quarta-feira, 22 de julho de 2015

O jogo no processo de treino. O foco no tempo de empenhamento motor de cada atleta.


Muito se reconhece hoje a importância que o futebol de rua teve na formação de tantos talentos. Afinal o que oferta o futebol de rua aos jovens praticantes que estes não encontram, tantas vezes na prática orientada? Ao contrário do que por vezes se supõe não são as dificuldades, ou apenas as dificuldades por pisos menos próprios que fazem crescer os talentos. A chave de tudo está no jogo. As crianças / jovens quando se juntam jogam. E é isso que tantas vezes não encontram nos treinos.


Na prática organizada pelos seus treinadores. A chave de todo o processo de treino é o jogo. E por jogo não entenda os formais 7x7 ou 11x11. Tudo é jogo quando tem oposição, duas balizas e os atletas sempre na tarefa e não à espera em filas. Que melhor forma de treinar situações de 2x1 que colocando os atletas a jogar 2x2 com a obrigatoriedade da equipa que não tem a posse da bola ter guarda redes? Em 10 minutos de jogo, os jogadores somam 10 minutos de tempo de empenhamento motor. Para o mesmo objectivo, com filas, por vezes em 10 minutos somam 2 ou 3 de prática. Ao menor tempo na tarefa, junte o ´ligar/desligar´ constante que nunca enfrentam na competição onde têm de estar sempre concentrados. Com criatividade nas regras / condicionantes nos exercícios, todos os objectivos podem perfeitamente ser treináveis em jogo ajudando os atletas a cumprir com mais qualidade os critérios de êxito. 


E é sobretudo pelo constante jogar que hoje é tão reconhecido o futebol de rua. Se a este jogar sempre em actividade, sempre ligados que a rua proporciona aos mais jovens, lhe juntarmos a total ausência de coarctação da sua individualidade (´...é preciso deixarmos que os miúdos sejam individualistas aos 10,11 anos, para termos jogadores de futebol aos 20´ Francisco Silveira Ramos), sabemos que por vezes estão melhor entregues a si mesmos que a treinadores que desde bem cedo pretendem um jogar totalmente mecânico, sem rasgos de criatividade que complementem o modelo de jogo que preconizam nas suas mentes. Há que ensinar e não decorar a jogar. A evolução dos jovens dá-se sobretudo com as experiências que vivenciam. Pouca relevância terá a parte teórica ou verbal que treinadores e pais sempre procuram incutir. É preciso errar e deixar errar para haver evolução. 


Refere Daniel Coyle no ´Talent code´ que as aprendizagens se efectuam dez vezes mais rápidas quando há um erro para corrigir. Para errar há que jogar (2x2, 3x3, 4x4, 3x3+Joker, 4x4+Joker, o que for, mas jogar). Jogar na competição, mas essencialmente no treino porque é ai que os atletas mais horas passam. Menos filas, menos decisões tomadas pelo treinador, mais jogo, maior valorização do talento e do potencial. Maior trabalho sobre os que poderão mais tarde dar mais e não os deixar cair porque não seguem todos os comportamentos mecânicos e pré estabelecidos do modelo de jogo definido. É a única forma de no futuro podermos voltar a ter os talentos em qualidade e quantidade de outrora.

Com o tempo fui aprendendo que mesmo a um nível sénior o potencial de ganhos enquanto individualidade de cada jogador são enormes. Mesmo trabalhando com adultos é possível e obrigatório pensar o processo por forma a fazer crescer não somente o colectivo, mas a tornar cada individualidade melhor. Com os ganhos que naturalmente advirão daí para o próprio colectivo. Afinal, mesmo quando há organização, são os indivíduos que jogam o jogo. Trabalhando com idades mais baixas, é absolutamente decisivo centrar o processo no individual.


5 comentários:

Mário Alexandre disse...

