quinta-feira, 11 de junho de 2015

Rui Vitória não gosta de passes laterais

Confirma-se assim a preferência do presidente pelo seu nome entre os que estiveram em cima da mesa. Um dos pontos basilares do seu modelo assenta no facto de pedir aos seus jogadores para não fazerem passes laterais. Diz que podem passar para frente, para trás, em diagonal, mas para o lado não. Acrescenta ainda que quer que todos os jogadores devem ser fortes na reacção à perda de bola, e combativos nos duelos individuais.

Sistema de jogo no momento ofensivo 1x4x3x3
Sistema de jogo no momento defensivo 1x4x4x2

Linha defensiva - Tenta organizar-se por referências zonais. Defende bem a largura. Defende relativamente bem a profundidade. Quando a bola entra na área a referência passa a ser individual.
No pormenor percebe-se que a linha defensiva não é muito agressiva no cumprimento dos posicionamentos, nos ajustes, e que não é muito agressiva a sair na bola (centrais principalmente). Quando existe possibilidade de cruzamentos central afasta da cobertura e tenta fechar a baliza. Aí percebe-se a pouca agressividade dos extremos ou médios em surgir na cobertura ao lateral, e a indefinição dos espaços a ocupar no caso de o central ser obrigado a sair na contenção, criando por vezes um espaço enorme entre os dois centrais.

Linha Média e Linha Avançada no momento defensivo - Um dos médios é responsável por pressionar o central do lado contrário, ficando com dois homens na linha da frente. Os restantes colocam-se em cobertura aos espaços. Os médios fecham bem do lado da bola, excepto o ala do lado contrário que por vezes fica muito afastado dos restantes colegas. Não foram nunca extremamente agressivos na pressão.
No pormenor percebe-se que quando os médios são ultrapassados mostram alguma inércia para recuperar as posições, e voltar a entrar em tarefa defensiva.

Transição defensiva - Demonstra a intenção pressionar rapidamente assim que perde. Mas sem a rede apoios bem trabalhada do ponto de vista ofensivo, torna-se difícil que os jogadores tenham sucesso nesse comportamento, por isso alguns optam por não o fazer. Se a bola entra para defender com poucos organiza-se para defender a baliza em contenção e cobertura, mas no momento certo os centrais não mostram a agressividade para sair na bola evitando assim a possibilidade de um remate à entrada da área. Nota-se também aí a inércia para alguns elementos recuperarem posições.

Transição ofensiva - Se tiver possibilidade de sair rápido para o ataque, ainda que recupere em zonas recuadas, sai. Se não, tenta segurar para depois sair em organização. Nas duas possibilidades mostra critério, bola no pé até encontrar o momento ideal para colocar no espaço.

Construção - Tanto sai pelo corredor lateral como pelo corredor central. Tenta ter critério com bola. Procura tanto extremos e laterais como médios, e algumas vezes avançado na profundidade. Quando os centrais têm a bola, apenas lateral do lado da bola fica projectado contrastando com o movimento do extremo que baixa para pegar. Quando a bola entra no lateral, extremo em profundidade, avançado baixa para tocar médio do lado da bola em apoio interior, trinco em cobertura. Se a bola entra nos médios centro, procura a profundidade nos 3 corredores. Se a bola entra nos extremos, uma cobertura e restantes na profundidade.

Criação - Procura trabalhar todos os lances para terminarem no corredor lateral. Aí procura combinar, acções individuais, e cruzamentos. Mas a esmagadora maioria dos lances segue para os corredores laterais, normalmente para cruzamento.

Bolas paradas defensivas - Zona no primeiro poste (3 homens - dois no primeiro poste e um mais na zona central), restantes HxH.

Aguardaremos para perceber como se comportará colectivamente num grande, e que formas irá adoptar na organização das suas peças para cumprir com os princípios que propõe. Esperamos também com ansiedade para perceber se será brindado com a qualidade individual que os seus antecessores tiveram no primeiro ano de trabalho.

