quinta-feira, 12 de março de 2015

Estar preparado para os diferentes momentos do jogo

Ontem não pude assistir ao tremendo confronto entre duas das melhores equipas da Europa.

Curiosamente, enquanto decorria o Chelsea x PSG, trocava algumas ideias com um director desportivo. Dizia-me ele algo como. "Perguntam-me como é que fizemos a belíssima exibição na semana anterior e nesta contra uma equipa mais acessível foi este horror. Na semana passada, ficámos nós atrás e saíamos no contra-ataque. Este fim de semana deram-nos meio campo para jogar, e nós não conseguimos assumir o jogo e assegurar uma boa transição defensiva após cada perda"

Já por algumas vezes neste espaço se pretendeu passar a ideia de como devem os treinadores ser avaliados. Pelas ideias e pelo modelo. Não pelos resultados, porque treinadores diferentes têm jogadores diferentes. De uma forma bastante simplista, Guardiola no Arouca jamais venceria José Mota no Barcelona. Se juntares os piores treinadores do mundo na mesma liga, um vencerá. Se juntares os melhores, alguns descerão e farão papel de incompetentes. Portanto, se são os jogadores que jogam o jogo, a forma de avaliar o trabalho dos treinadores terá de passar sempre pela avaliação aos comportamentos e posicionamentos em campo dos atletas.

Nesse sentido, valorizo sempre bastante mais quem mostra competências em todos os momentos do jogo. Quem tem bons comportamentos definidos em organização e em transição. Ofensivamente cativam as equipas que ofertam sempre várias linhas de passe ao redor do portador. Que gostam e procuram jogar dentro do bloco (porque há lá opções dentro!), que dão primazia ao corredor central, porque ai as possibilidades aumentam. Que mostrem diferentes recursos para diferentes dificuldades. Defensivamente o controlo da profundidade é sempre uma marca de excelência. Não é difícil evitar continuamente bolas nas costas. Mas é difícil garanti-lo e ser uma equipa pressionante e "alta" no campo. É gratificante ver o "sobe" e "desce" da última linha em função da situação de jogo. O controlo da largura. A reacção posicional em função do número de jogadores atrás da linha da bola.

O FC Porto de Mourinho era tão à frente tacticamente naquela era que mesmo quando reduzido a 10 era uma equipa que conseguia tantas vezes manter-se dominante sem se expor ao risco. Hoje diz-se que Mourinho se tornou resultadista. É um termo muito usado para catalogar aqueles que gostamos e que em certo momento acabam por abdicar de jogar em todos os momentos do jogo. O Mourinho não resultadista venceu dezenas de troféus num curto espaço de tempo. Teve um impacto tremendo na evolução do jogo. O Mourinho resultadista prepara-se finalmente para voltar a vencer um campeonato após um certo hiato de triunfos. E sempre com os melhores plantéis e onzes do mundo ao seu dispor.

Hoje as equipas do mais conceituado treinador português estão praticamente unicamente centradas em "magoar" os adversários apenas nos segundos seguintes à recuperação da bola. Pouco trabalhadas para defrontar adversários em organização defensiva, que não se exponham às transições. A quantidade de pontos perdidos na Premier na época passada perante adversários fraquíssimos foi abismal e retirou-lhe a possibilidade de ser campeão. Ontem, e sem ter visto o jogo arrisco que o problema não terá sido o que avançou "pressão de jogar contra dez", mas sim o da incapacidade para jogar em organização. Jogar em organização que jogando contra dez deveria ocupar noventa por cento do jogo do Chelsea.

Porque aqui muito se falou sobre isso, permitam que mantenha a opinião reforçando-a. A maioria pensará que voltando a uma Liga inferior como a portuguesa com a bagagem e qualidade que traz, venceria confortavelmente a Liga nacional. A minha opinião é bastante diferente. Sucedendo a Jorge Jesus seria incapaz de garantir uma percentagem de vitórias tão elevada quanto o actual treinador do Benfica (e se com vinte vitórias em vinte e quatro jogos a Liga permanece totalmente em aberto, imagine com menor eficácia). Precisamente porque Big Mou não está hoje preparado para ser treinador de um grande, sobretudo num campeonato onde há demasiados pequenos. Onde se exige às equipas aquilo que as suas equipas não mostram há algum tempo. Competência em organização. Mesmo que ofensivamente seja uma organização desorganizada conforme me confidenciou no passado fim de semana a grande referência Francisco Silveira Ramos.


