segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril, dia da revolução

Guardiola passou pelo Estádio da Luz e deixou uma mensagem bem clara sobre o jogo, e os seus imponderáveis. Factores como os momentos em que jogadores importantes para a manobra da equipa estão ou não disponíveis, por lesão ou por castigo, a entrada de um jogador por indisponibilidade de outro que se mostra melhor adaptado ao momento em que a equipa se encontra, factores como o momento em que uma equipa defronta determinado adversário, factores como uma bola que bate no poste e entra e uma bola que bate no poste e sai, factores como o estado anímico do jogador, quem marcou primeiro, o momento em que marcou, o estado do relvado, o clima. Tudo isto e muito mais pesa no resultado. E todos esses factores estão bastante longe de poderem ser controlados por quem treina. A sorte faz parte do jogo. Mas tal não significa que quem tem sorte não é competente, ou que quem não a tem o é. A sorte aparece, e é difícil de explicar como e porquê. É aleatória, é estranha. Assim é o futebol. Dou por mim a pensar por diversas vezes que, se o Bayern tem apanhado nestes quartos-de-final um adversário mais poderoso individualmente provavelmente Guardiola não estaria noutra meia-final. Ou nem sequer nos quartos, se não tivesse conseguido marcar no último minuto da eliminatória anterior contra a Juve. Isto porque o Bayern está no pior momento da época em termos de exuberância individual, em termos de confiança. Os jogadores estão escondidos (talvez pela pressão desmedida que sofrem pela possibilidade de conquistarem todas as provas nesta temporada). E um factor como o sorteio poderia ter ditado um rumo completamente diferente para os Bávaros. Mais difícil será a sorte definir a competência de um campeão ou de um vencido numa prova de regularidade como é um campeonato. Mas num campeonato disputado, com poucos pontos perdidos por parte de quem luta pelo título, ou com muitos pontos perdidos por todos, uma bola que entra no último minuto ou que não entra leva a que se defina a incompetência de uns e a super competência de outros com base num segundo de toda uma época. Relembro o campeonato que Peseiro disputa pelo Sporting e perde numa bola parada já no final para o Benfica. Um campeonato em que Jesus perde um jogo, no último minuto, e não sai vencedor.

Na caixa de comentários do post mais recente do blogue, o Barbosa escreve um dos melhores comentários que já vi por aqui exposto. Talvez por ser 25 de Abril se começam a mostrar por aqui outro tipo de avaliação, outro tipo de pensamento. Outro tipo de análise, que não se esgota no ganhou, no perdeu, no empatou. Uma das maiores alegrias que tive enquanto treinador aconteceu há 8 dias. Em casa do adversário que ia no primeiro lugar (nós atrás com um ponto de atraso) conseguimos a vitória. No último minuto, de bola parada. Mais cinco segundos, e se o adversário não fizesse falta, o jogo terminava. No final, se não tivéssemos marcado teria sido uma época de fracasso disputar um campeonato até ao final? Ficando a um ponto do líder? Hoje, com o contexto a nosso favor, faltando 6 pontos por disputar é uma época de fracasso para quem liderou o campeonato até então? Não. Um trabalho de uma época não se esgota num segundo em que a bola entra, ou que a bola sai. É preciso ver mais tempo, ver mais longe. Foi exactamente o que passei em conversa a uma grande campeã do clube que ainda está a disputar o campeonato connosco. Não se perde nada num jogo, num minuto, num segundo. Uma época é muito mais do que isso, apesar de poderes não ser coroado no final. Afinal, só um é que pode vencer, não é?

21 comentários:

Paulo Sérgio Portugal Malheiro disse...

Guardiola estar de saída não deve ser motivador para os jogadores!
No entanto, este Bayern tem estado bastante intermitente!
A eliminatória com a Juventus, o jogo qb em Munique e os serviços mínimos na Luz, dão a entender um fim de Ciclo!

Gonçalo Matos disse...

Esse comentário ta top! E já agora, da mesma forma que não tens demérito num minuto, também não tens mérito total e superior aos outros se saíres campeão no final. Basta ver o que se passa entre o futebol da juve vs o do napoles

Henrique disse...

nos ultimos 24 jogos do campeonato a juve ganhou 23 e empatou 1. acho que é indiscutível que como equipa, que inclui jogadores, é superior ao nápoles.

Gonçalo Maia disse...

O meu comentário tem 0 de instrutivo para qualquer um que o leia, mas ainda assim acho que o devo fazer:

Como é que um blog da vossa dimensão, publica coisas tão à frente e de forma gratuita e super acessível não está em palcos maiores?? É um crime pessoas como vocês não estarem à frente de programas de televisão sobre futebol! É um crime a incompetência de quem se aproveita do mundo do futebol! ´

Sabe me bem todos os dias vir aqui e ler coisas vossas, e acho que faria a todos os que alargassem horizontes! É bom poder ver-se coisas nada concretas serem faladas aqui com um à vontade de quem sabe tanto e ao mesmo tempo tem tanto que aprender!

