sábado, 10 de janeiro de 2015

"O Talisca tem qualidade técnica. O resto sou eu que tenho de lhe ensinar" Jorge Jesus

Faz lembrar alguma coisa a declaração do treinador do SL Benfica?

Ainda o post da passada quinta feira. 

"O controlo do treinador. Jogadores que cresceram na frente a jogar atrás. E porque há pouco do contrário.

Jorge Jesus nunca transformou um jogador defensivo em ofensivo. Fez sempre o contrário [...] reparem que quando questionado sobre o sucessor de Enzo, Jesus falou de Pizzi, de Talisca e de João Teixeira mas nunca referiu Samaris" Carlos Daniel.

Quase tudo o que o treinador controla refere-se ao trabalho sem bola dos seus jogadores. E por sem bola, inclui-se naturalmente qualquer momento ofensivo, também. A um nível elevado, os ganhos técnicos são praticamente nulos e não é nada fácil alterar a tomada de decisão dos atletas. Ainda que dentro de um modelo de jogo seja possível condicioná-los a procurar mais vezes umas opções que outras em situações que se repetem. Por exemplo: "nesta situação prefiro que procures tabelar com o avançado e não que esperes a desmarcação das costas do lateral para jogar com eles").

Ou seja é fácil mexer com os comportamentos sem bola ("movimentas-te assim... estás aqui com bola ali... Baixas quando a bola entra ali... tu dás linha de passe à esquerda aqui, e ele à direita... etc"), e muito difícil mudar tudo o que envolve a parte técnica e decisão com bola.

É por isso que tantas vezes extremos dão melhores laterais que os próprios jogadores que cresceram como laterais. Por norma, desde bem cedo os jogadores mais aptos tecnicamente e até fisicamente (velocidade) são colocados em posições avançadas. Ou seja, naquilo que o treinador não consegue controlar, o jogador é melhor (tecnicamente / fisícamente) que o(s) colega(s) de uma posição recuada. Porque o comportamento táctico é muito mais fácil de alterar. Não é assim tão complicado pegar em quem tem a base que não dá para tocar, e ensinar, rotinar, treinar, alterando a posição do atleta, e naturalmente que aprendendo a parte que dá para tocar (táctica), dará sempre um jogador melhor que outro menos apto tecnicamente e fisicamente. 

Esta é a principal razão pelo qual a afirmação de Carlos Daniel é totalmente verdadeira. Para Jesus e para qualquer outro treinador. Ao contrário, todavia, da imagem que talvez se possa querer passar, não é porque Jesus ou qualquer outro treinador domina melhor a parte defensiva que a ofensiva. É porque os jogadores que adapta a posições mais defensivas têm boas características naquilo que não é possível de alterar (sobretudo a variável técnica). E no que é possível, o treinador tem ferramentas para o fazer evoluir. 

Um exemplo seria imaginar uma adaptação de qualquer defesa do SL Benfica para que pudesse jogar num sector mais avançado. Seria possível? Obviamente que não. E não tem a ver com as capacidades de qualquer treinador. Nenhum tem qualidade técnica / decisão para poder ter qualidade suficiente para jogar onde tem de fazer a diferença nesses campos. E essas são as variáveis que não são possíveis alterar. O treinador até poderá ter o condão de tornar o atleta muito forte ofensivamente sem bola, mas no final do dia, se a relação com esta e a criatividade for diminuta, não será por estar onde deve estar que terá impacto ofensivamente.

E esta é a razão pela qual Jesus e qualquer outro treinador conseguem muito mais facilmente adaptar jogadores que cresceram em posições mais ofensivas em jogadores que ocupem posições mais recuadas no campo de jogo. Tem tudo a ver com o que é possível de alterar nas capacidades dos atletas e não com os conhecimentos que os treinadores têm do jogo. 

P.S. - É claro que se Messi tivesse nascido como defesa seria muito fácil adaptá-lo a uma posição mais ofensiva. Contudo, nenhum, ou pouquíssimos talentos extraordinários (perceptível na decisão com bola, capacidade técnica e capacidades condicionais) cresceram como defesas. Esses são desde bem cedo colocados a jogar do meio campo para a frente."

