quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O que seria de Mourinho e Guardiola?

Todos sonhamos ser Mourinho e Guardiola. Todos sonhamos jogar e vencer a Liga dos Campeões. Todos sonhamos conseguir grandes feitos, no futebol, e ver reconhecida capacidade dentro do desporto que amamos. Mas quem seria Mourinho, e Guardiola, sem jogadores com capacidade para executar aquilo que eles pedem? O que seria de Mourinho, e Guardiola, sem jogadores?

Parece-me lógico que, os jogadores que estou a formar agora - entre os 10 e os 19, no meu caso - poderão ser meus jogadores no futuro, quando forem seniores. E sendo que essa possibilidade não é tão irreal, nem está tão longe quanto isso, o que será de mim quando a avaliação das minhas competências estiver na qualidade dos pés e da cabeça dos jogadores que formei? O que será de mim, se na fase onde poderia ter ajudado os jogadores a serem mais competentes, pensei no que não era importante naquela altura e apenas em ajudar-me a mim mesmo? Se na altura em que eles mais aprendem eu nada lhes ensinei, como é que vou ser reconhecido quando no final são eles que jogam, que pensam, que defendem, que passam, que marcam? Por esse caminho nunca conseguirei ser Mourinho ou Guardiola. Não o conseguirei porque na fase fundamental da minha afirmação como treinador de futebol os jogadores vão dar-me o que lhes dei em tempos, na fase fundamental da afirmação deles como jogadores: muito pouco, ou nada. Não vou ter jogadores capazes de executar as minhas ideias para o jogo, e rapidamente irei cair para fora do mundo que tanto me apaixona, por não ter formado jogadores para me servirem no futuro.

O meu futuro está nas minhas mãos. Ou melhor, na minha cabeça. Se tiver cabeça para perceber que é importante dar aos jogadores primeiro para receber depois. Larguem os quadros tácticos e as frases feitas, parem de tomar decisões pelos jogadores, ensinem-os a jogar futebol como o futebol é. Ensinem-lhes o jogo, e respeitem a individualidade para que no futuro elas respeitem o colectivo. Parem de se queixar da falta que faz o Futebol de Rua se no treino não fazem o melhor para que o volume na relação com a bola seja maximizado. Criem o contexto e deixem o jogador escolher o seu caminho, descobrir o seu sucesso. Incentivem a criatividade, o pensamento livre, e respeitem as crianças mais rebeldes porque os meninos não são todos iguais. Formem jogadores atrevidos com fome de conhecimento e sede de evolução. Larguem o futebol sem bola com os jovens e potenciem as qualidades que vos vão ajudar mais no futuro. Mais do que saber reduzir os espaços importa saber como os criar. É urgente que cada vez mais surjam monstros técnicos com capacidade de criação em espaços reduzidos. E no futuro, na Final da Liga dos Campeões, quando o jogo estiver empatado e o adversário fechado em quarenta metros, aparece aquele menino rebelde e atrevido - com a auto-estima que diferencia os grandes - a serpentear entre o adversário, e a descobrir a solução que o treinador não encontrou para furar o bloco defensivo. A descobrir o passe que o treinador não viu, e a encontrar o espaço que antes não existia. A avaliar como competente o treinador que nada teve a ver com aquele lance em particular. Ou melhor até teve, mas não naquele dia...

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19 comentários:

Berna disse...

Excelente posta Baggio!

César Vigário disse...

Muito bom Baggio, excelente pensamento. Acredito que é esse o modo de pensar que devia ser estabelecido em todas as escolas de formação!

Dipeca disse...

Muito bom Baggio. Muito bem escrito! Conseguiste tocar num assunto que vai mais além da capacidade técnica de um formador: o ego ou a procura de notoriedade. Muito complicado mudar essa mentalidade. Por vezes nem são os treinadores, mas sim os dirigentes e pais que pressionam no sentido de apresentar resultados porque, para eles, as vitórias é que significam que os miúdos estão no bom caminho, independentemente do como, quando ou porquê...

Dipeca disse...

E claro, os miúdos tb são condicionados pelo resultado. Por um ou outro resultado não aparecer podem desanimar e acharem que aquele não é o melhor caminho. Um miúdo quer jogar, mas tb quer ganhar. Se ele for inteligente e perceber que está a evoluir, então está tudo ganho, mas nem sempre é fácil uma criança perceber que a aprendizagem de hoje é a vitória de amanhã...

Rafael Antunes disse...

Por incrível que pareça pensei sobre isto hoje... E pensei-o depois de ver isto ontem...

https://www.youtube.com/watch?v=2zvjW9arAZ0


Grande post! Grande reflexão... é por isto que aqui venho... :D

Obrigado!