Continuem, um abraço forte de um fã positivo vosso!

venis disse...

não era o jj fã do tony carreira?

0Loading0 disse...

Henrique,

É muito semelhante ao que se passa aqui em Portugal, nos últimos 24 jogos o Benfica tem 1 empate, uma derrota e ganhou 22, portanto, não me venham falar de sorte!!!!

GV disse...

Acho que estou a perceber...
Se o Benfica, por algum acaso, perder este campeonato e não for mais além na taça da liga, em nada ficará beliscada a época conseguida em várias frentes, incluindo a LC. É isso? Concordo!
Isto com várias 2ªs e 3ªs escolhas no 11, e, segundo o híper-mega-supra-ultra guru, com alguém que "não é treinador" e "sem estrutura". É obra!

Martelo Pneumático disse...

It's a picaretas' world!

Barbosa disse...

Blessing agradeço a referência, mas o meu muito trivial entendimento do jogo vem somente do consumo da blogoesfera, portanto na prática o cumprimento tem de ser enviado de volta. Outros curiosos haverá como eu que só depois de conhecer este e outros blogs comecei a conseguir "ver" o jogo, ainda que muito pouco. Portanto se há gente deste lado a aprender, é sinal que o vosso trabalho está a ser bem feito.

Ainda em relação à sorte, é o que escreveste. No fundo os seus efeitos não são muito diferentes numa competição a eliminar ou numa prova de regularidade. O que acontece é que ela num campeonato só é decisiva quando o "desempate" é feito no detalhe. Com 7 ou 8 pontos de avanço, a bola que bate no poste e sai é de pouca influência na entrega do título. Estando um ponto atrás, é precisamente essa bola que o entrega, tal como numa competição a eliminar. É por isto que nesta altura se fala de "finais". Percebendo isto, qualquer um pode concordar que não são 2cm mais à esquerda ou mais à direita que validam ou não o trabalho de muitas dezenas de pessoas ao longo de quase um ano. A sorte pode dar-te ou tirar-te o caneco, mas não pode dar-te nem tirar-te qualidade.

Baresi disse...

A "sorte" é um factor importantissimo no jogo, que os treinadores nao conseguem controlar.
Se estás a ganhar 3-0 ou 4-0, a bola que vai ao ferro, ou o penalty marcado ou não, não vai ter a importancia do que se tivesse 0-0.

O Benfica vai ganhar este campeonato porque tem mais e melhores jogadores em termos individuais que o Sporting, e que fazem a diferença nos momentos chave, também porque tem um plantel com qualidade suficiente para resolver individualmente aquilo que o colectivo não consegue resolver.
O Benfica ontem tinha fora do 11 Julio César, Nelson Semedo, Luisao, Lisandro, Grimaldo, Samaris, Talisca, Salvio, Carcela, Guedes e Jimenez. Um novo 11 com qualidade suficiente para lutar pelos primeiros lugares com qualquer equipa por cá.

O Benfica defende bem, mas não gosto do seu processo ofensivo. Andamos a ganhar jogos há quase um mês sempre da mesma maneira, bolas bombeadas pra área ou cantos.
Do resto, o processo ofensivo continua muito limitado, com pouca envolvência dos laterais, e um meio campo com falta de ideias (Fejsa é muito bom num dos aspectos do jogo, mas ofensivamente é menos um).
O jogo interior é inexistente (Pizzi jogava muito por dentro mas as equipas adversárias já sabem de cor essa movimentação) e este fim de temporada é um suplicio.

Vamos ver como acaba.

Abraço

Edson Arantes do Nascimento disse...

Por acaso não concordo muito com o comentário do Barbosa e até acho que vai contra os princípios do blogue. E dos princípios de jogo.

O comentário é uma série de ses... Se isto, se aquilo. Mas como é que nós sabemos se o golo do Ruiz só empatava o jogo? É impossível, não consigo ter opinião sobre isso. Se calhar até era mais provável, pela forma como o jogo estava, que o Sporting disparasse para uma vitória. Mas alguém pode afirmar que o contrário não seria também provável?

É uma conversa que só trás ruído e que é incontrolável.

Contra o Boavista o Benfica teve, de facto, sorte. Porque jogou mal colectiva e individualmente e decidiu o jogo no último minuto num verdadeiro chouriço de um mestre chamado Jonas. Já contra o Rio Ave não se coloca essa questão. A não ser que entremos num exercício de ses.

