domingo, 3 de janeiro de 2016

Ser Cristiano Ronaldo. E relembrar a formação de hoje.

"Aguento melhor a pressão e sou o profissional que sou pela vida difícil que tive..."


"Sair de casa com 11 anos, ir para um mundo diferente, primeiro em Lisboa, depois em Inglaterra, foi difícil"


"Dos 11 aos 18 anos ganhei estabilidade. A pessoa que sou deve-se aos momentos que passei sem a minha família, momentos difíceis em que tinha que fazer tudo sozinho como um homem, ao ponto de passar a minha roupa a ferro. Nunca pensei passar a minha roupa a ferro aos 11 anos" Cristiano

Há não muito na RR uma entrevista a Aurélio Pereira, onde ele recordava um episódio na vida de Cristiano. Ronaldo passava meses a fio sem ver a família. Quando o Sporting nos nacionais defrontava Nacional ou Marítimo na Madeira, era uma alegria para o miúdo e para a sua família. Mesmo que por breves instantes saudades seriam ultrapassadas. Num das semanas que antecedeu a visita do Sporting à Madeira, depois de meses sem ver a própria família, Cristiano portou-se mal na escola. O castigo? Não foi à Madeira! Você que anda no futebol, consegue imaginar o que faria hoje um papá ou mamã de um menino com um castigo deste nível? 

Ronaldo, de uma maneira muito peculiar é apenas um exemplo que fundamenta o texto de há alguns dias atrás. "Histórias antigas e a formação de hoje".

Hoje apetece citar grande parte do post de Dezembro

"De que serve demasiadas vezes toda a qualidade no processo treino (quando a há) se não conseguimos moldar o carácter dos miúdos? Hoje, sem a rua onde sobreviviam os mais perseverantes, estamos tantas vezes condenados a promover o desenvolvimento de quem nunca chegará lá.

Cada vez mais no futebol só aparecem "betinhos". Não no sentido do extrato social ou da forma de vestir, mas na protecção absurda de que usufruem dos papás e mamãs, que lhes retira toda e qualquer possibilidade de se desenvolverem enquanto pessoa para jogar este jogo. "Ai que o menino levou uma canelada". "Ai que o menino foi suplente" "Ai que o menino seguiu para a equipa B" "Ai que o menino não gosta disto ou daquilo" "Ai que o menino não pode estar frustrado e tudo tem de lhe ser dado porque é uma criança".

O que estaremos a crescer no processo de treino e na forma como preparamos a evolução dos miúdos estará a ter correspondência na forma como lhes moldamos o carácter? Não, de todo.

Hoje parece que se formam apenas futebolistas enquanto praticantes de um jogo. Enquanto atleta, ignorado que todo o atleta é uma pessoa. Ignorando que não haverá futebolista se não tiver a personalidade necessária para o ser. 

Excepções sempre houve e haverá. Mas a convicção que o caminho certo estará sempre entre deixá-los desconfortáveis, mas ao mesmo tempo promover o tempo de empenhamento motor ao máximo e a proximidade com o jogo no treino.

Enquanto pais e mães estiverem nos treinos e nos jogos, a formação de futebolistas nunca estará a ser potenciada ao máximo."

17 comentários:

Celso Araujo Martucho disse...

Concordo em tudo, nem vejo o que acrescentar a não ser parabenizar o excelente texto.

DM disse...

Ninguem tenha duvidas que se Ronaldo é hoje o que é deve-se ao "tratamento" que teve na sua formação. Uma formação carregada de dificuldades não só a nível futebolistico. Algo impensável nos dias de hoje. Por isso é que os "Ronaldos" que juntam um talento fenomenal a uma ambição sem igual serão ainda mais raros no futebol nacional.

Pedro disse...

Essa nocao de que a formacao da personalidade deve ser feita atraves desse modelo e um pouco ultrapassada.

Para os Ronaldos que se formam, quantos nao foram os miudos com lacunas graves de afectos e outras, por estarem privados de ver a familia e afins, e que impacto teve isso no futuro deles? Porque nem todos vao ser Ronaldos.

Se concordo que os pais tem demasiado peso nas escolas (de futebol e outras), o "antigamente e que era" tambem e igualmente errado. Os modelos educativos e o que se sabe hoje sobre a formacao e o desenvolvimento de uma crianca evoluiu muito.

Compreendo, e conheco a revolta que um educador sente com o que e a postura dos pais hoje em dia, mas a solucao e usar novos metodos (como usam para o treino).

L. disse...

Totalmente de acordo na questão da super proteção que os pais dedicam aos seus filhos. Mas a história do Cristiano Ronaldo não é um exemplo, até porque, como já foi dito aqui nos comentários, por cada Cristiano Ronaldo existem muitos mais talentos que se perderam exatamente pelo tratamento desmesurado.

