sexta-feira, 10 de abril de 2015

A qualidade dos jogadores formados é o reflexo da qualidade dos formadores

De um artigo antigo, mas bastante recente de Breitner sobre as mudanças do futebol alemão, e uma caixa de comentário onde "o treinador português" não aceita a crítica que lhe é dirigida. Carregue no link, veja a exposição de Breitner, leia a caixa de comentários, e este último depoimento do Pedro Cardoso. Não é nada que não soubéssemos já, porque aqui não se acredita que tão profundas mudanças no perfil dos jogadores formados, na qualidade dos mesmos, não estejam directamente ligadas à qualidade de quem tem a responsabilidade de formar. 


"Aqui existe um trabalho de formação a nível nacional, ou seja, começa-se por formar os treinadores em sintonia com as diretrizes fornecidas pela Federeção Alemã de Futebol às Asscociações de Futebol dos vários estados. Começa-se por ter essa formação no âmbito estadual e a partir de certo nível passa-se para a formação a nível nacional. Aqui reside logo uma diferença estrutural em relação a Portugal, uma vez que existem muito mais níveis e o acesso a esses níveis só é concedido com mérito! O número de treinadores habilitados para Treinar nas Ligas profissionais é cerca de 2% de todos os treinadores do país. E não há cá a possibilidade de saltar níveis por experiência etc. à excepção de jogadores que jogaram pelo menos 5 anos na Bundesliga ou tiveram alguma internacionalização pela seleção Alemã. Mas ainda assim, estes, podem ir diretamente para os cursos Federativos, mas com 3 níveis de formação para ultrapassar caso, queiram treinar as ligas profssionais e de referir que esses cursos são avaliados a sério (segundo dizem) e acredito. Depois, os treinadores que trabalham nos escalões de formação são observados por treinadores/formadores das Associações ao longo da sua atividade e uma vez que têm de renovar a sua licença de 3 em 3 anos, essas avaliações feitas têm influência também na renovação de licenças.

As diretrizes da Federação que de certa forma apontam o caminho que eles consideram ser o ideal, são claras, ao nível dos escalões de formação, o treinador não tem de as seguir, mas também dificilmente terá a licença para exercer e dificilmente encontrará trabalho em clubes mais prestigiados. O facto de haver tanta formação de treinadores, provoca também um aumento da qualidade de todos os agentes desportivos. Inclusivamente de pais. O curso é tão barato e com condições tão boas (estadia, alimentação etc...) que até pais vão tirar o curso de nível mais baixo só para poderem acompanhar melhor os filhos. Agora pensem, como todos estes factores conjugados podem influenciar a qualidade do treino e consequentemente do jogador. Depois em termos de incentivos financeiros, claro que a Alemanha é economicamente muito mais forte que Portugal e daí ser possível realizar este investimento. O que permite também, e para mim, esta é a principal condição que inibibe o desenvolvimento do jogador portugues, que o treinaor viva do futebol, nos escalões de formação, sem ser num grande clube da Bundesliga e por não ter de se afirmar taticamente nos escalões de formação para poder subir na carreira e ser treinador profissional."


Sobre a brilhante mudança de pensamento dos actuais Campeões do Mundo, fica mais uma história. À porta de um Euro de sub19, Meyer e Werner (Schalke e Estugarda) que foram utilizados durante a fase de qualificação foram deixados de fora de Euro. Para quem conhece a qualidade dos jogadores referidos pode parecer estranho, porque eram claramente as estrelas da companhia. Acontece que os dois, nos respectivos clubes, tinham conquistado espaço na equipa sénior e por isso, a decisão de os levar ao Europeu tinha como consequência directa o perder da pré-temporada nos seus clubes. Para que não perdessem espaço nas escolha dos seus treinadores, e conseguissem competir de igual com o restante plantel, a decisão foi óbvia. Nunca nenhuma Federação do Mundo sonhou sequer tomar tal decisão, nem mesmo a espanhola. Mas formação é mesmo isto. Tomar todas e mais algumas medidas que vão ajudar o jogador no futuro. Formar não é ganhar agora, é ganhar no futuro. E na Alemanha pensa-se como em nenhum lado do planeta nisto. Olha-se para Portugal, e quem viu a final do Torneio da Pontinha, percebe que aqui nos encontrámos numa espécie de planeta dos macacos, tal é o atraso ao nível da mentalidade.

20 comentários:

Luis Freitas Lobo disse...

O Benfica abdicou completamente de ganhar o campeonato de Juniores, pondo os seus melhores jogadores a competir logo na equipaB, como Oliver Sarkic, Renato Sanches, João Carvalho, já para não falar do Gonçalo Guedes...

Por aí já se começa a ver alguma alteração na mentalidade, vamos ver se é para continuar.

RS disse...

