quarta-feira, 15 de junho de 2016

Jogo de decisões não tem estilo ou identidade?

Perguntou-me ontem um grande amigo, uma das pessoas que vale a pena ler e sobretudo seguir o muito sucesso que na prática as suas ideias têm "Aquelas indirectas do José Boto são para ti, certo? Jogar o que o jogo pede...". Sobre vários textos publicados num grupo já bem extenso (ultrapassa o milhar de pessoas!) de "facebook" do conhecido e reconhecido prospector do futebol profissional do SL Benfica.

E continuou "... ele está a interpretar mal. Fala sempre nisso entre jogo curto e apoiado e jogo directo, quando o que tu queres dizer e eu concordo é a opção pelo contra-ataque, ataque rápido ou posse  e circulação e jogo curto e apoiado... o que eu também defendo e está explicito no meu modelo de jogo... Mas eu, e acredito que tu, subscrevemos a ideologia que ele defende, de posse e jogo curto, apoiado, preferencialmente interior, etc. Não acredito que ele defenda que nunca se deve contra atacar ou decidir um ataque rápido perante espaço e / ou vantagem numérica."

Gostaria muito de ter a atenção que o meu caro amigo pensa que tenho de alguém tão competente e ligado ao futebol profissional de um clube tão importante. Contudo, duvido que esse seja o caso. Porém, tal pensamento sempre dá para elaborar um texto tentando explicar esta visão das melhores decisões. E se tal significa que não há estilo ou identidade.

Tudo começa na forma como se interpreta o que é uma boa decisão de um jogador em campo. A boa decisão envolve sempre o contexto. A oposição, o espaço e os colegas. Muito dificilmente, para não dizer que é de todo impossível, bater longo por cima de toda a gente na frente é uma boa decisão, uma vez que quem vai receber a bola, se a receber, fá-lo-à em condições deficientes. Quando pensamos numa equipa em organização ofensiva, em ataque posicional, muito dificilmente há tempo e espaço para algo diferente (se estivermos a falar de boa tomada de decisão) de muito toque, muito passe por forma de desposicionar o adversário para então sim, no momento ideal, procurar a ruptura. E se a boa decisão prevalece então o tempo de posse tenderá a aumentar. Porque há a tal paciência para esperar pelo momento certo. E há qualidade para tomar as decisões correctas. Uma equipa que se queira grande passará sempre a maior parte do tempo de jogo em organização ofensiva. Se nessa organização ofensiva for sempre capaz de tomar boas decisões, será natural que a posse de bola cresça exponencialmente. Mas, essa é uma consequência das boas decisões que toma. Porque nenhum adversário vai deixar de jogar com defesas centrais. Se alguém o fizesse... talvez a posse de bola não crescesse tanto... afinal, seria incrivelmente mais fácil procurar a ruptura e não seria necessário tanto tempo de paciência para construir e criar algo que já lá está! O Barcelona não trocava infinitamente a bola para ser aborrecido, como tantas vezes injustamente foi apelidado. Trocava para atrair adversários, para os enganar, fazê-los cair no seu engodo. E nunca só porque sim!

Em suma, naturalmente que as equipas que tomam as melhores decisões acabam sempre por ter um estilo de posse de bola, porque a maioria do tempo de jogo estarão em organização ofensiva. E lá está, se toma uma boa decisão é porque as probabilidades de manter a bola são muitas com a decisão tomada. Ao contrário do tradicional chutão e muita fé.

Mas, são também as melhores equipas aquelas que percebem o tempo ideal e o espaço ideal para sair rápido em contra-ataque quando há espaço e vantagem numérica. Por isso uma encantadora Alemanha. Uma equipa fantástica ofensivamente, com armas em ataque posicional ou em ataque rápido. Uma equipa de posse, porque tomando as melhores decisões em ataque posicional não entrega a bola sem ideias, sem que as probabilidades de quem a receba a conservar sejam elevadas.

Isto é que é jogar o que o jogo dá. Jogar o que o jogo dá não é remeter-se à defesa o tempo todo ou ao chutão longo na frente porque estamos pressionados. Não! É tomar as melhores decisões a cada instante. E as melhores decisões serão naturalmente as que conservarão a bola em organização ofensiva até que a tal brecha se abra. 

Por isso ainda hoje o Barcelona de Guardiola perpetuado como a melhor equipa de sempre. Uma equipa de posse exacerbada, porque a perfeição na decisão garantia que praticamente não haviam perdas, mas também uma equipa incrivelmente eficaz nas rupturas e no aproveitar do espaço e tempo.

Ao minuto 3.32 do video, Real Madrid em posse. Dez segundos depois David Villa faria o quarto golo no derby. Porquê? Porque Messi controla o tempo e o espaço como nenhum mortal o faz. E quando recebe a bola em tais condições, pouco importa quantos passes houve anteriormente. O desposicionamento já está criado.




Em suma, obviamente que uma equipa que jogue o que o jogo dá, tomando boas decisões, será sempre uma equipa com muita posse de bola. Essa será sempre a sua identidade. A menos que haja quem creia que bater no ar é menos aleatório e portanto melhor decidido do que progredir sem oposição ou passar a um colega mais próximo em tais condições. Todavia, já lá vão muitos anos que o blog foi criado e nunca foi essa a ideia que se passou... E nem é preciso ter-se capacidades de interpretação fantásticas para se perceber isso.

2 comentários:

Diogo Lopes disse...

O Leicester ganhou a EPL dando primazia a outro tipo de escolhas (ataque rapido, menos posse), o que certamente confirma que esta opção era a melhor para eles. Contudo, sim, equipas cujas partes e todo sejam de facto mais fortes, impoem-se retendo a posse de bola e decidindo bem (promovendo situações de finalização - em vez de bombardear a grande area adversaria com cruzamentos tao pouco eficazes).

POdA disse...

Eu compreendo bem o que querem dizer com o que o jogo dá, mas no entanto acho errado que digam:
"Isto é que é jogar o que o jogo dá. Jogar o que o jogo dá não é remeter-se à defesa o tempo todo".
Certo e errado!

Isso também é jogar o que o jogo dá. De certa forma é por isso que o fazem.
É óbvio que o jogo não dá sempre para isso, mas também dá.

Simeone disse há pouco tempo, numa entrevista qualquer, que a equipa dele se sentia melhor a jogar contra equipas que assumiam mais a posse. Isto, porque sabe que dessa posse adversária advêm algumas coisas que o jogo dá. Coisas em que o Atlético é bom, como o contra-ataque para aproveitar os desposicionamentos naturais do adversário.

Eu sou um sério defensor da ideia de posse para desequilibrar e da bola como meio para ludibriar a equipa adversária, mas também percebo o que dizem os outros porque eles jogam o que o meio de jogo deles proporciona.

Aliás, eu como treinador, independentemente de ter bons resultados contra equipas que se fechavam mais, acabava por recear bastante o meio deles. Porquê? Porque realmente pode funcionar.

Independentemente de haver 4 momentos de jogo há equipas que só querem jogar dois momentos de jogo. Só querem Organização Defensiva e Transição Ofensiva. Basicamente enquadram o jogo em dois momentos que lhes interessa, porque sabem o que o jogo dá a partir daí.

Se perdem certas armas por jogar só nestes dois momentos? Claro! Eu não abdico dos 4 momentos, mas é uma opção totalmente justa a dos outros e que devemos respeitar.

Ou seja, vai haver equipas para 4 momentos, e algumas como dizia bem o Diogo Lopes que só jogarão dois. A nós, cabe-nos estar preparados para todas essas formas de jogo!