Para mim, a diferença (mínima) entre o Sporting e o Benfica sempre foi clara: a qualidade individual. O Benfica tem uma equipa com vários anos de trabalho e um plantel com várias soluções de elevada qualidade para a realidade portuguesa. É um clube bem mais organizado. A curto prazo (a eliminar, por exemplo, ou no confronto directo) o Sporting ganha porque tem um treinador e um modelo de jogo melhor do que o Benfica.

Mas a longo prazo e em competições longas, sendo o Benfica uma equipa relativamente competente (ao contrário do que eu próprio esperava) e um clube com algumas condições a vários níveis, a diferença tende a esbater-se.

O que confirma o que se vai debatendo por aqui: que há vários imponderáveis, que o jogo é caótico, e que o modelo de jogo (ideias e forma de implementar do treinador) e a relação com a qualidade individual - ou falta dela - à disposição são praticamente as únicas coisas que o treinador controla.

O Bayern também confirma isto tudo, cansado ou menos confiante lá vai ganhando - sustentado nas ideias de um treinador fantástico, independentemente dos imponderáveis, como as lesões, por exemplo. Mesmo assim há quem controle melhor as lesões do que outros...

Quem pode dizer que eles seriam eliminados por uma equipa com melhores jogadores? Não sabemos. É imprevisível. Se calhar, porque encontrariam outros estilos de jogo, até se davam melhor do que contra o Benfica, que apostou em lhes complicar a vida antes de pensar em marcar golos.

Como é evidente pelo comentário, estou de acordo em relação à conclusão: que o mérito do treinador não se resume à sorte ou à bola no poste. O Vitórias já tem a vida feita para o ano, seja campeão ou não. O mesmo para o JJ, mas se calhar ele tem outras ideias. E com mérito.

Para o ano, caso JJ continue, o Sporting será mais ou menos candidato consoante os jogadores que contratar e vender. Se ficar com o Coates já começa bem! O mesmo vale para os outros clubes todos, sem excepção.

Por exemplo, se o Lindelof consegue jogar mais uma época no Benfica será uma grande notícia para 2016/17.

R.B. NorTør disse...

Edson, começas por dizer que discordas do Barbosa e depois acabas por lhe dar razão. Concordando que é impossível dizer que o lance do Ruiz daria empate, e aí estou contigo, como a coisa estava o mais provável seria o SCP dar a volta ao marcador, o cerne do que o Barbosa diz está muito de acordo com os princípios, se não do jogo, claramente do blog.

O que ele pretende dizer, acho, é que não se pode julgar os treinadores apenas pelos resultados porque há coisas que não se controlam. Daí ele listar uma série de "ses" (se a bola vai ou não à trave, se o avançado reage a tempo, se...).

In extremis, o comentário do Barbosa deveria servir para se deixar de dizer se JJ e RV são bons ou maus com base nos títulos conquistados, mas sim focarmo-nos naquilo que enquanto treinadores podem fazer e deixar o resto para a arte dos jogadores.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Oh Nortor eu sei que escrevo muito, desculpa por isso, mas nem te deste ao trabalho de ler o meu comentário. É evidente que eu estou de acordo com o Barbosa quanto à conclusão, fera, foi mesmo isso que escrevi.

Só não concordo com o argumentário, entendes?

É um argumentário fraquinho e que releva demasiado uma abstracção chamada sorte. Daqui a bocado estamos aqui a falar em Testemunhas de Jeová.

Só em defesas parece que o JJ já utilizou 11 gajos diferentes... Avançados só tem 1 que é pior do que Jimenez e Mitroglou. Já nem falo do Jonas, que é de outra galáxia. E eles vão perder o campeonato, se calhar (até podem ganhar, tudo é possível), por falta de sorte?!?! Opá já tivemos dias melhores.

Blessing disse...

Não só! Mas também por.

R.B. NorTør disse...

Eu acho que o argumentário faz sentido. Os episódios que ele foi buscar são episódios com visibilidade e que ficarão para a memória. Podia ter ido buscar o cabeceamento falhado do Mitroglou no Dragão? Podia, mas será que esse episódio foi tão «marcante» como os falhanços do Ruiz?

Será que quando se fizer o balanço de como a sorte influenciou o decorrer do campeonato aqueles falhanços do Ruiz não estarão no topo do imaginário? Assim como o golo do Kelvin acabou por determinar um campeonato, tornou-se o momento.

O comentário do Barbosa, especialmente à luz do golo do Kelvin, não tem um argumentário fraco. Poucas pessoas hoje, quando falam do jogo de Alvalade, falam de como o Benfica encostou o Sporting durante 20 minutos, com Mitroglou e Jonas a esfrangalharem tudo meio campo para trás; de como na segunda parte o Benfica mal passa do meio campo, esquecem mesmo que o Ruiz tem dois falhanços individuais semelhantes, conquistados pelo colectivo praticamente da mesma forma.