Não posso concordar nunca que o "deixá-los desconfortáveis" seja a solução. Bem pelo contrário. Encontrar a forma como os confortar nos desafios é que é o grande objetivo. Para um miúdo como o Cristiano, provavelmente aquele castigo fez todo o sentido e resultou. Para um outro, seria necessário outro tipo de tratamento. A cada miúdo, o seu modelo de tratamento para o desenvolvimento. Quanto mais individualizados formos na nossa dedicação a cada problema (empatia, precisa-se), mais vezes iremos acertas.

NSC disse...

Para quem defende que treinar uma equipa não passa por colocar os jogadores a correr na mata estas são observações um bocadinho estranhas. E de educação já eu percebo um bocadinho.

Pedro disse...

Não quero ser rude, mas o verbo haver é impessoal, fica na 3 pessoa singular. Houve. Não precisas passar o comentário. É só uma achega que não belisca o texto. Abc

Pedro disse...

Não quero ser rude, mas o verbo haver é impessoal, fica na 3 pessoa singular. Houve. Não precisas passar o comentário. É só uma achega que não belisca o texto. Abc

Paolo Maldini disse...

Não é nada rude! Obrigado e um abraço.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Estímulos-Estímulos-Estímulos

Dificuldade-Dificuldade-Dificuldade

bio disse...

Estou com o Edson, estimular, esticar a corda até ao máximo, subir o puto para outro escalão e estimular e esticar a corda até ao máximo.

Manter a motivação e dar novos desafios.

Os pais deviam ir para o café ler o jornal.

Gonçalo Mano

NSC disse...

Falta o haverão. Houve e haverá.

Cantinho de Todos disse...

"Enquanto pais e mães estiverem nos treinos e nos jogos, a formação de futebolistas nunca estará a ser potenciada ao máximo."

Não posso discordar mais!

É evidente que a maior parte dos pais são um bocadinho idiotas quando o tema é futebol e imensamente idiotas quando o tema é a capacidade e potencial futebolístico dos seus filhos. E isso faz com que na maioria dos casos seja imensamente mais confortável para os treinadores e para os próprios miúdos quando os pais estão a milhas dos treinos ou jogos. É aliás a solução mais fácil para o problema!

Mas não é a solução ideal nem aquela que maximiza o potencial desportivo dos atletas. Um miúdo para chegar lá cima precisa de pais comprometidos por mais chatos que sejam e o CR até é um exemplo disso! Quantos pais não impediriam um filho seu de ir viver para Lx aos 11 ou 12 anos deixando-o num apartamento sabe deus com quem? Quantos pais mm q o seu filho tenha qualidade não ficam em casa nos treinos e nos dias de jogo, indo o miúdo à boleia dos pais dos outros? Toda a gente gosta de se sentir valorizada, especialmente por aqueles que valoriza... e numa situação normal os filhos valorizam muito os pais! Por isso quando chega a fase dos grande sacrifícios (mais treinos por semana, jogos mais longe, deitar cedo com amigos nos copos) só resistem os que podem muito e os que querem muito... e ter pais comprometidos ajuda e muito a potenciar esse querer!

O mm se passa aliás no contexto escolar. Enquanto professor é-me mais confortável que os pais não acompanhem o percurso escolar dos seus filhos. Posso dar 2 ou 5, 8 ou 20 que os pais não querem saber. Mas encarregados de educação preocupados vão questionar as minhas avaliações o que apesar de potencialmente incómodo para mim é meio caminho andado para que o aluno trabalhe mais e suba as notas.

Percebo o sentimento mas discordo completamente!

Edson Arantes do Nascimento disse...

bio,

Fiquei um bocado incomodado com a expressão "esticar a corda"... Um estímulo não é nada mais do que uma libertação. A ideia de estímulo está ligada, para mim, a uma ideia de liberdade. E pode ser tudo. Uma música, uma conversa, uma notícia, uma árvore, uma história, um golo, uma corrida, um pássaro, uma tela cheia de cores.

Tudo pode ser um estímulo, desde que se adapte à pessoa, ao seu contexto e à sua maneira de ser. Desde que lhe traga novos desafios e consequentemente novas soluções para os ultrapassar. É um exercício diário.

Os pais são essenciais nisto porque eles orientam-nos e explicam-nos - ou deveriam explicar - o que são estes estímulos e de que forma podemos aproveitá-los. Só que o medo de ver a criancinha falhar e espalhar-se ao comprido pode ser muito castrador e pouco estimulante para o cérebro de uma pessoa.

Quando se educa uma criança à imagem e semelhança do papá ou da mamã estamos a ser egoístas (estamos a alimentar o nosso ego, apenas) e a exercer o controlo social de forma errada. Se a criança não gosta de jogar à bola num clube não adianta forçar a barra só porque o pai adora o Cristiano Ronaldo e adorava ter um filho que fosse tão rico quanto o ilustre. Porque estás a fechar essa pessoa dentro de um colete-de-forças. Isto faz com que certas zonas do cérebro fiquem "apagadas" e traumatizadas. Deixam de funcionar por falta de actividade.

