sexta-feira, 18 de março de 2016

A arte da motivação. Simeone.

Quando não se percebe tende-se a pensar que a resposta está no que não se conhece, no que não se explica. A nova tese para justificar o sucesso deste Benfica, tendo em conta a sua rudimentar organização táctica, é a psicologia. Entenda-se, Rui Vitória é melhor motivador que o seu antecessor. Tese essa que tem sido amplamente aceite sem que alguém consiga explicar exactamente o que é, como é, onde se nota a influência. Os jogadores correm mais com a psicologia à eles aplicada? Tornam-se mais inteligentes? 

Simeone, um dos grandes nomes do futebol actual, um dos maiores reflexos das teorias da motivação. A aura da psicologia sobre ele é enorme. Sem que ninguém consiga explicar exactamente onde, como, porquê. Exigência. Nas palavras do próprio. "A condição inegociável para os meus jogadores é a paixão. Ser amador. Muitas vezes eu explico a eles que é difícil encontrar em um elenco importante alguém que jogue mal. Mas não se trata apenas de jogar bem, se trata de sentir. E, para sentir, deve ter paixão, ter um senso de amadorismo, não deve tratar tudo como igual. Deve sentir que o treino te prepara para ser melhor. Que 20 minutos, às vezes, são muito mais que 90 ruins. E o melhor que nos passou nestes quatro anos e meio no clube é que elegemos um conceito de vida. Aqui não se negocia o trabalho, não se negocia a indolência." O mundo tem dificuldade em explicar Simeone. E quando assim é facilmente se foge para o que não se conhece, para o que não se sabe explicar. Afirma-se de forma veemente que se vê a diferença entre o trabalho motivational, e que isso dá frutos. Não se sabe que trabalho é, e Simeone ri. "Às vezes, escuto que sou um grande motivador. Não. A motivação é interna, é de cada um. É muito difícil que você contagie a outro com a sua motivação. Você desperta a sua motivação interna. E em cada caso isso é distinto." Quem trabalha com jogadores, diariamente, percebe exactamente isso. A motivação é do próprio jogador. E cada jogador tem motivações e expectativas diferentes. Daí a dificuldade que Simeone fala em contagiar jogadores com motivações próprias. A motivação, a disponibilidade para cumprir com tarefas, para te ouvir, para te perceber, para trabalhar no treino, para as tarefas do jogo, são o maior imponderável que existe no futebol. Dependem de cada jogador. E, no limite, o treinador escolherá sempre aqueles que o ouvem, que cumprem com a sua exigência. Uma equipa que ganha tenderá a estar sempre motivada. A forma mais fácil de se motivar um grupo é a vitória. E essa, na minha opinião, está na maior parte do tempo fora das variáveis de controlo do treinador. 

17 comentários:

0Loading0 disse...

Ora bem, como todos nós somos gajos que não percebem, e tu és o único que percebe... podias explicar então o porquê?!

Já percebemos (sim, porque apesar de sermos todos burros, ainda conseguimos depreender alguma coisa do que os iluminados nos dizem), que não é da tática, porque ela é rudimentar. Pelos vistos ficamos a saber que também não deve ser do fator motivacional incutido pelo treinador. Depreendo então que o Benfica só está a fazer a época que está, no campeonato e europa, única e exclusivamente por motivos fortuitos, traduzindo para miúdos, por uma mija das grandes!

Depreende-se também que estando lá o Rui Vitória ou um ruminante qualquer, o Benfica estaria onde está neste momento!

Será que podemos introduzir uma variável nova?! Será que poderá ter a ver com fatores místicos?!?! Será que o Benfica contratou os serviços de um bruxo de Fafe qualquer, e que está a ter resultados?!

É que já todos percebemos a verdade absoluta, nomeadamente do Blessing, daquilo que não é... agora gostaríamos de saber da verdade absoluta daquilo que é... sé é que me entendem?!?! É que sabendo isso talvez se descubra algo importante no futebol que possa ser utilizado por outros treinados, porque pelos vistos está a ter resultados.

sem contar que é sempre muito mais interessante discutir o que é do que o que não é!!!

cumprimentos.

