segunda-feira, 9 de maio de 2016

Criatividade e o futebol de rua

Estava ontem, a conversa com alguém que já despertou vários posts aqui no LE, sobre o incrível post do Football Hunting,  que mostra que a quantidade de toques que se da, tem de fazer sentido com o que o jogo esta a mostrar naquele momento. Falávamos que neste post, pelo menos da maneira como o vimos, se mostrava claramente que por vezes o jogo pede que se dê vários toques na bola, para atrair a pressão e depois a soltar para alguém livre, que só esta livre porque os adversários foram atraídos pelo "excesso de toques" na bola. A coisa depois variou para a criatividade, e o futebol de rua. Esse amigo tinha estado a conversa com um treinador de sub19, que se queixava que os miúdos hoje em dia não tinham criatividade, relacionando essa falta de criatividade com a ausência de futebol de rua. E tudo bem, já ouvimos esta cassete do futebol de rua várias vezes. O ponto que chamou a atenção foi "pedimos aos jogadores para ganharem todos os 1v1". Assumo que sejam os 1v1 ofensivos e defensivos. O problema aqui, é que (pelo menos no nosso entender) vencer todos os 1v1 do jogo não tem nada a ver com criatividade. Criatividade (para nós), é o identificar de várias soluções e escolher a melhor. A melhor não tem de ser sempre a mesma, e não tem de ser espetacular visualmente. Pode ser fintar 2 ou 3 jogadores, mas muitas vezes a melhor é a que encontramos no video abaixo.
O futebol de rua potencia (ou potenciava) muitas coisas. As mais óbvias eram as superioridades/inferioridades numéricas, a irregularidade do terreno, e a macaquice. Leia-se macaquice como utilizar a parede ou o carro para fazer uma tabela, por exemplo. 
Quando o que se faz no treino e o que se pede em campo, tem a ver com limitação de toques, ou com padronização de saídas de bola e de movimentos atacantes, fica muito normal que a criatividade dos jogadores pareça insuficiente. Mas parece insuficiente porque é limitada pelo modelo (de treino e de jogo), não porque os jogadores são por si... pouco criativos. Se o Busquets treinar e tiver ordens para jogar a um máximo de 2 toques, e para receber de um lado e procurar imediatamente o outro, seja no lateral curto, ou no extremo longo vai parecer alguém muito pouco criativo. O Messi não é criativo porque consegue fazer isto.
Ou vá, tem muito de criatividade, na forma como ultrapassa os adversários todos. Mas coisas destas, vemos muitos jogadores a fazer. Agora... o video que se segue?
Isto é ter varias soluções, ter uma ideia de qual seria melhor e pior... e escolher aquela que mais ninguém seria capaz de ver. E isto meus amigos, é impossível de padronizar, ou de se fazer com limites de toques.

6 comentários:

João Fernandes disse...

O futebol só teria a ganhar se isto fosse perceptível para a maioria das pessoas, sobretudo treinador, mas infelizmente, é-o ao contrário.

Diogo Santos disse...

Dennis, uma questão: como é que se consegue ensinar, ou mostrar aos miúdos qual a melhor decisão, ou ensinar a criatividade de ver mais à frente que os outros? Há alguma forma de ensinar esta criatividade?

Mais uma vez, parabéns por todos os post, onde tentam ensinar quem vos segue ;)

POdA disse...

Top esta última parte. Passo a citar: "Criatividade é ter varias soluções, ter uma ideia de qual seria melhor e pior... e escolher aquela que mais ninguém seria capaz de ver...".

Sem dúvida! Antes aparece que criatividade é escolher a melhor de todas as opções disponíveis. A isso não chamo criatividade mas sim inteligência, e a diferença é exactamente a espelhada por ti no final.

Inteligência é ter 5 opções e optar pela melhor.
Criatividade é ter a capacidade de inventar uma 6ª que é no mínimo tão boa como a a melhor das outras 5.

Grande post.

Dennis Bergkamp disse...

Diogo Santos,

A complexidade da coisa tem de estar ajustada as idades, mas aquilo que tem funcionado para mim (que nao deve ser encarado como verdade absoluta, nem nada disso) tem a ver com feedback interrogativo.

Parar e perguntar (para TODOS ouvirem, inclusive pais, caes, gatos e piriquitos *pode ser tema de outro post*):

- Que opcoes tinhas?
- Qual era a melhor ou a pior?
- Qual era mais facil e mais dificil?

Isto ajuda a perceber o que vai na cabeca da pessoa, e ao mesmo tempo mostra-lhe o caminho para decidir melhor - Ter consciencia do que se passa a volta para poder escolher com toda a informacao.


A melhor e a pior sao muito manipuladas pelas ideias de jogo e mesmo assim nao podem ser estanques. Sao as melhores e piores do momento.

Imagina que o jogo esta a acabar. Um passe para um colega que esta na frente em 1v1 pode ser uma excelente opcao se estiveres empatado, mas um passa para o lado, para um colega que esta sozinho e pode "meter gelo" pode ser a melhor se estiveres a vencer. Tudo muda, se mudam 2 ou 3 variaveis no jogo.

Muito curto, para ensinar ou estimular os miudos a encontrar o que precisam para poder escolher bem eh isto.

Mas o feedback nao chega, eh curto.

Se o teu treino se basear em situacoes fechadas, nao sei como se estimula a criatividade. Se esta definido que o jogador A vai pegar na bola, fazer isto e aquilo e passar para o espaco onde o jogador B vai aparecer depois de ter feito aquilo e o outro... a situacao eh fechada. Nao ha espaco para coisas novas.

Vou fazer uns desenhos e no proximo post deixo isto mais claro ainda


Honoris disse...

Ainda ontem assisti a uma palestra sobre “A dinâmica ecológica da perícia no desporto” onde se abordou muito a questão da variação contextual. Essa variação contextual, não diz respeito apenas ao local onde se realiza o treino, mas também como se organiza. É fundamental que os treinadores de formação percebam que quanto mais quiserem controlar os seus jogadores, pior eles serão. O caminho será sempre organizar o treino de forma a que as possibilidades de ação dos miudos sejam enormes, para que eles em função disso percebam como agir

Grande post Dennis

Blessing disse...

Honoris, o professor que te deu essa palestra usou slides do relatório de estágio do Ronaldinho, sem referir a fonte hahahaha
Abraço