terça-feira, 29 de março de 2016

Ser Totti - A revolucao que o futebol precisa.

Hoje, ao acordar e cuscar os jornais dei de caras com isto.

"Renato Sanches? Tem muita qualidade, teve uma grande evolução, e, sendo tão novo, se continuar a jogar assim poderá transferir-se para outro grande clube." - Witsel, aqui

No brilhante texto da Mariana Cabral no Expresso podemos ler “Não quero parecer moralista, mas a nossa juventude hoje será que quer ser como Messi e Ronaldo ou será que quer ter o que Messi e Ronaldo têm, dinheiro e fama? Os milhões que estão entre ganhar e não ganhar mexeram muito com o jogo e com o jogador, a quem hoje se paga somas quase incomportáveis”


Alguem acredita que Totti, quando largar "a menina" vai ter algum tipo de dificuldade na vida? ou tudo o que ganhou (financeiramente) será mais do que suficiente para viver confortavelmente o resto dos seus dias?


Renato, João Mario, Ruben Neves, e tantos outros, deviam querer ser Totti, em vez de ser Ronaldo.

Ambicionar estar a carreira toda no seu clube de coração deveria ser a maior honra, o maior orgulho e o maior sonho de qualquer futebolista.Seria a diferença de ambicionar ser um Deus, ou alguem cheio de dinheiro.
"Cruyff looked at me intently. “Yeah, but maybe we were the real winners in the end,” he said, his close-set eyes suddenly flaring. “I think the world remembers our team more.”

18 comentários:

Pedro disse...

Não é uma discussão nova mas tem como base um errado pressuposto ou, por outras palavras, um certo "ignorar" da real situação financeira de Totti.

É bonito e romântico ver um jogador como Totti jogar sempre no seu clube do coração. É o sonho de todos nós que gostamos de futebol. Usamos muitas vezes o exemplo de Totti quando criticamos o facto dos nossos putos quererem sair e muitas vezes irem para clubes menores, sem expressão apenas para ganhar dinheiro. Totti é um exemplo de fidelização ao seu clube mas convêm não esquecer que Totti foi/é um dos mais bem pagos de Itália. Totti recebe do seu clube do coração um valor muito alto que o colocou, durante largos anos, como o mais bem pago de Itália. É muito mais fácil recusar propostas milionárias do estrangeiro quando se ganha 500 mil euros mês do que quando se ganha 40 ou 50 mil.

São realidades completamente diferentes. Concerteza que a Totti nunca apareceu uma proposta que triplicasse ou mesmo duplicasse o seu vencimento mensal e, desse modo, é "fácil" recusar sair e ficar no seu clube do coração.

É um pouco como quando apontam o Barça como exemplo de aposta na formação esquecendo-se que o Barça quando quer paga muito bem aos seus jovens e por isso eles vão lá ficando. A necessidade de ir à procura de melhores contratos não existe. Eles saem pq querem jogar.

João disse...

O Moutinho é um bom exemplo do que dizes - porque saiu do FCP? Estava a jogar num nível alto, ganhava bem, lutava por títulos... mas não chega. Talvez enquanto jogador precise de mais, maior desafio? Para nós adeptos, ter qualidade para ajudar o nosso clube a ser melhor e poder faze-lo toda a vida, seria um sonho. Porque, apesar de tudo os grandes clubes em Portugal conseguem chegar a salários relativamente altos! Não chega para comprar um avião, mas chegará para nunca ter que fazer mais nada o resto da vida...

Será que também tem a ver com o nível do nosso campeonato? O campeonato espanhol, por exemplo, é muito mais elevado...

João Martins disse...

Concordo com todo o texto e os comentários anteriores, mas há dois factores actuais que talvez não fossem tão preponderantes no caso do Totti (especialmente na realidade portuguesa): a vontade/necessidade do clube em realizar encaixe financeiro (sobretudo quando as verbas são astronomicas), e os agentes dos jogadores. Se um jogador hoje em dia pode dizer não tal e como o Totti o fez no passado? Pode... Mas quantos exemplos temos de jogadores que não se quiseram transferir para um determinado clube e foram "encostados"? Eu tenho um par de exemplos... O futebol é um negócio. E cada vez mais o será. Os jogadores tentarão cada vez mais ter o que têm os outros, e não ser a bandeira de um qualquer clube

DM disse...

Adrien ganha 1 milhão limpo por época. Se ficar até ao final da carreira no Sporting ganha mais de 10 milhões de euros. Já é uma quantia mais que suficiente para ter uma vida farta quando pendurar as chuteiras. É uma pena que nem todos fiquem satisfeitos assim.
Também há, no entanto, a questão da competitividade do campeonato. Um jogador evolui muito mais no campeonato alemão do que em Portugal. E quem tem ambição, Portugal é pequeno.

