segunda-feira, 4 de maio de 2015

O futebol, o treino, e o que não vem nos livros

Aquilo que faz a diferença na era do conhecimento partilhado é a capacidade de operacionalizar o treino por forma a conseguir concretizar os objectivos da equipa: formar ou rendimento. Temos dito muitas vezes por aqui, que ler livros, fazer cursos, ver o jogo e o treino, não ensina o essencial, e o mesmo também é dito por José Mourinho. E o essencial é o saber pensar. O saber adaptar-se ao contexto consoante as dificuldades dos jogadores, as dificuldades ao nível de espaço, as dificuldades ao nível do número, as dificuldades ao nível do tempo, as limitações em termos de material, e isso ninguém ensina. Isso faz-se com criatividade, que surge do teorizar e discutir com os jogadores, e com a restante equipa técnica, o que se está a passar em cada exercício, qual era o objectivo, se está a ser cumprido - se sim, se está a correr bem pelas condicionantes ditadas pelo treinador ou por influências externas; se não, o porquê -. Surge com o levar para casa o que se passou no treino, e pensar em soluções novas para resolver os problemas sentidos no dia anterior. E por isso, ainda que o conhecimento esteja aberto à todos, poucos continuarão a ser os verdadeiramente competentes para criar um treino de qualidade.

Quantos exemplos querem de treinadores, no escalão máximo nacional, que passam o treino a conversar com os directores, e a olhar para os jogadores, sem perceber nada do que se está ali a passar, por não serem competentes no treino? E por isso, deixam tudo nas mãos dos adjuntos, em quem eles confiam o destino da equipa para o fim de semana seguinte!

Quando me dizem que treinador X trabalha muito bem porque trabalha sempre com bola, e faz uns exercícios giros, desconfio logo. Porque para trabalhar bem é preciso exercícios giros, com bola, dentro de uma determinada lógica de desenvolvimento, com o objectivo de fazer o jogador evoluir nos seus comportamentos individuais e colectivos para o jogo.


15 comentários:

João disse...

Sendo, em geral, verdade a questão do conhecimento. O próprio Mourinho acrescentou um factor mais tarde no video que não facilita a questão inicial ("vais amanha treinar uma equipa e só não estruturas bem senão quiseres").

É a overdose de informação que existe e a necessidade de ser filtrada. Quantos blogues maus ou sem sumo existem sobre o treino por cada "lateral-esquerdo" ou "posse de bola"?

Há 10 anos, já se falava em overdose de informação na internet. Imagine-se hoje.

A capacidade de filtrar a informação torna-se o ponto essencial em qualquer actividade hoje.

J. Saro

Rui Fernandes disse...

É a grande verdade que poucos falam...Ser bom treinador é adaptar os exercícios às necessidades e aos objectivos e não fazer apenas exercícios muito dinâmicos e complexos, como a maior parte fala.

Rui Fernandes

masterzen disse...


Este teu post indica um fenómeno social cada vez mais presente em todas as áreas da sociedade. O aparecimento de pessoas muito preparadas teoricamente, bem falantes, que são capazes sem problema nenhum de teorizar sobre modelos distintos e antagónicos teóricos, esmiuçando de ponta a ponta a maior parte dos conceitos.
O problema é a acção... misturam alhos com bogalhos, muitos fazem asneiras básicas a um nível quase do senso comum.
O maior exemplo até agora e sem prova em contrário é o Carlos Azenha. Este senhor esteve na Sporttv antes do Bayern Porto e partiu aquilo tudo ao meio. A forma como falava e explicava vários conceitos de jogo tudo numa simplicidade mundana meteu os pseudo experts do programa numa posição quase ridicula. O freitas lobo estava mais pequeno que um bago de arroz.
O problema é a acção, a prática ai o Azenha até agora não deu uma para a caixa.

Uma equipa técnica que misture esses velhos do restelo como o mota ou o jaime pacheco com adjuntos Letrados mas apenas teóricos é explosiva.

Abraço

Pedro disse...

"O saber adaptar-se ao contexto consoante as dificuldades dos jogadores, as dificuldades ao nível de espaço, as dificuldades ao nível do número, as dificuldades ao nível do tempo, as limitações em termos de material, e isso ninguém ensina."

Uish!!!
:)

TiagoGomes29 disse...

Boas Baggio,
Admiro muito o vosso trabalho e posso dizer que é o blog que eu mais vejo e que mais aprendo.
Deixando aqui uma questão que me parece que não falaste directamente mas que penso que indirectamente falaste.
E essa questão é o feedback dado pelos treinadores na execução do exercicio.Tu podes ter um exercicio muito bom de organização ofensiva em que os jogadores tenham que utilizar muito o passe curto, etc. mas se o treinador não souber dar o feedback correcto o exercicio não serve para nada pq nem os jogadores perceberão para que serve o exercicio nem o vão executar de uma forma certa para que no futuro seja possivel retirar dividendos.
Por isso digo muitas vezes que podes ter os melhores exercicios do mundo mas se não tiveres o feedbaack apropriado esses exercicios têm o mesmo rendimento que os outros. Concordas Baggio?
Abraço,
Continuação de bons artigos.

Roberto Baggio disse...

Pedro, está mal escrito ou assim? se estiver corrige-me pá xD

Tiago, o feedback é tão importante quanto a qualidade do exercício sim.

Dipeca disse...

Muito bom post. Concordo em absoluto com o post e com aquilo que o Mou diz no video. Não basta ter exercícios de bola para ser "moderno". É preciso adaptar-se à equipa, criar exercícios com qualidade e saber para quem são e para o que são. Exemplo, numa equipa de iniciados não vale a pena treinar coisas que numa equiapa de séniores se treinam.

