objectivo é trabalhar o ataque posicional em superioridade numérica, por forma a levar o adversário a fazer movimentos que nos vão servir como referência para acelerar, pelos corredores. Dura 40 minutos. O critério de êxito é o número de entradas com a bola controlada dentro da grande área - 10x8+GR. A equipa em superioridade deve procurar colocar 4 jogadores dentro do bloco adversário, por forma a cumprir com o objectivo de atrair o adversário para determinadas zonas. Deve manter dois jogadores constantemente largos pelos mesmos motivos. Atrás da linha da bola, o portador da bola, e os dois centrais. No total, 4 jogadores posicionados atrás da primeira linha de pressão do adversário, para garantir uma transição defensiva mais segura. A equipa em superioridade não tem Guarda-Redes para garantir pressão na bola assim que se perde, uma vez que o adversário pode fazer golo de qualquer posição do campo. A equipa em inferioridade defende, de forma zonal, tentando colocar pressão no portador da bola, apenas quando ele se aproxima do local onde o bloco está posicionado. Quando recupera a bola tenta fazer golo. É preciso muita atenção ao marcadores, para que a equipa não perca a paciência e só acelere quando as referências aparecerem. Fazer mover o adversário, e aproveitar esse movimento para atacar pelos corredores laterais.

O principio é provocar a saída de elementos da linha defensiva. Para isso deve-se jogar a bola dentro do bloco adversário. O portador da bola escolhe por onde circular, e quando alguém se sentir confortável para jogar entre-sectores joga. O exemplo é o nr10, mas pode servir para qualquer outro. Se não houver espaços entre os jogadores, conduz para fixar um elemento da primeira linha, e solta no espaço que ficou livre.
Se tiver espaço/tempo para enquadrar, enquadra. Conduz, fixa o lateral e solta no jogador a entrar por fora. Um ataca o primeiro poste, outro o segundo poste. O jogador que executa coloca-se para um passe atrasado. Lateral do lado da bola em cobertura. Lateral do lado contrário entra na área para o caso da bola sair mais longa. Um dos médios fora do bloco aproxima. Ficam 3 atrás.
Se quem recebe dentro do bloco é pressionado pelo central, 11 faz movimento de ruptura nas costas do lateral para atrair a sua atenção, e depois posiciona-se para receber passe atrasado.. Lateral do lado da bola entra na área para receber a bola nas costas da linha defensiva. Quem entrega no apoio frontal posiciona-se para receber um passe atrasado. Lateral do lado contrário entra na área para uma bola que seja mais longa. médio que faz o passe aproximada zona da bola. Ficam 3 atrás.
Se for o lateral a pressionar, 11 mantém posicionamento porque pode receber bola. Lateral do lado da bola aproxima da área para receber passe em profundidade. Se a bola entra no 3, tudo igual à situação anterior. Se a bola entra no 11, 3 posiciona-se na cobertura.
Colocar a bola no lateral no pé, e lateral conduz para a linha de fundo, por forma a movimentar o bloco para dentro da área. Quando conseguir que o adversário esteja dentro da área, toca numa das coberturas, para que fique alguém enquadrado com a baliza, de frente para o bloco adversário. Dois jogadores dentro da área, outros ficam como se fossem receber um passe atrasado.
Mal consiga enquadrar alguém, aproveitar o movimento da defesa que sobe e colocar a bola na profundidade de jogadores que surgem de uma linha atrasada (11-10-8-2).
A diferença entre isto e o cruzamento para a área é a dificuldade que causa a quem defende. Se com o cruzamento simples apanha-se na maior parte do tempo o adversário posicionado no sítio certo e de forma adequada para atacar o lance de frente, desta forma tenta-se fazer por explorar a pouca profundidade que ainda resta, colocando a bola nas costas da defesa, causando maior desconforto a quem defende por quase nunca conseguir atacar a bola de frente, ou conseguindo-o fazer estar sempre no movimento contrário ao da bola.

21 comentários:

Honoris disse...

Grandeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee post, é só o que tenho a dizer xD

B Cool disse...

E a dúvida persiste...

Que anda uma cambada de pedreiros a fazer nos bancos dos clubes da primeira liga ?

É raro o jogo em que nos limitamos a ver cruzamentos sob cruzamentos em caso de superioridade numérica, ainda para mais se tiverem um pinheiro. Desde o treinador da moda, aos caídos em desgraça, mas também a nível internacional vimos muito isso, ainda no fim de semana, vi o Milan a chegar perto da área e pumba lá para cima. Em Inglaterra é o pão nosso de cada dia...