Rui Dias disse...

Blessing e se mudarmos a coisa? Se olharmos á desmotivação que o treinador pode causar? Não há uma grande distância entre uma coisa é a outra... (Há no resultado mas não na relação de causa e efeito!)

Vou dar um exemplo....chamado Emerson! O que achas que provocou na equipa sentir que jogava todos os jogos com um jogador a menos?

Poderíamos dar outro exemplo chamado....Roberto! Lembras te de como reagia à equipa do Benfica na maioria dos jogos? Lembro-me de ver o Luisao olhar para ele com olhos de quem o queria comer!

Seguramente um jogador (uma equipa) pensa em tudo isto quando entra em campo!

Isto é apenas um exemplo de como as atitudes do treinador podem influenciar o jogador e a equipa! Para a levar a querer ouvir-te!

Mas há mais exemplos que podem ser utilizados nesta temática! Imagina que tens um dos centrais que mais faz a diferença no campeonato e derrapente vais jogar com o teu adversário directo que tem um jogador muito forte no corredor direito...e pegas nesse central e puxas o homem para a esquerda. Achas que isto tem impacto na equipa (não falo da parte táctica...porque nessa tem obviamente. Falo da parte psicológica)?

O Jesus é TOP...mas ficar melindrado com este tema só porque se enaltece a pouca coisa em que o vitória é melhor que ele...é tonto.

Já agora deixo aqui uma dica que aceitas se quiseres!

É altura de deixares de escrever como se fosses o guardiola! És alguém que tem uma ideias interessantes mas, das duas uma...ou és muita forte e tens tempo para treinar o bayern e ao mesmo tempo passar muito tempo a vir escrever coisas na net....ou então és apenas mais um com boas ideias que ainda não foram postas á prova onde dói verdadeiramente! Portanto essa história do "quem trabalha diariamente com jogadores" tem pouco interesse! Porque eu também trabalho diariamente com jogadores e já fui jogador e tenho a certeza de que a psicologia faz o jogador correr mais é ser melhor!



ofradique disse...

Julgando pela superior clarividência que demonstram ao falar de futebol, e sabendo que são técnicos de futebol, só posso imaginar que treinam todos equipas de topo, porque quem vê mais longe do que reles treinadores com uma "rudimentar organização táctica" há muito trepou a escada do sucesso e chegou aos melhores clubes do mundo. E sem qualquer ajuda da "motivação", claro, porque o mais tosco jogador, quando manobrado pelas mãos geniais dos escribas deste blogue (e de JJ, claro), joga dez vezes mais, recebendo o vosso brilhantismo táctico por osmose. Só assim se compreende a arrogância de quem defende apenas um modelo táctico, tipo touro a marrar contra panos vermelhos. Bem hajam!

Ricardo disse...

E é vê-los a descer da sua montanha, em socorro do seu novo Deus!

Blessing disse...

Loading, se souber um segredo desses não tenho qualquer interesse em fazer load para a Internet. Vendo.

Rui Dias, eu não fico melindrado com nada. Só quero é que alguém me explique onde é que ele é melhor. Ou seja, como é que ele é melhor. Vou dar-te um exemplo, quando um gajo do plantel principal vê um puto da B chegar, treinar uma semana, e jogar, significa o quê? E quando vê na semana seguinte voltar para a B, nunca mais ser chamado, vir outro treinar e jogar? Com uma semana de treino. Bem.

Estou a espera que tu, por exemplo, me expliques como é que um é melhor que outro. Como é que um "motiva" melhor, e porquê. Quando alguém tu ou outro qualquer, me disser: motivar é isto. Motivar bem é isto. Motivar mal é isto. Rui Vitória faz isto a este jogador, isto à aquele, isto ao grupo. Isto faz com que o grupo, este jogador, e aquele jogador, tenha determinado comportamento que melhora a sua performance no jogo. O JJ faz isto é aquilo, e tem este efeito no grupo e no jogador. É isso que eu quero que alguém me explique. Não me sinto minimamente melindrado com nada.

JD disse...

Não confundir motivação c trabalhar a psique do jogador.