Esquecendo a forma, poucos no mundo do futebol têm a vontade e ou capacidade para (tentar) ensinar sobre o seu ofício como Jorge Jesus. As suas conferências acabam por fugir sempre à vulgaridade, no que se refere ao conteúdo. Soubessem aproveitá-lo mais nas questões que colocam e todo o público teria mais a perceber do jogo que ama.

8 comentários:

Roberto Baggio disse...

"Têm que perceber que por vezes algum ou outro jogador perde uma bola, uma jogada que não sai tão bem, e isso é normal. Nem o Pelé, nem o Eusébio. Todos falhavam. Não falhavam era tantos. É uma equipa em crescimento"

Depois de ter dito que Ola John foi o melhor em Penafiel, continua a defender os jogadores... Muito bom... Como defendeu Lima em tempos quando se dizia que não marcava golos. Ainda se diz por aí, que é fraquito na gestão do grupo, que é fraquito na liderança, que é fraquito na parte mental.

Frente Negra disse...

V.Kulkov chegou ao Benfica como defesa central e afirmou-se como médio centro

Paolo Maldini disse...

Kulkov tinha uma qualidade técnica e uma inteligencia fora do normal. dos melhores trincos que vi jogar...

nuno leão disse...

A questão que punha agora era esta:
Como em seniores a componente táctica é passível de ser trabalhada e até alterada radicalmente, não faz muito mais sentido na formação privilegiar a evolução técnica e deixar as componentes tácticas para mais tarde?
Quando digo componente tácticas, refiro me ao jogo de 11, porque jogos curtos de 3x3 e 5x5 além da técnica também podem potencializar conceitos tácticos (como passa e corta, desmarcações, equilíbrios e mesmo a marcação à zona)

Paolo Maldini disse...

Nuno, na minha opinião todo o processo de treino deve ser pensado para promover mta mta mta repetição daquilo que queres. Regra geral esses jogos reduzidos fazem todo o sentido.

Imagina um miúdo cujo treinador faça sp 11x11 no treino. Treinos de uma hora. 3 treinos semana. No final da semana quantos toques deu na bola? Para treinar assim, mais vale ficar em casa a chutar à parede.

Hélder disse...

Treinos de 11x11 ainda fazem menos sentido em equipas pequenas,as infelizmente não são assim tão raros.

Tenho um amigo numa equipa de fundo da tabela da 2ª b, que do que um dia por semana é treino 11x11 titulares vs suplentes. Tem sempre facilidade nesse treino, porque muitas vezes joga contra juniores, mas depois chega ao jogo e é correr atrás dela. O gajo acaba por ter dois dias de treino e um a desaprender

JD disse...

"Soubessem aproveitá-lo mais nas questões que colocam e todo o público teria mais a perceber do jogo que ama."

Completamente de acordo, Jorge Jesus pode não ser um grande comunicador mas está sempre disposto a falar sobre os aspectos "técnico-táticos" do jogo (ao contrário de outros treinadores que não mandam as calinadas dele mas vão para as conferências de imprensa encher chouriços).
Infelizmente a comunicação social ainda não se apercebeu que também há muito público para conteúdos de qualidade (como os que se encontram neste blog) e só fazem perguntas sobre polémicas e banalidades.

Parabéns pelo bom trabalho.

Pedro Meneses disse...

Quando o ouvi a dizê-lo em directo, pensei em vocês. Obrigado por partilharem as vossas reflexões.
Estas declarações são pérolas a porcos. Os jornalistas desportivos preferem o discurso oco e os mind games da treta. É o que entendem, ou seja, nada. Nesta conferência de imprensa, perguntaram ao JJ: "como se sente depois de vencer um adversário directo?". E o JJ teve sangue frio para lhes responder com educação: "o Guimarães é uma equipa excelente, mas não é adversário directo do Benfica." E continuou: "só há umas cinco ou seis equipas boas, as outras...". Hesitou aqui, perdeu-se, para não se descontrolar. E para não dizer a verdade, que o politicamente correcto não tolera, acrescentou: "as outras não estão tão bem como no ano passado". Não disse que o campeonato português é muito fraco, o que quereria ter dito, para não ofender os jornalistas (patrioteiros, pois claro) que estavam na sala. Se dissesse a verdade, malhavam nele até ao fim do campeonato, e muitos benfiquistas iriam atrás. Enfim: vulgar no JJ é apenas o léxico, já nos jornalistas é tudo, apesar do léxico.