terça-feira, 5 de abril de 2016

Engane-se quem pretende a falência do jogo de posse pelo destroçar do Belenenses no Restelo.

O desnível evidente entre Sporting e Belenenses na partida de ontem, e que ntão teve quase comparação com qualquer outro jogo que se tenha visto na Liga portuguesa nos últimos anos abriu azo a diversas discussões.

Em traços gerais. Quem acusa o "lirismo" de não funcionar, versus o "o lirismo aproxima mais da vitória, mesmo que em determinados jogos possam acontecer catástrofes".

É ingrato e errado que se declare a falência de um modelo de posse como o que mais aproxime do sucesso porque o Belenenses pareceu uma equipa de infantis a defrontar os séniores do Sporting. O problema é focar-se determinadas virtudes no Belenenses, quando não as tem de todo. A equipa do restelo é uma equipa extremamente mal preparada para jogar futebol, mas isso não tem, nem é uma característica das equipas de posse! Tem intenções aprazíveis e que a deveriam aproximar do sucesso. Mas, está mal preparada para o fazer. Não basta atirar aos sete ventos que se vai apostar num futebol de ataque, e abrir a equipa em posse para que como por magia se passe a ter competência. Ainda que muitos nos queiram fazer crer que funciona assim.

Na verdade, o problema do Belenenses na partida com o Sporting, ao contrário dos que pretendem a falência do futebol de posse, esteve bastante longe de ter sido o seu conceito de jogo. Sim, é verdade que perdeu algumas bolas na construção e que tal poderia ter custado caro. Todavia, esse é um preço a pagar por quem quer chegar com mais qualidade aos espaços mais perigosos (entre linhas, de frente para a última linha adversária) para quem quer sair daí para a finalização. E quando tens bola, deves querer antes de mais procurar o melhor caminho para fazer golo e não apenas proteger-te da perda. Portanto, o problema do colectivo do Belenenses não é de todo o abrir para jogar. Essa será porventura praticamente a sua única virtude. A sua intenção. 

O problema é a forma como a equipa não está preparada para ter rendimento. Não é nada difícil querer ter um jogo de posse quando para uma equipa do nível do Belenenses há Tiago Silva, Bakic, Carlos Martins, Rúben Pinto, Miguel Rosa, Juanto  e Sturgeon. É um plantel absolutamente apetecível para a parca realidade portuguesa. Díficil seria convencer jogadores com esse perfil a quererem fazer diferente. O problema é que da teoria, do quero ao consigo a distância é enorme. O problema não é querer ser de posse. Em última instância será o não ter conseguido. Ainda que perante um adversário muito superior, não só individualmente, tal é expectável.

Bastante mais penalizador do que não ter conseguido ter a bola é a facto da equipa ser extremamente desorganizada nos momentos em que não tem bola. E o jogo não são só dois momentos. 

Só nos primeiros vinte minutos, para além da mão cheia de lances de golo criados pelo Sporting, o que chocou bastante mais, foi a incapacidade para travar construção e criação leonina. A cada posse o Sporting chegava ao espaço entre sectores do adversário, mesmo partindo de construção. Mesmo que a bola se iniciasse nos centrais, com todos os jogadores do restelo atrás da linha da bola, a facilidade para chegar aos tais espaços mais prometedores, perante menos oposição foi algo que ainda não se tinha visto por cá (e se tantas vezes partiu da construção, nada terá a ver com a forma como o Belenenses ataca!) E não saber condicionar linhas de passe, saídas para o ataque e fechar espaços nada tem a ver com qualidades individuais. Surgem fruto de um modelo muito fraco que por opositor encontrou um modelo cheio de virtudes, capaz de desmontar com incrível facilidade todos os modelos que não têm a minima noção de como controlar espaços. 

Não foi portanto de espantar que o primeiro golo do Sporting surja precisamente numa das "milhares" de vezes que os jogadores leoninos receberam e enquadraram entre linhas.