Um cérebro é como se fosse um circuito eléctrico - só que com centenas de milhares de milhões de combinações possíveis. E desconhecidas. Ah pois. Desconhecidas. Um cérebro é um enigma. Porque as pessoas são todas diferentes e isto não é nada mais do que dizer que os cérebros são todos diferentes. É aritmeticamente impossível estudar todas as combinações possíveis, ainda por cima associadas ao factor individual (e naturalmente distinto entre si) de mais de sete mil milhões de cidadãos.

E as combinações são como um botão: só disparam se fores lá carregar. Só acendem se forem estimuladas.

Por isso dizia que um estímulo é algo libertador. É algo que combate as ideias feitas. Que te faz ir atrás do desconhecido. Só que o desconhecido, o diferente, está associado à ideia de perigo. De perda. De medo - é por isso que as relações de poder que se estabelecem numa sociedade são essenciais para caracterizar esse espaço. Quem manda? E de que forma exerce o poder? Permite o desafio e a mudança ou passa a vida em demonstrações de força para acirrar o medo do desconhecido de quem não tem e não exerce o poder?

O papel dos pais (que também é uma relação de poder, pelo menos até o filho/a sair de casa) deve ser promover estes estímulos de forma natural. Aberta. Que permita o desafio. Os filhos devem desafiar os pais. Sem esticar nada. Nada. Isto faz-se construindo relações abertas, desafiantes e positivas (ou seja, onde a palavra "não" é uma excepção e o "sim" é a regra, onde elogiar e criticar faça parte do dia-a-dia) e onde existam várias possibilidades de evolução. Onde existam escolhas e portas em aberto.

Não nos podemos esquecer também que inteligência é informação. E nada mais do que isso. Não há nada pré-definido e também não existe nenhuma conexão genética que nos faça ser mais inteligentes. Ser inteligente é ser curioso, é utilizar a experiência acumulada, é fazer cruzamento de dados. É agilizar o cérebro. Faz a diferença quem tem mais informação, quem absorve mais "data" (dados) e quem os utiliza da melhor forma para entender a vida, o mundo, o espaço e o tempo.

O papel dos pais também é fundamental na busca e no acesso à informação, para além da importância no acesso aos diferentes estímulos que nos tocam no dia-a-dia. Ya porque nós estamos rodeados dos mais variados estímulos. Só que na maior parte dos casos somos educados para não os ver.

Edson Arantes do Nascimento disse...

(Peço já desculpas se cometi algum penalti no comentário anterior... Se houver alguém para me corrigir e alertar é muito bem-vindo. Sou apenas um mísero leigo em neurologia e psicologia. Só que devo reconhecer que o futebol, o LE e o Posse estimularam de tal forma o meu interesse pelo cérebro que tornei-me muito atento ao tema. Grande estímulo que têm sido!)

bio disse...

Oi Edson,

Se calhar não me expliquei bem, mas, não percebendo muito de neurologia, tenho que dizer que fizeste algum sentido.

No entanto, o meu conceito de esticar a corda não era de os fazer evoluir à lei de chicote, antes proporcionar um ambiente favorável à que eles evoluam e aproveitem ao máximo, mas sempre num grupo disciplinado.

Concordo com o que tu dizes aos pais, mas os mesmos devem exercer a sua função em casa, não no campo.

No campo os putos estão ao cargo de alguém que precisa de estar atento ao que se passa em campo, em vez de perder tempo a explicar coisas sem jeito nenhum aos pais babados que olham para os filhos como potenciais PPR!

Porque sabes bem que para nós, o nosso filho é sempre o Messi daquele grupo.

Não dá.
para mim, se eu pudesse, paizinhos fora do treino. No final, uma conversa rápida sobre o que se passou.

Quanto ao esticar a corda, eu gosto duma cultura de exigência, não cortas a liberdade criativa a ninguém se lhes disseres que o que tu fazes sozinho mexe com os outros 10 colegas.

Era mais isto...

Gonçalo Mano

Cantinho de Todos disse...

todos queriam sol na eira e chuva no nabeiro.

Os pais que estão lá para conversar no final são os mesmos que querem assistir ao treino, observando os seus filhos. E essa conversa no final tipo conferencia de imprensa tem tudo para correr mal... digo eu!

E se queremos um ambiente verdadeiramente confortável (e que otimize o potencial desportivo) para os miudos então temos que ter pais presentes, que apoiem os seus filhos mas que não lhes transmitam indicações durante treinos e jogos e que não desautorizem e desrespeitem nem o trabalho do treinador nem dos próprios colegas do filho seja em casa seja no treino.

Por isso é preciso é formar pais! Coisa que embora difícil é o caminho a seguir!

A ideia do post embora confortável para os treinadores contraria tudo o que é genericamente defendido para a formação desportiva de crianças e jovens. De resto há sempre gente que vai flutuando as opiniões em função de quem as dá...

bio disse...

Pois,

Isso, na teoria, está muito certo.

Na prática, entre formar pais e filhos, pouco tempo restaria para o futebol.

Gonçalo Mano