quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tempos de prática, especialização precoce e o foco nos processos colectivos em idades precoces.

Há não muito partilhei neste espaço a apresentação da formação interna que decorreu no clube.


Muita da preocupação dos treinadores de jovens da actualidade deve estar centrada nos tempos de prática dos nossos miúdos. E por tempo de prática, penso sobretudo no tempo de empenhamento motor e não na duração total da unidade de treino! O tempo em que o atleta passa efectivamente na tarefa. De nada serve inventar exercícios mirabolantes quando depois de espremido os miúdos estão mais tempo em espera, ou quando em actividade, a realizar gestos que em nada se assemelham ao jogo.

Na procura de organizações colectivas especializadissimas em idades muito precoces, onde quem brilha é o treinador, está um dos maiores erros da actualidade. Todos queremos ser o Mourinho. Porém, quem trabalha com camadas jovens tem de perceber que o foco tem de estar no potenciar da individualidade e não do colectivo. Nesse sentido, a qualidade técnica associada à tomada de decisão terá de ser sempre uma prioridade. Portanto, não importa que os miúdos sejam extraordinários na ocupação do espaço se depois não lhes damos tempo com bola para se desenvolverem. Não importa ganhar jogos de Benjamins, Infantis e Iniciados pela organização, não "espremendo" as individualidades ao máximo para que possam atingir todo o seu potencial.




Na dita formação este foi o exercício apresentado e discutido.

E estas as conclusões, segundo os critérios que mais valorizo na construção de um qualquer exercício / jogo:

- Tempo de empenhamento motor: A cada 56'' cada atleta soma 7'' de prática. Em dez minutos de exercício cada atleta terá feito cerca de dez remates. Em que sentido podemos afirmar que fazer isto é melhor que deixar o miúdo sozinho na sua rua a chutar à parede? Ai, em 10 minutos teria somado cerca de 100 remates. E é na repetição e tempo de prática que está a chave de tudo!;

- Não tem oposição! Desenquadrado do jogo. Pouco estímulo para haver adaptações;

- Objectivo apenas técnico (remate / passe / recepção);

- Não junta momentos de jogo (organização / transição);

- Tem sistema de pontuação! (Único ponto positivo)!.


Pensar e operacionalizar exercícios desta natureza, dar tareias físicas quando se poderia estar a jogar futebol, ou tareias "tácticas - teóricas" são o maior flagelo na formação de jogadores em Portugal. Os miúdos já não jogam na rua. Pouco jogam na escola, e chegam ao clube e continuam sem jogar. Em que sentido é correcto afirmar que ter treinador, quando este os submete a este tipo de organização de treino é melhor do que não ter? Sem treinador os miúdos por si próprios dividiriam-se e jogariam futebol. Aumentariam o tempo de prática e logo ai já seria tempo despendido de forma mais interessante. 

Duma realidade diferente da nossa (Alemanha) chega um estudo interessante 




"National Team differed from amateurs in more non-organised leisure football in childhood, more engagement in other sports in adolescence, later specialisation, and in more organised football only at age 22+ years. Relative to numerous other studies, these players performed less organised practice, particularly less physical conditioning, but greater proportions of playing activities. The findings are discussed relative to the significance of playing forms and variable involvements and are reflected against the deliberate practice and Developmental Model of Sport Participation (DMSP) frameworks."

Quando vir o seu filho de nove, dez, onze, doze ou treze anos entregue a uma equipa técnica toda metódica com exercícios todos demasiado elaborados, desconfie. É dos que ocupam o treino a jogar (2x2, 3x3, 4x4, 5x5 etc etc) que eles gostam mais. Tão mais que chega a ser preferível ficar na rua com os amigos que ir para um treino tão elaborado, mas que "espremido dá 10 ou 15 minutos de prática".

PS - Obrigado ao João Marinho pela partilha do estudo.

20 comentários:

João disse...

Sobre a primeira parte do post, faz sentido um treino isolado e especifico da técnica (de remate, passe, recepção, etc) nestas idades? Ou pensam nas componente que querem treinar e criam um exercício colectivo que as incorpore, independentemente da idade?