18 comentários:

DM disse...

Discordo com a parte em que dizem que em Portugal não conseguia melhor que o Jesus, pois isso é menosprezar completamente a mentalidade ganhadora que Mourinho implementa nas suas equipas. O Futebol não é só cérebro, também tem uma componente emocional fortissima.

MOS disse...

Como eu queria que Mourinho viesse a ler tudo isso.

Mas do jeito que é orgulhoso, seria capaz de chamar os autores de "iluminados" ja que "ninguem o ensina a vencer jogos e campeonatos"

É uma pena ver a caricatura que se tornou.


Mas se ele era tão competente, dominante e vencedor antes, porque diabos decidiu por tornar seu jogo tão 'monotematico'? É inacreditavel. Se alguem ve um video que o Baggio ou outro tem no seu canal sobre o FC Porto daquela epoca, fica espantado com a diferença. Linhas de passe, jogo por dentro e por fora.

As perguntas são: Por que essa mudança, por que um jogo tão pobre?
e

Quando será que essa mudança de Mourinho aconteceu?

Ricardo Perna disse...

Coloco uma questão ao acabar de ler este vosso texto, eu que sou leigo na matéria: Mourinho ganhou tudo porque estava muito à frente na sua era taticamente. Não pdoerá apenas aqui ser um caso de alguém que estagnou, enquanto à sua volta todos os outros melhoraram?

Ou seja, faz o que sempre fez, mas que há uns tempos atrás era visionário e agora é apenas "normal"...

Tenho pena, porque significa que não é uma pessoa capaz de evoluir, e isso é sempre a morte do artista, seja em que área for...

Roberto Baggio disse...

Ricardo... se tivesse estagnado, teria continuado a competir contra qualquer equipa pelo domínio do jogo.
Regrediu, é a palavra certa. A equipa dele de ontem é 100000000000000000000 vezes melhor que a de hoje.

Pedro disse...

"Quando será que essa mudança de Mourinho aconteceu?"

Em Espanha. Acho que o Real Madrid foi um desafio que Mourinho perdeu, sabe que perdeu e isso afectou-o muito. Ele sempre teve mão nos balneários e ali nunca teve e, para piorar, o adversário era quase imbatível. Os mind games com a imprensa desceram de nível. Foi demais para ele e afora, talvez, não saiba como dar a volta isso.

Gonçalo Dinis disse...

Quando aos 84 min tira o Matic para colocar o Zouma, disse para mim mesmo:" Mourinho não mereces passar!"

Os confrontos com o Barça transformaram-no para pior...Quis tornar-se a antítese da filosofia do Barça.

nuno disse...

Se não me falha a memória, o Nuno, do entre dez, escreveu em tempos que Mourinho começou a mudar a sua filosofia quando perdeu aquela meia-final da Champions League com o Liverpool de Benitez. Eu concordo plenamente. Nunca mais vi uma equipa de Mourinho ser entusiasmante como foram o Porto dele e o Chelsea no primeiro ano.

João D. disse...

Eu acho que ele começou a regredir em 2005/06 quando começou com as confusões com o Barcelona, piorou quando foi para Itália e não tinha concorrência (Milan não lutava pelo campeonato, nem a Roma, nem a Juventus). Já com o Inter, quando ganhou a champions foi na lógica do chutão e Eto'o a defesa lateral a jogar 3 metros à frente do outro defesa lateral, mas ganhou e foi isso que ficou na história. Agora em Madrid foi o descalabro, os primeiros meses não correram mal, mas depois do 5-0 ele deixou de querer jogar futebol e dedicou-se a jogar JaimePachequismo, um jogo que também se joga com 11, mas em vez de se jogar em equipa joga-se com 11 duelos individuais e no fim quem bater mais, e correr mais ganha. A táctica que ele usava contra o Barcelona era a violência (numa meia final da taça do rei, cheguei a comentar com os meus colegas, ainda antes dos 30mins de jogo que o que Pepe, Sergio Ramos, Arbeloa e cia estavam a fazer não eram faltas eram agressões e tentativas de lesionar o adversário), e no Chelsea ainda não estou certo que ganhe o campeonato, ainda para mais depois de ontem, vai jogar ainda mais recuado e vai perder ainda mais pontos com as equipas pequenas.