Será que este tipo de treino é assim tão complicado de operacionalizar ? Ou será que os treinadores são mesmo só sapateiros ?

Rafael Antunes disse...

Sem querer ser pretensioso, acho que é o ciclo vicioso que está instalado.

O ex jogador de sucesso (e alguns com menos sucesso), que é treinador porque é o que vem a seguir... Porque tem muita "experiência", porque conhece "toda" a gente... e depois, vai lá para dentro e faz o que viu fazer, o que fizeram com ele...se resultou, porque não há de resultar agora?

Somado à falta de conhecimento do jogo por parte de quem manda, falta de visão, falta de cultura desportiva, em suma falta de competência...

Aliado à valorização que o comum adepto faz do jogo... Quem corre mais, bate mais é que é bom... Organização, princípios? bah

Isto tudo misturado faz o terreno perfeito para senhores como o visado no post, deixei-me dizer, dolorosamente simples e objectivo.

martin vazquez disse...

dos minutos que eu vi, so alan tentou jogar por dentro e pensar diferente. revela tb a inteligência e entendimento do jogo da maioria dos jogadores

HUGO disse...

Podemos dizer que pelo menos a 1ª|2ª fase de construção de jogo são minimamente trabalhadas?
ex:
[https://www.facebook.com/video.php?v=873697102681758&set=vb.165775606807248&type=2&theater]

E que na criação de situações de finalização, com a "intensidade" e "desorganização" que o jogo tomou, a falta de criatividade é «colectiva» ou mais das «individualidades» como consequência óbvia?


"No ataque dependes muito mais do «TALENTO/criatividade ind.» enquanto na organização defensiva de «VONTADE/org.» ~Biesla

GBC disse...

E é uma pena, com tantos jogadores com qualidade no plantel...

R.B. NorTør disse...

Mais uma vez um grande obrigado por um post de qualidade superior. Por estar ocupado com as minhas cores em Moreira de Cónegos, só vi os últimos instantes do Braga-Porto e se ao fim de 10 minutos os comentadores da TVI não mencionam que o Porto estava com menos 2 em campo eu nunca teria adivinhado, tal o equilíbrio da partida.

O Braga ontem devia ter aplicado uma tareia épica ao Porto e como vocês explicam, apenas se pode queixar de si mesmo por não o ter conseguido.

E Éder é o tipo de ponta de lança que faz com que eu e os meus 40 quilos a mais pensemos que ainda podemos ser jogadores de futebol...

Pedro disse...

Apetecia-me ser mauzinho mas não vou ser.
:)

A verdade é que ainda há malta que se refugia no argumento "se eles são treinadores profissionais é pq sabem mais do que tu" (e variantes do mesmo) apesar de existirem n exemplos de que apesar de serem treinadores profissionais percebem muito pouco do assunto.

DC disse...

O Hélton parecia que estava no aquecimento. Só valia remates de longe ou de cabeça. Incrível a incompetência deste gajo, é só cruzar e cruzar.

Artur Semedo disse...

disse ontem, e reafirmo: depois do que sucedeu ontem, se o conceição tivesse vergonha, demitir-se-ia!

Carlos Paixão disse...

Na nossa liga quais sao os treinadores entusiasmantes? Muito poucos.. Quantos treinadores a nivel mundial entusiasmam? Poucos... Simeone, Mourinho(quando precisa defender), Luis Henrique, Van Gall so para sitar alguns sao pouco atrativos para os adeptos que gostam de futebol bonito.. cada vez mais acho que é necessario alguns revolucionarios para dar cabo disto tudo..

Ps: Imaginem JJ, com Busquet a fazer de Javi, Iniesta de Ramires, Neymar de Di Maria, Xavi/Rakitic de Aimar e na frente com Suarez e MESSI.. (Pedro na direita a fazer de coentrao..) isso sim levava malta a delirio!!!

Fernando Antunes disse...

