quinta-feira, 9 de abril de 2015

Conta Xabi, que percepção tens do que te pedem em campo? O futebol como um jogo de probabilidades. Onde se volta a falar de André Martins.

"I have to make a huge number of small yet corrections decisions. Sometimes my play includes a dream pass, and that's one of the higlights in my job, allong with the goals I don't score all that often. But more important than those moments are the many small and at first, seemingly insignificant passes or shifts in play that might give one of my team mates a chance to play or driblle or plays them effectively. I believe in being able to read a match well and control it, and that's the basis of what I do." Xabi Alonso

Num momento em que o jogo é do ponto de vista técnico e físico, cada vez mais equilibrado (longe vão os tempos em que só os grandes clubes treinavam), as tomadas de decisão surgem como um dos traços mais decisivos no jogo moderno.

Por tomadas de decisão, deve entender-se, as opções que cada jogador toma a cada momento (com ou sem bola). Para onde deslocar? A que velocidade o fazer? Que espaço ocupar? Para onde desmarcar? Quando soltar a bola? e para onde? Quando progredir com a bola?

Cada situação de jogo tem uma forma mais eficiente de ser resolvida. Tal não significa que optando pelo pior caminho, se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que, optando bem, se será sempre bem sucedido. Significa somente que, optando bem, está-se sempre mais próximo de ser bem sucedido.

Exemplo simples. Numa situação de 2x1, o portador da bola deve progredir com a bola no pé, no sentido da baliza, soltando a bola, no timing correcto (bem próximo do defesa), para que a bola saia para as costas do defesa. O passe deve ser efectuado para o espaço (e não para o pé do colega, por forma a que este não trave a corrida). Ou seja, de uma situação de 2x1, pretende-se passar para uma de 1x0.

Se em dez situações de 2x1, o portador da bola (no momento inicial, antes do passe), for capaz de as resolver dessa forma, provavelmente a sua equipa fará 8,9 golos, ainda que nenhum marcado por si (uma vez que acabará por fazer o passe para o colega de equipa).

Se na mesma situação, o portador da bola optar por driblar o defesa, e mesmo partindo do princípio que os seus traços individuais são bastante bons, provavelmente, em dez lances, marca 4,5 golos.

Os jogos em que, optando mal, se chega ao golo, são óptimos. Porém, em termos globais, a equipa sai prejudicada. Os 5 golos marcados dão notoriedade aos olhos do comum adepto. Mas, não são o que de melhor poderia ter dado à equipa.

Quem toma as melhores decisões a cada momento, tem a sua equipa, sempre mais próxima do objectivo (marcar, não sofrer, ganhar). Mesmo que não obtenha tanta notoriedade.

A situação descrita é uma situação de finalização, por ser de mais fácil compreensão. Porém, é importante perceber-se que as decisões se aplicam em todas as situações do jogo. Por mais banais que lhe pareçam. É que, para se chegar a uma situação de finalização, há todo um trabalho prévio, tão importante quanto o último momento (que nunca surge, quando a fase que antecede a finalização não é eficiente).

Numa equipa desorganizada, talvez seja interessante ter jogadores que, jogando só para si, sejam capazes de, tempos a tempos, criar algo. Num colectivo que se pretende forte, tal não faz sentido.

Texto originalmente publicado no blog em 2009. Desta feita com as recentes declarações de Xabi Alonso.

Demasiadas vezes a boa tomada de decisão, sobretudo em fases como a da construção e criação, chega até a afastar o jogador da notoriedade, porque este está apenas preocupado com o proporcionar à sua equipa uma boa situação de jogo (com menos oposição e bola mais enquadrada com a baliza). É, por exemplo o caso do post anterior. Um extremo que a um toque coloca um colega de frente apenas para a defensiva adversárias e bem enquadrado no corredor central. O passe de Ola John para Djuricic poderia ter saído mal, mas a decisão teria sido óptima. Já se tomasse a liberdade de arrancar pela linha e tirar um cruzamento, mesmo que tivesse dado golo, teria sido uma má decisão, porque as probabilidades de chegar ao golo dessa forma são incrivelmente mais reduzidas do que fazendo a bola chegar a um colega enquadrado no corredor central só com a linha defensiva adversária à sua frente.

Em 2013. também no Lateral Esquerdo, em tomada de decisão, esse mistério que determina quem vence mais.

O grande público tende a dominar pouco quando se trata de avaliar a competência individual dos atletas, sobretudo quando estes andam afastados da notoriedade. No post passado foi mostrado um video de uma acção de André Martins pouco mais que banal, mas que provavelmente em 2/3 dos atletas da Liga teria dado transição adversária. É no simples que começa a construção. É a construír que André deveria ser mais chamado. Afinal, é o melhor médio leonino nesse capítulo.

4 comentários:

DonDon disse...

Nelson Oliveira em Camp Nou, anyone?

segismundo brotafrontes disse...

A partir do que tenho aprendido por aqui estas linhas fazem todo o sentido, até porque algumas são repescadas de anos anteriores, o que demonstra bem o tipo de futebol que defendem.

Mas ao ler o exemplo do ola john pensei numa outra coisa. O jogo dele, por vezes, torna-se muito previsível. O que acaba por facilitar o trabalho defensivo da equipa adversária - o que também decorre de demorar algumas vezes aquele segundo a mais a largar a bola que permite a reorganização defensiva. O que vinha propor era uma espécie de caso académico:

será conveniente a um jogador que passe mais tempo junto da últma linha adversária por vezes arriscar numa jogada individual para assim iludir o defesa mais à frente no jogo?

Claro que a resposta estatística também pode servir: faz-se isso qd a probabilidade de sucesso entre o drible e passe não é diferente; ou escolhe-se o melhor momento para o fazer; ou qd não há outra hipótese; e assim se constroi o jogo do gato e do rato entre as tomadas de decisão das duas equipas.

Isto porque, especulando, no exercício 2x1 apontado, às 3ª ou 4ª vez o defesa já procura corrigir o movimento. Coloca os apoios para recuperar a posição ou procura perceber o momento do passe, induzir o passe, qq coisa deste género, para assim recuperar a bola ou chutá-la para canto. Resultado óbvio, nesta circunstância, pede-se drible ao portador.

Concluindo, como tratamos de lances em laboratório há sempre respostas adequadas para que a melhor decisão seja aquela naquele momento. O que me pergunto é se a melhor decisão pode não o ser tendo em conta os 90 minutos, uma eliminatória a duas mãos, etc. No fundo, procuro colocar a decisão numa perspectiva temporal. Será a resposta: o futebol é o momento?

pancas disse...

O segundo golo do Quaresma frente ao Estoril e um claro exemplo de uma na decisao que seu golo (as tais 4,5 vezes em vez de 8,9).
Em frente ao guarda-redes em posicao lateral, Quaresma escolheu fintar em vez de passar para o colega no centro que ficaria com a baliza aberta...
Mas para a maioria dos adeptos - "que grande jogada!"

Roberto Baggio disse...

O futebol é o momento... e a decisão depende daquilo que o adversário te dá... se ele não estiver fixo, e induzir o passe, deves ir pra cima dele... se ele tiver os apoios mal orientados, é só faze-lo trocar os apoios, em drible, e depois decidir consoante o movimento dele. se for atrás de ti, passe, se continuar a fechar o teu colega vais tu embora...

Ver golo de Brahimi contra o Estoril. 2x0, e o GR vai todo lambão fechar o passe, e ele dribla o GR!