quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

José Peseiro. O retrato em algumas linhas.

Há um par de anos o novo treinador do Porto dirigiu uma palestra em Espanha, pouco depois da saída de Braga. E em linhas gerais fez uma apresentação do seu modelo de jogo, no ofensivo e no defensivo.

Características do processo ofensivo

Jogo apoiado; Mobilidade; Disponibilidade; Dinâmica

Ataque Organizado (AO) -» Ataque Rápido (AR) -» Contra-Ataque (CA)

CA -» AR -» AO

O tipo de ataque depende de: Local onde se recupera a bola; Organização do adversário; Contexto de jogo; Alternância do ritmo de jogo; Noção de equilíbrio (Ofensivo «-» Defensivo)

Referências que condicionam o processo no ataque à baliza adversária

Com vantagem temporal, numérica e espacial - Objectividade; Agressividade
Sem vantagem temporal e numérica, mas com vantagem espacial - Posse de bola; Recuperação fisiológica; Organização posicional
Sem vantagem temporal, numérica e espacial - Passe de ruptura; 1x1; Passa e vai (apoios frontais); Jogo interior; Diagonais; Equilíbrio entre desmarcações de apoio e de ruptura; Portador da bola com dois tipos de linhas de passe disponível (Apoio, ruptura); Variação do centro de jogo com alternância de ritmo; Trabalho de simulações sem bola (simula que vai e aproxima - simula que aproxima e vai); Criação de espaços; Automatismos; Criatividade

Para o processo ofensivo ter a qualidade desejada

- Recuperar a bola o mais alto possível
- Disponibilizar muitos jogadores para o ataque
- Grande mobilidade (Apoio-Ruptura)
- Maior agressividade no 1x1
- Agressividade sobre a segunda bola ofensiva (reacção à perda, ou a remates, passes, cruzamentos, desviados/defendidos pelo adversário)
- Equilíbrio ofensivo nas desmarcações
- Equilíbrio defensivo no ataque

Características do processo defensivo

Transições - Zona de pressão -» Zona -» Esquemas tácticos

Linhas curtas; Concentração; Compactação; Posicionamento; Orientação do jogo (para os corredores laterais)

O ideal é recuperar no último terço por estar mais perto da baliza adversária.
O porquê de não o fazer sempre: Ritmo de jogo; Imprevisibilidade; Dificuldades na concretização do processo ofensivo (muitas perdas); Níveis de confiança baixos; Gestão do resultado; Organização; Desgaste fisiológico

Organização Defensiva - Linhas altas. Mas quer que a equipa tenha capacidade para adaptar o posicionamento das linhas em função do contexto e das necessidades do jogo; Orientação do jogo para os corredores laterais; Pressão sobre o portador da bola e espaços determinantes; Comunicação; Capacidade mental

Referências do processo defensivo

- A bola como principal referência de posicionamento da equipa
- Os colegas de equipa como a segunda referência mais importante para o posicionamento
- Os espaços como principal referência de marcação
- Fechar os espaços de acordo com à sua importância
- Sistema permanente de coberturas
- Fluidez e dinâmica num processo que se pretende activo, e não tanto reactivo ou passivo
- Deslocamento em bloco (Largura e profundidade)
- Constrangimento temporal, espacial e numérico ao ataque adversário
- Atenção; Concentração; Atitude defensiva; Tempo de reacção; Solidariedade, Entreajuda; Combatividade; Espírito de sacrifício; Comunicação; Confiança









Se do ponto de vista ofensivo as equipas de Jesus são muito fortes a encontrar espaços, Peseiro sempre teve equipas especialistas em criar espaços. Nada garante o sucesso imediato pelo tempo de trabalho que é curto. Porém, com a gestão certa, e com o foco nas competições mais importantes, poderá chegar ao final em condições de disputar títulos. Não podia ficar mais expectante por ver de volta o treinador português que mais me marcou do ponto de vista ofensivo. O maior desafio que teve até ao momento, e a oportunidade de mostrar o quanto evoluiu (ou não) na forma como a sua equipa defende muito espaço com poucos jogadores, e se consegue diminuir o número de vezes que o seu guarda-redes enfrenta situações de golo eminente em cada jogo.

19 comentários:

DC disse...

Já agora, e bolas paradas, como costuma defender?

Blessing disse...

