sábado, 16 de maio de 2015

Na rua os pais não dão instruções. Por que é que o fazem no treino e no jogo?

Tarde passada num torneio de Petizes do lado da bancada a ouvir os pais. E  aos já tradicionais chuta seja lá de que forma for, e marca o teu, os pais brindaram-me com uma novidade - Então eles ainda não sabem quem tem de lançar a bola?! Com miúdos de 6 anos os pais querem que a equipa esteja tão organizada que inclusivamente os marcadores de lançamentos de linha lateral estejam definidos. E são tão veementes a gritar para dentro de campo, dando instruções constantes aos miúdos do que fazer, do como fazer, do quando fazer, que é impossível a qualquer treinador pedir que não se oiça os pais ou que não faça nada do que eles pedem. Com este tipo de dificuldades, com este tipo de pensamento, não é de admirar que dos 25 jogadores que inicialmente compunham a equipa de Infantis7 que treinei apenas 3 soubessem executar correctamente um lançamento de linha lateral. Está tudo tão formatado, os jogadores das linhas é que lançam, os mais altos é que vão para a área nos cantos, os mais rápidos é que jogam na frente... Assim se percebe perfeitamente o porquê da esmagadora maioria dos formandos apresentar grandes lacunas em alguns dos aspectos mais relevantes para o jogo. Pobreza de estímulos no treino e em jogo. Reforço daquilo em que são mais fortes mas total esquecimento daquilo em que são mais débeis.

Deixem os miúdos aprender, passar pelo maior número de situações possível na baliza e fora dela. Deixem que melhorem no que têm dificuldade e percebam que isso vai levar a que errem muitas vezes. Deixe a organização e especialização para mais tarde porque depois, no último minuto de uma meia final da Liga dos Campeões, o seu filho poderá ser o Guarda Redes que executa mal um lançamento, entregando a bola ao adversário e esgotando os segundos preciosos que se precisam para se conseguir o resultado.

14 comentários:

João disse...

Grande post.

Como alguns estádios na Premier League têm sinaléticas a dizer "Bancada familiar, não diga asneiras", deviam colocar algo do género "Bancada de adeptos, não de treinadores".

Embora adivinhe o porquê de isso acontecer, era bom haver sensibilização sobre os pais (comportamentos com árbitros, linguagem, etc...)

J. Saro

Jorge disse...

Nao tem propriamente a ver com este vosso artigo, mas com muito de aquilo que voces mencionam no blog:

http://www.nytimes.com/2015/05/17/opinion/sunday/let-the-kids-learn-through-play.html

Gosto especialmente da frase: "it can be fostered, but not forced."

CL disse...

(tentei comentar antes mas acho que o comentário não foi enviado)

Pior que isso só ver miúdos de 6/7 anos a jogar 7x7, em medidas de futebol de 7. Perguntei a um dos treinadores o porquê de não fazerem 3x3 ou 4x4 com minibalizas e sem GR disse-me que... os miúdos/as já são capazes de se organizar em futebol de 7.

Ainda lhe tentei falar da necessidade de criar relação com bola etc. etc., mas sou logo o chico esperto que anda na faculdade de Desporto..

Abraço

Artur Semedo disse...

que o mundo actual vive na ilusão da especialização extreme, é evidente. que os senhores doutores paizinhos sejam incapazes de, pelo menos, dar umas abébias e deixar que os petizes sejam enciclopédicos é que não se compreende!
devem pensar que só assim serão bem sucedidos, no futebol, como na vida.
pois, só que não!!!

Jorge disse...

Roberto:

Por aqui os clubes teem regras de comportamento para os pais que sao mais ou menos impostas, e em algumas competicoes chega a haver uma imposicao de "silent sidelines" em que nao e permitida qualquer palavra vinda dos espectadores. So podem aplaudir.
Mas ja assisti a situacoes ridiculas, e muitos dos pais nem sabem nada de futebol, se bem que aqueles que acham que sabem sao os piores porque tendem a querer dar mais instrucoes...

Dennis Bergkamp disse...

Quanto mais tempo passa, mais sentido fazem medidas como "não deixar os pais assistir aos jogos e treinos"

É tão difícil para eles aceitar que outra criança pode simplesmente ser mais apta que ficam cegos.

A bem pouco tempo, vi pais de um grupo de miudos muito muito abaixo da média a "cascar" no treinador, que não era isto e aquilo durante os jogos.