Código Futebolístico disse...

Fantástico post! Parabéns.

Johnny McCaco disse...

Rafael Antunes, grande Ted. Fantástica.

Dennis Bergkamp disse...

Sabes que partilho dessa maneira de pensar, alias... só temos os problemas que temos para resolver, porque acreditamos MUITO que é esse o caminho.

Mas também te digo que tantas vezes quantas as que sei que estamos certos, também sei que não vale de nada.

Porque nunca vais estar 8/10 anos no mesmo clube.

Porque se os miudos não ganharem agora, vão-se embora para o clube do lado que ganha mais, mesmo que joguem menos e treinem pior.

Porque mesmo que até vás conseguindo os resultados que agarram os melhores miudos, há sempre malta ai a volta que os vem buscar.

E então, tão nobres projectos que idealizamos, caiem por terra em 2 anos no máximo.

Mas ... continua a acreditar, porque eu também.

E para além de sonhar que estamos certos, somos também parvos.

Mas antes parvos sonhadores, com aquela coisa na cabeça que estamos a fazer tudo bem por eles.. Do que desatar a aproveitar todos os momentos e mais alguns, para vir a acabar exactamente no mesmo sitio, mas sem conseguir dormir descansado.

Dennis Bergkamp disse...

Rafael,

Grande TED!

manelmadeira disse...

Boas Baggio, só por curiosidade, em que clube treina?
Talvez um dia nos cruzemos.
Abraço

Roberto Baggio disse...

Berna, César, Dipeca, Rafael, Código, Obrigado.

Dennis, não há dia que passe em que eu não pensem que "somos só parvos". Mas também não há dia que passe em que não pense que se ninguém fizer nada, que se ninguém contra-atacar o que está instituído, que se ninguém fizer melhor, aí é que as coisas nunca vão mudar...

Mas sobretudo, acredito, porque tenho noção que faz bem a eles, como dizes. E enche-me de orgulho ver miúdos que não sabiam nada (do jogo) dizerem hoje que não se treina nada e que nada se aprende nas primeiras divisões e que fomos o melhor treinador que tiveram. Fico satisfeito por perceberem hoje, mesmo num nível superior o que é qualidade de jogo, de treino, das ideias. Fico satisfeito por os ver crescer, e como trabalho para eles e eles são a minha maior motivação, vê-los reconhecer que não jogavam nada e hoje já jogam qualquer coisinha. Como disse num post em tempos, quando um deles me diz, com vocês aprendi futebol, a jogar bem futebol, a pensar... ai ganhei a minha pequena e insignificante final da Champions :) E por isso não vou nunca deixar de acreditar!

POC disse...

Grande artigo.
Abraço.

manelmadeira disse...

As Ted Talks realmente sao qualquer coisa...

LGS disse...

Excelente Baggio.

Para ti e o Bergkamp: nunca deixem de ser "parvo"!



Leandro Silva disse...

Muito bom, como sempre!

Estou dentro do mundo do treino, e os miúdos sofrem de uma pressão fora do normal para vencer. "Temos que vencer" "Não podemos perder o jogo", vejo que as vezes a pressão alastra-se pelo balneário e muitos bloqueiam em momentos de decisão.

Eu não dou importância, tento liberta-los de toda a pressão.

Quero é que os jogadores cresçam, se libertem, com a bola, que sejam criativos, que aprendam com o seu erro. O erro sempre como catalisador da aprendizagem.

Na formação não procuro títulos, aliás, acho um absurdo procurar títulos deitando de parte o crescimento de TODOS os jogadores disponíveis.

Mas como já foi comentado, os miúdos têm fome de títulos. Querem ganhar. Não olham para o treino e para o jogo como uma forma de crescer para ser, mais tarde, mais forte, melhor, de um nível superior. Vêm o jogo como a última guerra, a última batalha das suas vidas, para vencer... Nem sempre é fácil manter o foco no crescimento e não na vitória.

É preciso tentar passar a mensagem: antes da vitória há algo mais importante, muito mais importante. Para mais tarde ganhar mais vezes.

Roberto Baggio disse...

Manel, não interessa nada o clube. Cumprimentos

Roberto Baggio disse...

POC, LGS, Leandro, obrigado

David Cardoso disse...

Eu concordo com o post, mas o problema é que o futebol é como tudo na vida,não basta apenas talento, como em todas profissões do mundo o fundamental é saber viver e conviver com a pressão pode parecer curel, mas é assim a vida... e o futebol é assim como tudo na vida, como se conssegue meter na cabeça de miudos cde 10 ,12 .18 anos que o importante é evoluir e não o vencer??????

PM disse...

Fantástico texto, Baggio. Eu como sportinguista fanático da formação adorei!