Zona. E ofensivamente trabalha muito livres e cantos.

Hélder disse...

Podem só esclarecer o que entendem por "vantagem temporal"?

Mais, onde se diz "Sem vantagem temporal, numérica e espacial - Passe de ruptura; 1x1; Passa e vai (apoios frontais); (...) Criação de espaços; Automatismos; Criatividade" e este paragrafo todo relativo ao momento sem vantagem Temporal, Numerica e Espacial?

Nao devia um momento assim consistir na procura de vantagem espacial/numerica?

Blessing disse...

Hélder,

Vantagem temporal - tempo para decidir e executar.

Quanto à segunda questão, lanço outra. O que achas que se consegue tendo sucesso com o tipo de acções que ele diz querer nesse momento?

Abraço

Blessing disse...

http://lateral-esquerdo.blogspot.pt/2015/03/superioridade-numerica-e-as-vantagens.html

Edson Arantes do Nascimento disse...

As equipas dele sempre tiveram problemas com o último parágrafo: defender com poucos (e as equipas do Peseiro vão defender com poucos muitas vezes, naturalmente, e ainda bem, digo eu, porque faz sentido dentro do que ele pensa - e eu também gosto), transição defensiva, bolas paradas.

No Braga deixou indícios de que está a tentar melhorar. Estou curioso, no bom sentido. Em termos ofensivos é capaz de ser o melhor do campeonato.

Costuma também ter muitas lesões (treino? imponderáveis? plantéis curtos e muitos jogos?). E muitos azares. Deve ser coincidência. :-)

É uma oportunidade de ouro para confirmar e melhorar tudo isto. O clube é bom, é organizado (condições de trabalho, protecção, salários em dia, scouting) e tem bons jogadores. Suspeito, mas posso estar enganado, que ainda vão comprar e/ou vender mais alguém.

Vai ser giro!

Blessing disse...

Muito giro!

Cristiano Messi disse...

Peseiro chega a meio da época, com uma equipa, cujos princípios de jogo, estão a ser trabalhados há um ano e mneio!
Chega com um discuros despropositadamente arrogante (o Paulo Fonseca, também começou assim e passado um mês já gaguejava, pois "o discurso não é deles").
Veremos como será a transição técnica no FCP. Não tenho expectativas tão altas como as do pos, aliás, concordo com as "coincidências" referidas pelo Edson Arantes do Nascimento num comentário acima referido.

Dipeca disse...

Boas,

As equipas de Peseiro sabem atacar bem. O problema está na transição defensiva. Por exemplo se um lateral passa e desmarca-se em ruptura, o extremo está aberto e se o interior está à frente da linha da bola, quem está atento à perda?
Será que vamos ver uma espécie de Barça dos primeiros meses de L.E em defendiam 3 do barça contra mtos adversários? É que Guardiola deixou escola em como defender com poucos mto espaço e mtos adversários (e havia Piqué), mas no Porto não sei se Maicon se lembra das lições e Marcano e Indi apertam no homem (por instinto) apesar de terem de ocupar o espaço. Para mim, a evolução ou não de Peseiro está na transição defensiva, sobretudo...

Hélder disse...

Obrigado pela resposta Blessing.

Percebo o ponto de vista. No entanto permitam-me introduzir o seguinte na discussao. Se quando nao tens superioridade, procuras uma opcao de risco, expoes-te mais a TO do adversario: Se entras numa zona de 2x4 e perdes a bola, o adversario vai sempre ficar no mínimo 4x2 naquela mesma zona (com azar 3x1 ou pior).

Percebo que quando tens jogadores mais fortes tecnicamente isso seja menos possivel, mas ainda assim, prefiro a abordagem de procurar sempre ter mais gente na zona da bola.

Blessing disse...

Hélder, como é que chegas à baliza adversária, ou se quiseres, a situações de vantagem sem acções de risco?

Abraço

Dipeca disse...

Mas Blessing, há risco e há descompensações.
Se estás a tentar criar situações de perigo, expondo-te então não és bom.. As perdas acontecem, mas tb há que preparar esse momento, o ter gente junta ajuda a reagir, mas há espaços que deves ter sempre controlados para o caso da perda.. digo eu..

Pedro Carmo disse...

Mas não és bom porquê? Tens é de saber defender com menos e com mais eficiência de modo aos resto dos colegas recuperarem.

