quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A condição e preparação física não existe

Nada mais falso. É preciso saber interpretar as afirmações. Quer a de Guardiola quer as que vamos tecendo por aqui desde sempre.

Todo o movimento é gerado pelo músculo. Levantar da cama é físico. Jogar futebol muito mais físico será porque envolve vários tipos de movimento que envolvem uma participação quase infinita de músculos seja em que função for. De agonistas, antagonistas ou apenas estabilizadores ou neutralizadores.  Portanto, sem físico não há movimento e muito menos futebol.

O importante é perceber que ao contrário de outrora, a tão falada "forma" do futebolista não se relaciona com aquilo que é a "forma / condição" física. Ao contrário de alguns desportos individuais em que a época é preparada para que se retire o maior rendimento físico em pontos muito específicos, o futebol não deve ter nada disto. 

Estar muito bem fisicamente não significa nunca que determinado atleta esteja em "forma". Porque no futebol, "forma" é o como o atleta se relaciona com o modelo de jogo da sua equipa. São as decisões que toma e o sucesso que tem que advém da sua tomada de decisão relacionada com a componente técnica. A forma chega muito mais pelo estado anímico e pela confiança (que chega pelo sucesso descrito anteriormente) do que pelo trabalhar mais as capacidades condicionais.

Portanto, naturalmente que o físico existe e está sempre presente. Mas não se dissocia dos restantes factores de rendimento. Todo o treino de futebol é físico, a menos que se esteja parado a fazer de barreira enquanto o colega treina os livres. Mas, o físico não deve ser o motor principal do exercício. Do jogo. É isto que sempre se referiu por aqui. 

Treinar o modelo de jogo é treinar o físico. Porque no modelo de jogo os jogadores movimentam-se. Correm. A diferentes velocidades. Saltam. Agacham-se e realizam cargas de ombro. Mudam de direcção. Aceleram e travam. Tudo sempre relacionado com o jogo. Exemplo extremo e absurdo para que se perceba a ideia. Haverá algo mais físico que jogar um 5x5 a campo inteiro? Impossível! 

Em suma, naturalmente que a preparação física existe. O jogo é preparação física. O que não existe ou não deve existir é desenquadrada da realidade do jogo. A forma existe. Mas não se relaciona com determinados "picos" físicos. Mas antes com aspectos mentais positivos, que chegaram pela boa relação com o jogo e com o modelo em que se está inserido. Podemos de forma subjectiva perceber que Jonas deverá ser o jogador em melhor forma da Liga. Mas seguramente que não será o que consegue correr por mais tempo. O que consegue correr mais rápido, saltar mais vezes ou mais alto ou levantar mais peso. 

Hoje, mais do que nunca o factor diferenciador dos bons para os muito bons e destes para os excelentes é a capacidade para tomar decisões. E não as capacidades condicionais.

E se o Messi tivesse mais força sem perder um único atributo. Não seria melhor jogador? Naturalmente que sim. A questão é: Se tivesse mais força, não teria perdido outros atributos? É que teria seguido um caminho diferente. Com sucesso noutras coisas, as suas vivências seriam outras. Teria tido sucesso de outra forma e talvez não tivesse desenvolvido de forma tão clara aquilo que faz com que seja hoje o melhor de sempre.

E sobre isso, há que citar Luis Enrique: "Pensei, mais vale não mexer para não estragar".

21 comentários:

Artur Semedo disse...

Estais a afirmar que dedicar três em cada cinco dias apenas a correr muito para afinar o físico não é importante? Quereis abalar os fundamentos da tradição futebolística? Mau, mau, Maria...

Blessing disse...

Foda-se, grande artigo!!!! Muito, muito, muito, bom =)

Pedro Gomes disse...

Um do melhores artigos que já li.

Simples, curto e bem claro.

leoN disse...

"Mas seguramente que não será o que consegue correr por mais tempo. O que consegue correr mais rápido, saltar mais vezes ou mais alto ou levantar mais peso."
Claro que não será o que conseguir ser mais consistente durante os 90 minutos. Será aquele que com melhor condição física, conseguir pensar e melhor executar ao longo dos 90 minutos.

Por alguma razão F1 e Xadrez são considerados desportos. É preciso uma boa preparação física (e pode mesmo ser um factor que faça a diferença) mas nenhum deles vai correr mais rápido, saltar mais alto ou atirar mais longe.

Mas a beleza do futebol também é essa, a existência de vários tipos de futebolistas: os físicos, os técnicos, os cerebrais, os velocistas... e no final disso tudo, um treinador que junta onze jogadores (com características diferentes ou iguais) e faz uma equipa.

Benoit disse...

Oh lá estão vocês outra vez. Então o pessoal andou a empanturrar-se de Matveev durante anos e agora vocês dizem essas coisas? Eu que adorava ouvir "vai chegar o inverno e o campo vai ficar pesado, temos de fazer uma mini pré época para aguentar". O melhor deste artigo é que foi escrito até para o Jaime Pacheco compreender. Muitos parabéns Maldini e obrigado por este espaço.

