sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Querer tudo depressa. Burn Out. E a forma descontraída como tantas vezes se chega lá.

Em Portugal compete-se cada vez mais cedo. Hoje em Benjamins (nove e dez anos) e até sobre o escalão de Traquinas (sete e oito) há pressão para se competir.

Os pais querem tudo demasiado cedo. Querem predizer aos nove e aos dez anos que o seu menino vai jogar profissionalmente. Os treinadores querem mostrar competências colectivas. Organização em equipas de crianças. Futebol amarrado e cheio de combinações treinadas. No ano seguinte chegarão a escalões de outra faixa etária, pensam.

Aos cinco anos e após o primeiro treino os pais interrogam o treinador. "O que achou dele?".

Hoje é muito fácil vender o futebol e o desenvolvimento da performance aos pais de miúdos bastante novos. Há uma ideia de que quanto mais cedo e mais futebol treinar de forma organizada, mais chances terá de lá chegar. Conheci quem pagasse para treinos individualizados de melhoria de aspectos físicos e coordenativos a uma criança. Mas que não a deixava jogar fora dos treinos, para não se cansar ou magoar.

Um estudo num país de referência revelou que a grande percentagem dos jogadores que chegavam a internacionais tinham uma bagagem motora bastante mais completa que o "apenas" treinar futebol de forma organizada.

Os miúdos precisam sobretudo de muita estimulação motora. Muito trepar, empurrar e puxar. Muita liberdade e muito contacto com a bola. Organização a chegar muito depois. 

Aqui, o testemunho de um dos apaixonantes extremos portugueses.

"Nunca tive escola, como se diz. Comecei a jogar futebol apenas com 16 anos... Antes jogava na rua e jogava futebol salão. Era isso que me divertia e que gostava de fazer.

11 comentários:

Tomcat disse...

Isto não tem comentários e é de uma importância extrema.
Infelizmente, estive recentemente num jogo de infantis onde ouvi um pai ganir — e não tem outra designação que não essa — "dá-lhe uma cotovelada!". Era pai, sabia antes do jogo, do mais grandinho dos miúdos. "Pode ser um central de excelência", dizia o pai, convicto que o brutamontes do miúdo, cujas acções era muito estimuladas, claramente, em casa, virava adversários com uma facilidade tremenda e tinha o pontapé mais forte. A pressão caseira tirará tudo a este miúdo, que, para o escalão e distrito onde jogava, não era assim tão mau.

Outro bom exemplo que tenho, e neste caso era o miúdo mais talentoso da equipa, e cujo pai passava o tempo a gritar e dar instruções da bancada. Este miúdo tinha diarreia e vomitava-se sempre antes dos jogos, com a ansiedade que o pai lhe inculcava da bancada. Acabou por desistir, infelizmente.

Paolo Maldini disse...

grande partilha Tom

Fabio Correia disse...

Quando treinava crianças (entre 8 e 10 anos) havia uma regra: Durantes os treinos, os pais eram proibidos de assistir, ponto final. Para os jogos eu aconselhei ao pais de ver 2 jogos no maximo cada volta do campeonato. Tive problemas com isso, principalmente pressao dos pais, mas felizmente o club apoiava a regra que para mim era no negociavel. E melhor de tudo a quase totalidade dos pais respeitaram a "regra" dos 2 jogos.

Mário Alexandre disse...

São casos que infelizmente acontecem e vão continuar a acontecer. E para nós os treinadores é viver num sentimento de termos as mãos atadas e não conseguir fazer nada.

Diogo Santos disse...

Acho que cada vez mais o carácter dos pais é prejudicial para os miudos, e que muitas vezes os pais não confiam nos treinadores e tentar ser eles a treinar o miúdo, desde a bancada.
No passado fim de semana, estava eu e os meus colegas com a nossa equipa de sub-10, e num canto da equipa adversária, chamamos o nosso avançado (que nesse momento era um miúdo forte, forte de gordura) para que recuasse um pouco no terreno. Qual não é o nosso espanto, quando o pai desse miúdo grita da bancada, deixa-o estar aí, que é aí que ele está bem (estava no círculo do meio campo).
Outro caso de outro jogo, foi outro pai de outro miudo a dizer ao filho para subir no terreno (era defesa) na esperança que fosse marcar golos, não sei, quando nos encontrávamos a jogar contra a equipa mais forte. Por causa desses gritos, vai Tiago, sobe, etc, ficamos muitas vezes em situacoes de 3*1.

Penso que cada vez mais é mais difícil ser treinador de formação, principalmente nos meios mais distantes das grandes cidades, por causa dos comportamentos dos pais, nos treinos e nos jogos. Muitas vezes os miudos ficam a pensar em quem devem ouvir, se os treinadores para cumprirem aquilo que é pedido,se os pais para os agradar e esperar que eles tenham orgulho nos filhos.

van Basten disse...

Olá. Certa vez apareci aqui na caixa de comentários para perguntar a vocês sobre a equipa do Empoli, treinada à época pelo Maurizio Sarri. Foi dica de um colega meu, no qual identifico muitas ideias parecidas com as do blog, ele assentiu quando mostrei na mesma hora o Lateral Esquerdo.

Para esse ano ele decidiu criar um blog com outro colega (e, pelo visto, Jesus estar na capa confirma ainda mais minha tese) e gostaria de partilhar com vocês: https://larodillademodric.wordpress.com/

(Não precisam aceitar este comentário ao público, somente gostaria de mostrar a vocês o que pode ser fonte de informação vinda de alguém que parece pensar o esporte de forma parecida)

van Basten disse...

Acho que inclusive a ideia de usar nomes de jogadores para assinar os posts foi tirada do LE.

Benoit disse...

Infelizmente isto ainda acontece com muita frequência. No chat do Posse de Bola já relatei umas quantas situações idênticas. Recordo-me já em júnior de um pai de um colega o proibir de jogar, pois no seu entender o seu filho não devia jogar a defesa direito mas sim a central.
Os pais já nós sabemos que se comportam assim, o pior é ver treinadores e dirigentes a fazer os mesmo e os pais acharem que é correcto.

Nuno Costa disse...

Maldini mas uma equipa que trabalhe de forma organizada e com um modelo de jogo positivo, isto é, sobretudo em organizaçao ofensiva, fará com que os miudos tenham mais bola o que contribuira MUITO para a sua evolução enquanto jogadores

Blog de Portugal disse...

Quantas histórias de pais que só prejudicam os miúdos... Isso dava para o pessoal estar a falar um mês sobre isso!

Quanto a mim, deixo a que me tocou mais:

- Num torneio de infantis, vejo o pai de um miúdo da equipa adversária a dizer-lhe sempre o que devia fazer, e a criticar todos os outros dessa equipa, bem alto que é para toda a gente perceber.
Depois da 15ª indicação e crítica aos colegas desse miúdo, eis que o miúdo se vira para trás e dá um berro que deixou toda a gente que estava a ver esse jogo assustada: "cala-te pai, só estás a estragar tudo!". Ao menos nesta o homem ficou pior que estragado.

PicaretaLeonina disse...

van Basten, agradece então ao teu amigo por mim, que foi graças à tua sugestão que comecei a seguir o Empoli do Sarri. Foi como descobrir um pequeno tesouro, aparentemente à vista de todos, mas que quase ninguém vê efetivamente.