quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A pausa e o limitar o número de toques na bola

Num post relativamente recente, que falava dos melhores jogadores da Liga, o titulo era "Jonas, Nani e Óliver têm pausa". Não sabendo se por vós foi percebido o alcance da afirmação, ainda que já se tenha falado disso bastantes vezes neste espaço, segue aqui uma breve explicação. A pausa refere-se sobretudo à capacidade para temporizar, para tomar decisões correctas no timing certo. Por não se desfazerem da bola porque sim, mas somente no momento e para o espaço ideal. Enfim, a pausa, esta pausa é a marca dos melhores. Dos que jogam o que o jogo dá, não o tendo decorado. As suas acções não surgem porque sim, mas porque aproximam sempre a sua equipa do sucesso. Têm ideias. 

E as ideias são tudo. São as ideias, as boas, as que permitem chegar com mais qualidade à zona de finalização. Há não muito por algumas limitações no número de atletas tive de participar num exercício / jogo. Depois de fazer determinado passe perguntei a quem tinha recebido a bola "sabes o que é um passe com sugestão?" "Não" "Viste como te passei a bola? Podia ter metido no teu pé. Porque meti ali?" "Ah, porque querias que eu depois jogasse onde acabei por o fazer?" "Claro..."

Sempre me fez imensa confusão, e sempre discordei de uma prática que é/era corrente. A dos treinadores limitarem o número de toques a cada jogador da sua equipa. Consigo perceber que em determinadas situações tal ajudará o atleta a decidir melhor. Todavia noutras não. Portanto se lhe limito o número de toques, por vezes (nas vezes em que é preciso soltar mais rápido) tal poderá ajudá-lo, noutras (nas vezes em que é necessário guardar a bola, ou progredir com ela) vai prejudicar-lhe a decisão. E como tal, sempre me pareceu que tal regra era despropositada, e que o caminho nesse campo teria de passar muito mais pelo feedback do que propriamente por regras que desvirtuam a melhor decisão. Neste caso, além de desvirtuar a decisão, ainda condiciona a criatividade. Mata as ideias.

Isto tudo a propósito da genialidade do melhor de sempre, a que se seguiu um texto também genial no Entre Dez.

"A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer."


7 comentários:

YayayaToure disse...

Muito bom post. Concordo com tudo na íntegra, exceptuando com as ultimas 3 ou 4 linhas. No nível abstracto aquilo que o Messi fez nao parece ser nada de extraordinário. Qualquer jogador razoavelmente hábil e veloz a executar parece capaz de replicar o lance. Mas naquele contexto competitivo específico contaria pelos dedos das mãos os jogadores que fossem capaz de executar aquela mesma jogada com a eficácia do argentino (hazard, Iniesta..). Sinceramente parece-me mais uma das inumeras golpadas de génio do astro argentino, do que propriamente um lance capaz de ser reproduzido por jogador comum.

De resto, excelente post mais uma vez! Congratz!

Só tenho mais uma questao/duvida. Nao sei até que ponto é que a inexistencia da limitaçao de toques na bola por jogador será uma vantagem. Concordo com os prós e contras associados a essa decisao de nao limitar o contacto com a bola. DE qualquer modo nao acham que ha certos jogadores que tem algumas dificuldades cognitivas, que serao sempre fortissimos entraves ao entendimento do jogo como voces defendem (e no qual eu me revejo)? Acham que um simples feedback fará com que um jogador que abuse de lances individuais utilize esse numero de toques ilimitados na bola para tomar as melhores decisoes em prol do colectivo?

Dipeca disse...

Olá, excelentes posts, tanto aqui como no Entredez.
Concordo com tudo e posso dar-vos um exemplo do que me aconteceu este ano (1º ano a treinar, iniciados).
Tenho um jogador, que é claramente o mais criativo, é aquele que encontra mais facilmente linhas de passe, temporiza e dá quase sempre no momento certo e em exercícios de 1x1 é o melhor da equipa. Mas ele, demasiadas vezes embrulha-se, e perde-se em fintas em zonas proibidas, ou seja, não sabe proteger a bola, faz fintas que nos treinos funcionam e nos jogos ao ter adversários melhores perde a bola, além de ter alguma sede de notoriedade. Então num treino, num exercício decidi aplicar o "máximo 2 toques(com 1 de margem para más receções, recuperações de bola etc)". Foi a primeira e última vez que usei isso. Deturpa demasiado ensino dos conceitos que venho ensinando como fixa e solta, progride se tem espaço etc etc.. Vejo demasiadas desvantagens na aplicação de limitação de toques, pelo menos na idade deles. Ainda não consegui encontrar a forma de corrigir o miúdo, mas a limitação de toques não são a solução de certeza.

Andre Lopes disse...

Dipeca - Eu dividiria o campo em duas zonas. Primeira zona objectivo jogar em segurança, penalizações para passes falhados, perdas de bola ou passes à queima. Segunda zona princípios de progressão, fixar/soltar e procurar espaço.
Isto, claro, ideias muito gerais, pois dentro disto muitos exercícios diferentes se poderiam fazer. Mas meter-lhe na cabeça que em determinados sítios jogar em segurança, para mais à frente então procurar soluções colectivas para ruptura. Limitar toques também não concordo.

Hugo Souto disse...

Se uma imagem vale mais que mil palavras este vídeo vale mais que qualquer testamento que eu possa vir a dizer!

https://www.youtube.com/watch?v=3BfhlqBRxLE

Dipeca disse...

Obrigado Andre Lopes

Nuno disse...

Não podia deixar de concordar, claro. Limitar o número de toques pressupõe que, quanto menos toques se der, mais fluido o jogo é, e isso simplesmente não é verdade.

LR disse...

Grande artigo.
Baseando-me apenas na prática (nunca li esta teoria defendida por ng), creio que a limitação dos toques na bola em exercicios de posse não procura (só) melhorar a tomada de decisão do portador, e acelerar a circulação, entendo que essa variável é adicionada para comprometer os colegas do portador. Sabendo que só podem ser dados 2/3 toques, as coberturas, desmarcações, apoios frontais vão ter que estar sempre em alerta e aptos para dar linhas de passe. Resumindo, nesse hipotético exercicio exige-se mais de quem está sem bola do que com ela.
Cumpts