quarta-feira, 27 de maio de 2015

Obsessão pelo controlo

Ontem no Facebook relançada a discussão sobre a padronização inspirada num post antigo do Posse de Bola, aqui. O que penso sobre a padronização está bem descrito no post, mas gostaria de acrescentar algumas linhas.

Na minha opinião, a padronização surge pela necessidade dos treinadores (classe à qual pertenço) em ter o máximo controlo possível sobre os acontecimentos do jogo. Os treinadores são tão obcecados por controlar tudo que tentam inclusivamente retirar ao jogo à sua essência - o caos. O futebol é um jogo caótico. Caótico no sentido de ser impossível controlar os seus acontecimentos, por nunca se saber que reacção ocorre de cada acção que decorre. E por isso, todas as situações de jogo são diferentes. Entender isto, perceber isto, causa no treinador um sentimento de impotência enorme. O treinador julga-se sempre maior e mais importante do que aquilo que verdadeiramente é. E quando lhe surge alguma teoria que tem como conclusão que ele depende muito mais dos jogadores do que os jogadores dele, que os jogadores são os únicos a ter controlo do que ele não controla, sentem-se insignificantes, ofendidos, e recusam essa possibilidade por se acharem capazes de tudo. Mas não o são. Na verdade, treinadores, somos capazes de muito pouco por não sermos nós a jogar. A obsessão pelo controlo leva a que se tente fazer tudo para retirar a imprevisibilidade ao jogo. E leva a que se esqueça que, por mais previsíveis que se possam pintar, os quadros serão sempre diferentes. Esse esquecimento tem como consequência a entrada sem dificuldade no facilitismo do padrão, bem como a exoneração da dificuldade que é ensinar quem controla a perceber como pode ter sucesso em condições caóticas.

Utilizando uma frase do Bergkamp, simplificar é radicalmente diferente de descontextualizar. E padronizar é descontextualização absoluta, por se retirar o factor que mais influencia as relações que se criam no jogo - a aleatoriedade.

PS: Na foto José Mourinho, talvez por ser hoje no alto rendimento o treinador mais obcecado pelo controlo do jogo.

13 comentários:

Artur Semedo disse...

será por isso que ele, agora, quer ter a bola sempre o menos tempo possível? para os jogadores não se porem a inventar?

César Páris disse...

Concordo com tudo, menos com o final - acho Guardiola o protótipo do controlo, daí a obsessão pela posse de bola... Já Mourinho, há muito que percebe que ele pode ser o mais importante, mas não é ele quem controla.

Artur Semedo disse...

não acho que o pep queira controlar o caos, tendo a bola. acho que ele quer ter a bola, e organiza as dinâmicas da equipa, para que possam ser os jogadores dele a decidir que tipo de caos vai surgir na maior parte possível do tempo...
o mourinho, ao abdicar cada vez mais da liberdade criadora dos jogadores é que parece enveredar mais por essa tentativa fútil de tudo controlar...

Blog de Portugal disse...

Controlar o jogo, que deve ser a intenção do Pep, é diferente de controlar as ações dos jogadores. Com bola, segundo o Pep, mandas no jogo, logo controlas o jogo, porque tens o elemento que decide tudo: a bola. É totalmente diferente de controlar as ações dos jogadores.

Gonçalo Matos disse...

os treinadores "mais importantes" não serão aqueles que hoje em dia mais importancia dão ao jogar?
Esses não querem controlar as variáveis todas. querem sim disponibilizar ferramentas que permitam aos seus jogadores decidir como controlar o adversário...

martin vazquez disse...

http://www.marca.com/2015/05/26/futbol/futbol_internacional/bundesliga/1432669860.html . o caos segundo pep

Benoit disse...

Penso que esta foi uma forma de "evolução" (não quer dizer para melhor) de Mourinho. Quem o conhece sabe que em cada época adopta uma nova concepção e por isso se vai notando cada vez mais um distanciamento do futebol praticado nos anos em que treinou o FCPorto.

DC disse...

Basicamente é como o aluno que decora os exercícios e depois basta trocar os números e já não os sabe resolver.
Para poder controlar melhor o jogo, nada melhor do que criar as condições para que os jogadores entendam o máximo do jogo.
Se for só padronizar, impôr regras, decorar, depois o exercício sai um bocadinho ao lado, o pino mexe as pernas e o jogador já não sabe o que há-de fazer.

Rinus Michels disse...

Totalmente de acordo com o texto como é óbvio.
Quanto à questão de Mourinho, curiosamente ou não, no momento da sua carreira em que tenta controlar mais todas as variáveis, é exactamente o momento em que, como nunca, mais depende das individualidades.

Dipeca disse...

O que consideras serem os mais importantes?
Acho claramente que a organização defensiva é mais analítica e portanto mais fácil de controlar, mas mesmo assim tem imensas variantes. A organização ofensiva penso que já é um caos assumido, e aí o treino serve mto como orientador e dar experiência em determinadas situações, mas nunca como obrigatoriedade de fazer isto ou aquilo.

martin vazquez disse...

há uma teoria que desmancha os 4 momentos do jogo de futebol, já que o jogo é caótico e não há pausas entre os " momentos "

jorge gaspar disse...

Partindo do principio que existe uma forma superior de jogar (uma forma de jogar que nos aproxima o maximo possivel da vitoria) e de que essa forma de jogar pode ser ensinada desde o inicio da formação ou quase desde do inicio ou que pode ser aprendida autonomamente (e em muitos casos assim é), então, acredito que dentro de uma equipa com formação de excelência o trabalho do treinador é apenas um trabalho de logistica, e já agora o de não estragar tudo.
Há jogadores que são excelentes a perceber como se devem posicionar e como devem actuar colectivamente, e esses precisam pouco de um treinador e muito de colegas como eles.

Futebol disse...

A dimensão que o PEP quer no seu jogar é o DOMÍNIO e não o CONTROLO!!
Controlo implica controlar as acções e os momentos do jogo adversário e os meus... quando tenho bola o "chip" continua o mesmo, ou seja CONTROLO, reduzir a margem de risco ao máximo, menor exposição... faço da posse de bola um projecto de risco, para isso o "chip" da minha equipa é o CONTROLO.

DOMÍNIO é dominar o jogo, e o jogo só o consegues dominar quando tens a bola em tua posse e fazes dela a grande dimensão do teu jogar, quer nas 2 fases do jogo (ofensivo e defensivo). ter bola para a tua equipa, é a única forma de defenderes bem e atacares melhor, para conseguires isso tens que dominar o jogo, o foco é a ter a bola e não o deslocamento do adversário.
isto é apenas a minha maneira de ver...