quinta-feira, 31 de março de 2016

A parte que não se separa do todo. O crescimento do jogador.

"Modern coaches take things apart and put them back together again. But that's anti-natural. Without our context we are not what we are. We are not a list of atributes. My aim is no to fracture and break apart what should be together, not to de-contextualise." Juanma Lillo.

É comum o pensamento "Se X tivesse mais força. Se Y fosse mais rápido... seria melhor ainda". Ignorando-se que tal não existe. Se X tivesse mais força não seria X. E se Y fosse mais rápido não seria Y. O crescimento enquanto jogador não se dissocia do crescimento enquanto individuo. O contexto, as experiências vivenciadas fruto de se ser quem e como se é constroem o produto (não) final.

Se Messi tivesse um pouco mais de força seria melhor jogador. Se pudessemos separar atributos e voltar a colocar tudo junto, tal afirmação seria correcta. Porque Messi não teria perdido nada por ter mais força. Contudo, tal é impossível.

Se Messi tivesse mais força não seria Messi tal como o conhecemos. A sua característica diferente, tê-lo ia feito crescer de uma forma diferente. Teria experimentado outras opções, outras decisões. Teria tido sucesso de outra forma, ou insucesso. E continuaria a crescer em virtude do resultado de vivências diferentes das que teve. Em suma, se Messi tivesse mais força, não seria Messi. Se Garrincha não tivesse as pernas tortas, não seria Garrincha. Não teria o drible desconcertante. Mas teve tal drible porque tinha as pernas tortas? Não. Tinha o drible desconcertante porque se adaptou de determinada maneira em função de uma anomalia anatómica.

Há que ter sempre demasiados cuidados com o "onde tocamos", não vá, citando Guardiola "...não mexi para não estragar". Não podemos dissociar nada do produto final. Seja físico, social ou mental. 

Quaresma não teria tido o sucesso que teve e tem se fosse um menino bem comportado. Não se pode dissociar a forma desinibida como joga e a personalidade própria de quem nasceu para jogar este jogo da sua rebeldia. Se lhe matassem a personalidade, Quaresma não seria Quaresma. Com os defeitos que tem, mas sobretudo com as virtudes.

Não queiram meter pessoas em laboratórios para desenvolver jogadores porque simplesmente não é assim que lá se chegará. Deixem expressar a individualidade e façam-os crescer com os mais velhos quando assim tem de ser. É com os cuidados extra que têm de adotar para "não levar nas orelhas" e não serem excluídos de grupos mais competitivos que se formam os melhores.

"Oh, ele joga no bairro com o irmão (uns anos mais velho) e os seus amigos... não custa nada jogar aqui com os betinhos da sua idade" Respondeu-me há um par de anos um miúdo quando o questionei sobre se outro, que estava lá dentro a rasgar um jogo todo, tinha por hábito tal performance.  

6 comentários:

Constantino disse...

O futebol actual está a ficar snob e robotizado. No outro dia falava com um amigo acerca da diferença do futebol actual para o que se jogava quando eramos miúdos e à parte dos pelados, dos equipamentos que levavamos para casa para a mãe lavar e devolvermos ao clube na segunda feira, das chuteiras de pitons gastos e luvas com buracos, etc, chegamos também a uma conclusão: hoje contamos aos nossos filhos que craques começaram a jogar no Cebollitas, no Pastilhas, nos Andorinhas, no Bairro do Falcão etc. Um dia eles vão contar aos seus filhos que os seus idolos começaram a jogar no Dragon Force, no Geração Benfica etc etc. Permitam-me o romantismo de dizer que o futebol parece estar a perder aquela imagem popular e "terra-a-terra" que o tornou no desporto rei.

Blessing disse...

Mto bom este artigo Maldini. Grande!

Blog de Portugal disse...

Constantino, isso é verdade, mas não totalmente, acho eu.

Claro que vão sair alguns craques dos Dragon Forces e Gerações Benfica. Porque se trabalha bem e porque há muitos muitos miúdos aí, é normal que uns cheguem mesmo lá acima.

Contudo, acho que também vai ser nos Bairros de Falcão que vão continuar a surgir craques, pelas condições que propositadamente ou não esse tipo de clubes tem: miúdos da rua, que não jogam só no clube (embora hoje existam outras distrações e entretenimentos muito fortes também), as dificuldades da vida que enfrentam, o treino que se calhar é mais para o aleatório e por isso obriga-os a adaptarem-se...

Mas concordo que esse lado popular começa a desaparecer, e isso vai notar-se bem daqui a uns 10 / 15 anos. Porque muitos adeptos dos jogos das distritais são também os velhotes lá da terra que vão ver o seu clube, porque toda a gente fica a atraída por essas escolinhas e academias...

Miguel Pinto disse...

Bom texto, bem apanhado. Só um pormenor: não foi Luís Enrique que disse "não mexi para não estragar" na primeira mão dos oitavos de final da champions contra o Arsenal? O Guardiola também o terá dito outrora.. De resto, o por maior, o texto está bastante construtivo e reformador do pensamento humano. Obrigado!

João Mourato disse...

Mais uma vez só tenho a agradecer a qualidade do artigo questão e do próprio BLOG.

Um muito obrigado e espero que continuem por muitos e bons tempos!

Paolo Maldini disse...

Tens razão Miguel!
obrigado João.

grande abraço Tino :D (do algarve...)