E, ainda, qdo se trabalha com miúdos, ainda podes acrescentar outro fator, o nível de concentração deles. Por exemplo, se tiveram teste, se é feriado. Qdo estão num dia que sentimos que não vamos sonseguir obter o foco deles, mais vale desistir da estrutura do treino, fazer algo que eles já conhecem ou algo mto simples e tentar obter o melhor rendimento possível numa tarefa, do que estar a ensinar um conceito novo que não vai ser percebido.

Dennis Bergkamp disse...

Se forem clicar aqui e ali, é óbvio que no papel aquilo fica bonito. Mas como não é contextualizado... nem sequer vale a pena falar em feedback.

É como chegarem a um sitio qq e fazerem uma apresentação de um trabalho que não é vosso, basta alguém fazer uma pergunta e borram-se logo todos.

Inventor, criador, modelador, mas de algo que é próprio.

Roubar ideias, principios, sim. Mas com reflexão, adaptação ao contexto e a individualidade de cada um.

Caso contrário... "até a minha avó conseguia"

Roberto Baggio disse...

"E, ainda, qdo se trabalha com miúdos, ainda podes acrescentar outro fator, o nível de concentração deles. Por exemplo, se tiveram teste, se é feriado. Qdo estão num dia que sentimos que não vamos sonseguir obter o foco deles, mais vale desistir da estrutura do treino, fazer algo que eles já conhecem ou algo mto simples e tentar obter o melhor rendimento possível numa tarefa, do que estar a ensinar um conceito novo que não vai ser percebido."

Este comentário vai para a galeria Dipeca. Muito bom. Sabes quantos treinadores eu conheço que desistem da estrutura planeada quando algo está a correr mal, pelos motivos que citaste, ou por outros factores? Poucos... muito poucos mesmo!

Dennis, ainda há pouco roubei um de um treinador, e falei com ele a discutir as adaptações que eu tinha feito e porquê. E sabes a que conclusões chegamos? o foco dele, quando criou o exercício era completamente diferente daquele que eu entendi quando o li. E o exercício ficou a valer pelo que eu precisava dele, e para ele pelo que ele o criou. Adaptar a ideia inicial para o meu contexto. É disto que tu falas.

Dennis Bergkamp disse...

You spik da tru, caro Baggio

Ainda a pouco tempo lembro-me de me virar para o treinador que estava a assumir uma estação e "esquece, esses gajos estão mortos, faz 4 balizas e jogo, que não vale a pena estares a tentar ensinar nada novo hoje"

E há mais coisas giras. No inicio do ano havia um exercício que estava sempre igual no papel e fizemos todos os treinos durante quase 1 mês e meio:

2GR + 5x3 + 3 mini balizas

Tive um pai a dar o toque "o mister não tem imaginação nenhuma, faz sempre o mesmo exercício".

O que não sabiam é que aquilo dava para treinar tudo e mais alguma coisa.. era só apontar o feedback mais para um lado ou para outro.

Vasco disse...

Baggio, por falares em tópicos como modernização, gostaria de fazer 2 referências:
Van Gaal y Bielsa.

O 1º já disseste mais que uma vez que lhe reconheces grandes qualidades e, depois vê-se marcação à homem e N disparates no Mu.

O 2º, herói basco, referido N vezes por ex-jogadores como o melhor treinador que tiveram nas suas carreiras. Salvo erro até transcreveste no blog umas palavras do Lucho e, depois vê-se uma defesa anárquica...41 golos sofridos! Eita Porra!

Pedro disse...

"Pedro, está mal escrito ou assim?"

Nada disso, está excelente.

Rumo Norte disse...

Quando treinava miúdos de 11-12 anos, já sabia que qualquer organização que demorasse mais que 30-40 segundos a ser explicada tinha a mesma probabilidade de ser entendida que se usasse apenas 20 segundos. Então, dava sempre as indicações depressa e punha-os a jogar, e ao fim de 2-3 minutos de caos, parava o treino e pedia-lhes a eles para me explicarem o que estavamos a fazer. Podia demorar duas ou três vezes, mas eles começavam a perceber não pela minha elabora explicação, mas pela experiência, pelo esforço cognitivo para traduzir o que eu dizia e o que eles entendiam, e pelo feedback que se ia dando aos mais afoitos e aos mais lentos a entender. A chave, para qualquer treinador, diria eu, é ser capaz de identificar as oportunidades de melhoria de forma contínua. Mas do lado dos pais, eu percebia às vezes, aquilo parecia uma confusão pegada. Criei o hábito de, no final do treino e dos jogos, ir falar com eles para lhes mostrar como queriamos fazer certas coisas, e como o progresso dos miúdos se devia à forma como os deixavamos descobrir as coisas por eles próprios, com a devida orientação e feedback. O Mourinho faz muito bem esta forma crítica de apresentar temas. Excelente post e boa discussão.

Roberto Baggio disse...

"O que não sabiam é que aquilo dava para treinar tudo e mais alguma coisa.. era só apontar o feedback mais para um lado ou para outro."

Tu estás aqui!
É que é mesmo isso :)

Vasco, gosto muito de Bielsa por fazer fácil o mais difícil no futebol - atacar. Mas não gosto do facto de não ligar nada a defesa.
Van Gaal, bem, é dar-lhe o tal outro ano que pede, e ver se não morreu de vez.

Blog de Portugal disse...

Esse comentário do Dipeca diz mesmo muito!

Para quem anda ou já andou na formação, há claramente aqueles dias em que um treinador sente logo que "hoje esquece, não vai dar". Às vezes é simplesmente porque uns 4/5 não estão ali, distraem-se, querem brincar, etc., e se queremos ensinar algo novo quase sempre sai cagada. A melhor solução que encontrei foi mesmo usar exercícios habituais e/ou simples.