Um jogador bem trabalhado psicologicamente é mais consciente das suas capacidades e limitações, está mais focado e concentrado no jogo, tem mais disponibilidade para aprender e para cumprir, pode até jogar mais confiante e descomplexado.

O medo do sucesso e do insucesso são factores importantes. O futebol é uma actividade humana. Recomendo-vos falarem com comerciais antes e depois de sessões de motivação. Pode parecer simples e pouco sofisticado, mas 99% dos jogadores profissionais são uns broncos de primeira.

Blessing disse...

Ps: Rui Dias, boa dica. Outra boa seria alguém, com as tuas certezas, explicar as questões colocadas no artigo, por exemplo. Se calhar, perdendo mais tempo a pensar nelas, e menos no Guardiola, daria uma resposta mais rica e menos fácil de arranjar exemplos semelhantes. E é com isso que fico melindrado. Com a polícia da arrogância, que diz pão.

Blessing disse...

JD, profissionais e outros! O teu comentário é fantástico, diga-se. E concordo com a descrição que fazes. Sem dúvida que é tudo isso. Mas a minha questão, como podes perceber, não tem nada a ver com isso. Aliás, é ler a restante entrevista do Simeone e ver como ele fala das emoções, e da percepção que o líder deve ter delas. Um exemplo, tenho um jogador que reclama com tudo. Tem muita qualidade individualmente, e sempre que erra a culpa é do vento. E sempre que eu reclamo com ele a culpa é do vento também. Sempre que reforço de forma positiva uma acção dele no treino, ele solta-se e fica mais focado nos minutos seguintes. Durante alguns minutos. Mas, sei perfeitamente distinguir quando ele reclama e tenho que o ajudar de forma tranquila, e explicar no detalhe a nossa intenção com o que lhe estamos a pedir, assim como sei quando tenho que o mandar foder. E sei também quando tento corrigir qualquer coisa, e ele me explica a percepção dele que aí devo concordar com ele e arranjar uma forma de solucionar a dúvida e o problema tendo em conta a visão dele. Para reforçar essa relação de ele falar eu ouvir, eu falar ele ouvir. Mas isto é motivação? Não me parece. Posso dizer-te que, por exemplo, esse jogador gostava de jogar à esquerda, e não na direita. Quando, para mim, ele fica mais beneficiado na direita. E ele insistia nisso, no jogo, e no treino. Quando lhe dizia para mudar não queria. Amuava. Fazia birra. No primeiro jogo que fez à direita marcou ao Benfica e ainda sofreu um penalti. Agora já está motivado para jogar na direita, e já não reclama. Isto foi motivação do treinador? Não. Longe disso. Foi ele que a ganhou, sozinho! Se não tivesse marcado já não estava motivado. Mas, se tivesse continuado à esquerda e tivesse marcado, a motivação para jogar à esquerda se mantinha. Quem o motivou ou desmotivou, eu? Não me parece.

Antonio disse...

Parece-me que há aqui um erro de análise. O artigo que li (Rui Lança) o que vinha referido tinha que ver com estilos de liderança e não só com questões de motivação.

Referia-se a treinadores com um estilo mais directivo por contraponto com outros que apostam num estilo que acredita mais na responsabilização dos atletas.

Ricardo disse...

Tendo em conta aquilo que tanto se defende neste blogue (e não está, por princípio, errado) de que apenas se deve comentar o que se vê e na sequência do que o Antonio disse sobre estilos de liderança que põem mais responsabilidade nos jogadores, uma coisa é facilmente comprovável. O quê, perguntam? Uma tendência nas declarações de Rui Vitoria em relação às vitórias e outra em relação aos jogos que não ganha. No primeiro caso, tende enaltecer a equipa, os adeptos, etc. No segundo caso, no entanto, não chama nada, nem ninguém à responsabilidade. Nem a si, nem aos jogadores, nada. Se analisarem bem o que ele diz nos pós-jogos, são sempre fatores exteriores a si ou à equipa que são chamados à liça: o azar, as oportunidades falhadas, a sorte do adversário, arbitragem, circunstâncias avulsas, etc.
Não direi que se poderá ver aqui um estilo de liderança. Mas lá que se vê uma desresponsabilização própria e da equipa, isso vê-se. E isso, desde logo, não é bom.