Quando se passeia "por aí", RV é um génio porque recupera 8 pontos e JJ um nabo porque os perde. Se foi só sorte? Não. Mas JJ perde os pontos e RV recupera-os por mérito próprio? Se calhar também não.

Falamos melhor no Marquês daqui a um mês. ;)

Barbosa disse...

Não só, mas também por, exactamente!

A qualidade está toda lá, o trabalho está todo lá, as individualidades também, é por tudo isso que um deles será campeão. Mas a luta está tão renhida, que uma bola no poste chega para entregar o título. E essa bola será a sorte de um e o azar do outro. Depois é precisamente pelo que referes - 1º ano na equipa, mudanças estruturais no 11, menor qualidade individual, e mesmo assim está na discussão. Mas é provável que não chegue. No entanto, se ele não tivesse tido o azar do Ruiz falhar aquela bola, talvez tivesse chegado. É só nesse aspecto que a sorte faz a diferença.


O exemplo do Ruiz não é usado para explorar o efeito borboleta daquele momento, mas apenas porque é uma situação onde é possível analisar de uma maneira directa (ou mais directa) os efeitos da aleatoriedade do jogo na decisão do título. Foi um jogo entre os dois candidatos, com uma distância pontual que (à partida) dava o título a quem ganhasse, e uma bola que 99% das vezes entraria. Não é um argumentário perfeito, mas estando-se a discutir uma coisa tão pouco mensurável como o factor sorte, é o mais próximo de uma análise factual que se consegue chegar, parece-me.


Desde que leio o blog que vejo expressa a ideia de que quem joga são os jogadores. Acho que esta situação vai de encontro ao que essa ideia implica. João Mário (creio) cruza, a bola está no ar e Ruiz mete o pé. É a bola do título, e não há nada que RV ou JJ possam fazer naquele momento. É Ruiz, a bola, a baliza, e 1 ano de trabalho. É o jogo, e é por isso que estamos todos aqui. :D

César Páris disse...

Com tantas referências à sorte, não sei onde fica a competência e a qualidade dos jogadores. Se o Ruiz acertasse 99 de cada vez que tem 100 lances daqueles, atrevo-me a dizer que não estaria a jogar em Portugal, mas sim num clube de topo de Espanha ou Inglaterra. Porque podemos estar sempre a pensar em sorte e azar, mas há um lado que pesa e muito que é a qualidade individual dos jogadores e a de Jonas é superior ao de Ruiz, daí ser natural que tenha mais "sorte" o primeiro do que o segundo.
Aquilo que poderá ser considerado sorte ou azar, é perceber que dos poucos lances idênticos em que o Ruiz falha, nenhum foi tão importante, ou num momento tão decisivo como aquele. Isso sim, poderá ser sorte. O resto é a competência individual - o quantas vezes se treinou aquela situação, o modo como se treinou, o modo como se aprendeu... É que a sorte costuma dar muito trabalho.

R.B. NorTør disse...

Porra, agora sou eu que quero emoldurar esse último parágrafo.

Baresi disse...

Nao acredito que Ruiz tenha tido 20 oportunidades daquelas na carreira, quanto mais 100...

Benfiquista Primário disse...

Pois eu acho que aquele 'abençoado' falhanço do Ruiz nada teve a haver com sorte ou azar, mas com incompetência pura...da equipa de arquitectura/engenharia que concebeu e executou o estádio!

Foi o estado miserável daquela espécie de relvado que levou Ruiz a fazer, aparentemente, o mais difícil. A bola salta mesmo antes dele encostar, batendo assim na canela e não no pé. Ora, como qualquer pessoa que tenha visto o Pringle jogar na Luz, bola que bate na canela assume trajectórias menos previsíveis e menos controláveis pelo jogador.

Esta é, para um benfiquista como eu, a mais deliciosa ironia daquele lance: tivesse ele acontecido no tapete verde da Luz e teria sido seguramente golo!

Isto gera novas camadas para a discussão: o estado cronicamente desgraçado do relvado do Lumiar acontece por azar? É à sorte que se escolhem arquitectos e engenheiros em Alvalade? Ou eles foram bem escolhidos, mas nos dias em que fizeram o projecto, estavam perturbados com algum azar que tivessem tido? Ou com a falta de manteiga no atelier? Ou andavam com tanta sorte na vida que se estavam a borrifar para aquele projecto?

Enfim...a sorte merece-se, o azar atrai-se. E JJ, um treinador que considero, infelizmente, muito superior a RV, fez muito por atrair o azar...sobretudo, mas não só, numa certa e determinada conferência de imprensa do início de Janeiro...Carmen is a Bridge, como diria o próprio JJ - segundo o insuspeito Cabelo do Aimar.

Benfiquista Primário disse...

* como qualquer pessoa que tenha visto o Pringle jogar na Luz sabe