quinta-feira, 5 de maio de 2016

Guardiola e Simeone

O jogo. Um jogo com duas partes distintas, onde só a segunda conseguiu traduzir em golos o que se passou em campo. Uma primeira parte absolutamente demolidora do Bayern. Agressividade com e sem bola. Não me lembro nunca de ter visto o Atlético, nos jogos que ganhou ou que perdeu, sentir tanta dificuldade no seu processo e estar tão desconfortável no jogo como na primeira parte em Munique. O que o Bayern conseguiu nesse período do jogo ainda não tinha sido alcançado por alguém que tenha defrontado a equipa de Simeone. Foi absolutamente extraordinário. O Bayern criou o suficiente para resolver a eliminatória aí, mas como não é o Guardiola que cria e finaliza as bolas não entraram. Os remates, as recepções, e mais uma vez as decisões. A menor exuberância individual. O que o treinador não controla, também o desnorte dos jogadores do Atlético. A intensidade era tão alta, e as jogadas sucediam a uma velocidade tal, que nem que Simeone entrasse dentro de campo mudaria alguma coisa. A segunda parte onde o Bayern não entrou tão forte. Não só por ter a eliminatória empatada, mas também por não ser possível manter o ritmo que estava a impor sem provocar um desgaste que poderia ser fatal nos minutos que se seguiam. A criação de oportunidades foi mais equilibrada, o Atlético conseguiu ter bola no meio campo do Bayern algumas vezes, e teve a fortuna de na primeira vez que conseguiu sair com qualidade do seu meio campo criar a melhor ocasião do jogo e marcar. Depois disso, a descrença do Bayern, até o golo de Lewa. Foram muito longos os minutos que passaram entre o golo do Atlético, e uma nova réstia de esperança para os bávaros. Mas aí, já o Atlético estava bem confortável e tranquilo, como habitualmente em situações de vantagem.

Os treinadores e as ideias. São completamente antagónicas as formas de ver o jogo de um e de outro. Os modelos de jogo chocam de forma extrema, e foi interessante verificar que mesmo um modelo como o de Simeone mais habituado a jogar com factores externos também sofre da doença do incontrolável, como na primeira parte. Guardiola sempre virado para o ataque, e a tentar recuperar nos momentos que se seguem a perda. Simeone sempre virado para a sua baliza, e a tentar atacar o mais depressa que consegue assim que recupera. O futebol tem-me ensinado muitas coisas, mas a mais importante aprendizagem reside no antagonismo destes dois treinadores. Dois treinadores fantásticos, porque conseguem que os seus jogadores coloquem em campo aquilo que idealizam. E o segredo do sucesso está nisso. Conseguir dotar a equipa de comportamentos que personifiquem a ideia do treinador em campo. Conseguir por parte dos jogadores um compromisso com o treinador, com as suas ideias, e acreditar que é aí que está o sucesso. No longo prazo, é isto que marca a diferença. Os dois, nisto, são fantásticos. A vender a ideia de jogo aos jogadores, a mostrar-lhes que determinados comportamentos são inegociáveis, e que há uma ideia para atacar, para defender, e é com ela que devem ir até à morte. Na verdade, Simeone é o único treinador do mundo que a jogar como joga consegue ter sucesso continuado. As prestações na liga espanhola sempre perto dos noventa pontos, colocando em cheque Real e Barça sempre que são menos regulares, os resultados nas provas a eliminar. Sem jogar o futebol que mais nos agrada por aqui, é maravilhoso verificar o que aqueles jogadores dão pelo treinador, a competitividade contra os grandes. Não é que o Atlético tenha propriamente uma equipa má, mas não se compara aos grandes de Espanha ou Inglaterra, nem mesmo ao Bayern.

Simeone resume o jogo.
video

7 comentários:

Joao disse...

grande post.

abraço

RS disse...

Se o Oblak não tem feito aquela parada, provavelmente tinham saído de lá com o saco cheio (especulação, claro, mas o factor mental aí pesou muito). De resto, grande jogo da melhor equipa do mundo contra a equipa que melhor futebol joga.

David Cardoso disse...

O jogo que mais me impressionou no Atlético foi quando venceram o campeonato em Camp Nou , depois de terem sofrido o golo , nunca vi uma equipa cair em cima do Barcelona daquela maneira na casa deles , parecia que eles apenas iriam descansar quando marcassem o golo, e depois de terem marcado , voltaram ao registo defensivo do costume.

Acho que essa é a grande vantagem deste Atlético em relação ás equipas que têm este fio de jogo, eles não se remetem apenas aos momentos defenssivos, pq se assim fosse eles nunca teriam capacidade de dar resposta numa situação de desvantagem , esta equipa de Simeone além da excelente capacidade defenssiva, tem capacidade de saber esticar a equipa para o ataque quando precisa , não ataca sempre mas quando ataca sabe faze-lo com perigo e com Saul e KoKe (Tiago) com muita qualidade a aparecer em zonas de finalização para juntarem-se a Griezman e Torres (Vietto, Correia, Carraso).

Curiosamente em eliminatórias a 2 mãos sentem-se mais desconfortáveis quando têm de assumir o jogo, basta ver que eliminaram o PSV nos penalties e o ano passado o Leverkusen tbem em penalties e este ano foram eliminados da taça pelo Celta , o que já não acontece no campeonato que é 1 prova de regularidade.

Barbosa disse...

Ontem vi um artigo algures com um título tipo "Guardiola não consegiu implementar o tiki-taka". Fiquei de mau humor o dia todo pá. É incrível haver pessoas com opiniões destas a escrever nos main mídia.

T disse...

O Simeone e o Guardiola vão fazer estágios com Jorge Jesus para aprimorarem todas as suas competências técnicas e tácticas.

Fernando Antunes disse...

Pode parecer estúpida a comparação, mas a verdade é que a célebre táctica do rope-a-dope do Muhammad Ali era algo semelhante à deste Atletico, no sentido de não ter problemas em se deixar encostar às cordas, deixar o adversário esgotar as energias só a atacar e a dar socos no ar; e era nessa posição de aparente inferioridade que o M. Ali esperava o momento de distracção fatal do adversário que levaria ao início do seu triunfal contra-ataque. Concordo com o David, também já vi o Atletico ser demolidor. É uma equipa que não tem qualidade futebolística ao nível de um Barça para ser sempre dominadora, e por isso escolhe os momentos, aguarda pacientemente, mas nunca perde a presença de espírito nem a atenção durante os 90 minutos, e quando tem que desferir o golpe fá-lo bem e fá-lo colectivamente.

Miguel Pinto disse...

O que vi no decorrer do jogo foi uma equipa a assumir a iniciativa de criar situações de finalização e outra equipa a tentar, sem perceber bem de que forma (sobretudo na 1a parte) , defender como podia.
Como se diz no post, o treinador não empurra a bolinha lá para dentro mas o que mais me custa ler são os elogios ao Simeone por mais uma aula de como se deve defender, jogar com grande espírito de entre ajuda, com raça, humildade, sem vaidades, etc,etc, quando eu vejo o bayern a construir oportunidades que, a serem concretizadas metade delas, dariam uma vitoria sem margem para qualquer discussão sobre qual a melhor equipa em campo.
Concluo dizendo que o atl.Madrid teve a sorte que faltou ao slb, à juventus e a todas as outras equipas que perderam com o bayern.

P.S.
O Sevilha poderá estar à beira de um recorde mas ninguém, ou poucos, exaltam as qualidades quer dos jogadores, quer do seu treinador. Porque será? Talvez seja da imagem ou carisma que (não) transmite...

Bom post
Abraço