As próximas imagens são de alguns exemplos referentes aos primeiros minutos de jogo (enquanto estava empatado e quando o foco ainda era maior) e como com apenas um passe a sair na construção o Sporting chegava à criação em condições óptimas para criar perigo.




Em suma, o Belenenses é uma equipa que procura ter bola, como muitas outras o fazem e tem alguma qualidade ao fazê-lo quando defronta equipas de nível semelhante (importante referir que tem qualidade individual muito inferior ao adversário de segunda feira, mas muito superior a quase todas as outras equipas da Liga). Só essa intenção é de louvar. Não pode é traçar-se a competência de X ou Y apenas porque "quer" atacar. O jogo é demasiado caótico e complexo para que coisa tão pequena determine a superioridade de uns perante outros. E importante perceber-se que não é por ter essa intenção que tem sido trucidado em determinados jogos! Isso, é fruto de uma incompetência gritante do ponto de vista colectivo nos momentos em que a equipa não tem bola. E um treinador tem de preparar a sua equipa por forma a aproximá-la da vitória! Ter organização e qualidade em todos os momentos! Com desorganização tão gritante, com tamanha incapacidade para controlar espaços, para perceber momentos de baixar e juntar quando adversário recebe entre linhas (e quantas vezes o recebe!) como se pode afirmar as qualidades de um treinador? Apenas porque quer sair a jogar? É isso que define competências? Então, citando outrém, "qualquer treinador de benjamins tem mais que qualidade para estar na Liga. Afinal, nesse escalão (quase) todos abrem para jogar".

Podemos portanto concluír que não basta ser-se espanhol e apregoar determinada filosofia para que se passe por artes mágicas a ser um suprasumo. E esta já é a terceira experiência que nos permite concluir tal premissa.

16 comentários:

Henrique disse...

exactamente. triste é alguém achar aceitável não ter processo defensivo. até podiam ter o messi, que com esta organização era sempre a embalar contra equipas com valores individuais parecidos. outra coisa, o carlos martins agora só com a bola no pé, nem se os adversários tiverem a bola de costas para ele a 1-2 metros ele se dá ao trabalho de pressionar.

Gonçalo Duarte disse...

Achei a 1º fase de construção mto fraca mesmo...por outro lado a pressão do Sporting foi absolutamente irrepreensível,na 2º parte muitas vezes o Belém tinha a bola e o Coates e o Semedo estavam na linha dos 40 metros,impressionante a forma como a equipa de Jesus reduzia o campo nos momentos sem bola,ainda sobre o Belém acho que a equipa peca também em termos de qualidade individual na defesa,em relação ao trabalho de Velázquez as intenções são boas mas quem quer jogar com bola deve preocupar-se em recuperá-la o mais rápido possível após a perda e isso o Belenenses não faz,não existem aqueles 7 segundos para recuperar a bola e a equipa também não se organiza.

ps-Lembro-me de dizerem no início da época que Semedo não tinha condições para jogar no Sporting,mantêm essa opinião?

Paolo Maldini disse...

Falámos sobre isto... e sabes que concordo inteiramente... e ficou mt bom o texto!

Emanuel Guerreiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mindfuck disse...

O problema do Belém, a meu ver, está na falta de agressividade nos momentos sem bola.

Marco Correia disse...

Em comparação e tendo em conta, por exemplo, o jogo que o Sporting faz em Setúbal e que acaba por golear por números ainda mais expressivos, parece-me que nesse jogo cada bola que ia à baliza acabava por entrar. Grandes golos do João Mário e do Bruno César, quando se conta com esse tipo de inspiração com este desnível individual é complicado não sofrer tanto.

Agora neste jogo não foi isso que aconteceu. Sem exagero, o Sporting podia dobrar o marcador só em ocasiões 1x0, 2x1. E, parece-me, no momento em que as duas equipas defrontaram o Sporting, individualmente o Belenenses parece-me superior, praticamente em todo o onze, ao Setúbal.