Um post sobre o torneio da Pontinha é que era ;)

Gonçalo Matos disse...

Ouro, é o que este post é.
Eu acho que há malta que pensa que estas coisas são obra do acaso ou é destino aparecerem gerações de ouro... Como se de repente os putos nascessem com melhor tomada de decisão. E na minha opinião é aqui, na tomada de decisão, que os alemães neste momento se separam da maioria. especialmente na tomada de decisão quando em velocidades altas

RG disse...

"O Benfica abdicou completamente de ganhar o campeonato de Juniores, pondo os seus melhores jogadores a competir logo na equipaB, como Oliver Sarkic, Renato Sanches, João Carvalho, já para não falar do Gonçalo Guedes...

Por aí já se começa a ver alguma alteração na mentalidade, vamos ver se é para continuar."

Se vamos entrar por aí temos de falar das vezes em que o Sporting Clube de Portugal fazia os seus jogadores jogarem em escalões superiores, ou dizer que este ano ano abdicou de disputar o campeonato de juniores porque desde o inicio época que Matheus, Gelson, Podence, Pedro Ribeiro, Postiga, etc...fazem parte da equipa B.

Não me parece que seja por ai que o paradigma esteja a mudar. Os clubes e a federação continuam sem saber o rumo a tomar. Não será por vermos atletas a subir de escalão que podemos achar que paradigma da formação está a alterar...

A formação em Portugal continua ser pensada apenas para ganhar!

Dipeca disse...

Gonçalo Matos, tens toda a razão, existe muito essa ideia das "fornadas". Não se dá valor à formação de qualidade. Desde a mentalidade de quem só julga pelos resultados, de quem dá treinos de atletismo para ganhar no Domingo pelo físico, de quem cria os exercícios que às vezes parece exercícios de ginástica aeróbica. É tão complicado mudar isso... Vocês, Baggio, tu, Maldini, Bergkamp.. notam evolução na mentalidade?

Gonçalo Matos disse...

Dipeca,
Eu sou muito inexperiente e a malta que conheço é de grande qualidade! Não conheço muita gente também.. Este ano apanhei treinadores bastante interessantes, mas são a minoria ainda.. Em clubes mais pequenos ainda existem treinadores como referes ou ainda piores.. É aí que na minha opinião tem de haver maior mudança!

R.B. NorTør disse...

O único problema na Alemanha é o campeão ser "sempre" o mesmo, de resto a consequência desta política é que os restantes clubes estão todos a um nível muito próximo e nivelados por cima.

Ainda hoje vi o duelo dos Borussias e mais uma vez foi um grande jogo, alimentado por um golo aos 31 segundos (a forma como o Moechengladbach desmonta a defesa do Dortmund e como conduz o contra-ataque que dá origem ao segundo fizeram-me lembrar tanta, mas tanta coisa que se diz neste blog!). Ah, e o Wolfs continua em grande. Já disse que o Wolfs é das equipas mais interessantes da Europa neste momento?

José disse...

Quase tudo certo menos isto:
"Nunca nenhuma Federação do Mundo sonhou sequer tomar tal decisão, nem mesmo a espanhola."

A única coisa que o Brasil faz bem é isto, e vem-no fazendo há muitos anos. Assim que os jogadores chegam à Selecção A não voltam para trás. Basta ver o exemplo do Neymar no Mundial Sub-20 de 2011.

Roberto Baggio disse...

José, Neymar n foià selecção para n perder espaço no clube, ou n foi a selecção porque já estava na selecção principal? Há uma diferença enorme entre isso.

R.B. NorTør disse...

Se o Brasil tivesse uma abordagem e uma planificação que se pudesse comparar sequer com a alemã, não tinham há menos de um ano levado a tareia épica que levaram. Pode ser que daqui por 10 anos, afinal os alemães também precisaram de um hat-trick do Sérgio Conceição para abrirem os olhos.

Duvido que de resto haja em Portugal quem se possa sequer comparar com o modelo alemão, muito menos Benfica ou Porto. Claro que isso também vem da cultura dos adeptos e de quem enche os estádios. Gostaria de saber o que diriam aqueles que passam a vida a criticar as faltas de oportunidade dos jovens da formação, caso os clubes andassem a marcar passo um ano ou dois por só ter jovens da formação. Ou o que aconteceria a um treinador de Benfica ou Porto se após uma final Europeia o clube andasse a lutar para não descer de divisão.

José disse...

Não sabemos se o Santos teve algum peso nisso, mas até é irrelevante. O (bom) princípio mantém-se: a selecção de sub-20 abdicou da estrela para que esta pudesse rodar num contexto mais competitivo e daí tirar proveitos não imediatos. Nada contra o texto, a não-exclusividade alemã não tira valor à idea, só estou a tentar ajudar ao rigor da coisa :)

Roberto Baggio disse...