Barbosa disse...

Pedro também tens o exemplo do Buffon, que mesmo com a descida não quis sair da Juve. Na altura o plantel estava em saldos e ele era um dos mais apetecíveis, teve propostas de certeza.

Ou Gerrard que também, pelo que se sabe, poderia ter saído a ganhar bastante mais.

Pedro disse...

Concerteza que teve propostas, a questão é que o que eles ganhavam permitia recusar propostas melhores.

O exemplo dado acima do Adrien. Chegar ao final da carreira com 10 milhões de euros de ganho para nós, pobretanas, parece fabuloso. A questão é que Adrien não vai chegar ao final da carreira com esses 10 milhões pq entretanto já gastou uma boa parte em casas, carros, boa vida (à qual tem todo o direito de viver), etc.

Agora se for para o estrangeiro, no mesmo tempo de carreira, pode chegar ao final e ter 50 milhões de ganho, pode gastar 10 milhões durante o tempo de jogo e ter 40 milhões de poupança. E isto faz toda a diferença.

Jogadores como Totti, Buffon ou Gerrard terão ganho uns 70/80 milhões ao longo da carreira. A terem saído dos seus clubes teriam ganho quanto mais? 4/5 milhões? Entre ganhar 70 milhões no Benfica ou ir ganhar 75 num outro clube qqr tb me era fácil ficar no SLB. A questão é que a diferença é ganhar 10 no SLB ou 70 lá fora. A diferença é brutal.

Pedro disse...

Ou o Messi. Se os chineses estão dispostos a pagar 75 milhões ano ao Zlatan quanto não pagariam pelo Messi?

A questão é que o Messi ganha 25 milhões ano (sem patrocinios) e isso permite olhar para estas propostas obscenas e sentir que o dinheiro não é o que o fará ir para a China e abdicar de competições interessantes.

Agora quando estás a falar de um gajo que joga no Nacional da Madeira e aparece uma proposta da China que multiplica por 10 o que estás a ganhar, apesar de saberes que vais para um "deserto" nem sequer pensas duas vezes.

Edson Arantes do Nascimento disse...

É uma opinião polémica e moralista. O Pedro já veio explicar porquê. Toda a gente pode ser grande onde quiser, no seu clube do coração, ou no rival. Não tenho nada a ver com isso. E nem me interessa. O resto são apenas tretas de trazer por casa.

Se eu não estou disponível para trabalhar a vida inteira na mesma empresa ou clube ou o que for, porque razão vou exigir isso ao Renato Sanches ou a outro qualquer? Estaria a coarctar o miúdo, ele tem direito aos seus desejos. E porque razão valorizarei mais o Totti (que foi um excelente jogador: sempre gostei muito e teve fases brilhantes)?

O que já não é de trazer por casa é o espírito positivo e a boa-fé, a coerência (mesmo com desvios e mudanças de opinião), a solidariedade e o respeito pelo "outro" e pelos outros. E isto pode ser concretizado em todos os lugares e em todos os momentos. Não são coisas circunstanciais, são a própria circunstância.

Dito isto, considero de certa forma hipócrita dizer-se que "mataram o futebol". Quem matou? Quem diz isso, também diz que "mataram a economia" ou "mataram a política"? Porque não o diz? Porque (pelo menos para mim) esta é uma leitura política, não é sequer apenas desportiva ou apenas económica.

Sendo uma leitura política, eu tenho de ser honesto comigo próprio (pelo menos) e reconhecer, sem rodeios, que o futebol é um dos filhos pródigos do capital. Do dinheiro. Do capitalismo. Do negócio, não interessa como, do negócio! Da ideia do mais forte, do mais rico, do que ganha sempre e não tem fraquezas, da ideia de que perder é sempre mau, da construção social do belo e da ideia de marcas, de identidades ligadas a factores meramente comerciais ou estéticos.

O desporto profissional, muito por influência americana e devido às escolhas provenientes dos meios político-económicos-sociais (não é uma crítica negativa, é apenas a constatação de um facto), tornou-se mais espectáculo, mais business, e menos corporativista ou associativista (que é a génese do "association football", no Reino Unido, e daí o bairrismo e a forte cultura do "association" em Londres, por exemplo).

- E quem não critica o capitalismo enquanto jogo de forças, jogo de poderes e enquanto relação de aproximação entre o colectivo e o individual, e diz que agora mataram o futebol, está apenas a ser desonesto.