Não posso é deixar de louvar esta atitude em relação ao jogo, tanto do Setúbal como do Belém. Sendo ou não bem preparado defensivamente, e nem me parece que o Setúbal esteja mal preparado, apenas lhe faltam individualidades que já teve, jogam o jogo que o público quer ver. Invariavelmente isso contribui para um melhor espectáculo, mais gente nas bancadas e mais, claro, mais dinheiro. A liga portuguesa fica muito melhor desta forma.

ATF disse...

ntes que o amigo me chame burro, quero dizer que não li este seu artigo. Ou melhor, li só o primeiro parágrafo. E desisti, porque seria demasiada burrice minha continuar a ler um tratado apologético do futebol que o Sporting pratica. Na Sporting TV estão a precisar de melhorar a qualidade do canal e como anda la um que só sabe insultar, deve haver lugar para si também e, pelo menos, sempre pode hidratar a flor verde para que ela pareça mais refrescante.

Robert Robson disse...

Em defensa de uma das invenções humanas essenciais, chamada Lógica, importa notar que a leitura do primeiro parágrafo, por si só, já sugere que o artigo não se refere a uma equipa, mas sim a um jogo com características tão excepcionais que merece ser um caso de estudo.
Ou seja, foi uma excelente escolha de assunto.
E, após tendo lido o artigo e tendo-o esquecido - donde restando apenas dele o conhecimento que dele tirei - resumiria o que li, marrando como um boi de frente aos conceitos centrais no artigo e com o atrevimento dos novatos, que o futebol de posse de bola tem de ser em primeiro lugar a busca da posse e logo que o que vimos do Belenenses foi não o futebol de posse de bola mas sim o seu oposto.


Embora compreenda que muitos leitores, como AFT, possam achar a cobertura do trabalho dos vários treinadores desequilibrada, é preciso notar que, mesmo que eventualmente o futuro venha a revelar que treinadores que estão agora em destaque tenham mérito igual ou superior, existe desde logo à partida um desequilíbrio de familiaridade: alguns trabalham e são conhecidos, e conheçem-se, há mais tempo que outros.

Parabéns ao Lateral Esquerdo, pela temática que trata e como a trata. Apesar de viver há muito tempo e adorar futebol, somente neste ano futebolístico me resolvi a estudar a estratégia do jogo.
Ainda não consigo falar a vossa linguagem, talvez nunca o consiga, mas pelo menos posso relembrar o básico e essencial:

1 - a linguagem, os conceitos do assunto futebol é o meio e o fim deste espaço que alguns fazem pela escrita, mas todos partilhamos pela leitura;
2 - a luta contra os facciosismos é uma luta diária e individual de cada um de nós contra a nossa incompreensão.

ATF disse...

Ainda bem que se decidiu por essa maravilha das ciências: a estretégia do jogo. Curioso é que os fabulosos estudiosos do Blog Lateral Esquerdo ainda estão reunidos a tentar perceber como é q um não treinador abafou o melhor treinador do mundo.
Deven ter concluído, pelo que se percebe, que aquilo foi uma jogada de sorte de Rui Vitória e não merece estudo, se bem que Pep Guardiola ja disse tudo: grande trabalho defensivo, grande trabalho nas bolas paradas, etc.

Robert Robson disse...

Eu espero que existam razões profundas para o exito de Rui Vitória. Com o que eu sei, posso notar desde logo o seguinte:

Positivos:
- a linha defensiva funciona magnificamente (em todos os jogos).
- é concedida liberdade no ataque (em todos os jogos).
Negativos:
- falta de cobertura defensiva dos médios a tomar o lugar dos defesas à entrada da nossa grande área (visivel contra as grandes equipas: golos de Vietto, Herrera,Vidal)

Noto em particular que a liberdade no ataque concedida por Rui Vitória sucede num momento da história do futebol em que duas das super-equipas da formação - Ajax e Barça - começaram a fazer treinos no asfalto (assim ouvi dizer).
Rui Vitória parece-me desde já superior a JJ. Mas não sei e sei que não sei.