Paolo Maldini disse...

João, na minha opinião - não!

está no resto do texto os critérios que uso no "montar" de exercicios

(- Objectivo apenas técnico (remate / passe / recepção)) é errado! Tem sp de partir de algo táctico. O técnico tem de estar associado À decisão... e isolado n tens isso associado...

mas metes jogos de 2x2, equipa sem bola tem obrigatoriamente gr... e fazem mil passes... com oposição... obrigando desde logo a haver uma tomada de decisão...

Paolo Maldini disse...

http://lateral-esquerdo.blogspot.pt/2015/02/formacao-interna-num-clube-de-lisboa.html

Aqui - no 7º slide. Como construir plano de treino. estão os critérios q n abdico qd penso nos exercícios.

João disse...

Maldini, certo. Percebo o vosso processo para a criação de exercícios - é o que faz sentido.

Obrigado ;)

Jorge disse...

Paolo e Ca.

Obrigado mais uma vez pelo excelente blog. Aprendo muito aqui. Por favor nao hesitem em partilharem artigos em ingles, especialmente artigos de investigacao, que eu posso partilhar com os directores e treinadores que eu conheco.

Paolo Maldini disse...

Jorge, obrigado...

abraço

Leandro Silva disse...

Muito bom, como sempre! É bom ver que partilhamos ideias da formação bastante parecidas.

Eles querem a bolinha nos pés, nós temos que lhes dar a bola para os pés! Aproveitar o (pouco) tempo que há! Sempre obrigando a cabecinha dos miúdos a pensar, de pequenino se torce o pepino, não é?

Formar sem formatar.

fabio disse...

Concordo plenamente com a ideia,e é inclusive aquilo que coloco em pratica
Mas agora pergunto,e quando se apanha miudos com imensas dificuldades tecnicas,que mal conseguem realizar um passe de 5m sem oposiçao,o treino analitico n seria uma opçao numa fase inicial?

Dennis Bergkamp disse...

Fábio,

Ser uma opção é, sempre. A coisa fantástica de ser treinador é que és um inventor, um criador.

Tentas construir, juntamente com os jogadores, um caminho para que eles joguem cada vez melhor.

Nesse caminho, escolhemos não utilizar tarefas analiticas. Hoje! Há 12 ou 13 anos quando comecei, cheguei a utilizar, volta e meia achava correcto. Depois percebi que podia ter coisas muito mais ricas, que me davam aquilo e mais.

E mais é melhor =) Pelo menos para nós.

Mas força ai, se achas que é o melhor caminho, experimenta. E depois passa aqui e diz como foi, o que sentiste, o que achaste que os miudos sentiram e tal. Para que possamos discutir.

Blog de Portugal disse...

Concordo com a maioria do que abordam.

No caso do vídeo, não sabemos se o exercício é mesmo feito para fazer o vídeo, e é normal nesses casos os exercícios serem deste género, com repetições e pouco tempo de empenhamento motor, embora não concorde.

Discordo nalguns pontos:

1 - Quanto à não-relevância dada pelo treino analítico. Acho que este, para trabalhar apenas a componente técnica em certos casos, é muito útil, como por exemplo:

- Grupos/Equipas com níveis individuais extremamente desfasados

- Ações pouco comuns no jogo, mas que têm que ser bem executadas, como o passe longo ou cruzamento.

- Pontualmente, treinar finalização, pois se não for de forma analítica o nº de vezes que um jogador executa remate é bem menor.

2 - Facilmente se consegue conjugar algum trabalho físico com trabalho tático-técnico.
Parece-me que se esquecem do fator físico e este pode e deve ser trabalhado em jovens, mas claro que não é da forma que se fazia há décadas.

3 - Julgo que dão a entender que o que não for jogo é exercício analítico e isso não me parece correto, mas posso ter entendido mal.

Apesar de tudo, ficaria descansado se fosse pai e vocês treinadores.

Roberto Baggio disse...