O pior é o enorme ego que todos aqueles que se intitulam de treinadores têm. Querem ser os protagonistas de todo o processo. Seja em petizes, traquinas,benjamins todos pensam que têm o toque de Midas.São poucos aqueles que deixam os miudos jogarem, divertirem se e com calma e paciencia crescer ao longo do processo de formaçao.Constantes gritos, linguagem desadequada, informaçao incorrecta é o que se ve mais por esses campos fora. E o pior é que muitos pais que tambem nao tem a visao adequada acham que assim é que tem de ser.Sem duvida um bom post que relembra aquilo que é mais importante na formaçao de jovens. Abraço e continuem com o bom trabalho.

Gonçalo Matos disse...

Dos melhores posts que tenho lido por aqui, muitos parabéns!

Ricardo Abreu disse...

Tenho uma dúvida que pode parecer ridícula mas que é a seguinte: já vi por aqui várias vezes (e faz todo o sentido) que um dos maiores estímulos à evolução individual é jogar (o maior número de horas), no entanto se quiserem que um determinado jogador (jovem) evolua no aspecto do passe, por exemplo, fazem exercícios específicos para isso? Ou o próprio 2x2 2x1 3x3 são responsáveis pela evolução desse aspecto do jogo do jovem jogador?
Obrigado desde já pelo excelente trabalho que têm desenvolvido para promover a educação futebolística (e mesmo desportiva) em Portugal, é uma lufada de ar fresco :)

Dennis Bergkamp disse...

Ricardo Abreu,

3v3 por exemplo, pode ser feito de mil e uma maneiras. Com GR e baliza regulamentar, com GR e com 2 ou 3 mini balizas, sem Guarda redes, com portas de entrada em que um dos defensores baixa para fechar essas portas blablablabla. Modificando o jogo (mesmo continuando a ser 3v3) mudas muita coisa no que acontece e no que queres que aconteça.

Se o jogo for em largura, com mais do que uma baliza, o caminho mais fácil para fazer golo vai ser atrair para um lado, e marcar do outro. Todos os passes vão estar associados a uma intenção, a uma decisão, e ao mesmo tempo a acção tecnica como é óbvio.

Os ganhos para a aprendizagem das coisas, são muito maiores quando estão associados ao jogo.

De que ia valer estares a fazer passe frente a frente, em triangulos com combinações directas e indirectas, com várias superficies dos pés e por ai fora.... quando basta meteres um defesa lá no meio que dás cabo do exercício todo?

O Passe tem de responder a várias perguntas.

Passo para quem? Para o pé, ou para o espaço? Ele consegue receber? com que força tenho de passar para não ser interceptado? Quero acelerar o jogo ou temporizar?

Mil e uma coisas que... "façam passe de jogo!!!!" não resolve

Blog de Portugal disse...

Tema que há muito já devia estar aprendido na nossa formação de treinadores. Infelizmente, isso ainda não aconteceu.

Acrescento aqui só uma coisa a este texto: manipular os exercícios, mas tentar sempre que sejam o mais simples possível para o nosso objetivo. Várias vezes os treinadores até têm exercícios ricos e que treinam o que se pretende, mas são complicados de entender para os jogadores. Ou são aqueles exercícios tão ricos e que se irá repetir ao longo da época com regularidade, ou não vale a pena ir por esses.

Ainda gostava de partilhar duas coisas sobre este tema:

1 - Pensando em juvenis para cima, defendem o trabalho técnico como meio complementar de treino do jogador? Ex: remates e cruzamentos.

2 - Ainda recentemente estive num torneio de meninos muito novos, em que vi inclusivamente um treinador a tirar o GR porque este sofreu um golo em que poucas hipóteses tinha. Outro treinador ficou com a azia por sofrer o golo do empate na última jogada.

É com estas merdices que os nossos jovens são ensinados. Eu próprio cometi erros grosseiros no início, mas tive o bom senso de tentar melhorar com o tempo e experiência. Outros parece-me que não.