quinta-feira, 9 de abril de 2015

André Martins esteve no jogo?! André Martins não faz a diferença, e enquanto assim for não será jogador para jogar mais do que quinze minutos!

Um novo tipo de raciocínio é essencial para o futebol português sobreviver, e atingir patamares mais elevados. A frase adaptada foi dita por Albert Einstein há mais de cinquenta anos, mas não podia ser mais relevante do que o é hoje. E o novo tipo de pensamento passa por mudar completamente a forma como se olha para o jogo. Se antes se olhava para o jogo de uma perspectiva individual, onde a valia de um jogador podia ser medida em quantidade pelo resultado directo das suas acções individuais (sucesso-insucesso), hoje não se pode medir essa valia em quantidade porque as acções não têm um resultado imediato. Ou seja, as acções são qualitativas e o resultado só se vislumbra, normalmente, no final da jogada. Como é que se mede a presença de um jogador em campo, se não se percebe que um passe de primeira para trás, quando a bola não vinha em boas condições, e quando ele estava pressionado, permitiu a equipa não só manter a bola, como dar a possibilidade de atacar em melhores condições através de outros interpretes? Não se percebe, porque o que se quer é que a cada lance - ou na sua esmagadora maioria - o jogador resolva individualmente problemas que podem (devem) ser resolvidos colectivamente. E a chave de tudo é isto: o jogo é mais colectivo que nunca. Logo, a maior parte das acções são qualitativas e como tal não podem ser medidas em quantidade. Um passe nas condições citadas, nunca vai aparecer como lance chave ou como acção a destacar. Mas é deste tipo de acções, que não têm destaque, de que mais vive o melhor futebol - o futebol de hoje. 
video

Olhando para o futebol como no passado, dirão que André Martins não arrisca. Ignorando tudo o que ele permite ao colega, aos colegas, à equipa, com a sua segurança. Olhando para o futebol como ele deve ser visto hoje, percebe-se que não arriscou porque o risco de perder a bola acarreta consequências piores do que jogar em segurança. E essa acção não se esgota no resultado dela mesma, mas sim em tudo o que pode dar no futuro: a possibilidade de um novo ataque em melhores condições do que se tivesse optado por uma acção de risco. A capacidade de perceber a importância de um passe para trás, e tudo aquilo que ele significa para o jogo, a capacidade de entender a situação de jogo (passe de recepção difícil, e ainda para mais com pressão a vir nas costas) e a solução encontrada pelo jogador, é o caminho para mudar o nosso futebol. A qualidade com que um jogador se relaciona com colegas - aquilo que lhes permite de cada vez que lhes entrega a bola, as soluções que lhes oferece sem bola - é o atributo mais importante do futebol actual, e é o talento mais necessário para se despontar no futebol moderno. E esse talento que ninguém consegue ver, esse talento que é de forma recorrente marginalizado pelo futebol pragmático de Portugal tem um nome: inteligência. E marginal o continuará a ser... Porém, de marginal a relevante vai um jogador como Busquets que um dia precisou de um treinador como Guardiola, ou um jogador como Guardiola que um dia precisou de um treinador como Cruyff.

23 comentários:

João Barata disse...

Baggio,
Obrigado por posts como este e por me ajudares a compreender melhor o jogo a cada post.
Ontem o André Martins voltou a fazer o mesmo q descreves, devolveu a tranquilidade à equipa q melhorou após a sua entrada.
Quantas pessoas viram isso? Tenho receio q muito poucas. Progressivamente, o AM está a ser encaminhado para a porta de saída e é uma pena. A minha esperança é q o Marco Silva, q apesar de o colocar a jogar apenas 15m ontem no jogo anterior o colocou a jogar a 8, tenha boas ideias para ele para o próximo ano e o esteja a sacrificar em nome da equipa apenas circunstancialmente.
Abraço,
João

JON disse...

Baggio,

estava a ler isso e a recordar-me dos 30mins que vi no último jogo do Hernâni que veio para o Porto... E o rapaz é precisamente a antítese disso tudo.
Como é que ainda se contratam gajos destes é que não entendo...

Abraço

Duarte disse...