Mestres da táctica em blogues há muitos. É só géniozinhos.. Não sei de que jogo estão a falar. No de ontem vi uma equipa que teve NO MÍNIMO 6 ou 7 ocasiões flagrantes, e fez um total de 30 remates. O Braga no onze inicial só tinha 3 dos habituais titulares, e é óbvio que numa equipa que não é grande, as opções não abundam. Não imagino um Agra ou um P. Santos num Porto ou no Benfica porque são jogadores limitados. O Braga sem Tiba e sem Pardo perde muito da sua capacidade ofensiva. Mas acho que o Conceição devia ter aproveitado para lançar jovens ou Bês porque o Braga mesmo ganhando hoje seria eliminado na última jornada, pois o Porto marcaria sempre os golos que fossem precisos contra a Académica na última jornada do grupo, de maneira que este jogo já nem era decisivo

Paolo Maldini disse...

eh lá...isto é tipo aquele sketch do gato fedorento em que chamam o Fernando...?

joao oliveira disse...

Não vi este jogo, mas vi o do Moreirense - Benfica, e gostava muito que fizessem uma análise a esse jogo... é que, como tinha dito em comentário ao post sobre Miguel Leal, este treinador deixou-me muito curioso a partir do momento em que vi a reportagem sobre ele que aqui colocaram. Claro que ontem, obrigado a ganhar ao Benfica as coisas não eram fáceis dada a diferença entre planteis, mas pareceu-me uma equipa realmente muitíssimo bem organizada. (espero que não achem isto uma asneira - eu sou mesmo apenas um curioso da bola) Enfim, gostava de uma análise vossa ao jogo do Moreirense e ao trabalho do Miguel Leal, mas isto é um pedido que, como é obvio, compreendo que não achem interessante ou não estejam para aí virados... Caso não achem que mereça um post, umas breves palavras nesta caixa de comentários já me dava especial prazer. Parabéns pelo blog.

Roberto Baggio disse...

fdc, uma equipa da mesma divisão que outra a jogar com + 2 e não lhe consiga espetar em 45 minutos 3 ou 4 golos tem de ser uma equipa muito incompetente. Mas muito mesmo! E está aí bem explicado o porquê. "Parecia o aquecimento dos GRs, só valiam cruzamentos e remates de longe".

Roberto Baggio disse...

Mágico, "Apetecia-me ser mauzinho mas não vou ser."

lança aí a discussão.

João, não vai ser possível analisar o Moreirense. O tempo é pouco. Nem vi o jogo do Benfica. Mas sim, Miguel Leal organiza bem a equipa para jogar zona, do pto de vista. Do pto de vista ofensivo ainda não vi grande coisa, talvez pela falta de qualidade individual.

Daniel Martins disse...

Em 45 minutos e com 2 jogadores a mais, o Braga teve "6 ou 7" ocasiões de golo. Com um treinador a sério tinha criado 20.

Carlos Paixão disse...

Imaginem um treino de 45 minutos, em que tens 10 jogadores a atacar duas linhas de 4.. e passado 45 minutos os 10 gajos nao marcavam nenhum golo.. e so conseguiam fazer 6 remates???...

Era uma apitadela e acabava logo com o treino!!!

José Moreira disse...

Isto fez-me lembrar o jogo do Valencia no fds passado... A diferença é que o Almeria não estava com 9 e o seu GR não conseguiu parar o cabeceamento do Negredo... Era ver o Gaya e o Cancelo a cruzarem de qualquer zona... É que nem procuravam, pelo menos, a linha... O Cancelo então era maravilhoso, recebia e bola e toma lá, bola para a area. Não meteu um passe interior que fosse, não fez um 2x1 sequer, nada, apenas despejou bolas lá pa dentro... Depois a imprensa tuga, ainda é capaz de escrever: "cancelo brilha em vitória do valencia"...

A imprensa também é muito responsavel pela criação destes mitos urbanos de que A ou B é "munta forte" ;)

Olhos na Bola disse...

Realmente este Braga está mais confortável a jogar em transições do que em ataque prganizado. Mas o que dizer do resultado avolumado contra o Belenenses? Onde quero chegar é que foi muito mais mérito da organização defensiva do Porto, do que demérito ofensivo do Braga. O chuveirinho é uma tendência nervosa do golo não aparecer e de jogadores que não estão mentalmente preparados para ser exigida a vitoria.

Baresi disse...

Ter o Luiz Carlos a decidir todas as jogadas de ataque do Braga também não ajudou em nada.
Não se percebe porque a jogar contra 9 não tirou logo um central e lançou o Eder em campo, nem que fosse ao intervalo.
Ficavam os centrais a trocar a bola e a marcar... Ng... Quando podiam ter mais um jogador dentro do bloco para ganharem superioridade numérica.
Foi um triste espetáculo de como não se deve atacar.
Ah, e se calhar percebeu se a razão do porquê de JJ querer ter levado Alan para o Benfica.