23 comentários:

João disse...

Em relação ao que falas sobre a linha defensiva, achas que a presença do Luisão pode ajudar o RV a melhorar? Ou o conhecimento e experiência de um jogador nestes casos vale de pouco?

Dipeca disse...

Excelente trabalho Baggio!
Baseaste-te em vários jogos, ou num jogo em que tinha menos ou mais qualidade individual?
Eu, sem ver muitos jogos do RV, não o acho mau.
Um bocado como o Marco Silva, acho que terá de evoluir nalguns aspetos para treinar um grande, mas é normal, tal como os jogadores, tb os treinadores precisam de estímulos para melhorarem.
A julgar pelos resultados e pelos jogos contra o FCP, que são os que eu vi, acho-o, no mínimo, competente.

José Moreira disse...

Vejo que apontas alguma falta de agressividade e/ou alguma falta de qualidade em determinados momentos a determinados jogadores como os centrais ou o ala do lado contrário... Achas que é por exclusiva responsabilidade do treinador e do treino ou será algo muito influenciado pela qualidade (no caso, falta dela) individual dos jogadores em causa?

Fernando José disse...

A minha interpretação da análise é que talvez determinadas opções menos positivas ou menos conseguidas, na tua óptica seriam condicionadas pelo tipo de jogadores. é válida?

Red_Devil#44 disse...

Achas que haverá alguma possibilidade de RV abdicar de alguns dos seus princípios e "aproveitar" o que de melhor tem sido feito no Benfica dos últimos anos, com rotinas e processos consolidados há muito, tentando dar seguimento a esse trabalho??

T disse...

Nada de bom... Prevejo Benfica Lopeteco Style.

433 académico, maquinal, com menos dinâmica e mais lentidão, menos vertigem ofensiva. Maior dificuldade em facturar... Estou preocupado. Então a defender... Transições defensivas, posicionamentos, linha... JJ a defender era muito bom. Passamos de um romântico para um "professor"...

É a minha opinião, vale o que vale. Espero estar enganado, e RV venha a fazer um óptimo trabalho... Terá o meu apoio, apesar de estar descrente. RV terá de conquistar os adeptos, espero que o consiga fazer.

Miguel Amador disse...

Acho que muitas das considerações é go Guimarães de Rui Vitória e não de Rui Vitória. Muitas as situações podem passar da forma como os jogadores interpretam o jogo em campo. E o dinheiro não compra só técnica, mas também inteligência. Aliás, acredito sinceramente que muitas vezes bons comportamentos posicionais vem do jogador e não definição do treinador. Veremos. Porém, Jesus já fez magia para aguentar a competividade com o nível do plantel que tinha, muito à custa da experiência de muitos jogadores e anos de trabalho com grande parte dos jogadores. Não sei se Rui Vitória será um treinador suficiente magnifíco para manter sequer o nível competitivo este ano, com um plantel igual ou pior, e tendo de começar quase do zero no trabalho com os jogadores.

RuiG disse...

Sendo eu um leigo na matéria parece-me que todos os pontos fracos detectados por vocês assentam mais na atitude/decisão dos jogadores e não nos sistemas de jogo implementados. É assim ou escapou-me algo?

Honoris disse...

Em organização defensiva dão muito espaço entre a linha defensiva e a linha média?

LGS disse...

Não auguras nada de bom Baggio...

Como reagirá o plantel, principalmente os mais antigos se acharem que o RV "não pesca nada disto"?...

da Costa disse...

A questão da primazia pelos cruzamentos assusta. Lembro-me bem de há duas épocas a bola andar sempre na área para o Baldé e este ano para o Tomané.

Espero sinceramente que Vitória perceba que não é esse o caminho e seja humilde o suficiente para prosseguir o trabalho do JJ. Um bocado como o Domingos preconizou quando chegou a Braga.

Para já, era bom colocar a hipótese de deixar de lado o 443 e apostar no 442, sobretudo por causa de Jonas.