Busquets e Guardiola no mesmo saco de A.Martins????
Não confundir um jogador jogar simples por incapacidade com jogar simples por ser inteligente.
O Almeida com o JJ a trinco joga bem não porque é um portento mas porque a equipa lhe dá sempre linhas e lhe facilita o jogo e por isso é que tal como vocês aqui dizem ele joga melhor a 6 que a 8...
Primeiro porque joga de frente para o jogo e depois porque consegue descobrir sempre mais linhas de passe.
O Busquets tanto joga simples como sai em progressão em posse ou em passe.

Andre Santos disse...

Vocês com estes posts pretendem demonstrar que o André Martins é um jogador bom para o Sporting, ou que apesar de ser um jogador medíocre afinal tem algumas qualidades?

Quando ao posicionamento defensivo, as imagens que mostraram são boas, mas eu vejo o André Martins a jogar há muito tempo e sei dizer que muitas das vezes ele anda a vaguear pelo campo a procura do que fazer. Criou expectativas na era do Sá Pinto quando todo o jogo era uma absoluta desorganização e ele, aplicado e com alguma cabecinha se sobressaía em relação ao resto. Mas desde aí que está a mais no Sporting, é pena.

Abraço

RG disse...

Bom post Baggio!

Tinhas ganho mais em estar calado Duarte.....

Gonçalo Matos disse...

Tu puxas aqui um tema que para mim é muito mais interessante que o André Martins, que é o da capacidade de avaliar qualidade individual.
A maioria da malta que vê futebol, trabalha no futebol e vive do futebol ainda olha para o nº de golos, o nº de assistências, a altura, a força etc...
E depois cai-se no ridículo de ouvir gente dizer que o André Martins não defende, o Adrien é completo, o Quaresma joga bué, o Salvio é top...

O exemplo mais óbvio é o do Benzema, que é para mim é o melhor ponta de lança do mundo neste momento (ou pelo menos o que quereria na minha equipa). O comum adepto diz que é fraco e que o Real precisa de um ponta novo e que marque 1000 golos/época. O que a malta se esquece é que em campo só há uma bola e não podem marcar todos e que é preciso que para o CR7 ou o GBx marcarem golos, que alguem os assista ou abra espaços.

Quem não se lembra da malta criticar o Valdez e que o Pep precisava de um outro GR? Quando o que tinha ali em casa era provavelmente o melhor do mundo para aquilo que o prórpio Pep se pretendia da equipa.

Culpa disto acaba por ser a comunicação social, a mentalidade fechada, os treinadores exporem pouco as suas opiniões, jogos de computador, que nem FMs e FIFAs onde se atribuem valores quantitativos a características individualizadas do jogador... Um gajo até pode ter 5 a velocidade, mas se estiver bem posicionado, é lento? É que o Luisão não é corredor de 100m... De que serve ter "20" a passe se não se percebe para onde, como e quando passar?

e isto dificilmente vai mudar e facilmente se vão perder muitos putos muito bons nas camadas jovens deste país.

enquanto isso, há treinadores que reinventam o jogo e jogam com laterais a médios, ou 8 a 6 ou 10 nos flancos e são visionários! porque acima de tudo, não têm ideias pré concebidas e avaliam os jogadores não como a soma das partes, mas a interacção entre elas.

Roberto Baggio disse...

André Santos e Duarte, é impossível mostrar a um daltónico que existem mais cores para além das que ele vê.

João Barata, obrigado eu :)

JON, é o novo Quaresma?

Obrigado Gonçalo Matos!

Mário Alexandre disse...

Sem espinhas

Mário Alexandre disse...

Sem espinhas

Gonçalo Matos disse...

André Santos, mas então como consegues demonstrar isso? E comparando com o Adrien, quem anda mais tempo à toa?

Andre Santos disse...

Esperei uma resposta algo mais concreta para a simples pergunta que realizei, talvez não ver cores onde existem seja tão difícil como as ver sem existirem.

Gonçalo Matos, o Post falava sobre o AM, logo falei sobre o mesmo. Não há muito a dizer sobre o Adrien, falha 70% dos passes no meio campo, vai à bola à queima e descompensa a equipa, é fraco fisicamente... Enfim, um bem haja meus caros

Rui Dias disse...

Entretanto Mourinho enlouqueceu de vez:

http://www.maisfutebol.iol.pt/internacional/made-in/mourinho-tenho-um-problema-estou-melhor-em-todos-os-aspetos

Se este ano ganhar a liga podemos dizer adeus áquele que em tempos foi o maior visionário do futebol nacional....

