sábado, 21 de maio de 2016

Lógica Cruyffiana

Portugal acaba de arrecadar o troféu no europeu de sub17, e está de parabéns por isso. Sempre tendo claro que a importância das vitórias nestes escalões é muito pouca, e que estes torneios devem servir essencialmente para desafiar, testar, evoluir, os jogadores desta categoria que necessitem deste tipo de estímulo. Mais do que a prestação portuguesa, ou espanhola, importa-me destacar aquela que, para mim, foi a melhor exibição individual da final de hoje. Manu Morlanes. Médio do Villarreal e capitão da selecção espanhola. Cruyyf dizia que o mais difícil no futebol é jogar simples, e este jogador espanhol encarna na perfeição esse modo de pensar. É impressionante porque com a idade que tem joga para as decisões. Não dá nem mais um toque do que aqueles que precisa para decidir o lance. E para tal, para jogar tantas vezes ao primeiro toque, de frente ou de costas, com ou sem pressão, é preciso ver antes. Estar sempre atento ao que está a acontecer à sua volta, ao posicionamento dos colegas, e ao posicionamento dos adversário. Por isso, consegue ser mais rápido do que todos os outros em campo: é o primeiro a ver. Foi incrível ver exibição tão madura e tamanho acerto nas decisões - só me lembro de ter falhado uma. Isto tudo associado a grande qualidade técnica, claro. Só falhou um passe para os colegas - bola no pé ou no espaço, passe curto ou longo -, e só me lembro de ter perdido duas bolas no jogo inteiro, numa das quais apenas falhou a execução. Conduziu quando devia, variou o centro de jogo no momento adequado, pediu dentro e fora do bloco, colocou quase sempre os colegas em melhores condições para dar seguimento ao lance. Portugal e Espanha tinham muito talento em campo, alguns deles um patamar acima de Morlanes, mas nenhum do estilo deste médio espanhol. Joga o futebol de passe, de recorte técnico, das decisões, e da criatividade que Sérgio Busquets e Xavi nos habituaram. Poderá estar aqui o próximo grande 6 espanhol.

9 comentários:

p1nheir8 disse...

Joga muito, foi o Europeu todo nisto. É muito maduro já, notou-se logo no primeiro jogo. E acho que estava a jogar limitado, já que teve problemas no joelho e teve de sair nos quartos-de-final, sendo que na meia-final também se notou que não estava a 100%.

O Díaz é um fenómeno. Por isso o City desembolsou quase 4M de Euros por ele quando tinha 14 anos, para ganhar o leilão ao Barcelona.

Blessing disse...

p1nheir8, para mim o melhor jogador do torneio. Craque daqui à China. Já é tão melhor que todos os outros... Vamos lá ver como é que Guardiola o aproveita,e se aproveita já.

Rui Dias disse...

Se puderem revejam o jogo da Espanha com a Holanda! O diaz desfez o jogo!

p1nheir8 disse...

Sim, Blessing. É especial, nota-se bem. E parece que tem potencial para crescer ainda mais. Teve sorte do Pep ir para o City, pois a ida para o Barcelona fazia mais sentido para ele.

Esta Espanha não é tão forte como outras gerações. O Mboula faz a diferença porque fisicamente é muito desenvolvido e aqui nota-se muito, depois tem ali um ou outro com potencial. O guarda-redes parece-me ter enorme qualidade, tanto com as mãos como com os pés. Atenção ao PL, o Abel Ruiz, é de 2000 e um ano mais novo que praticamente todos. O Morlanes não vale a pena falar mais.

Continuo a achar que a melhor equipa presente aqui era a Alemanha.

Blessing disse...

Rui Dias, eu vi esse jogo. No final da fase de grupos houve um post. Houve três jogadores focados, é só ler.

Estou de acordo. A Alemanha era melhor em tudo. Individualmente e colectivamente. E aposto que os jogadores deles vão chegar em maior número, e mais cedo, ao alto nível.

B Cool disse...

E nenhuma avaliação sobre os tugas?
Zé Gomes, Quina, Miguel Luís, JP, Dalot ?
Não vi a final, mas pareceu-me haver mais que só a capacidade física do meio-campo...
O JP é o melhor tecnicamente, mas falta-lhe muito critério.
O Zé Gomes parece-me ser inteligente a jogar e tem um jogo de cabeça muito interessante, mais pelas movimentações inteligentes a atacar as zonas de finalização, do que pelas capacidades físicas.
Quina e Miguel Luís, que para o treinador faziam a mesma posição, parecem-me ser criativos e com um futebol muito interessante.
O Dalot, e não é pelos golos, pareceu-me um lateral com algum critério, que tanto procurava o jogo por fora como por dentro, com um bom remate e a capacidade para fazer todo o corredor.
O que acham?

DM disse...

Não achei a nossa equipa nada mesmo de extraordinário. Saímos campeoes, mas sem motivos para achar que temos aqui melhor do que os derrotados - pelo contrário. Muito fisico, pouca técnica e inteligência

p1nheir8 disse...

Bcool,

Esta geração tem muita qualidade, apesar de ser muito maturada. Também temos a sorte de os processos de jogo virem praticamente dos clubes. Defesa do Porto, meio-campo e ataque do Benfica. Mesmo assim, aqui há um risco menor a construir e onde colocamos a bola, sendo mais orientado para o exterior.