Não não estás a ajudar ao rigor, porque estás a comparar coisas completamente diferentes. Neymar não é o primeiro caso de jogadores que sobem à selecção principal, mesmo tendo feito qualificação pelos escalões mais baixos, e depois falham as grandes competições da formação por estarem na equipa principal. Em vários países isso é feito. Repito, Neymar não é caso único. O que nunca vi, foi uma federação interceder em favor do jogador não perder espaço no clube. E não foram os clubes a dizê-lo, foram os dirigentes, por perceberem da coisa (futebol, treino, etc) a pensar e a tomar a decisão.

José disse...

Já percebi que amas os alemães, mas daí a dares-lhes louros por invenções em vez de perceberes que um modelo vencedor se constrói de adaptações de bons exemplos e não dessas tais invenções acho um grande erro.

Como nota de rodapé, sobre jogadores que não foram a competições de escalões inferiores para segurarem os lugares nos clubes:
http://reporterx24.blogspot.pt/2011/09/vitor-baia-sem-titulo-de-riade-nao.html

Roberto Baggio disse...

José, não ano os alemães. Assim como não amo clubes ou selecções. Amo, sim, ideias.

Roberto Baggio disse...

PS: o exemplo do Baía, mais uma vez desajustado, é exactamente o oposto do que o que este artigo trata. Não sei se fui eu que escrevi mal, ou se foste só tu que não percebeu.

Os clubes não tiveram que fingir lesões dos jogadores, não tiveram que pressionar para os jogadores ficarem por necessidade.
A federação, sabendo que eles ia ficar nas equipas principais, deixaram de os convocar...
Se calhar nos modelos vencedores, os tipos fazem mais do que saber o significado das palavras juntas numa frase, num texto. Deve ser essa a diferença para os outros dirigentes federativos.

Como nota de rodapé, Saudações Desportivas.

José disse...

Como tu bem percebeste, foi intencionalmente desajustado. Se amas as ideias, devias identificar correctamente quem as teve, e o que não falta por aí são exemplos. E até nem deves exaltar demasiado com esta história de não ir às competições de selecções havendo tantos exemplos contrários: Xavi, Messi, Aguero, Pogba, até Ozil (não sei sabes mas joga pela Alemanha) foram grandes figuras de campeonatos de escalões inferiores quando já eram titulares de grandes equipas europeias. Não foi por isso que perderam espaço nos clubes...

Mesmo para acabar que às vezes consegues ser muito teimoso: o que faz sentido na formação é identificar o espaço onde o jogador mais pode evoluir e permitir, por acção conjunta de clubes e federações (aqui, totalmente de acordo contigo), que ele o preencha para no futuro poder ter o máximo rendimento (claro que não foram os alemães a inventar isto, são apenas os que melhor o aplicaram nos últimos anos).

Gonçalo Matos disse...

Tas a ser teimoso José.. Já imaginaste o que seria o dirigente da FPF dizer que o Bernardo Silva agora não poderia ir a selecção para não perder lugar no Mónaco? O fim do mundo que isso ia causar? É disso que se trata.
Se Um gajo da CFB dissesse que o Neymar não iria a selecção para não perder lugar no Barcelona ou no Santos ou onde fosse, o país explodia

José disse...

Eu é que sou teimoso? Vocês parecem um groupie a quem disseram que a música que mais gostam afinal é uma cover e revoltam-se como se isso pusesse todo o vosso universo em causa.

Não custa nada admitir que os alemães não inventaram a roda, apenas são os melhores a utilizá-la (como em muitos outros sectores). Toma lá mais um exemplo (sim, eu sei que não era a fase final do campeonato da Europa): http://www.maisfutebol.iol.pt/benfica/selecao/sub-19-benfiquista-goncalo-guedes-dispensado

Roberto Baggio disse...

lololololol
Oh Gonçalo, olha o que tu fazes!!!

isto está está a tomar proporções para começar a aparecer nos melhores. Ao menos é engraçado. Já se percebeu que o tipo só veio cá para aparecer mesmo, e acrescentar zero. Está a defender o que não tem defesa, na tentativa patética de justificar que tem um pto de vista um pouco diferente.

"Gonçalo Guedes dispensado"; "Edgar Borges já chamou um substituto"; "Era só um estágio de observação" hahahahah de morrer a rir

Gonçalo Matos disse...

Tens razão José. Foi graças a esta dispensa que o Guedes conseguiu cimentar o seu lugar no 11 inicial do Benfica.
Nesta tens mesmo razão!
Tu é que não percebes que eles reinventaram a roda, no sentido em que a federação avalia o que é melhor para o jogador, independentemente do que esse possa acrescentar à equipa. Não se trata de estagios de observação ou dispensa dos escalões de formação para a equipa A do país.
Trata-se de mandá-lo para o clube!