Joni Boy disse...

Excelente artigo!

Por vezes as opiniões são descontextualizadas e/ou generalizadas. Tal tema já tinha sido abordado por Cruyff, Mourinho e agora Guardiola. O mais interessante é que todos eles, com opiniões semelhantes, englobam nas suas equipas técnicas Seirulo, Thomas Wilhelmi, Rui Faria...

"A velocidade é frequentemente confundida com o discernimento. Quando eu começo a correr antes dos restantes, pareço ser mais rápido." (Cruyff)

Benoit disse...

Joni Boy, alguém disse que Rui Faria ou Seirulo eram preparadores físicos? A comunicação social apelidou-os assim mas Mourinho já o havia dito que Rui Faria não era preparador fisico, pois na sua equipa esse lugar não existia. Rui Faria e Seirulo, o Thomas não conheço tão bem, são treinadores.

Pedro disse...

Antes de mais, belo artigo, concordo com a ideia subjacente. No entanto, ha que dizer que, pelo menos na alta competição, a "preparação física" ja não e correr a volta do campo. Existe trabalho muscular especifico, para desenvolver o corpo com determinado tipo de músculo, determinado volume, etc etc, que permita optimizar rendimento fisico e reduzir o risco de lesão. Quando se fala de preparação física, deve ser deste tipo que falamos. Para dar um exemplo dos níveis a que se esta a chegar, yoga e pilates fazem hoje parte da rotina de muitos atletas de topo em vários desportos individuais e colectivos.
Mas como dizem e bem, ao mais alto nível, não ha preparação física que substitua a compreensão do jogo e a tomada de decisão.

Leandro Enzo disse...

Porque não consigo melhor explicação do que esta: "Ronaldo formatou à base de «hard work» o seu corpo para se tornar uma máquina de execução técnica que lhe permite estar a um nível altíssimo na execução e antecipação de situações de finalização… Messi desliza como uma «onda» no jogo a caminho da baliza, ultrapassando obstáculos e executando manobras que envolvem a sua equipa numa infindável sucessão de passes que confunde os adversários e cria espaços «inexistentes»" by Fernando Valente para o blog LE

João Machado Carias disse...

Nao concordo na integra com o que aqui foi escrito. Concordo que a condição/preparação fisica deve ser adaptada ao modelo de jogo, sim. Mas, sem esquecer de que um plantel parado durante 2 meses, nao fica em forma só e apenas a treinar o modelo de jogo. Além de que se verificam rendimentos fisicos baixos quando os jogadores estão fora de competição, mesmo jogadores integrados no modelo de jogo da equipa. Por outro lado, nao podemos ver so a condição/preparação fisica na otica do modelo de jogo, e preciso integrar a prevenção de lesoes neste leque, e aqui envolve treino de forca, agilidade, propriocecao entre outros. Mas o topico e curioso e vem por o dedo na ferida da velha guarda do correr na praia e treinar com o exercito
Saudações desportivas

ricnog disse...

PEdro...hoje em dia, as grandes equipas já nao utilizam o gym para pesos e reforço muscular. Utilizam a bateria de testes FMS e trbalham atraves dali para os desiquilibrios musculares e reforço de zonas especificas, mas através dessa bateria....falamos de grandes equipas....e os que estão na vanguarda....!!!!

João, tu es daqueles que falas da pre temporada, dois meses de paragem como sendo um fator para menor rendimento. E depois e daqueles que fala que uma equipa que jogue domingo quarta domingo, também se cansa imenso.....! Há coisas que são incompreensiveis e este "senso comum" e do melhor que existe.....!!!

Bota lá continuar a rodar os braços no aquecimento ;) em vez de fazer uma ativçao geral ;)

João Luciano Diniz Costa disse...

Excelente!!! Parabéns, foi provavelmente o melhor artigo sobre futebol que li no espaço de 1 ou 2 anos!!

Jorge Gaspar disse...

Uma foto do Marega bastava, não era preciso tanta conversa

DM disse...

O artigo está excelente. No entanto, creio que ainda assim acaba por desvalorizar um pouco a importância do treino físico especifico quando aplicado por profissionais competentes na área. Essencialmente durante o periodo de formação do atleta, para que não chegue ao futebol sénior com assimetrias musculares. Até porque o físico não é só correr. Há a elasticidade, resistência, força, etc tudo essencial para a preparação fisica de um atleta. E até neste aspeto creio que no geral o futebol está muito atrasado em relação aquilo que poderia estar.