Blog

1- Para que idades?
Para nós, a partir dos 8 anos esse tipo de exercício está completamente proibido. Isolar uma capacidade, significa retira-la do contexto onde ela aparece, e a não ser que sejam condicionais, a treinabilidade das mesmas é garantida em exercícios que exijam uma decisão pela alteração de contexto.

O passe longo e o cruzamento são muito bem treinaveis em situações de jogo, ou situações abertas que envolvem tomada de decisão. É preciso é criar, como o Bergkamp diz.
De qualquer forma o treino analítico não faz mal a ninguém, duvido é que faça bem.

2- Não, não nos esquecemos. E se seguires o Diario dos Picaretas, e o Jornal dos Coxos, no Posse de Bola, percebes isso mesmo.

3- O que não é exercício analítico é jogo. Porque a definição de jogo, para nos, não significa ter balizas. Significa oposição. E é a oposição que faz alterar o contexto e envolver tomada de decisão.

Roberto Baggio disse...

Para isolar uma capacidade, isolava-se todas...

Blog de Portugal disse...

Desde já obrigado pela resposta dada.

1 - Atenção que defendo algum treino mais analítico em certos casos, não como medida habitual.

Gostei que referisses a partir dos 8 anos, pois o treino técnico é para mim muito importante antes desta idade, em conjugação com exercícios em forma de jogo.

Acho que neste ponto temos ideias diferentes. Por exemplo, dificilmente farias uma situação de colocar a bola para a entrada de um extremo ou lateral e o PL atacar a bola, só contra o GR ou nem isso. Eu já o faria algumas vezes.

Penso que em algumas situações, sobretudo a nível de remate, cruzamento e passe longo a conjugação com jogo é mais difícil (mas bem possível, claro) e prefiro não realizar jogo para treinar estas habilidades e apostar mais em exercícios mais analíticos, como o que referi há pouco.
Com isto consegue-se mais repetições para o mesmo tempo e maior facilidade de introduzir trabalho físico mantendo a organização do exercício.

Quando referes situações abertas que envolvem tomada de decisão, não sei se o exercício que dei acima se encaixa nisso.

Mas ainda respondendo, defendo este tipo de exercícios simples, com muitas repetições, fácil conjugação de trabalho físico para realizar trabalho técnico, sobretudo a nível do passe longo, cruzamento e finalização a partir do momento em que o nível técnico global (passe, receção, condução, drible, finta, etc) dos jovens me pareça decente.
Diria que em várias equipas razoáveis-boazitas isto já acontece pelos 11/12 anos, mas é variável.
Mas de uma forma pontual. Tenho uma visão provavelmente diferente, mas concordo com várias coisas do que referem.

2 - Já estive a ver e percebo que sim.

3 - Lá está, não sei bem de que forma é que se classificam os exercícios. Não é algo importante, desde que se saiba o que se faz não interessa se é classificado como A ou B.
Mas acho que se vê o exercício dentro de um continum entre global e analítico e não uma separação clara.

Roberto Baggio disse...

3x3+3 jokers, com golo de cruzamento a valer 3. Não achas que tens volume suficiente de repetição? E treinas o cruzamento e remate em condições aproximadas ao jogo? Onde os ganhos são técnicos orientados para a realidade do jogo e não técnica por tecnica?

Passe longo, 1x1+1 com um jogador a tentar interceptar o passe - ou fazer o desarme caso a recepção seja má Mas só podendo entrar na área de jogo do colega depois deste receber a bola para apertar - que deve ir por cima, ou por baixo e para o colega. Também não garantes a repetição em regime de oposição, com tomada de decisão? Acho que sim, na minha opinião.

A questão dos nomes que se dão as coisas é pouco interessante. Quanto ao resto, sim, nunca faria exercícios do tipo que falaste, preferindo sempre ir por outro caminho. Quem está certo? Não sei. Mas é este o meu caminho, o que acho melhor. Não separar as águas, envolver todas as capacidades no treino.

Abraço

Roberto Baggio disse...