Blog de Portugal disse...

O artigo foi feito com base em como jogava o V. Guimarães com o RV?

Caso seja isso, no caso da ausência de rapidez nos ajustes (daí a menor intensidade, pelo menos pelo vosso prisma), não poderá também ter aver com a menor valia individual dos seus jogadores, apesar de se saber que JJ era extremamente exigente e rigoroso?

GV disse...

Viva, Baggio,

A confirmarem-se esses princípios o cenário não é propriamente estupendo para transformar o desafio numa oportunidade.
Em todo o caso e indo, em parte, ao encontro das tuas notas finais, o RV tem agora uma brutal oportunidade de rever alguns desses princípios.

A ansiedade para perceber a qualidade individual também mora aqui do meu lado. Se as bombas vierem rebentar com o que não devem, é melhor irem andando...

Cumps,

NSC disse...

Na transição ofensiva e em ataque organizado estou descansado; o problema é no resto.

Guilherme disse...

estamos de volta a 1994-2008.
Um tipo que não percebe que a melhor decisão depende do contexto, mesmo que isso implique lateralizar então tem problemas estruturais no entendimento do jogo - muito mais graves do que a forma como trabalha a organização defensiva, ou a incapacidade de criar ofensivamente sem bombear bolas para o To Mané.

Tem piada que um cruzamento, no final de contas, não é nada mais que uma lateralização :D

Roberto Baggio disse...

"Em relação ao que falas sobre a linha defensiva, achas que a presença do Luisão pode ajudar o RV a melhorar? Ou o conhecimento e experiência de um jogador nestes casos vale de pouco?"

RV não é o Jesus e durante algum tempo Luisão poderá ajudar em algumas coisas. Mas com a falta desses estímulos no treino os comportamentos tendem também a desaparecer.

"Baseaste-te em vários jogos, ou num jogo em que tinha menos ou mais qualidade individual? "

Nacional Guimarães; Guimarães Estoril.

"A julgar pelos resultados e pelos jogos contra o FCP, que são os que eu vi, acho-o, no mínimo, competente."

Estamos de acordo.

"Achas que é por exclusiva responsabilidade do treinador e do treino ou será algo muito influenciado pela qualidade (no caso, falta dela) individual dos jogadores em causa?"

Não sei...

"A minha interpretação da análise é que talvez determinadas opções menos positivas ou menos conseguidas, na tua óptica seriam condicionadas pelo tipo de jogadores. é válida?"

Não sei se é isso. Vi dois jogos, e isso é mto pouco para avaliar comportamentos individuais. Pode ser dos jogadores, pode ser do colectivo. No Benfica vamos perceber isso melhor.

"com rotinas e processos consolidados há muito, tentando dar seguimento a esse trabalho??"

Não sei...

" É assim ou escapou-me algo?"

Poderá ser... perceberemos isso melhor no slb.

"Em organização defensiva dão muito espaço entre a linha defensiva e a linha média?
"

Não sempre, não muito. Em alguns momentos dão algum espaço.

"Como reagirá o plantel, principalmente os mais antigos se acharem que o RV "não pesca nada disto"?...
"

só vendo... mas não estou tão pessimista qt tu.

"apesar de se saber que JJ era extremamente exigente e rigoroso?"

E não é por isso que os jogadores do slb são extremamente rápidos a recuperar e a ajustar? como aliás também era o fcp de VP.

"Na transição ofensiva e em ataque organizado estou descansado; o problema é no resto.
"

eu não. não estou descansado com nada. mas tbm n estou extremamente preocupado com nada.

"Tem piada que um cruzamento, no final de contas, não é nada mais que uma lateralização :D
"

Bem apanhada Guilherme :)

T disse...

Lateralização não passa de um preciosismo, como tantos... Uma mudança de flanco pode ser também uma "lateralização". Apesar de tudo penso que todos compreendemos o que se quis dizer com " lateralização"... Os típicos passes paralelos à linha final na metade defensiva. No entanto passes rectos ou diagonais podem criar tantos ou mais problemas, depende da situação e do contexto, sempre específico , de determinada situação/momento de jogo.