Não que o físico faça diferença em quem não tem o resto. Mas a excelência faz através de pormenores. E para os que já têm aquilo que Deus lhes deu - citando JJ - o trabalho físico individual é mais um degrau no caminho da excelência. A Biometria hoje em dia quase que permite traçar planos de desenvolvimento físico individuais para potenciar as melhores caracteristicas do jogador para as funções que a sua posição especifica pede. O Messi, ao contrário do que é muitas vezes o senso comum, é muito forte fisicamente. Porque também foi submetido a trabalho fisico individual fortissimo quando era mais novo. O que lhe permite que apesar de ter uma estrutura frágil aguente épocas de elevada intensidade com muito menos lesões do que seria expectável. E conseguiu desenvolver o seu fisico sem perder a agilidade que lhe permite driblar jogadores como se fossem pinos. Para mim, é um dos exemplos da importância do trabalho físico quando se quer estar naqueles patamares, a par do Ronaldo. Ao contrário do que sucedia anteriormente, onde os jogadores atingiam o topo durante 3/4 anos e depois acabavam por desaparecer, creio que cada vez mais vamos assistir a estes fenómenos que mantêm a intensidade elevadissima durante mais de 10 anos. Ronaldo tem 30 anos e continua no topo - quando há uma década atrás um jogador desta idade estava praticamente acabado para o futebol. E é essencialmente o trabalho físico que lhes permite manter esta regularidade. Um pormenor, dentro do pormaior.

da Costa disse...

Concordo com o que está escrito, embora me pareça que os atributos físicos dos jogadores sejam, talvez agora, um dos possíveis fatores de desequilíbrio num jogo.

Para dar um exemplo: assisti na íntegra ao jogo entre o Braga e o Sion e deu-me a sensação, no final, que o Sion poderia ter passado apenas porque tem jogadores fisicamente mais aptos. Tecnicamente, tanto Braga como Sion tinham jogadores semelhantes (o Braga tinha jokers como o Josué ou o Rafa, mas os suiços também tinham gente que sabia tratar a bola) e tacticamente o Braga foi melhor, porque tem um modelo de jogo e jogadores mais evoluídos ao nível da decisão. No entanto, o Braga sofreu para passar e a razão para isso pareceu-me pelo fator físico. Os jogadores do Sion ganhavam mais segundas bolas, ganhavam sistematicamente os cabeceamentos e eram mais rápidos. Mesmo não jogando nada, o Sion podia ter ganho o jogo.

Também utilizando o exemplo de Guardiola. Na segunda época no Bayern, Guardiola pediu à direção a contratação de centrais rápidos para poder jogar ainda mais subido no relvado. Chegou Benatia mas as lesões prejudicaram o desempenho e regularidade. Por isso, adaptou Alaba. Tem conhecimento do jogo como poucos, tecnicamente é brutal, mas jogou a central por ser rápido. Se não, poderia ter colocado Lahm ou Xabi Alonso.

Quero sobretudo realçar que estamos a entrar, quanto a mim, numa era do futebol onde o espaço para jogar é menor, as equipas têm jogadores ao nível técnico e de tomada de decisão próximos (evidentemente, uns mais que outros) e, por isso, o físico poderá voltar a ter uma importância enorme nos atributos dos jogadores e na decisão dos jogos.

Contudo, é evidente que subscrevo por completo a questão de o treino ser focado no jogo e não em corridas e flexões.

Rui disse...

Não concordo de todo. Penso que o Ronaldo é o exemplo por excelência de que a forma física pode fazer toda a diferença entre um bom jogador e um óptimo jogador. Que não é suficiente? Obviamente, mas menoriizar esta componente parece-me fazer muito pouco sentido. Outro exemplo é a influência que a gestão dos picos de forma têm no campeonato português. É a forma física que permite ao jogador tomar decisões competentes durante os 90 min+ descontos e com o nível competitivo atual muitas vezes são as decisões do min 96 ou 97 que fazem a diferença no resultado final

Claudio disse...

Treinar tendo o modelo de jogo como referência, permite estar melhor preparado fisicamente. Porque é esse fisico específico de determinado modelo de jogo, que possibilita aos jogadores decidirem melhor dentro de princípios.
Solicitar estruturas que o jogo pede.
Parabéns pelo artigo!

João Machado Carias disse...

Não vou perder tempo contigo. Não percebeste o que escrevi e pela ironia do teu discurso nao vais perceber.
Saudações desportivas

Pedro disse...

totalmente de acordo ricnog. eu não falei em gym. :)

Enfermagem Unitri disse...

O texto apenas tenta defender a ideia do treinamento tático como um todo. A dimensão física é a epenas uma fração importante do jogo em si. Os treinos devem ser baseados na dimensão tática, que significa trabalhar todas as valências ao mesmo tempo em prol do padrão de jogo implantado. Trabalhar o físico ou o técnico separados não vão resolver os problemas do jogo (tático).

Unknown disse...

Um bom artigo, sim senhor. Dá que pensar, especialmente em relação aos comentários que se tecem sobre aquele jogador ou jogadora (como aconteceu comigo) que é franzino ou pequeno, apesar de decidir sempre bem: é boa jogadora mas precisa de ganhar poder de choque... Eu respondo sempre: e o Messi, também precisa de ganhar poder de choque? Mas o que é isso de poder de choque? Será que há jogador que leve tanto pau como ele? Então, tem ou não tem poder de choque?