Não! Fomos nós todos que construímos este futebol. Ninguém o matou. Foi uma construção bastante orientada por uma série de factores que poucos criticam.

Aliás, se formos falar de política de forma concreta, eu aposto sem medo de errar que a larga maioria dos comentadores é bastante positiva em relação à ideia de mercado livre, salários livres, sociedade de consumo, acumulação de capital - e que por estes dias o Lula é para bater com três paus e mais três de reserva.

Então, digam-me, caros capitalistas, que vida em sociedade querem vocês, afinal?

Um capitalismo asséptico? Sorry, não existe.

Blessing disse...

Por acaso tenho uma ideia diferente. Acho que cada um deve escolher de acordo com as expectativas que tem. O que é melhor? Um gajo que passa uma vida num clube acomodado, ou um que passa um ano e dá tudo que tem para depois conseguir dar o salto? E em nenhuma das hipóteses falo no sentimento pelo clube. Que pode haver desde novo, que pode ser aprendido enquanto se está lá, ou pode não se ter. Para mim, no final conta aquilo que cada um fez com aquilo que teve, independentemente do tempo que lá passou. Exemplo: Ramires passou um ano no Benfica, com o objectivo claro de dar o salto. É mau? É mau um miúdo da formação pensar como Ramires? Eu não acho. Mas são só opiniões diferentes. Gostei muito do artigo, e pensei também em Del Piero. Meu ídolo.

Guilherme disse...

Falando apenas do caso daqueles que jogam em Portugal (sejam tugas ou nao), a verdade é que muitos querem sair para crescerem enquanto pessoas e abrir horizontes. O Cristante, por exemplo, fartava-se de repetir isso. E depois ha que preserverar.

Cada recanto desta Europa é um mundo em si mesmo, e as sociabilidades mudam radicalmente de pais para pais.
Aprender uma lingua nova e ter que adaptar-se a uma cultura e valores diferentes para sobreviver (afectivamente, por exemplo) faz muito pelo amadurecimento e crescimento pessoal de qualquer individuo. Mais do que as pessoas imaginam e como a maioria dos emigras vos pode confirmar. Porque isso dos contratos milionarios é mto bonito, mas por vezes basta uma ma época, uma depressão (que as ha) ou uma lesao grave e kaput.

No fundo (e generalizando bastante), é a diferença entre ser-se Figo, Rui Costa e Paulo Sousa; e entre ser-se Joao Pinto e Pedro Barbosa. Ou entre ser-se Messi ou Tevez, Gago ou Redondo. Entre tocar o Olimpo e ficar-se à entrada.

Pedro disse...

O Edson disse tudo...e nesse comentário revejo a minha opinião

Jorge Gaspar disse...

Não há comparação possível e o Pedro já explicou porquê. Relativamente ao texto "mataram o futebol", existem inúmeros exemplos de grandes jogadores que fazem practicamente toda a carreira no seu clube, mas esses exemplos ocorrem sobretudo em Espanha, Inglaterra e Itália (talvez também Alemanha). E isso acontece porque tal como o Pedro explicou, porque as melhoras propostas que recebem não são assim tão diferentes do que recebem nos seus actuais clubes. São países ricos. Têm um nível económico que nós não temos, e é estúpido acharmos que os nossos jogadores deviam ficar em Portugal a definhar juntamente com a nossa economia.
Quando dizem que mataram o futebol, referem-se a que data específica? Anos 90? Antes dos anos 90, em Portugal, os melhores jogadores do campeonato iam parar a que equipas? Pois, de certeza que os clubes pequenos e médios Portugueses também gostariam de ficar com os seus melhores jogadores durante toda a carreira. A diferença hoje é que os melhores jogadores não ficam em Portugal. Ao contrário do que o Edson diz, isto não tem nada a ver com cultura capitalista. Sempre foi assim. Realmente nos países comunistas não acontece, mas apenas porque não os deixam sair do país (se bem que o basebol americano está cheio de cubanos.)

O problema de Portugal é apenas um, não se desenvolveu economicamente de forma a competir de igual para igual com outros países Europeus. Consegue fazê-lo no hóquei, e mesmo ai ...
Mas não existem milagres. Os clubes Portugueses vão continuar afastadas da elite de clubes, e a tendência é o fosso aumentar.

Rui Dias disse...

Caros,

Para além da comparação ser pouco lógica (um jogador top em Portugal ganha 1/4 do que ganha em Itália) esqueceram-se de um factor que é preponderante!!! Então eu estou no Benfica, sou benfiquista dos 7 costados e a minha grande paixão é o futebol....adivinhem lá onde é que eu me vejo a jogar daqui por 4 anos?.... Ora, vejo me na final da champions, vejo-me num barça real, vejo-me nos clássicos loucos de Inglaterra! E porquê? Porque é o top!