O guarda-redes tem muita qualidade. Acho que um dia pode chegar a titular do Porto (ele, o da Espanha e o da Bélgica, de longe os melhores aqui). O Dalot é um comboio em movimento, mas é extremamente maturado e isso faz muita diferença aqui. Já tem quase corpo de sénior, vamos ver quando isso não fizer tanta diferença. Tem boas noções defensivas, fechava quase sempre bem dentro e ofensivamente dava soluções interessantes. O Queirós joga muito. É um líder e um centralão. Qualidade a potes, mesmo na saída na primeira fase de construção. Vejo menos potencial no Diogo Leite, mas tem qualidade também. Bom nas coberturas, no posicionamento e na saída com bola. Acho que esteve melhor que o Queirós neste Europeu, mas em potencial acho que tem menos. O Vinagre é um belo lateral, com muita capacidade com bola. Mesmo a defender, na final esteve bem, já que apanhou um jogador já com um nível bem acima do normal, que tinha acabado de partir a Alemanha toda. Muito bom nas bolas paradas.

O Florentino foi um dos melhores jogadores de Portugal no Europeu. Um médio silencioso, mas que faz um trabalho enorme e coloca sempre a bola jogável. Estagnou um pouco nos últimos anos no Benfica, mas esta época voltou a níveis bem interessantes. O Gedson não sei bem onde se vai fixar. Aqui jogou a 8, onde tem qualidade. Progride bem com bola, tem bons pés e aparece bem em zonas ofensivas. Contudo, no Benfica tem feito uma grande época a lateral direito, sendo juntamente com o Filipe Soares, os maiores destaques da época. O Quina tem muito potencial e futebol naqueles pés. Ainda é muito inconsequente e por vezes desaparece-se do jogo, mas tem uma grande relação com a bola, é criativo, muito ágil e desequilibra muito as organizações contrárias. O Miguel Luís tem muita qualidade, mas teve menos tempo de jogo. É pena, mas basta pensar que o Hélio deixou de fora para aquela zona o Filipe Soares e o Daniel Bragança.

O João Filipe tem um potencial absurdo. Tem um qualidade individual fora do comum, faz coisas impressionantes com bola, sai fácil dos espaços curtos como quer, mas falta-lhe perceber depois como dar sequência ao lance. Está numa fase difícil, onde está a desenvolver-se mais, e o pouco que jogou esta época não tem ajudado (esteve lesionado e nos Juniores nem sempre era titular). O Zé Gomes é um ponta de lança como têm aparecido poucos. Dentro da área é temível, na forma como aparece nas zonas de finalização, sendo que de cabeça é fantástico. É muito calmo a finalizar e sabe atacar o espaço de finalização. Neste Europeu, mostrou que não é só dentro da área que sabe jogar, uma das criticas que normalmente lhe é apontada. Basta ver a assistência para o Dalot na meia-final. O Mesaque não lhe vejo nada de especial e no Benfica só recentemente começou a ser mais utilizado, já que o Nuno Santos que não foi convocado, jogou muito mais.

Abraço.

Cantinho de Todos disse...

Não conheço a fundo o percurso de todos os jogadores e é evidente que o facto de se ter ganho o europeu não significa que fossemos a melhor equipa ou que os nossos sejam os jogadores com mais potencial para serem profissionais de topo.

Ainda assim, a critica do DM parece-me claramente exagerada ("muito fisico, pouca técnica e inteligência"). Sinceramente apesar de sermos uma equipa forte fisicamente não é como se os jogadores passassem os jogos em cavalgadas. Aliás o jogador com mais condução de todos foi claramente o João Filipe que até seria dos menos fortes fisicamente da equipa. De resto pareceu-me uma equipa muito equilibrada (o Hélio rodou bastante nos primeiros jogos) o que tb contribuiu para uma evidente vantagem física na fase terminal do jogo de ontem.

De resto, apesar de n dever ser a prioridade máxima, ganhar é sempre importante mm na formação por várias razões:
- porque reforça a confiança dos jogadores no seu processo de formação (que nesta fase e a este nível já abdicam de muita coisa) o que naturalmente leva a um ainda maior compromisso com aquilo que os treinadores e diretores lhes pedem em campo e fora dele;
- porque chama a atenção dos clubes para os jogadores da sua própria formação aumentando as probabilidades destes jogadores assinarem contratos profissionais e terem oportunidades em patamares superiores o que é mais que meio caminho para o sucesso;
- porque ajuda a retirar dos jogadores um certo complexo de inferioridade relativamente a seleções como a Espanha, França ou Alemanha e que levam a que desde escalões mais jovens até aos seniores muitas vezes já entremos "a perder" com estas seleções tal é o nível de descrença. Essa é aliás historicamente a grande vantagem da Alemanha relativamente a todas as outras seleções. Por mais fracas que sejam as suas equipas (e por exemplo no euro 2000, mundial 2002, euro 2004 n eram mm nada de especial) eles acreditam piamente que vão "foder" o adversário. E o problema é que o próprio adversário muitas vezes tb acredita nisso (o mito de que o futebol é 11 para 11 e no final ganha a Alemanha acaba por ser uma profecia que contribui para a sua autorealização).