Se atacas com os mesmos que defendem,vantagem numérica nunca tens.
Futebol ofensivo são processos e riscos calculados e trabalhados no treino e o contrário tb tem de ser. Ora se tomo estes riscos o que me pode acontecer? Prevejo e treino isso.

Blessing disse...

O risco é risco porque leva a descompensação. Há é coisas mais arriscadas do que outras. Por exemplo, na situação que ele descreveu, e tendo em conta que não existe uma vantagem, o homem definiu uma série de acções técnico-tacticas que o permitem no ponto de vista dele chegar novamente a vantagem. Porque é que precisas de gente para reagir, se por exemplo for usada uma diagonal para se sair dessa situação? E isto é só um exemplo. Há outros. Porque não, também, utilizar o apoio frontal, e depois a variação do centro de jogo com alternância de ritmo?

No fundo, o que o homem fez foi descrever os tipos de acção que quer ver os seus jogadores perceberem e executarem. Em que situação se faz X, Y ou Z, dependerá do contexto. Não entendo, e pode ser pela minha forma de ver o que está descrito, como é que um 2x4 sem vantagem nenhuma pode ser mais arriscado do que noutro modelo qualquer. Nunca ele disse que num 2x4, sem vantagem nenhuma, deva sair uma ruptura. Ou 1x1, até porque não seria 1x1.

João Filipe Abreu disse...

Então mas estamos mais perto do sucesso com mais ou menos risco? É que o risco pode ser sempre minimizado, há maior risco quando a equipa falha, ninguém trabalha para maximizar o risco. O futebol sem risco é uma seca, é um facto, mas o risco trabalha-se e se for bem trabalhado, deixa de ser risco e passa a ser um processo mental confortável.

Mais que o risco, é preciso é decisão e visão. Um jogador que seja forte na decisão, com ou sem bola, minimizará sempre o risco do colectivo.

O mais importante, e difícil, é criar oportunidades de golo, mantendo o equilíbrio. Isto faz-se com apoios constantes e capacidade de variação consoante o que o jogo dá. São processo que precisam de tempo e o José Peseiro tem pouco tempo. Daí que vá precisar da criatividade individual para minimizar o risco, criar oportunidades, trabalhando já no equilíbrio, de forma a correr o mínimo de riscos possíveis.

Dipeca disse...

Bom primeiro,eu nunca disse que um grande deve atacar com menos gente. Não me causa transtorno um grande ter os dois laterais projetados, à guardiola, desde que a transição defensiva seja boa. Ex: se estou no lado direito, o meu lateral oposto está a dar largura, e os meus centrais estão abertos por qq motivo. Se quando o adversário recupera, só tenho centrais + 1 médio atrás da bola, então o adversário até com 2x3 tem vantagem pois não há coberturas possíveis. Há um golo que o Milan sofre contra o Nápoles que mostra isso, mas o Milan é (era nessa altura pelo menos) mau na posse e a própria organização ofensiva não prevê transição adversária. Isto só vendo o jogo do Porto do peseiro ou revendo o Braga . Eu na teoria concordo. Na prática não quero ganhar 5x4,quero 3x0..

Sergio Gonçalves disse...

"Juntando a capacidade defensiva de Jesus à ofensiva de Peseiro teríamos um treinador de topo mundial."

Carlos Freitas dixit.

Luís Pires disse...

"Blessing disse...
Hélder, como é que chegas à baliza adversária, ou se quiseres, a situações de vantagem sem acções de risco?"
suponho então que o Blessing não concordará com um artigo deste blogue na época passada em que o seu autor repetiu até à exaustão que o Quaresma decidiu mal quando saiu ao central do Bayern? "acção de risco" junto à área adversária e que por acaso até correu bem, roubando a bola e marcando golo?
(pergunta de adepto de sofá que não entende nada dessas modernices de basculações e quejandos).
cumprimentos :)

Blessing disse...

Luís, o que é que uma coisa tem a ver com outra? Uma é o processo ofensivo. Outra é o defensivo. Ainda que estejam ligados. Uma situação é com bola, e outra sem bola.
Quanto à questão, concordo que o Quaresma não devia ter saído. Porém, o treinador dele pode ter uma ideia diferente da minha, e ninguém poderá dizer que ele está errado.