Se eu for artista de circo vou querer trabalhar no circo cardinali a vida toda mesmo ganhando bom dinheiro ou vou para o circo do soleie? ...

O jogador de futebol é um ser humano como outro qualquer! Quer sempre mais e melhor!

Esperar o contrário é não nos conhecermos a nós próprios!

Ricardo Perna disse...

Eu concordo plenamente com o texto, por acaso. Não é uma questão de idealismo, é uma questão de opção. Para mim, o dinheiro não é tudo na vida, o meu legado também importa. Dizer que, mesmo em Portugal, um jogador de um grande (falamos desses, não de outros) não ganha o suficiente para ter uma vida cheia de tudo o que precisar, é sermos absorvidos por uma cultura capitalista que não faz sentido. Se alguém aqui me diz que ganhar 1 milhão por época não é suficiente para ter vida espectacular, então vocês é que vivem num mundo de ilusão...

O dinheiro não é tudo, ponto. O amor à camisola desapareceu por que achamos que precisamos de ganhar este mundo e o outro. Eu não concordo, e posso dizer que isso acontece noutros trabalhos. Eu poderia estar hoje a trabalhar noutro lugar, a ganhar bem mais, mas isso implicaria não ter tempo para a família nem para outras atividades que considero prioritárias. Como tal, optei por um trabalho que me permitisse deixar o meu legado onde importa. E não sou futebolista...

Quanto à ânsia de ganhar tudo, lá está, eu posso querer melhorar no meu próprio clube e, sendo um grande, como é a Roma, procurar levar o meu clube, que eu amo, aos píncaros em termos competitivos, não tenho de sair do clube para me tornar um jogador extraordinário que ganhou imensos títulos mas, no fim, não deixou nenhum legado. Ibrahimovic é um jogador extraordinário, mas alguma vez vai deixar um legado maior que uns vídeos no youtube? não creio...

cobra2 disse...

Concordo, mas acho que também conta o nível de futebol que se tem em Portugal. Alguns jogadores não são motivados por dinheiro, mas sim pela competição, e vão para onde são mais desafiados, ou seja, jogar com os melhores e contra os melhores.

Pedro disse...

Ricardo Perna,

O que dizes não está em questão. É perfeitamente possível alguém abdicar de ganhar mais para se manter fiel ao clube, perto da familia, etc. Nada disso está em causa.

O que quis relevar é que o exemplo de Totti não pode ser definido no sentido de ele ter abdicado de chorudos contratos para ficar na Roma. Não foi isso que aconteceu pq ele tinha um chorudo ordenado na Roma.

O mais perto que tu tens de uma situação dessas foi de João Vieira Pinto que enquanto estava no SLB recusou uma proposta muito boa do Corunha. E, mesmo assim, JVP era o mais bem pago em Portugal na altura.

Obviamente que te podes dar por satisfeito em ganhares 1 milhão por ano. Não é isso que está em causa.

B Cool disse...

Acho que cada um deve ser livre de fazer a sua opção sem críticas ou julgamentos morais. A minha opção seria sempre mais parecida com a do Ricardo Perna, por achar que há coisas mais importantes que o dinheiro. Não que o dinheiro não seja importante e que a diferença entre 10 e 70 milhões que o Pedro fala não seja significativa, até porque quando deixarem de jogar à bola provavelmente o nível de rendimentos cai abruptamente, mas não o nível de despesas e muitas vezes os futebolistas são pródigos em maus investimentos que originam uma diminuição mais rápida da riqueza acumulada.
Desportivamente, jogando num grande em Portugal, que disputa o título e participa na Liga dos Campeões, pouco há a ganhar na maioria das trocas...
A questão é que muitas vezes é o próprio clube que está interessado em vender o passe do jogador para que possa sustentar o seu negócio.

@Jorge Gaspar, não é uma questão de desenvolvimento económico do país (Holanda, Dinamarca, Suécia, etc são desenvolvidos, mas os seus mercados futebolísticos são tão ou menos relevantes que o português), é uma questão da dimensão dos mercados e consequentemente de todo o negócio associado a essa dimensão (direitos televisivos, main sponsors, technical sponsors, repartição dos valores da Liga dos Campeões consoante o mercado de origem).

Carlos disse...

Os comentários do Edson e do Guilherme podiam ser elevados a post. Estão lá pontos de vista que apenas a minoria vislumbra, mas que explicam muito do fenómeno.

Guilherme, o emigra deste lado subscreve.