Dá a impressão que ele já não gosta do jogo, nem de futebol, nem dos jogadores e que só continua porque se Guardiola ou Ancelloti continuam, ele também continua. Mourinho precisava de se afastar uma temporada ou duas, e ganhar a alegria que perdeu.

DC disse...

Sim Mourinho começou a cair de qualidade bem antes da chegada a Espanha. Basta ver o que era o CHelsea dele contra o Barça do Rijkaard e depois Inter na Champions foi sempre zerinho também. Bolas paradas e contra-ataques. Bola nem pensar.

Pedro disse...

Ou um outro tipo de desafio, estilo Liverpool..

Gonçalo Dinis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Dinis disse...

Tbm acho que o Mourinho começou a mudar depois dessa meia final contra o Liverpool do Benitez, logo na temporada seguinte troca o Tiago pelo Essien e ainda dá uns quantos milhões. Lembro-me tbm na terceira temporada no Chelsea, contra o Porto, em que na primeira mão vem jogar ao Dragão para o 0 a 0, mas o Porto marca e ele coloca o Robben em campo aos 30 min, o Robben muda o jogo e faz a assistência para o golo do Shevchenko e o Mourinho tira o Robben ao intervalo, fiquei fodido com aquilo.

Nicolae Santos disse...

Alguém que me compreenda. Em termos tácticos, nestes últimos anos, considero Mourinho alguns furos abaixo de Jesus.

Vitor Carreira disse...

Penso que o ponto de viragem na forma de preparar as equipas de Mourinho foi a derrota de 5-0 contra o Barcelona. Penso que ele nunca conseguiu "digerir" a derrota e a humilhação e terá prometido a si próprio que tal nunca mais lhe aconteceria. Daí o jogo pelo seguro, calculista.

Joao disse...

vitor,


ja no inter a qualidade foi em decrescendo.
o pior que aconteceu ao mourinho foi ter ganho aquela champions.
engraçado, neste blog sempre fala se que o jogo deve ser mais importante que a vitoria, e como no caso do mourinho essa vitoria ditou o fim de tudo.
enganou se

se alguém aqui tem a oportunidade de passar ao pé dele, diga lhe com muita elegância e com alguma tristesa que ele se tornou num quase vulgar upgrade do pacheco pereira + um cd com um pouco do seu porto e do seu antigo chelsea.

Futebol disse...



"Não deves lutar frequentemente com um inimigo, ou acabarás por lhe ensinar tudo o que sabes"
Napoleão Bonaparte

José Mourinho teve um início de carreira absolutamente esmagadora em termos de transmissão de conhecimento do jogo, treino, personalidade... Tudo o que eles fez e disse caiu com um estrondo tão grande no Mundo que tornou-se objeto de estudo intenso e pior do que isso passou a ser o inimigo N.1 de todos aqueles que estavam abaixo dele.

Ao ler o livro "a guerra de Mourinho" deparei-me com um facto bastante curioso sobre o que o autor escreveu e que deixa-nos a pensar ..." Os jogadores do Real Madrid já não se importavam de perder só para o ver cair e sentir-se derrotado..."

Esperto muito mais esperto foi o Pep Guardiola na gestão da espetativas que criaram na sua carreira... Bastou parar um ano, para ser o Treinador mais desejado em todo o planeta!! Incrível isto...

Antonio disse...

Errado. Foi em Itália e em especial o "azar" de ter ganho a LC com aquele futebol merdoso

Hugo Ferreira disse...

Depois da eliminação com o Liverpool, da Champions com o Inter e dos 5-0 do Barcelona, o Real Madrid 2011/2012 com o "limitado" Mourinho ganhou o campeonato ao "iluminado" Guardiola conseguindo 100 pontos e 121 golos marcados, isto numa época em que o Messi marcou 50 golos. É verdade que a filosofia de jogo do Mourinho mudou e para pior mas não consigo perceber onde se deu essa transição.