Foi-lhes dito que os jogos são inclusivos, que são para todos serem convocados e jogarem todos o mesmo tempo, e que é um espaço para mostrarem o que estão a aprender nos treinos.

De nada serve. O treinador há de ser sempre o culpado de tudo o que não é ganhar.

Se dão tareias, é porque os meninos são os maiores, se as levam.. o treinador não os motiva.

Nem um "se eu trouxer um guarda redes que tenho ali ao lado, chega para ganhar a essa equipa toda, e não há nada que o treinador possa fazer. É muiiiito melhor do que todos esses miudos juntos e não iam ter hipotese" os trás a terra.

A bem pouco tempo perguntamos, antes de um jogo "quem é que aqui teve o pai, durante a semana, a dizer que o jogo era muito importante e que tinham de ganhar, custe o que custar?".. em 12, 10 levantaram o braço.

Dipeca disse...

Sim, é complicado gerir isso. Eu nem ligo muito, dou muita confiança e mimos aos jogadores e dou pouca confiança e muitos "pois..." aos pais que querem dar opinião :). Mas felizmente, não tenho tido muita queixa. Mas tenho uma oh outra pérola vindo da bancada,em forma de indicação :)

Jorge disse...

Nao e so dar opiniao e indicacoes, e a pressao que poem nos miudos. Mesmo os mais bem intencionados sem querer poem pressao nos miudos para ganhar, para marcarem golos ao ficarem exuberantes quando isso acontece. Os miudos ficam com a sensacao que os pais gostam mais deles quando o fazem.

Ja agora partilho uma pagina do facebook que recomendo aos pais dos meus jogadores:
https://www.facebook.com/DrGPeakPerformance?fref=ts

Pedro Costa disse...

Concordo em absoluto mas, na minha experiência, falar com os pais e explicar-lhes o que se está a tentar fazer é uma boa solução. Não resolve tudo, longe disso, mas, se lhes for explicado, os pais percebem que se está a tentar trabalhar de forma consistente e com vista no futuro, independentemente dos resultados no presente.

Neste ponto, nós, treinadores, temos também parte da culpa ao termos uma atitude face aos pais de superioridade e de alguma hostilidade. Muitas vezes, é não haver compreensão mútua que faz com que essas situações aconteçam. E como nós é que somos os "líderes" das equipas, somos nós que temos que dar o primeiro passo, não são os pais.

R.B. NorTør disse...

Os pais...

Fiz um desporto de competição, que não o futebol, e nunca estive em pavilhões tão complicados como aqueles em que ocorriam competições dos escalões jovens. Todos os pais sabiam tudo, mesmo que nunca tivessem saído da bancada. No futebol imagino que ainda é pior!

Jorge disse...

E o mesmo em todos os desportos... Pior nos mais populares (aqui baseball, basketball e futebol americano) porque os pais teem a ilusao que percebem por terem visto muitos jogos.
Felizmente que os pais nao podem ir a escola com os filhos e assistir aos exames de matematica dos filhos...

Jorge disse...

http://changingthegameproject.com/why-kids-quit-sports/

Filipe Freitas disse...

Cada vez mais encontramos nos jogos de fim de semana pais a tentar controlar todas as ações dos seus miúdos, para que este tenham um desempenho que os possam orgulhar e não humilhar.

Num destes ultimos fins de semana num jogo da minha equipa de Benjamins, tive amigos a assistir a esse jogo, amigos esses que estão fora da realidade futebolistica e desportiva, mas não deixaram de me relatar alguns comentários demais exagerados, saídos da bancada para miúdos de apenas 10!! anos, por parte dos seus progenitores.
Isto revela uma falta de cultura desportiva por parte de pais, que acham que percebem sempre de futebol, porque vêem os todos jogos da Liga dos Campeões, Liga Inglesa, Liga Espanhola...
O objetivo deve ser deixar as crianças aprender, evoluir e divertir. Porque é que nunca ouvimos comentários deste género para praticantes da mesma idade nas modalidades de ginástica, atletismo, natação, patinagem, judo?

Isto só pode ser combatido com reuniões de "educação" aos pais em vários períodos da época, organizadas por treinadores e coordenadores. Só assim poderemos esperar pais educados e cultos desportivamente nas bancadas dos nossos campos fins de semana após fins de semana.

R.B. NorTør disse...

Hum... Tens ido a muitas competições de judo? Se não tens vai (e depois corrige o teu comentário). ;)