3x3+3 jokers, com golo de cruzamento a valer 3. Não achas que tens volume suficiente de repetição? E treinas o cruzamento e remate em condições aproximadas ao jogo? Onde os ganhos são técnicos orientados para a realidade do jogo e não técnica por tecnica?

Passe longo, 1x1+1 com um jogador a tentar interceptar o passe - ou fazer o desarme caso a recepção seja má Mas só podendo entrar na área de jogo do colega depois deste receber a bola para apertar - que deve ir por cima, ou por baixo e para o colega. Também não garantes a repetição em regime de oposição, com tomada de decisão? Acho que sim, na minha opinião.

A questão dos nomes que se dão as coisas é pouco interessante. Quanto ao resto, sim, nunca faria exercícios do tipo que falaste, preferindo sempre ir por outro caminho. Quem está certo? Não sei. Mas é este o meu caminho, o que acho melhor. Não separar as águas, envolver todas as capacidades no treino.

Abraço

Paolo Maldini disse...

Baggio, podemos então concluir que não contratarias para a tua equipa técnica o Ferreira para treinar a técnica, o Amador para treinar o físico, um gajo para treinar a táctica e um bruxo para dar moral?

R.B. NorTør disse...

Eh pá no meio disto tudo há uma coisa que me assusta. O que vocês contam sobre os putos hoje não jogarem sem ser no clube é mesmo verdade?

Blog de Portugal disse...

Baggio, são bons exercícios os que sugeriste.

Ainda assim, a densidade de repetições não seria tão grande, de certeza.

Acho que são duas perspetivas diferentes, e talvez até defenda isto agora e daqui a uns anos mude de ideias.

Sem dúvida que há argumentos para os dois lados, mas se ainda puderes gostava que me desses a tua opinião sobre algo que tenho vindo a pensar:

- Ao realizar exercícios mais isolados do jogo (Ex: passe com os jogadores colocados 1-4-3-3, a realizar as combinações da equipa), e não entrando pelo isolar do jogo, poucas/muitas repetições, não achas que este tipo de exercícios não leva os atletas, sobretudo os mais jovens, a não terem uma ligação tão forte ao exercício e seus objetivos e não conseguirem fazer tão bem o transfer para o jogo?

Dennis Bergkamp disse...

Blog de Portugal,

Tem SEMPRE muito mais transfer para o jogo 1x1 em que cada um defende 1 baliza, do que 11x0 a treinar as combinações da equipa.

Basta haver uma toupeira no relvado que mete a cabeça de fora de vez em quando para entalar esse 11x0 e .. lá se foi o transfer.

Há uma coisa absolutamente fundamental no treino que as vezes passa ao lado.

A significância que as pessoas que o vivem atribuem ao que fazem. Isso faz bem mais diferença na aquisição de comportamentos ou capacidades do que o nº de repetições.

Correres 200 metros para apanhar o autocarro, não tem nada a ver com correr 200 metros em pista, com colegas ao lado a ver se chegam 1º que tu.

Blog de Portugal disse...

Sim, claro, é essa a minha perceção também.

Só que no futebol de formação, à exceção de alguns contextos, só tens aquele tempo de treino e depois é muito difícil fazer mais alguma coisa com os miúdos.

Daí que considere que por vezes pode ser bom realizar exercícios mais analíticos (não ao ponto do que falei acima, do 1-4-3-3), porque o nº de repetições do comportamento que se quer é invariavelmente maior, tentando levar com isso mais qualidade nesse comportamento para o jogo (se for aprendido e executado, obviamente).

Porém, evidentemente que o jogo e o factor de haver competição e oposição são importantes por essa sentimentalidade/significado maior que os jogadores (jovens ou adultos) obtêm com o exercício, o que possibilita um maior transfer para o jogo.

Numa equipa com condições muito boas, facilmente depois do treino se consegue estar a trabalhar remate, por exemplo, executando-o muitas vezes. Mas no que é a maioria dos contextos de formação isso é impossível. E daí que julgue que em alguns momentos os exercícios analíticos são uma boa opção.