Roberto Baggio disse...

André Santos, não há nada mais concreto do que as etiquetas deste blogue. Para mais informações, começar a clicar, uma de cada vez.

JON disse...

Baggio,

Não sei se é o novo Quaresma, mas não sabe o que é contenção, não sabe que deve conduzir para o meio quando tem espaço (houve lance que pensei que ia levar a bola para a bandeirola de canto!), não sabe esperar, recebe a bola e mete os cornos no chão e vai para cima, enfim... Participou em 10/15 lances e errou 9/14.
Mas voltando ao tema do tópico, que é mais importante que os Hernânis da vida, a percepção das pessoas... Vi gente dizer no final dessa horrível prestação do Hernâni que jogou melhor que o Brahimi nesse jogo, porque "tentou" e "arriscou"... O costume, portanto, e precisamente aquilo para que chamas a atenção no teu texto.

Abraço

Artur Semedo disse...

continuo a achar que o problema de fundo, subjacente a quase tudo que de mal persiste por este rincão, reside na forma como se estrutura o nosso modelo de ensino, que deveria ser igualmente de aprendizagem, mas que não o é. fica muito bonito afirmar categoricamente, nas leis de base ou nas orientações programáticas, que vivemos, abraçamos, amamos como o quaresma ama a trivela, a pedagogia de competências. isto quando, na verdade, somos ainda escravos dos conhecimentos e objectivos, ou seja, do factual e do mecânico. é a criatividade que consegue dar respostas a problemas inéditos; portanto, a criatividade é a competência essencial do progresso. se não estimulamos a criatividade do aluno, estamos a coarctar a criatividade do cidadão. se "ensinamos" o adepto a ver futebol pela ficha técnica e estatística, ele não pode perceber o que é intraduzível por números, quer sejam as subestruturas através das quais se atinge determinado FIM, quer seja aquilo que PODERIA ter acontecido, se em vez de o gajo ir à linha e cruzar tivesse procurado o colega livre com um passe em vez de uma ave-maria para o centro da área... resumindo, um gajo consegue analisar tanto melhor os processos colectivos/individuais, quanto mais capaz for de os perspectivar, não só perante o resultado obtido, mas, e sobretudo, perante as outras possibilidades que, a qualquer momento, se apresentem. também aqui é preciso saber ver entrelinhas, ou nas meta-linhas.
ou isso, ou o hernâni vai ser o futuro extremo do porto, e está tudo fornicado! <3

Sandro Barbosa disse...

Não percebo disto o suficiente para saber se o André Martins é assim tão bom ou assim tão mau, mas os argumentos estão apresentados e são convincentes. O que me perturba de certa forma é ver que (não só no André Martins mas em muitos outros casos referenciados neste blog) para a argumentação aqui feita ser válida tem de haver muitos profissionais conceituados que não sabem exactamente o que andam a fazer. Usando o AM como exemplo, no plantel principal do Sporting passou por Sá Pinto, Oceano, Vercauteren, Jesualdo, Jardim, e Marco Silva. A alguns dos nomeados reconhece-se a incompetência enquanto treinador, mas pelo menos os três últimos têm alguma legitimidade. Se os autores do Blog só por vídeos conseguem perceber o potencial inexplorado do AM por jogar "mal posicionado" como é que isso pode escapar a pessoas com carreiras de sucesso que o viram treinar todos os dias? (incluindo os treinadores da sua formação) E isto não é de todo para por em causa os argumentos que o autor apresenta, é para dizer que, se de facto esta argumentação está correcta - e os videos e imagens parecem indicar que sim - então há muita gente a ser legitimada como treinador sem na verdade conseguir ver as cores todas, para usar a vossa expressão. Se assim for é grave e é triste para o nosso futebol.

GC disse...

Artur Semedo,

Casa-te comigo. Que comentário fantástico. Standing ovation para ti. De verdade.