GBC disse...

Grande post!

El Che disse...

Este foi o texto que li num post neste mesmo blog e ainda bem que existe uma diversidade de opinião sobre uma mesma equipa mesmo que sejam tão díspares:

"O Belenenses tenta jogar longe da sua baliza, e mostra em todos os momentos ser uma equipa activa no jogo. Independentemente de conseguir ou não (com as equipas grandes é normal que não consiga devido as diferencas na qualidade individual dos jogadores), tenta ter iniciativa. E não estamos a falar apenas do que faz quando tem a bola.
Enquanto defende, "conduz" o adversario para espaços em que aumenta a pressão para tentar ganhar a bola. Tenta recuperar a bola longe da sua baliza, mostrando varias linhas de cobertura..."


El Che disse...

Este foi o texto que li num post neste mesmo blog e ainda bem que existe uma diversidade de opinião sobre uma mesma equipa mesmo que sejam tão díspares:

"O Belenenses tenta jogar longe da sua baliza, e mostra em todos os momentos ser uma equipa activa no jogo. Independentemente de conseguir ou não (com as equipas grandes é normal que não consiga devido as diferencas na qualidade individual dos jogadores), tenta ter iniciativa. E não estamos a falar apenas do que faz quando tem a bola.
Enquanto defende, "conduz" o adversario para espaços em que aumenta a pressão para tentar ganhar a bola. Tenta recuperar a bola longe da sua baliza, mostrando varias linhas de cobertura..."


El Che disse...

Este foi o texto que li num post neste mesmo blog e ainda bem que existe uma diversidade de opinião sobre uma mesma equipa mesmo que sejam tão díspares:

"O Belenenses tenta jogar longe da sua baliza, e mostra em todos os momentos ser uma equipa activa no jogo. Independentemente de conseguir ou não (com as equipas grandes é normal que não consiga devido as diferencas na qualidade individual dos jogadores), tenta ter iniciativa. E não estamos a falar apenas do que faz quando tem a bola.
Enquanto defende, "conduz" o adversario para espaços em que aumenta a pressão para tentar ganhar a bola. Tenta recuperar a bola longe da sua baliza, mostrando varias linhas de cobertura..."


PedroC disse...

ATF

Já sigo este blog a tempo suficiente, para poder dizer que aqui são isentos em relação a clubites.
Poderão apreciar mais o trabalho de determinado treinador, e não seguir, ou criticar mais o trabalho de outros.

Mas isto não tem a haver com cores, ou clubes. Terá a haver com pessoas, ou estilos. Estão no seu direito. Até se fosse pela cor do clube estariam no seu direito, mas não é.

Não sei se já visita este espaço a muito tempo, mas se quiser analisar isto em condições, e honestamente, pegue no exemplo do treinador que está por de trás do "futebol que o Sporting hoje pratica", e veja o que se dizia aqui quando ele estava por de trás do "futebol que o Benfica praticava".

Se para muitos palermas, o treinador que está por de trás do "futebol que o Sporting hoje pratica", passou a não prestar a partir de Junho de 2015, e vice versa, ao menos aqui, mantiveram-se fiéis ao que já achavam antes.

Quem consegue ver o futebol na sua essência, sabe fazer este tipo de distinções. Aprecia a qualidade e a competência, seja qual for a côr da camisola. Quem não conseguir, tem sempre a hipotese de ver o dia seguinte, ou o trio de ataque na televisão.

Marco Van Basten disse...

O ATF veio aqui ladrar com quem insinuou que ele é parvo e burro.

disse bla bla bla bla whiskas saketas bla bla bla treinadores do blog devem treinar os infantis do damaiense e do marvilense fc bla bla bla whiskas saketas

os seus comentários deixaram de ser aprovados porque ele é burro. É uma justificação que me parece mais que suficiente! E peço desculpa por não o conseguir dizer com a delicadeza com que o Robson e outros o disseram