Rumo Norte disse...

Tenho para mim que RV difere de JJ, acima de tudo, no grau de liberdade que dá aos jogadores para executarem em campo. Não sei avaliar as razões, se é uma questão de filosofia do treinador, ou se tem também uma componente de menor capacidade de operacionalização do treino. Ora, ao permitir aos jogadores mais liberdade, RV alivia a pressão, é mais tolerante ao erro individual, e tem beneficiado do feedback loop positivo de resultados e "motivação" (entendida em sentido lato). Fico também com a percepção que RV é mais líder, e JJ é mais "boss". JJ consegue resultados mais depressa, porque o domínio do sistema é top down exclusivamente, mas no médio/longo prazo um sistema com menor pressão hierárquica, mais liberdade e alegria, mais tolerância ao erro e que permite a aprendizagem orgânica do jogador, ganha uma expressâo mais versátil e talvez até com maior margem de progressão. Que vos parece esta explicação? Ando a pensar nisto há umas semanas, mas não tenho um grau de certeza muito convicto ainda.

Nail disse...

Esta é a minha primeira intervenção no vosso blog. Sou fã de futebol, não domino a componente técnico táctica da coisa (nem tenho intenções disso), mas gosto de ver as opiniões de quem está informado, e se for com exemplos ainda melhor.

A minha opinião sobre isto é exactamente o que se referiu sobre liderança, e no que toca a isso Rui Vitória é exemplar. O percurso dele no Vitória (inclusive ganhou uma taça de Portugal ao ferrari treinado por JJ), e a montanha que está a escalar este ano após 6 anos de hegemonia o estão a demonstrar - é muito mais difícil a integração quando um clube vem de uma época de sucesso do que o contrario, veja-se o exemplo do Man Utd pós Ferguson. E ainda por cima ser enxovalhado pelo antecessor. Obviamente que não é tudo liderança, é também técnica, e aí pode não ser o melhor, mas tem que ser acima da média caraças.

Tudo isto para dizer, que em vez de estarem a dizer "meh, ele tem sucesso, mas eu não sei como... Só pode ser sorte!", se calhar devíam estar a tentar compreender como ele o aplica. As coisas não são sempre pretas ou brancas! Não se pode papar tudo o que dizem os guardiolas desta vida como credo. Nem tudo o que fazemos os Rui Vitórias como atrasado.

Já agora, e caso estejam a acompanhar, gostava de saber a vossa opinião sobre o Leicester e do tottenham deste ano na Premier League.

Nail disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juan disse...

Se o bryan ruiz contra Benfica e Vitória não falha os dois golos de baliza aberta que falhou neste momento o Sporting tinha mais 3 pontos e assim Jesus seria um deus... como ele falhou o JJ já é mau, pormenores.

Alguém me explique, como alguém não está motivado para ganhar? nunca percebi isto da motivação e da entrega... uma coisa é uma equipa já sem objetivos, equipas que lutam por títulos não estarem motivadas para ganhar? Lutar por títulos acho que é a maior motivação que alguém pode ter. Além que se ganharmos, vamos estar mais confiantes nas nossas capacidades.

Voltando ao Simeone, eu não sei se ele é 1 motivador ou não, mas 1 coisa tenho certeza, ele é bastante exigente.

JD disse...

Juan, como alguém pode não estar motivadopara ganhar? lembra te do Recoba. Talento enorme, zero prazer em jogar profissionalmente.

Como alguém pode ter medo de ganhar? Fernando Mamede.

JD disse...

Blessing, motivaste criando o entorno para ele ter sucesso. Agora vai contigo à baliza se lhe pedires.

Blessing disse...

JD, não me parece. Quem o motivou foi o sucesso. Não eu. Ele foi para lá obrigado. E se for preciso, desmotivado. Fiz exactamente o oposto. O que posso ter criado é uma maior disposição para me ouvir. Mas isso é outra história.