LGS disse...

Bom, se não estás tão pessimista quanto eu deixas-me um pouco menos preocupado. Mas acho que me vai custar imenso ver os processos defensivos com falhas quando antes funcionavam como um relógio (que graças ao JJ e às vossas "lições" eu comecei a estar mais atento e apreciar).


Abraço

Dipeca disse...

Eu acho que o RV vai beneficiar do trabalho do JJ, mais do que ser prejudicado pela falta dos tais estímulos ou de ficar a perder em relação à diferença de trabalho, isto se ele for inteligente e coerente, como parece ser. Veja-se Domingos no Braga.

Isso das lateralizações, tb concordo nalguns casos, p.e, passe de mais de 15m na zona média, paralelo à linha de golo, é expor a bola à recuperaçao do adversário, sem qq esteja alguém perto para fazer pressão (se fazemos um passe assim é pq não está ng perto nessa linha que a bola percorre), digo eu...

Pedro disse...

Bom Post...

Já acompanho o Rui Vitória à algum tempo e se é verdade que é dos poucos treinadores em Portugal que conseguiu em termos profissionais sempre bons resultados para as equipas onde esteve (nunca foi despedido e deixou sempre "marca" por onde passou), tb fico com a notória sensação que as suas equipas são competentes e organizadas mas que fica sempre a faltar algo, aliás que olhava para o Fátima de Rui Vitória e o Paços de Ferreira via muita competência e organização, eram equipas aguerridas e com dominio dos timings de jogo, mas ficava sempre a sensação que na altura de puxar dos galões algo bloqueava, ou não saia o ultimo passe, ou a finalização ficava muito aquem do normal..
No Guimarães vi o Rui Vitória a dotar a equipa com outro tipo de jogadores, jogadores de "gama superior" apesar de alguns serem ilustres desconhecidos no nosso pais e os outros jovens em ultima fase de formação, mas a verdade que mesmo assim parecia que ou a bola não entrava ou que ficava "presa" no meio campo deixando depois a nu as fragilidades individuais na defesa da equipa do Vitória.

A minha 1ª pergunta é, será que a Vitória faltava, para dar o passo seguinte na sua "formação" enquanto treinador, trabalhar com jogadores que de certo modo já têm outra tarimba no futebol, e que têm a perfeita noção de que existe algo mais do que o simples toque para a frente e fé no velocista (numa maneira mais rude de falar)??

A 2ª pergunta é, vendo o plantel actual do Benfica, e os elementos que em principio irão ficar para a próxima época, e os que estão a chegar (os que assinaram até agora apenas), será que o Vitória não se agarrará à identidade da equipa (mantendo grande parte do que foi o trabalho de JJ) dando apenas algum toque ou outro e ao mesmo tempo trabalhando o "seu esquema mais tradicional" como plano B para que a equipa tenha tempo para assimilar os novos principios?

Roberto Baggio disse...

Eu tbm n gosto de passes laterais. mas n digo aos jogadores para n o fazerem. coloco-os é em situações em termos de posicionamento para que eles não existam. Excepto para os centrais

Hélder disse...

Eu acho que só um RV muito ingénuo entraria em oposição aos princípios assimilados. E confirmando se esta época como uma das épocas em que menos jogadores saem do Benfica, diria que tem tudo para ter um bom balanço no arranque...

Pedro disse...

Boas Tardes


Aos Autores do Blog:


Será descabido pensar um Benfica com Rui Vitória a actuar num 1-4-2-3-1, onde Fejsa e Samaris fariam um duplo pivot mais operário e na frente destes 2 talvez o Adel Taarabt a fazer aquilo que JJ gostava de chamar o tal 9,5, mas neste esquema seria mais um nº10 do que propriamente um Avançado centro??