Baggio,

Gabo-te a paciência em tentar demonstrar que o jogo não é apenas baseado em intervenções individuais descontextualizadas, mas que deve ser jogado colectivamente, com princípios claramente identificados neste blog (e em mais uns quantos, felizmente, poucos, infelizmente) e com um pressuposto base - a inteligência. Quando tomei contacto com o blog pela primeira vez (idos de 2011), senti que nunca, até então, tinha apreciado, verdadeiramente, futebol. Achei que podia tentar fazer ver o meu círculo de amigos mais próximo que há futebol para além de correr, fintar e chutar de força. De um universo ainda alargado de pessoas, consegui que uma aprendesse a apreciar o jogo. Desisti das demais. Se o pessoal quer continuar a reproduzir sound bytes dos anos 70, eh pá, força. Só tenho pena que as pessoas que decidem o futebol também façam parte dessa manada de cegos.

Quanto ao André Martins, para mim é o melhor médio do Sporting. Melhor que William, inclusive. Talvez esteja a exagerar, mas quem o vê há anos a esbanjar inteligência e qualidade e a ser preterido pelos Adriens ou Labyads desta vida... Enfim. Valha-nos S. Patrício e D. Nani.

Gonçalo Matos disse...

Treinadores diferentes, ideias diferentes, perfis de jogadores diferentes. A malta daqui tem x ideias que não são forçosamente as mesmas que esses treinadores.

Rafael Antunes disse...

Fodasse!!!!

Este post é música!!!!

E tou-me a cagar pro André Martins!!! Refiro-me às meta-linhas (Artur a bombar, qualidade à bruta!!!!)

Ganda malha Baggio...

Abraço

LR disse...

"Quando tomei contacto com o blog pela primeira vez (idos de 2011), senti que nunca, até então, tinha apreciado, verdadeiramente, futebol."

Era só isto...e não é pouco! Obrigado e parabéns pelas últimas entradas do blog.

Roberto Baggio disse...

JON, é preciso ter-se cuidado quando se diz que se joga melhor que o Brahimi kkkkk enfim. os atrevidos do costume.

Sandro, excelente reflexão...

GC, já não há paciência. É reencaminhar para as etiquetas. Agradeço eu por achares que aprendes alguma coisa aqui com o blogue.

Rafael, também sou fã dele.

LR, agradeço eu por achares que o blogue tem qualidade.

Gonçalo Azevedo Coutinho disse...

Começo a estranhar tanto texto sobre o A. Martins, que cada vez mais acho um jogador banal, e que não tem claramente a qualidade suficiente para ser um titular do Sporting. Peço desculpa mas não vou nessas cantigas de o gajo não aparecer muito mas ser essencial.

1 - Ele não é médio defensivo, logo, não vejo qual o motivo de se elogiar assim tanto as suas qualidades defensivas - o problema é ser ofensivo e não ter qualidades ofensivas quase nenhuas.

2 - O Rosel também não se vê em campo, e também não joga absolutamente nada, é quase menos um.

3 - Para os iluminados, recordo as dezenas de jogos em que A Martins foi titular e não fez absolutamente nada, e rcordo também o aumento brutal da qualidade de jogo do meio campo quando o J. Mário ganhou finalmente o lugar.

Gosto muito do A Martins por ser da casa e por ter enorme respeito pelo clube e colegas, mas não vou nestas conversas de le ser uma vítima da ignorância de quase 100% dos sportinguistas.

GAC1906

SL

Gonçalo Matos disse...

1 - Ele não é médio defensivo mas é jogador de futebol, logo tem de defender. O que foi demonstrado foi que ao contrário do que se pensa, o Martins é forte a defender. Percebe perfeitamente os comportamentos que deve ter numa defesa zona e consegue ajustar o seu posicionamento de modo a estar sempre onde deve estar.

2 - O Rosell não se vê em campo mas é outro dos que domina o que é comportamento de uma defesa zona. Se calhar é por isso que não se nota.. Já para não falar que é dos jogadores que mais simplifica com bola e pelo menos tenta jogar pelo corredor central.

3-"não fez absolutamente nada", quantos jogos o Adrien não fez nada, o William não fez nada? O que é não fazer nada??

Gonçalo, o Martins é melhor que o Adrien em termos de posicionamento defensivo e ofensivo, na qualidade da tomada de decisão e na qualidade de passe. Perde em velocidade, força e remate, aceito isso. Mas de resto, prefiro sem duvida o Martins "não jogando nada" que o Adrien que constantemente se desposiciona e frequentemente perde a bola por nao perceber o que é a melhor acção naquele instante.